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Dicionário das Crianças · Episódio 1

Parentalidade Consciente e Neuropsicologia — Psicóloga Inês Afonso Marques

24 de novembro de 2020 · 56 min · com Inês Afonso Marques

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No primeiro episódio do Dicionário das Crianças, Nuno Simões recebe Inês Afonso Marques, psicóloga, psicoterapeuta infantojuvenil e coordenadora da área infantojuvenil da Oficina da Psicologia. Com pós-graduações em psicoterapia com crianças e adolescentes e em neuropsicologia pediátrica, autora de vários livros e antiga professora Gymboree, a Inês é a convidada ideal para abrir uma série de conversas sobre o dia-a-dia da parentalidade e o desenvolvimento na primeira infância.

A conversa parte dos seus livros — Crescemos Juntos, A Brincar Também Se Educa e Sonhar com o Arco-Íris — para chegar às ideias que os sustentam: a qualidade do tempo passado com os filhos vale mais do que a quantidade, o autocuidado dos pais não é egoísmo mas condição para cuidar bem, e educar é menos moldar o barro e mais ser jardineiro, respeitando a flor que cada criança já traz dentro de si.

Um dos momentos mais esclarecedores é a explicação, à luz da neuropsicologia, de por que razão as crianças não conseguem simplesmente controlar-se: o córtex pré-frontal, responsável pelo planeamento, pelo controlo de impulsos e pela regulação emocional, só amadurece por volta dos vinte e tal anos. Cabe aos adultos emprestar essa parte do cérebro que os filhos ainda não têm — uma ideia que retira culpa aos pais e exigência injusta às crianças.

A Inês fala também das lutas que os adultos trazem do passado e do perigo do evitamento, com metáforas memoráveis como a do tapete que esconde o pó e a da panela de pressão sem escape. Revisitar a própria história, defende, é o primeiro passo para escolher conscientemente o modelo de pais que queremos ser.

Gravado durante o confinamento de 2020, o episódio mantém-se surpreendentemente actual: o convite a desacelerar, a estar verdadeiramente presente e a aceitar que não há pais perfeitos é tão necessário hoje como então. Uma estreia generosa, cheia de pistas práticas para pais, avós e educadores de crianças até aos cinco anos.

Neste episódio

Guia prático

Educar com Amor

Disciplina positiva sem gritos, castigos ou culpa.

Ver o guia

Transcrição completa

0:00 Está a ouvir o podcast Dicionário das Crianças com Nuno Simões do Gymboree Play & Music Portugal. Uma conversa semanal com especialistas sobre o dia-a-dia da parentalidade e do desenvolvimento da primeira infância. Para pais, avós e educadores de crianças do género aos 5 anos. O conteúdo deste programa é meramente informativo. Independentemente das opiniões expressas pelos nossos convidados, deverá sempre consultar o seu médico, terapeuta ou pediatra. Olá Inês!

0:30 Olá Nuno! Tudo bem? Então, eu guardei aqui um bocadinho para te apresentar, se calhar vai ser um bocadinho longo porque o teu currículo é extenso e inotável e eu não tive coragem de cortar nada. Mas eu baseei-me aqui na tua página web. vai ser um bocadinho longo porque o teu currículo é extenso e inotável e eu não tive coragem de cortar nada mas eu baseei-me aqui na tua página web, eu deixei um link aqui nos comentários com que está direcionado para a tua página da oficina da psicologia mas a tua página pessoal é inesafonsomarques.pt as pessoas também te podem encontrar lá e então, quem é Inês? Portanto página pessoal é inesafonsomarques.pt, as pessoas também te podem encontrar lá.

1:06 E então, quem é Inês? Portanto, tu és licenciado em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e Educação, tens uma pós-graduação em Psicoterapia com Crianças e Adolescentes, uma pós-graduação em Neuropsicologia Pediátrica, tens formação em EMDR, e eu gostava que depois falasses um bocadinho sobre isto, porque só hoje é que aprendi sobre este tema. Novamente com especialização em crianças e adolescentes. Tens uma formação avançada e especializada em terapias da terceira geração.

1:38 És coordenadora da área Infanto-Juvenil da Oficina da Psicologia e publicaste 4 livros. Vamos falar sobre a 3 deles porque eu não conheci o teu primeiro livro em coautoria com a Rita os teus livros foram É Tão Bom Fazer Amigos, da Arte Plural O Crescemos Juntos, da Zero a Oito A Brincar Também Se Educa, da Manuscrito e Sonhar com o Arco-Íris, da Zero a Oito também. Tens 15 anos de experiência em terapia, és palestrante em várias conferências, tens colaborações muito frequentes com o Meio de Comunicação Social, fizeste um trabalho muito giro com a Skip e com o Bongo.

2:18 Eu, a preparar-me aqui para este podcast, estive a ver os teus vídeos do Bongo, não tinha visto todos. Recomendo vivamente aqui à nossa audiência, são muito chiques são pequenas perlas de sabedoria e numa outra vida também trabalhaste no Jimbury nós trabalhámos juntos por um bocadinho e foi uma altura marcante e tu inspiraste muito as nossas professoras, destas formações muito giras, deixaste coisas escritas que ainda hoje usamos não só no nosso blog, como documentos internos.

2:49 Acima de tudo, ficou uma amizade e, portanto, é uma honra e um privilégio poder contar contigo e receber um bocadinho da tua mentoria com alguma frequência. E pronto, melhor ainda do que estas coisas todas, és mãe, não é? Duas crianças, um menino e uma menina e tudo isto junto te deixa particularmente qualificada para falarmos sobre alguns temas que eu gostaria de trazer hoje e que eventualmente gostaria de trazer outras vezes, porque as conversas fluem sempre super bem.

3:23 porque as conversas fluem sempre super bem. Eu se calhar começava pelos livros, não te importas, e se calhar o Crescemos Juntos. Nós muito recentemente tivemos a fazer um giveaway do Crescemos Juntos, já oferecemos um esta semana. E o Crescemos Juntos são um conjunto de inspirações, 365 mais uma para uma parentalidade feliz. Uma coisa que eu achei curiosa foi que nenhuma das inspirações são triviais portanto a pessoa pensa 365 é um número super sexy portanto é um por cada dia do ano e a tendência seria ter que espermer um bocadinho para encontrar os 365 mas eu achei que tu tinhas muitas mais e que tinhas um milheiro infinito de inspirações e a minha primeira pergunta se calhar era essa. Tu tens efetivamente um milheiro de inspirações e como é que te inspiras para colecionar este tipo de inspirações para os outros?

