Dicionário das Crianças · Episódio 23
Papa Bem: Alimentar é Educar
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Alimentar uma criança não é apenas pôr comida no prato: é uma das formas mais poderosas de a educar. É esta a convicção que atravessa todo o episódio 23 do Dicionário das Crianças, em que Nuno Simões recebe Ana Rita Goes, psicóloga clínica com formação em saúde pública, e Filipa Gomes Rodrigues, dietista, ambas ligadas ao Papa Bem, o projecto da Escola Nacional de Saúde Pública nascido da parceria entre Portugal e a Harvard Medical School para combater a obesidade infantil.
O Papa Bem produz conteúdos baseados na evidência para famílias e profissionais desde 2010, e à data da gravação desenvolvia um projecto-piloto nas unidades de educação da Câmara Municipal de Lisboa. Em vez de chegar com receitas fechadas, a equipa trabalha em parceria com educadores e famílias, porque acredita que cada família é especialista em si própria. A crítica é directa: prescrever alimentação saudável como quem prescreve paracetamol não muda comportamentos.
Um dos momentos mais reveladores da conversa é a defesa da refeição em família como factor protector da saúde. Comer juntos, com calma e boa disposição, molda as preferências alimentares, introduz um ritmo que respeita os sinais de saciedade e contribui para o desenvolvimento da autorregulação, uma competência associada a melhor sono, mais actividade física e melhores escolhas ao longo da vida. Como confessa o próprio Nuno, é um conselho que raramente chega aos pais de forma tão clara.
Há ainda histórias que ficam, como a da criança que, aos três S da alimentação saudável, comer sentado, sossegado e sociável, acrescentou um quarto: satisfeito. E há conselhos concretos: transformar grandes objectivos em pequenos passos, estabelecer rotinas e limites previsíveis, insistir na exposição repetida a novos alimentos, e evitar usar doces como consolo emocional, porque é assim que a bolacha ganha um valor que não devia ter.
Anos depois, o episódio continua actual: a obesidade infantil em Portugal mantém-se em níveis preocupantes e a pressão do ambiente alimentar não abrandou. Esta conversa oferece aos pais de hoje algo raro, informação rigorosa sem culpabilização, e a ideia libertadora de que educar o paladar é possível em qualquer idade, um pequeno passo de cada vez.
Neste episódio
- 01:38 Quem são as convidadas e como nasceu o Papa Bem
- 02:08 A parceria Portugal–Harvard Medical School contra a obesidade infantil
- 06:54 O piloto nas unidades de educação da Câmara Municipal de Lisboa
- 12:28 Os três S: comer sentado, sossegado e sociável, e o quarto S de uma criança
- 16:00 Mudar a abordagem prescritiva dos profissionais de saúde
- 24:36 A refeição em família como factor protector e a autorregulação
- 29:47 Transformar objectivos de saúde em pequenos passos alcançáveis
- 34:48 As preferências educam-se: o exemplo do café sem açúcar
- 47:09 Comida como conforto emocional: a bolacha nas compras
- 54:26 Leguminosas, azeite e escolhas saudáveis e económicas
Transcrição completa
0:00 Boa tarde e muito obrigada pelo desafio que nos colocou. Obrigado eu. Olá, boa tarde aos dois e obrigada. Obrigado pelo este bocadinho de domingo que vos estou a roubar. Geralmente é quando os nossos pais têm mais disponibilidade para nos verem, principalmente por causa das festas das crianças. Mas, na verdade, o nosso vídeo acaba por ter uma vida mais longa do que este direto, as pessoas ao longo da semana vão nos vendo com mais atenção então nós entrámos em contato, ou melhor ao contrário, nós fomos contactados pelo Papa Bem aqui há uns tempos porque vocês têm um projeto muito giro que está ligado à literacia de saúde e talvez o Jimbury possa ajudar de alguma forma, mas de giro que está ligado à literacia de saúde e talvez o Jimbray possa ajudar de alguma forma, mas realmente o projeto é tão rico e eu perdi-me nos vídeos que vocês tinham publicado e nos folhetos super sintéticos e claros simples de aplicar que achei que havia realmente um trabalho muito bem feito e muito trabalho feito, que era uma pena não ser mais divulgado e portanto chamámos a nós um bocadinho a responsabilidade de espalhar um bocadinho a vossa mensagem.