4:13 Não, eu não tenho um milheiro de inspirações assim logo à partida mas a ideia era um bocadinho ajudar as pessoas a encontrar aqui uma espécie de rumo que as pudesse balizar. As pessoas, neste caso os pais e educadores, professores, avós, outros familiares, tinham aqui um papel importante no ajudar os pequeninos a crescer. E, portanto, a ideia era mesmo esta, encontrar algum tipo de informação que por vezes é um bocadinho disruptiva e que até coloca as pessoas a pensar mas o que é que ela quer dizer com isto e poder servir aqui um bocadinho de baliza, de guia, de foco diário neste exercício da parentalidade.

4:56 Onde é que eu me vou inspirar? Bem, há uma base que tem que ser óbvia, não é? Que é a ciência, que é a investigação, que é tudo o que é pesquisa que vai sendo feita na área da educação da paralelidade e do desenvolvimento infantil. E depois a verdade é que também me inspiro muito e aprendo imenso com as famílias com quem vou, com as famílias adultos, crianças, adolescentes com quem vou trabalhando diariamente aquilo que são os seus principais receios aquilo que são as suas dúvidas tudo isso de alguma forma também a mim vai ajudando aqui a orientar naquilo que possa fazer mais sentido às famílias, neste caso que iriam ler os livros Sim, absolutamente eu estava aqui a fazer algumas reflexões sobre o livro quando estava a ler obviamente todos nós somos modelos para as nossas crianças, portanto bons ou maus modelos, conscientes ou inconscientes, voluntários ou involuntários, eles observam-nos e imitam-nos.

5:56 E nós temos uma responsabilidade, portanto como, vá lá, oleiros deste pequeno barro que nos é entregue, é um barro divino que vai crescer por si e beber de muitas inspirações nós obviamente temos uma responsabilidade o que eu senti neste livro foi que tu iluminas aqui um bocadinho o caminho ou às vezes iluminas algumas partes mais escuras da educação e se calhar era interessante para mim perceber que tipo de feedback é que tiveste dos pais que leram o livro houve algumas inspirações em particular que tocaram mais as pessoas, que eram mais inovadoras mais disruptivas há bocado falaste sobre elas, queres escolher algumas?

6:37 Eu olhei porque tinha aqui também o livro ao meu lado o que é curioso é que o feedback às vezes não é nessas tão disruptivas é naquelas que até poderiam ser as mais acessíveis vamos pôr assim, ou seja, a tónica por exemplo da qualidade do tempo que se passa com os filhos e não cairmos sempre na lógica de falta de tempo e as pessoas dizerem isto pode ser tão óbvio, podermos estar um bocadinho com os nossos filhos todos os dias longe das outras obrigações todas e pôr a tónica mais na qualidade do que na quantidade e isto é uma surge esta inspiração de diversas formas ao longo do livro e se calhar foi uma coisa que várias pessoas me disseram. Outra tem muito a ver com a questão do autocuidado e nós nos esquecermos às vezes que somos pessoas antes de sermos pais ou mães e algumas sugestões que vão sendo feitas ao longo do livro também apontam para esta importância do autoconhecimento e do autocuidado nesta nossa dimensão mais pessoal e que nos torna necessariamente melhores pais se também dermos atenção a elas e agora assim de repente são duas coisas que me surgem e que parecem muito óbvias se calhar dou a partida Sabes cá, há uma delas e é a única que está a Bolt, a Negrito nas 365 que se chama Crescemos Juntos que é o título do livro também eu estava a lê-las e pensei, porquê que Inês terá escolhido esta em particular?

8:09 E ocorreu-me, há uns anos atrás, eu fui dar um passeio de bicicleta com um dos meus filhos, já foi há uns anos falentes, talvez há uns 8 anos, portanto ele tinha 8 anos, ele agora tem 16. E eu parei um bocadinho atrás e tirei uma fotografia que publiquei no Instagram e estava a pensar o que é que eu vou dizer super inteligente sobre esta fotografia, porque todos nós queremos inflar um bocadinho o nosso ego às vezes, e eu ia dizer que fui eu que fiz esta riqueza, mas antes de carregar no botão, acabei por escrever, tu fizeste-me a mim, porque efetivamente ele fez de mim pai, é o meu filho mais velho.

8:41 por escrever Tu Fizeste-me a Mim, porque efetivamente ele fez de mim pai, é o meu filho mais velho, e efetivamente nós crescemos juntos e portanto é se calhar uma coisa que permanece é esse efeito quer dizer, isto parece super filosófico mas é super verdadeiro, nós nós crescemos juntos escolheste o título por essa razão, foi uma coisa que marcou especialmente foi a editora que escolheu por ti, como é que isto aconteceu?

9:08 Não, a sugestão foi minha na altura e tem um bocadinho a ver com este processo da parentalidade que realmente começa muito antes, até antes do filho nascer. Enquanto pais realmente nascemos, quando surgem nós, a desejo, a vontade habitualmente de podermos ser pais. E no dia-a-dia, neste conhecimento mútuo e em tudo aquilo que são os desafios da parentalidade, nós somos postos à prova e testamos os nossos próprios limites de formas que se calhar nunca antes, em situações em que nunca antes tivemos. E a aprendizagem é mútua o crescimento nesse sentido realmente mútuo e mesmo quando falamos de mais do que um filho com idades diferentes a experiência torna-se diferente e muito única e continuamos a crescer e continuamos a aprender portanto, a ideia do crescemos muito é muito esta lógica, o meu papel é importante e vou dar-te aí a expressão do moldarmos o barro mas o inverso também é verdade, e quando tu falaste dessa imagem do barro lembrei-me de uma outra metáfora que eu vi recentemente num documentário a propósito da parentalidade que era o ator Will Smith que falava dos pais enquanto mestres jardineiros.

10:25 E eu achei aquilo genial. Esta ideia de nós podermos perceber que temos aqui sementes, que estas sementes muitas vezes nós à partida não sabemos que flores é que estão lá por trás, mas que é fundamental respeitar aquilo que aquela flor quiser ser. E o nosso papel é cuidar, nutrir, dar atenção, perceber quais são as necessidades, mas acima de tudo respeitar esse ritmo, tudo o que já lá está previamente de alguma maneira pré-determinado e o nosso papel é muito este, o ajudar a crescer.

10:58 E de facto nós também, quando damos esse espaço para a sementinha crescer, também nós crescemos nesta lógica do autoconhecimento também. Totalmente. Eu recomendo o livro a toda a gente e empresto as minhas cópias. Tenho um monte delas, portanto, se quiserem, digam. Eu ia passar para o teu segundo livro. Nós temos imensos temas para falar e temos temas muito fértiles. E um deles é o teu segundo livro, que é A Brincar Também Se Educa.

11:23 temas muito fértiles e um deles é o teu segundo livro que é A Brincar Também Se Educa. É um tema muito prevalente, sobre o qual já falámos literalmente centenas de horas. Nós trabalhávamos especificamente sobre esta área. O subtítulo é 15 minutos por dia de tempo especial para saltar, sujar, desenhar, sorrir, conversar e sonhar. para saltar, sujar, desenhar, sorrir, conversar e sonhar. Este livro, tu no começo, logo na introdução, falas de um estudo que a Skip fez, um bocadinho triste, um bocadinho assustador, e que se calhar eu te desafiava a revelar aqui, porque eu acho que é particularmente importante.

12:00 Lembras-te dos números, que acho que eu te ajudo? Os números eu não tenho presentes, mas era aqui um bocadinho esta comparação do tempo que as crianças tinham para brincar, e particularmente para brincar ao ar livre, comparado com, portanto, os números, vá lá, do tempo ao ar livre de reclusos de uma cadeia. E, portanto, aqui a ideia era perceber que os próprios reclusos passavam mais tempo ao ar livre do que muitas das nossas crianças.

12:26 E o ar livre nesta lógica do brincar, do explorar, do serem aventureiros, desta liberdade que as crianças necessitam. E de facto estes números são, se tu quiseres recuperar, porque eu de cor não os tenho presentes, mas eram números aqui chocantes, não é? 60% das crianças tinham menos tempo de brincadeira do que os reclusos os cães tinham mais tempo de passeio a hora livre do que as crianças são coisas, pronto, muito chocantes porque deviam ser a nossa prioridade e são absolutamente dependentes de nós para os levar à rua e para passear com eles em segurança e pronto às vezes esse cuidado não está presente em todas as famílias e é uma coisa realmente que nos preocupa, não é?

13:10 Isto é realmente um assunto muito fértil, eu gostava imenso que nos dedicássemos depois longamente sobre isto, mas se calhar numa próxima vez porque tens falado muito sobre brincadeira, eu acho que queria fazer uma coisa diferente sobre este tema oportunamente e ia passar ao terceiro livro que é O Sonhar com o Arco-Íris, que é um livro muito recente nasceu no confinamento e que tu me enviaste e que ficou a marinar algum tempo e depois um dia de manhã eu fui ler o livro e foi chocante porque bateram-me algumas epifanias portanto isto é a história do Sebastião que é uma criança que descreve um sonho e o sonho dele é o confinamento e portanto as emoções e os sentimentos de uma criança naquele contexto em particular pronto, aquilo que quando tu escreveste era super oportuno, eu imagino que tenham desafiado para escrever isto tu tinhas a história na cabeça foi difícil chegares a este conceito, porque realmente não foste linear, chegaste lá, tiveste um caminho inovador e eu achei particularmente genial e oportuno. Como é que isto nasceu?

14:19 Foi um desafio da editora. Foi a editora que propôs podemos criar uma história infantil que de alguma forma ajudasse as crianças não só, a ideia não era falar deste nosso contexto atual da pandemia embora tenha sido obviamente o mote daí o sonho do Sebastião em tudo ser o mundo virado de pernas para o ar e este sermos atirados para dentro de casa e portanto de alguma maneira retirarmos aquilo que é seguro e que nós achamos sempre que controlamos.

14:46 Minha ideia era podermos deixar aqui algumas pistas, quer para os pais, quer para as crianças, como é que nós podemos lidar com situações que de alguma maneira fogem ao nosso controle. Porque, de facto, há um conjunto de dimensões nas nossas vidas que nós não controlamos e a pandemia aqui no fundo veio-nos trazer, confrontar de uma forma muito, eu diria, violenta, abrupta, inesperada esta noção de que se calhar há coisas que nós não controlamos. Se nos focarmos nisso, seguimos determinados caminhos, se aceitarmos que há coisas que nós não controlamos e nos focarmos naquelas a que podemos dedicar aqui alguma atenção, nutrir aqui algum tipo de ingredientes que nos fortalecem, que fortalecem a nossa resiliência e, portanto, a nossa capacidade de adaptação, obviamente que o caminho que vamos seguir será outro. E, portanto, é o desafio. Partiu da editora, do Pedro Reizinho, da 08, e foi um bocadinho ali pensar, olhar à volta pensar o que é que poderia fazer sentido e a ideia foi surgir. Muito bem tu dizes no livro na parte final, portanto já não está tão dedicada às crianças, está dedicada aos pais dizes uma coisa que eu já tinha ouvido dizer, mas pronto para um leigo não é uma coisa trivial, que é que as áreas cerebrais responsáveis pelo planeamento o controle de impulsos, a regulação emocional não estão desenvolvidas numa criança e que cabe aos adultos de referência ajudar a criança nessas dimensões.

16:15 Portanto, às vezes para nós parece que devia ser uma coisa natural para eles adaptarem-se e escolherem o que é que controlam e o que é que não controlam e onde se focarem, mas não é nada evidente para uma criança e ela não está biologicamente preparada sequer para isso. Sim, sim e eu acho que esse é um dado em termos de neurodesenvolvimento que retira um grande peso dos pais ou seja, este perceber que o nosso cérebro, o cérebro está em desenvolvimento durante a vida toda, portanto a neuroplasticidade está lá presente durante a vida toda sabemos que os primeiros 5 anos são determinantes para o desenvolvimento durante a vida toda. Portanto, a neuroplasticidade está lá presente durante a vida toda.

16:46 Sabemos que os primeiros cinco anos são determinantes para o desenvolvimento aqui de uma estrutura muito significativa. Sabemos que ali nos anos da adolescência há uma tarefa de pruning, por assim dizer, que se chama uma poda daquilo que interessa e que não interessa manter, mas verdadeiramente temos um cérebro mais ou menos considerado maduro por volta dos 20 e tal anos. E esta última área, vai lá, do cérebro a ser verdadeiramente desenvolvida, é o que nós chamamos o córtex pré-frontal, que é uma zona do cérebro que está aqui mesmo atrás da nossa testa, que é responsável por coisas importantíssimas na nossa vida. A nossa capacidade de planeamento, a nossa capacidade de foco, de atenção, a capacidade de tomarmos decisão antecipando consequências e este lado também da regulação emocional.

17:36 Regulação comportamental, regulação emocional. E de facto quando nós vemos um adolescente a ser mais impulsivo, uma criança pequenina a fazer uma birra perante uma contrariedade, muitas vezes queremos exigir que sejam capazes de uma coisa que eles na realidade não conseguem. Claro que o nosso papel é duplo. É duplo no sentido de, em alguns momentos, nós funcionarmos com essa parte do cérebro que eles ainda não têm, portanto tem que ser o nosso a estar aí ativado, e por outro lado, obviamente, como modelos.