1:16 Ana, pedi-lhe o favor se calhar de se apresentar um bocadinho ao projeto e depois à Filipa nas secções que cada uma de vocês se especializou ou que chamou a si do projeto e depois à Filipa nas secções que cada uma de vocês se especializou ou que chamou a si do projeto e depois tinha aqui outras perguntas mais à frente sobre o tema. Ok, muito bem, então eu sou psicóloga clínica, tenho formação em saúde pública e desde a minha formação em psicologia senti aqui um chamamento, digamos assim, para a promoção da saúde e para o próprio papel que a psicologia podia trazer para a promoção da saúde, para a formação de hábitos saudáveis.
1:58 Entretanto, fiz formação na Escola Nacional de Saúde Pública e em 2009 surgiu em Portugal uma iniciativa que veio da colaboração entre Portugal e Harvard Medical School, em que uma das linhas que saiu desta parceria era a produção de conteúdos dirigidos para a saúde. E a Escola Nacional de Saúde Pública viu aqui uma oportunidade de contribuir para combater o problema da obesidade infantil. Eu na altura não estava na escola, mas mantinha uma ligação muito próxima desde o tempo em que fiz lá a formação e que também tive ligada à investigação e desde logo quando a professora Isabel Loureiro, que foi a grande inspiração para este projeto, quando me lançou este desafio, abracei-o com toda a convicção, porque senti que tínhamos um contributo importante a dar.
2:52 Nós na altura víamos aqui um contributo, isto foi em 2009, 2010, um contributo em relação à obesidade infantil, muito centrado no negativo, apenas focado no peso e não tanto numa perspectiva de desenvolvimento saudável de uma forma mais global e, por outro lado, também muito centrado na idade escolar. E a evidência começava-nos a mostrar que precisávamos de intervir mais precocemente. Por outro lado, tínhamos motivações muito pessoais. A equipa tinha uma série de pais recentes que se tinham confrontado com o desafio de encontrar informação válida, de qualidade, baseada na evidência, para apoiar o desenvolvimento dos seus próprios filhos.
3:31 No fundo, todos nós conhecíamos algumas plataformas internacionais que admirávamos muito e queríamos trazer um bocadinho disso para os pais portugueses e, portanto, também nasceu daqui a vontade de investir nesta área Filipa vamos lá um bocadinho como é que vai ter connosco Pronto, então o meu percurso é na área da dietética e nutrição e desde cedo que me fascinou a área da promoção da saúde e o trabalho com as populações.
4:07 Então o meu caminho depois até chegar ao mestrado foi um bocadinho por aí e tive a oportunidade de estar noutros dois projetos de promoção da saúde. Um direcionado mais para a área infantil e outro para a população adulta e vulnerável, e portanto consegui aqui ter também duas perspectivas muito diferentes e o que sempre me intrigou foi que estratégias é que nós podemos... Não sei se me está a ouvir bem.
4:35 Sim, muito bem. Se a conexão está boa, está? Ok. O que sempre me fascinou nesta área foi perceber que estratégias é que podemos adotar para efetivamente gerar a mudança de comportamento através da educação alimentar, por exemplo. Depois, durante o mestrado, no início, quando ingressei no mestrado de promoção da saúde, apareceu a oportunidade de colaborar com o projeto Papa Bem e, portanto, eu também agarrei esta oportunidade e tem sido uma aprendizagem constante.