18:06 Como modelos e como as pessoas que vão dar as oportunidades, criar as oportunidades para se ir fortalecendo, desenvolvendo, com tudo aquilo que nós queremos, essa área cerebral. Ou seja, não é dizer assim, ah, ele não é capaz de regular o comportamento ou as emoções, agora vou ficar de braços cruzados até ter 22 anos e já vai conseguir fazer isso. Não é esse o objetivo. O objetivo é compreendermos, ele ainda não é capaz, ou não vai ser sempre capaz, o que é que eu posso fazer daqui até ao longo do crescimento que lhe permita oportunidades para desenvolver aquelas competências e que vão ser competências importantes ao longo da vida.

18:42 Absolutamente. E tu depois das ótimas pistas enumeras algumas dessas competências ou então se calhar até hábitos ou focos a desenvolver como é o caso da gratidão trabalhar a inteligência emocional a importância das rotinas distinguir o controle do não controle, tens um gráfico muito giro, aliás eu se calhar até desafiava aqui as pessoas a tentarem percebê-lo fez um trabalho espetacular em que temos aqui uma bola com uma coisa que conseguimos controlar e uma coisa que não conseguimos controlar e eu acho que isto é transversal obviamente ao tempo de vida do humano, até à população adulta, absolutamente.

19:26 Eu acho que é um bocadinho a minha praia. Na gestão, também, o nosso foco é tentar agir sobre aquilo que conseguimos controlar e aceitar o que não conseguimos controlar. Falares também da importância da criança ter um lugar seguro e também muito importante no final, que é quando procurar ajuda profissional. E se calhar aqui só uma pequena parte, não sei se podes falar muito nisto, quão prevalente foi esta realidade agora durante o confinamento?

19:56 Sentiste essa... essa variável contou, portanto o confinamento levou as pessoas a pedirem-vos mais ajuda psicológica lá na oficina. Legenda Adriana Zanotto E aí Ok, eu ia aproveitar para fazer uma ponte para outro tipo de questões que eu tinha aqui para te colocar. E se calhar como pequena introdução, eu acho que nem todos tivemos pais super sofisticados ou gentis ou afetuosos e para alguns de nós, se calhar, há um problema que é a questão das nossas lutas passadas, ou melhor, as lutas que estão para trás versus as lutas que estão à frente.

21:57 As lutas que efetivamente ainda temos por batalhar, às vezes não lhes damos a atenção que devíamos ou não sabemos como batalhá-las porque estamos presos a lutas do passado, algumas delas inconscientes, e sejam traumas, sejam lacunas, sejam deficiências ou excessos, ou o que seja. E se calhar a minha pergunta era esta, O que é que está ao nosso alcance? Quer dizer, antes obviamente de irmos procurar ajuda profissional, o que é que está ao nosso alcance fazer para distinguirmos uma luta lá de trás com uma luta cá da frente?

22:37 Sei que esta pergunta é complicada. Essa pergunta é daquelas que dá pano para mangas, não é? Eu acho que há aí um passo que é importante sempre, que é nós termos, criarmos momentos para pensarmos, pensarmos na nossa história, pensarmos em nós, porque realmente somos feitos aqui de várias pecinhas. E muitas vezes nós temos alguma, se bem percebiu onde tu querias chegar, se é que querias chegar propriamente a algum sítio, mas nós muitas vezes temos até consciência que há essas lutas que ficaram lá para trás, como tu dizes, e fazemos algo que não é desejável, que é o evitamento. Que eu nem quero pensar nisto.

23:21 Eu não quero pensar nisto porque isto pode doer e porque se doer vai afetar negativamente o meu presente e o meu futuro. E a grande estratégia é precisamente o contrário, é parar e dedicar algum tempo, se calhar, a trabalhar, a arrumar, a elaborar esse tipo de coisinhas que vêm lá de trás e que obviamente podem condicionar o nosso presente. Isto é que é uma estratégia importante que muitas vezes usamos esta lógica do evitamento, evitamento experiencial, evitar certos temas, achar que evitamos determinadas emoções, só que as coisas se não forem arrumadas, se não forem elaboradas, criam moça. E eu costumo usar muitas vezes aqui duas metáforas até com os miúdos, que é, se eu for pôr-me duas coisas todas para debaixo do tapete, eu fio-os que elas não estão lá, mas elas continuam lá.

24:16 E quando eu vou caminhar em cima do tapete, há ali um momento em que o chão deixou de ser uma coisa plana, e está ali um bocadinho, andamos ali um bocadinho em desequilíbrios constantes. Ou pensando, por exemplo, na imagem da panela de pressão, a panela de pressão funciona muito bem se nós fomos tendo o nosso escape para libertar a tensão e a tensão pode ser do presente ou pode ser coisas que vêm lá de trás.

24:39 E quando nós fazemos este registro mais do evitar entrar em contato com as coisas, estamos numa lógica de contenção e tal como a panela de pressão, se o pipo não estiver a funcionar bem, é que ele vai dar uma grande explosão na cozinha, mas o ser humano também vai dar essa explosão, vai dar das mais variadas formas, vai dar porque começamos com sintomas somáticos, com dores de barriga, de cabeça, alterações gastrointestinais.

25:06 E quando eu digo nós, é nós adultos ou nós crianças mais pequeninos? Há aqui alterações em termos de humor que não estavam lá e que começam a surgir. Há alterações, por exemplo, na nossa capacidade de descansar. Há alterações que podem surgir do ponto de vista mais comportamental, porque nos tornamos mais impulsivos, mais reativos, mais impacientes e, portanto, esse é o verdadeiro perigo de não querermos ou acharmos que o que está lá para trás necessariamente não nos vai condicionar e podemos cair nesta tentação do não quero, não quero mexer.

25:40 Sim. Não sei se respondi bem à pergunta. Respondeste perfeitamente. Pronto, é óbvio que eu te faço esta pergunta no contexto da parentalidade, porque lá está, voltando à imagem do oleiro, se nós tivermos um oleiro pinguço, ou ensonado, ou inconsciente, não tem o alfabeto básico, vai sair a geneira, não é? E portanto achei particularmente importante falarmos aqui um bocadinho na questão da saúde mental e da nossa bagagem que muitas vezes nos trava sem nós termos noção e que muitas vezes estamos bloqueados e não conseguimos chegar à frente e pelas dificuldades muitas vezes com os nossos modelos, às vezes acabamos por ter dificuldade em dizer que gostamos da criança, sermos gentis com eles porque nós próprios não tivemos acesso a esse menu de bons comportamentos e, portanto, pode-nos prender.

26:32 Mas, no fundo, também para nós percebermos aquilo que queremos e não queremos para nós ou para os nossos filhos, é importante termos essa capacidade de revisitar a nossa própria experiência e perceber, numa primeira instância, eu quero isto, eu quero perpetuar de alguma maneira este modelo ou eu quero me aproximar de um modelo diferente. Portanto, é esta a importância do revisitar. E depois conseguimos ou não conseguimos sozinhos, de forma mais autónoma, este ok, como é que eu vou fazer?

27:00 Qual é o caminho que eu quero que eu quero adotar? E aí é muito importante termos também fazer os tais momentos de pausa, como eu lhe chamo, e estarmos em contato com aquilo que são os nossos valores enquanto pais, na parentalidade, e percebemos muito bem o que é que é importante para mim e do qual eu não quero abdicar. Que pode ou não entrar aqui em disrupção com o que vem lá de trás.

27:21 Mas conseguirmos ter esses momentos, nós nos alinharmos com aquilo que nos faz sentido enquanto pais. Ok. Quais é que seriam, na tua opinião, as disciplinas que deveríamos ter numa escola de pais? Imagina que essa figura existia. Como é que nós poderíamos etiquetar as disciplinas? Porque eu sei que elas são todas muito holísticas e é particularmente difícil para ti que sabes, as 100 disciplinas, porque eu sei que elas são todas muito holísticas e é particularmente difícil para ti que, sabes, as 100 disciplinas necessárias escolheres, as 5 ou 6 que nós podemos passar aqui neste espaço e neste tempo mas gostavas de fazer este exercício?

28:00 Vou pensar um bocadinho nisso porque faz sentido a questão. Às vezes é difícil nós arrumarmos. Porque é fácil, de facto, nós chegarmos a uma livraria e pensarmos assim, olha, há aqui este livro sobre este tema, sobre este, sobre este, sobre este. Aquilo que eu vou notando muitas vezes nos pais e nas famílias é que há aqui preocupações com coisas muito funcionais. E que são importantes em termos do nosso funcionamento, o banho, a melhor escola, a melhor estimulação em termos de brinquedos, por exemplo, a alimentação, o sono e há sempre aqui uma disciplina, se quiser chamar então assim, que felizmente já vai sendo diferente, mas que tem muito a ver com a inteligência emocional e a importância de tudo o que tem a ver com o nosso mundo emocional, que nem sempre é dada a devida primazia, eu diria assim.

28:54 Então, tudo o que tivesse muito a ver, tudo o que possam ser subdisciplinas que possamos indexar à nossa saúde mental, saúde emocional, eu acho que esta sensibilidade era importante para qualquer pai. Mas acima de tudo, também pensando nesta ideia da escola de pais, não há aqui ideias pré-definidas, obviamente. não há linhas orientadoras que decorrem da investigação que é feita na área da parentalidade e naquilo que pode ser mais protetor em termos de desenvolvimento.

29:32 Mas eu diria que é quase a ideia da escola de pais, existiria uma escola de pais indicada para cada família, porque as suas necessidades vão ser realmente diferentes, as suas realidades vão ser diferentes, e por, os pais poderiam ir buscar tudo aquilo que possa ser informação, que possa dar resposta aos seus medos, às suas dúvidas, aos seus anseios e, ao mesmo tempo, que lhes transmitam a segurança que é importante. Há bocado falávamos daquele dado no neurodesenvolvimento do cérebro. E essa é uma área interessante, que quando os pais conseguem perceber o que se passa lá dentro dos filhos, que vai lá na cabecinha deles e conseguimos desmontar a coisa, nota-se também um alívio muito grande.

30:14 E, portanto, se calhar também poderia ser uma disciplina interessante não nos tornarmos pais neurocientistas, não é nessa lógica, mas percebermos um bocadinho melhor traduzir porque é que é desta maneira, porque é que a reação tendencialmente é esta, porque é que é importante fazer isto e não fazer aquilo, podia ser uma área também interessante para abordarmos. Muito bem. Sabes que eu hoje de manhã estava a ouvir um podcast, um senhor que se propunha formar os pais para serem pais faixa preta, cinto negro de parentalidade.

30:54 Era um senhor brasileiro que, curiosamente, era também cinturão negro de Karaté. E ele estava a descrever a disciplina como um comportamento que tu tens mesmo quando ninguém está a ver, portanto algo que te ficou enraizado. E que, por exemplo, a mãe dele não gostava que eles entrassem calçados em casa, portanto ele disse que identifica-se disciplina se quando ela não está lá ele chega e descalça os sapatos.

31:22 Portanto, é óbvio que isto aqui passa pela prática e passa por, obviamente, um tempo de consolidação dos conhecimentos e, portanto, começar a senti-los. E a minha pergunta seguinte era, como é que se passa do nada ou da inocência para ter o saber e depois para ser o saber? Olha, tu falaste, a pessoa que tu estavas a ouvir falava dessa imagem enquanto disciplina, eu uso muitas vezes essa imagem do, aquilo que nós fazemos, independentemente de quem está a ver, muito associado aos valores.

31:52 E aquilo que vem cá de dentro, não é? A motivação, eu faço porque me faz sentido fazer, porque entra em sintonia comigo e não necessariamente porque quero corresponder à expectativa de alguém, porque quero receber uma determinada gratificação. Como é que nós passamos por essas fases que tu enumeraste? Essencialmente com experiência, com prática, com experimentar, com não ter medo de fazer. E pelas nossas experiências, lá está tudo o que é contacto com os outros e contacto com o mundo, o conhecermos a nós e o conhecermos o mundo, é isso que nos vai ajudando a definir os nossos caminhos, aceitando uma coisa muito importante que é a hipótese de falhar ou de errar, por exemplo como algo que faz parte do nosso caminho e que também ajuda à nossa construção portanto, assim, de uma forma muito linear, respondendo à questão que tu colocaste, faz-se duas coisas, duas formas.

32:52 Faz-se experimentando e faz-se com o ir moldando aquilo que para nós é importante. Aquilo que para nós é importante pela forma como nós nos sentimos enquanto pessoas. Lá está os nossos valores. E da conjugação desta coisa, o que é que eu sou, como é que eu me vejo, e o que é que me faz sentido, e o que é que me preenche, obviamente que se constrói esse caminho do ser.