5:12 Tem sido uma experiência muito positiva e, mais recentemente, tive a oportunidade de trabalhar de forma mais presente e regular no projeto neste último ano. Muito bem. Quantos anos é que tem o Papa Bem neste momento? Em termos de produção de conteúdos, nós começamos a produzir os conteúdos em 2010. Oficialmente o site foi lançado só já no final do programa Harvard Medical School Portugal, portanto, já ali 2013, 2014 foi a altura em que começámos a trabalhar para lançar o site propriamente dito e depois temos tido outras evoluções, não é?
5:52 Depois da produção de conteúdos nós queríamos ir mais longe, não é? Queríamos de facto não só garantir que os conteúdos chegavam às famílias, mas também a outros profissionais que trabalham com famílias que também era o propósito do Papa bem era disponibilizar conteúdos que pudessem ser utilizados lá por médicos de família pediatras educadores de infância no seu trabalho com as famílias e portanto esse foi um dos esforços iniciais tomamos foi tentar chegar a uma diversidade profissionais, depois quisemos ser mais ambiciosos e tentámos criar uma abordagem mais comunitária para o Papa Bem, no fundo tentar construir comunidades que seguissem os princípios da abordagem Papa Bem.
6:42 em que tentámos fazer este esforço, confrontarmos com a barreira do financiamento e de muitas vezes este tipo de abordagem não ser muito apelativa para o financiador. E depois pensámos um bocadinho mais pequeno e ao pensar um pouco mais pequeno encontramos um parceiro na Câmara Municipal de Lisboa e começámos a desenvolver um projeto piloto nas unidades de educação da Câmara Municipal de Lisboa tentando fazer esta abordagem desenvolver um projeto piloto nas unidades de educação da Câmara Municipal de Lisboa, tentando fazer esta abordagem no sentido de tentar garantir que os ambientes educativos constituem ambientes com características saudáveis, quer no que diz respeito aos alimentos que disponibilizam, ao ambiente na hora das refeições, à natureza das atividades que são realizadas, mas também tentar mudar as próprias práticas dos adultos que interagem com as crianças, porque o Papa bem acredita que não é só uma questão de aquilo que comemos ou as atividades que fazemos, mas a forma como somos encorajados nesse sentido. também chegar às famílias propriamente ditas e portanto foi este esta parceria permitiu-nos esta abordagem mais ampla mas a um a um nível menos ambicioso do que tentámos inicialmente. Ok.
7:58 Ana, além da Câmara Municipal de Lisboa e da Escola Nacional de Saúde Pública há mais alguma força de motorismo, algum outro eu percebo que a Harvard tem uma participação, mas em termos de financiamento não tem outros grandes financiadores, o Ministério da Educação, o Ministério da Saúde não estão envolvidos no Papa Bem neste momento? Neste momento não, neste momento o financiador do Papa Bem é apenas a Câmara Municipal de Lisboa no contexto das unidades de educação no início tivemos de facto este financiamento da Fundação para a Ciência e Tecnologia ao abrigo deste acordo entre Portugal e Harvard Medical School depois tivemos outro tipo de apoio por exemplo a Direção Geral da Saúde durante um período de tempo disponibilizou os conteúdos do Papa Bem no seu próprio site, tivemos algum envolvimento com um projeto no qual o Ministério da Educação estava envolvido, que era, como é que se chamava, Filipa, ajude-me, era um projeto dirigido à parentalidade de famílias vulneráveis, que agora, de repente, desapareceu da minha mente.
9:07 Diga, diga. Não sei se foi o Broccoli. Não, não, não, não. Não, isso foi outro. Não, não, não. E aí o nosso papel foi, no fundo, contribuir para a formação dos mediadores que estavam a atuar no terreno junto das famílias, mas neste momento não temos outras fontes de financiamento, não. Ok. Não sei se tentaram a Santa Casa, a Santa Casa tem uns projetos muito interessantes também de intervenção junto das famílias e eu acho que isto é completamente a sua praia, totalmente alinhado com os objetivos que eu sei que eles tentam atingir.
9:45 Quais foram as principais lições até à data? Depois da vossa intervenção e, portanto, destas divulgações, sentiram já algum retorno? O que é que têm visto no terreno? E seguramente que gerou alguns ajustes, que ajustes foram esses? Qual é o status atual? No caso concreto deste trabalho com as unidades de educação, o nosso propósito com este piloto foi utilizar uma abordagem participada e, portanto, nós não queríamos chegar com um pacote fechado às unidades gerar mudanças a diferentes níveis.
10:26 E este é o grande desafio, porque as pessoas estão mais habituadas a que cheguem lá os académicos, lhes ofereçam um pacote de chave na mão e a seguir vão lá fazer coisas. E, portanto, este tem sido um dos desafios que é, de facto, envolver o suficiente as pessoas nesta mudança que querem que aconteça porque só desta forma é que depois vai ser sustentável não é um destes dias o Papa bem sai das unidades e nós queremos que as mensagens Papa bem lá continuei tanto foi um desafio no sentido das coisas não andam a um ritmo tão acelerado como andariam quando chegamos lá e oferecemos um pacote já fechado.
11:06 Mas por outro lado é extremamente gratificante sentir que à medida que damos estas oportunidades as pessoas nos vão dizendo, não, agora a nossa preocupação é esta e é isto que queremos muito dar resposta e que se envolvem e se juntam a nós para procurar essas soluções e para, no fundo, trazermos ao de cima as forças que cada um de nós tem para oferecer. E, portanto, havia uma preocupação inicial relacionada com as emendas, nós demos aí um contributo do ponto de vista do expertise que a equipa tinha.
11:46 equipa tinha, depois surgiram preocupações mais relacionadas, por exemplo, com o momento das refeições propriamente ditas e aí houve um trabalho muito conjunto de observarmos, de procurarmos alternativas e depois de ser feito este esforço de implementação e aquilo que é mais gratificante nisto tudo é, para nós, o que nos enche o coração são as reações das próprias crianças não é com coisas pequeninas mas que de facto nos deixam com muita vontade de continuar eu dava aqui um exemplo uma atividade que fizemos antes da pandemia e está um Papa bem pré-pandemia e um Papa bem durante a pandemia havia uma atividade que fizemos que passava por contar uma história às crianças que procurava introduzir três princípios da alimentação saudável, que era comer sentado, sossegado e portanto com atenção àquilo que se está a comer e sociável. E no contexto de se contar a história, que era uma história também muito orientada para se olhar para os sinais de fome e de saciedade e por aí fora, no final há uma criança que quando lembramos os princípios acrescenta e há outro S, porque nós dizíamos que eram os três S com os mais crescidinhos e havia uma que dizia e há outro S, é o S de satisfeito e os três S que vinham a ter uma abordagem internacional que serviu de inspiração para o Papa Bem de repente transformaram-se em quatro e que nós partilhámos também com esta equipa porque de facto temos esta janela imensa de oportunidade que é a infância em que os miúdos estão muito despertos para tudo aquilo que acontece à sua volta e muito capazes de interiorizar e de transformar em si e isso é no fundo aquilo que é a grande inspiração para o nosso trabalho Totalmente Eu por acaso agora estava ouvindo a Ana e estava me lembrado há aqui uma imagem que nós usamos com alguma frequência que que tem a ver com o alfabeto, não é?
13:48 Nós pensamos com palavras, as palavras são feitas com letras e isto não se aplica só às letras reais, aplica-se a muitas áreas de conhecimento, não é? Portanto, a nutrição, as emoções, todas elas têm um alfabeto próprio e quanto mais rico for o nosso alfabeto, mais complexos são os conceitos que nós conseguimos entender e explicar e por aí fora. E muitas vezes o que falta aos pais e às vezes aos professores é o alfabeto certo na altura certa, não é?