33:16 Muito bem. Ó Inês, esta pergunta agora se calhar era um bocadinho difícil para ti, porque tu és escritora, e isto deve ser particularmente complicado, mas a minha pergunta era que livros é que te marcaram particularmente e se recomendas alguns livros obviamente além dos teus que eu sei que recomendo eu por ti mas tens algum que tenha ficado na memória, mesmo algum recente particularmente algum que seja entendível pela nossa audiência que não são se calhar todos psicólogos como tu Sim sabes que essa é uma pergunta muito gírica, às vezes nós próprias nos colocamos a nós próprios e eu sou uma pessoa que desde pequenina que leio muito muito, muito, e agora enquanto adulta leio muito por questões profissionais e portanto livros mais técnicos que fizermos e leio tudo que poss técnicos que fizermos e leio tudo que possam ser outros géneros de livros e eu nunca na vida consegui eleger um livro eu imaginei é verdade eu acho que quando nos colocam esta questão o que é que te marcou, o que é que te fez sentido o último que eu li é aquele sempre que se calhar possa fazer mais sentido, é o que está mais presente, foi aquele que eu neste momento escolhi que achei que me poderia acrescentar qualquer coisa e apesar de ser uma pessoa que li muito se calhar é por isso, eu acho que nunca consegui selecionar um livro que me marcasse acho que todos eles eu retiro qualquer coisa e faço uma coisa que para algumas pessoas é muito estranho, para outras conseguem perceber que eu vivo os livros e até se estiver a ler um romance, eu sublimo os livros.

34:53 Porque me faz sentido. E portanto eu acho que todos eles de alguma maneira terão trazido alguma coisa, todos os livros que eu li. E mais difícil ainda, escolher um dos teus. Tens algum preferido ou vai ser o próximo que tu vais escrever ou dois à frente desse tens alguma ideia não porque acho que todos eles cumprirão a sua função portanto eu não consigo dizer que há um porque é preferido o próximo é aquele que desafia mais ok, então vamos passar dos livros para os filmes.

35:25 Nos filmes tens algum que queiras escolher? É giro, porque apesar de não ser tanto a pessoa visual de ver os filmes, há sempre um ou outro filme que me foi marcando. Aí sim, é giro. Sei lá, posso destacar aqui um ou dois, há um livro que me marcou muito, já não revisito há muito tempo A Vida é Bela essencialmente porque pelo poder que a imaginação pode ter na capacidade de nos adaptarmos a uma situação dura, dura, dura, pelo papel que os pais podem ter, a resposta dos pais perante uma determinada situação, um determinado contexto, pode ser determinante para a forma como uma criança se adapta a qualquer situação.

36:16 Portanto, obviamente, é aqui um filme pesado, mas que tem esta mensagem do poder da nossa imaginação e dos pais enquanto veículo de segurança mesmo perante uma situação um cenário super doloroso e esse foi um livro um filme que eu já não revisito há muito tempo mas que tem uma mensagem interessante ele já tem imensos anos e por acaso se calhar agora devia ver porque pronto, quando eu vi da primeira vez que ela tinha um filho, agora tenho quatro portanto tenho que olhar para aquilo de novo e mais algum que queiras destacar?

36:55 Sim, mais recente que eu tenha visto lembro-me de um filme que vi na Netflix que era o Marriage Story não sei como é que está o nome em português e lá está, às vezes não é um filme não é a grande Story, não sei como é que está o nome em português, e lá está, às vezes não é o filme, não é a grande história, é uma mensagem que se vai lá captar num ou noutro momento, e posso dizer que o meu clique em relação àquele filme, que resisti a ver até ao fim, foi mesmo ali nas últimas imagens, nas últimas cenas do filme, e que tem muito a ver com, mais uma vez, o papel dos pais na vida dos filhos e a forma como os adultos gerem as situações, o quão construtiva ou não pode ser o seu papel na vida dos filhos.

37:40 E o filme fala sobre uma situação de divórcio com muito muito desentendimento pelo meio, mas que tudo muda a partir do momento em que realmente o foco fica no filho no bem-estar do filho e há lá uma cena que eu achei deliciosa e que não vou contar que estava estragada, mas que tem muito a ver com isto quando nós conseguimos deixar de ser egoístas connosco próprios e pensar nos nossos filhos. Este tema também é um tema muito a ver com isto, quando nós conseguimos deixar de ser egoístas connosco próprios, não é? E pensar nos nossos filhos. Este tema também é um tema que daria pano para mangas, esta questão aqui das separações e do impacto que isso tem nos filhos, mas foi um livro, ou um livro, lá estou eu a fazer, um filme que me marcou.

38:20 Todos eles com crianças. Muito bem. Olha, e o Inside Out, o Divertidamente, quão genial é que esse filme é? Como todos os filmes de animação, eu acho que aquilo dá sempre várias camadas de leitura. Esse filme está delicioso, é um filme que eu recomendo sempre aos meus pacientes de qualquer idade para ver, precisamente para aquilo que falávamos há bocado, da importância da inteligência emocional da importância de nós conhecermos o nosso mundo emocional e o papel que as emoções desempenham na nossa vida e conseguir desmontar o que se passa cá dentro através de um filme de animação está na minha ótica, está genial esse filme, é um filme que eu recomendo sempre aos pacientes de todas as idades e que lá está é quase como se os filmes tivessem uma cena sempre que me marca há ali um momento no divertidamente em que toda a história tem ali uma mudança quando ela aceita uma emoção que passou durante muito tempo a tentar calar.

39:27 Quando ela dá espaço para a tristeza dela surgir, há ali qualquer coisa no filme que flui de maneira diferente. E isto remete àquilo que falávamos há bocadinho, de fazer o evitamento. Não, é mau sentir isto. E esse filme ajuda-nos a desmistificar um conjunto de mitos que muitas vezes temos associados às emoções, de crenças com que crescemos associados às emoções e que é importante realmente olhar como crenças que não são nossas amigas, mas estes funcionais e olhar de maneira diferente para as emoções.

39:59 É, totalmente. Super recomendado esse filme também. Mudou imenso a minha forma de pensar e de agir, não só a nível pessoal como para os meus filhos lembras-te de algum falhanço importante que te tenha marcado e que te tenha ajudado a jurar sucesso futuro um falhanço teu pode ser profissional, se calhar pessoal não é o canal certo. Contas-me no próximo almoço. Seguramente eles existiram, mas por algum motivo se calhar não os tenho presentes.

40:36 E eu vou explicar porquê. Porque havia um professor meu da faculdade que dizia que o maior erro é cairmos repetidamente num erro é raro é humano e por trás do erro há qualquer coisa em que podemos crescer, em que podemos aprender e a verdade é que seguramente quer do ponto de vista pessoal, quer do ponto de vista profissional, terei errado muitas vezes, mas o foco lá está, não fica no erro e fica se calhar muitas vezes no que é que eu oprindo com esta situação, o que é que eu quero fazer diferente numa situação semelhante no futuro.

41:14 Eu digo muitas vezes não só nas consultas mas também em informações para pais e para professores, faço muitas vezes aqui a analogia com o caráter chinês da palavra crise que esconde lá dois conceitos ambíguos quase antípodas aqui esta noção de o mesmo caráter crise enquanto perigo e ao mesmo tempo o conceito de oportunidade e se calhar é mesmo importante olharmos para as situações em que enquanto perigo e ao mesmo tempo o conceito de oportunidade.

41:50 E se calhar é mesmo importante olharmos para as situações em que erramos, em que falhamos, como oportunidades de crescer e nos aperfeiçoarmos. E quando nós vamos olhar à nossa volta, muitas grandes invenções resultaram de falhanços prévios muito grandes, não é? E tudo dependeu da forma como a pessoa os inventores, por exemplo, olharam para esses seus falhas, não é? Um exemplo muito comum é o exemplo do Post-it.

42:15 O objetivo era precisamente o oposto daquele, não é? De criar ali uma cola fraquinha, não. O objetivo era criar uma coisa que colasse mesmo e a verdade é que nós vamos ver e não há de haver muitas casas que não têm post-its. Eu sou super fã. Olha. E que resultou aí dessa noção da falha, do erro enquanto oportunidade de crescermos. E esta é uma mensagem importante em termos de parentalidade também para passarmos aos nossos filhos.

42:48 Como é que nós lidamos com os erros, os nossos e os deles. Muito bem. Olha, se pudesse ocupar um cartaz gigante para toda a gente ver, que mensagem é que escolhias lá colocar? Olha que coisa interessante. Um cartaz um cartaz gigante em Times Square é visto por milhões de pessoas todos os dias e tu tinhas a oportunidade de colocar lá uma mensagem que tu achas que falta às pessoas não tenho escrito responsabilidade pode ser uma pode ser uma andota, pode ser uma coisa qualquer que tenha marcado, tu às vezes tens alguns quotes que tu colocas nos teus livros, não sei se algum deles te marca particularmente alguns deles são realmente sementes para outros pensamentos eu acho que dependeria muito do dia em que íamos selecionar se calhar dependia aquilo que colocaria, aquilo que agora assim mais automaticamente me ocorreu e não me ocorre uma frase que merecia se ir para Times Square mas esta importância de nós desacelerarmos ocorreu e não me ocorre uma frase que merecia se ir para Times Square, mas esta importância de nós desacelerarmos e aproveitarmos o presente e se calhar um convite a isso, um convite a desacelerar e estarmos verdadeiramente presentes no aqui e no agora, como algo importante para pensarmos foi assim a coisa que me ocorreu agora não é muito sexy a ideia a ideia não, a ideia é capaz de ser mas a frase eu ia por aí, eu acho que a ideia é super sexy porque se efetivamente for ouvida pelas pessoas e posta em prática e implementada, não podia ser mais sexy, eu acho que está aí se calhar a chave, aquela conexão e implementada não podia ser mais sexy eu acho que está aí se calhar a chave aquela conexão e aquela espiritualidade agora mais moderna que está a ficar na moda do mindfulness começa aí, começa no estarmos presentes e conseguimos fazer um scan às nossas emoções e observarmos o que está a acontecer agora e não estarmos distraídos com o telemóvel à procura daquela próxima notificação ou daquele scroll a ver que coisa desinteressante é que nos pode ocupar mais um segundo tem mesmo a ver com essa lógica de estarmos ligados ou estarmos desligados daquilo que se passa à nossa volta e que a experiência do contato com a realidade vai realmente ser diferente e a diferença pode estar entre sermos pessoas mais reativas às situações e às interações ou pessoas muito mais conscientes e essa consciência, se estarmos sintonizados connosco e com tudo o que se passa à nossa volta vai-nos trazer uma sensação de preenchimento e de satisfação verdadeiramente valiosos, não é?

45:23 Olha, nos últimos anos, que nova crença, comportamento ou hábito mais melhorou a tua vida? Só me faço as perguntas difíceis? Sim. Porque eu acho que tu consegues responder, sim. Se calhar, vindo disto que estávamos a falar, uma coisa que me tornei mais, vou dizer, exigente comigo foi precisamente esta importância de me disciplinar não estar sempre a pensar no que vem a seguir em termos gerais quando assim é coisa ou seja, a importância de limitar muito bem as várias esferas da vida e não querer chegar a todo lado ao mesmo tempo e encontrar espaço também pegando aquilo que falávamos há bocadinho isto também foi algo que tenho trabalhado imenso, encontrar espaço também pegando aquilo que falávamos há bocadinho isto também foi algo que tenho trabalhado imenso, encontrar espaço para mim para os meus balõezinhos de oxigênio portanto esta importância de não me esquecer que há aqui uma Inês, além da Inês mãe, além da Inês psicóloga além da Inês que escreve livros os meus balõezinhos de oxigênio e tornar-me muito exigente comigo na importância deles existirem de uma forma permanente no meu dia-a-dia, os meus escapes, vamos-lhe pôr assim.

46:54 Genial, ok. Muito importante, essa questão também das várias ancras que nos seguram e que é super fácil de esquecer se não tivermos um método ou se não nos disciplinarmos para isso, não é? Olha, que conselhos darias a um jovem casal com crianças pequenas ou que estivesse a planear ter um bebê? O que é que achas que devíamos ter ouvido? Ou então, se calhar, um conselho darias a própria quando tu pré-mãe ou mãe de primeira viagem o que é que achas que te faltava saber nessa altura e que só mais tarde vieste a descobrir?

47:32 Oh, tantas coisas! Não, mas se calhar há aí três ou quatro coisas que podemos realçar. Uma é a inspiração que abre o crescemos juntos que é que não há pais perfeitos e esta é uma boa ideia para nós abraçarmos a caminhada da parentalidade termos consciência que a perfeição é uma impossibilidade quando falamos da parentalidade e portanto sim podemos e devemos estarmos alinhados com aquilo que é importante para nós, com os tais nossos valores e tentar dar todos os dias o nosso melhor, mas perceber que a perfeição não é uma possibilidade depois, pensando aqui como falávamos há pouco das nossas várias férias do nosso ser um jovem casal que decide ter filhos lembrar-se que a partir do momento que nascem os pais não desaparece por exemplo o casal e não desaparecem eles enquanto pessoas e refletirem, quase terem este plano como é que vai ser quando o nosso filho nascer, onde é que vai ficar o casal quais vão ser os momentos do casal e quais vão ser os momentos teus, só teus e que curiosamente são fundamentais para tu te tornares uma melhor mãe ou melhor pai muitas vezes vivemos aqui nesta sombra da culpa se eu for ao ginásio e deixar o meu filho em casa um bocadinho ou se for dar uma caminhada ou ir ter com um amigo estou a ser uma péssima mãe não, pelo contrário estou a investir no meu bem-estar e para eu poder cuidar bem de alguém, eu também tenho que estar bem portanto esse jovem casal poder apostar aí nesta espécie de planeamento e perceber que aquele filho vai ser a prioridade mas pelo ser a prioridade há outras infantilhas das suas vidas às quais tem que dar muita atenção.

49:31 E daqui decorre a importância da comunicação sempre, em qualquer relação, naturalmente, e da comunicação constante em termos de necessidades, em termos de partilhas, de dúvidas, de receios e associado se calhar a estes receios a noção também que há sempre aqui um ideal e aquilo que é o confronto com a realidade e portanto contam-nos realmente histórias muito cor-de-rosa em termos de parentalidade, mas a realidade, por muito que se planeie, não é? a realidade vai-se construindo e nem sempre é só feita de coisas o prazer é sempre o máximo, não é?

50:10 mas temos que nos preparar para aquilo que idealizamos e aquilo que depois vai ser em realidade, às vezes há aqui um gap para o qual ninguém nos nos preparou totalmente, olha que más recomendações é que costumas ouvir na tua profissão ou relacionadas com a tua profissão ou com a parentalidade? Às vezes há ruído, acredito que há algumas coisas que te façam te arrepiem um bocadinho, queres escolher alguma para quem nos está a ouvir?

50:46 Eu acho que procuro não ver essas coisas, precisamente para não me criarem cócegas. Existirá tu dizes, e se calhar estás a lembrar de alguma coisa na qual tu já tropeçaste, ou em algumas coisas nas quais já terás tropeçado há muito ruído, há muita informação a informação está muito acessível a todos nós. Acima de tudo é importante que conseguimos filtrar as fontes da informação que recolhemos. Claro que vou estando atenta àquilo que os meus colegas de profissão vão dizendo, vão fazendo, mas não consigo de todo apontar aqui o dedo, isto é um erro crasso que foi dito, não.

51:27 Mas deixo se calhar esta recomendação para que, enquanto pais, podemos sempre ter atenção qual é que é a fonte da informação que estamos a pesquisar, porque isso sim pode ser determinante. E depois, muitas vezes também nos confrontamos com informações que podem ser que podem não, que podem não ser muito concordantes logo à partida, isto não significa que as duas sejam informações erradas ou informações imprecisas, porque muitas vezes têm a ver com aquilo que nos faz mais sentido, que se ajusta melhor à nossa realidade, e portanto temos esta sensibilidade de procurar informação mas que possa ser o mais credível possível e quando deixas dúvida, ninguém nos impede de perguntar pesquisar num outro sítio com uma outra pessoa Claro, olha e quando te sentes a sobrevada ou com falta de foco O que é que tu fazes?

52:26 Que tipo de perguntas é que te colocas Nessas alturas para te voltares a centrar? Paro Em primeira instância Esta emoção Então tenho que ter consciência Quanto tempo é que demoras a parar? Quão fácil é para ti reconheceres isso? É porque às vezes para mim passam-se meses estou na máquina de lavar e demoro imenso tempo a dizer estou a fazer imensa asneira imensa cagada, tenho que parar aqui em algum lado Acho que não demoro muito tempo precisamente por aquilo que há bocado dizíamos de me esforçar para ter os tais momentos de pausa e olhar para dentro quando entro num piloto automático não demoro muito a percebê-lo mas há pequenos sinais não é igual em todas as pessoas mas há pequenos sinais ou porque ficamos mais rabugentes ou porque ficamos mais impacientes ou porque a nossa capacidade de foco todos estes exemplos que estou a dar são um bocadinho aquilo que eu vou experienciar ou porque a capacidade de foco se perde porque o cansaço físico está lá porque a mente dispersa com uma facilidade maior portanto isto tudo são pequenos sinais de alerta que eu reconheço em mim e que são o tal momento em que eu sei parar, parar muitas vezes para termos de fazer escolhas e trazer as prioridades ao de cima e arrumar aquilo que estamos a fazer e que temos para fazer, portanto essa é a noção de quando é too much esta noção de demasiada coisa a acontecer eu reconheço muito bem quais são os sinais disso em mim é importante todos nós reconhecermos quais são estes sinais individuais que eu tenho de alerta para depois poder parar e tomar fazer escolhas, tomar decisões e tu as perguntas quando tu comparas tens alguma forma de centrar-te ou se calhar na tua profissão existem perguntas por defeito que nós devemos começar por elas este parar e observar é muito sem perguntas pré-determinadas mas se tivéssemos que pôr lá algumas legendas repara naquilo que estás a sentir o sentir é o cansaço físico, é o vazio é o lá algumas legendas repara naquilo que estás a sentir o sentir, não é?

54:45 é o cansaço físico, é o vazio é o aceleramento, repara no que estás a sentir, vai haver uma questão é mais um desafio e depois a pergunta seguinte é o que tu precisas agora ok, essa é boa ok, se calhar não me lembrava disso olha Inês eu não tenho mais perguntas para ti, nós tivemos aqui, houve aqui alguns comentários, as pessoas basicamente agradeceram a iniciativa, se calhar nas próximas vezes vamos divulgar isto um bocadinho mais, isto é o nosso primeiro podcast e eu estava aqui um bocadinho nervoso, portanto não divulguei isto assim com muita energia.

55:22 portanto não divulguei isto assim com muita energia se calhar no próximo já vamos tentar angariar aqui uma audiência maior e deixar um espacinho para as pessoas fazerem perguntas agradecer a tua disponibilidade isto é um domingo tiraste tempo à tua família foi um privilégio super obrigado pelo teu tempo e pelas questões que nos vão agora fazer todos refletir e fica já um convite para uma próxima vez e se puderes vir muitas, muitas vezes, aceitamos Eu tenho a agradecer muito o desafio porque sabes que eu sou incapaz também de dizer que não a estas coisas e retirei um bocadinho da família mas sei que este bocadinho também foi bom para nós, vai seguir a compensar a família em qualidade, lá está a importância da qualidade e não só na quantidade de tempo estes desafios são deliciosos portanto, bora lá aos próximos Olha, nós estamos confinados, não podemos fazer isto frente a frente, se calhar o que me fez mais falta aqui nesta nossa conversa foi o nosso abraço final, mas deixamos para quando for mais seguro recebo daqui o meu abraço virtual está bem? Recebo o meu e muitos beijinhos e até breve está bem? Beijinhos até breve, resta um bom domingo até logo, obrigado, Bom domingo para ti.