14:14 E as crianças têm realmente uma plasticidade e uma capacidade de absorver conhecimento enorme. o Jim Burry vive muito desta urgência de apresentarmos na altura certa um conjunto de estímulos que possam ajudar aquela criança a ter um alfabeto mais rico mas para os adultos e quando as coisas se cimentam um bocadinho o que é que ainda temos para fazer? é um caso perdido ou conseguimos ir sensibilizando e há tanta prioridade às vezes parece que é difícil ordenar, não é?
14:48 Era um bocadinho esta a reflexão que eu gostava de fazer aqui convosco. O que é que nós podemos passar aos pais e em que momento é, se calhar, quando eles estão mais, agora a minha opinião, os pais quando sabem que vão ser pais, estão particularmente receptivos, não é? E fazem muitas buscas muito inteligentes, nós aqui no Marketing Digital focamos muito nas palavras-chave que estão a gerar busca e com o que é que está em tendência, e uns pais, uns pré-pais ou uns recém-pais buscam informação, talvez 90% das buscas relacionadas com a infância, e a infância vai se calhar até aos 12 anos, são feitos por pais e pré-pais, portanto, nos menos 12 meses até aos mais 2 meses de um bebê. E se calhar é a altura mais fértil para nós deixarmos algum tipo de informação, e eu sei que o Papa Bem tem conteúdos particularmente interessantes para isso.
15:42 Se calhar a pergunta aqui era, depois destes anos todos e desta maturidade que vocês atingiram, se tivessem um orçamento infinito, o que é que seria desejável neste momento? Onde é que o aplicariam e qual era, no mundo ideal, os próximos passos que vocês gostariam de ver desenvolvidos para nós chegarmos às pessoas certas na altura certa? Bem, se eu tivesse um orçamento infinito agora, se fosse infinito, por onde é que eu começava? Uma das áreas em que eu acho que nós precisamos muito mudar é na forma como os próprios profissionais de saúde abordam estes temas.
16:22 estrondosa nos dias que correm ninguém gosta de falar de peso fala-se de alimentação de atividade física, de sono de uma forma muito taxativa muito prescritiva, tal e qual como se prescreve o paracetamol prescreve-se atividade física e alimentação saudável e precisamos de mudar esta abordagem precisamos de adotar e acho que isto não é só na saúde, os próprios nos contextos educativos, os educadores de infância, os professores, também são agentes importantíssimos de promoção da saúde, mas acabam também por adotar esta abordagem muito prescritiva. E precisamos de mudar esta abordagem.
16:59 Cada família é única, cada família é especialista em si própria e portanto precisamos é de trabalhar em parceria, há alguma coisa que inquieta uma família, então vamos procurar com ela, compreender com ela o que é que está a acontecer e o que é que é possível mudar, porque é muito fácil eu dizer a uma família, vocês têm que se mexer mais, sem levar em consideração a loucura que é o dia-a-dia daquela família, o esforço que cada família já faz para conseguir garantir que estamos todos minimamente bem.
17:32 Eu acho que esta é uma das grandes mudanças que precisamos de fazer acontecer, é sermos capazes de adotar uma abordagem diferente, mais centrada nas pessoas, centrada nas famílias e verdadeiramente em si. E, portanto, um dos investimentos que eu faria era a este nível e que nós fazemos em pequena escala. Nós temos uma unidade curricular na Escola Nacional de Saúde Pública, que está disponível para os nossos alunos, mas também para quem quer que seja que pretenda fazer aquela unidade que está dirigida precisamente para sensibilizar e capacitar as pessoas para adotarem uma abordagem mais em parceria.
18:10 Esta seria uma coisa em que eu acho que era muito importante investirmos. Depois precisamos de colocar a saúde, os hábitos saudáveis nos sítios onde as pessoas estão, não é? E portanto colocar isto mais presente no dia-a-dia das famílias, nas comunidades onde vivem, nas instituições de educação que as crianças frequentam. A saúde tem de ser uma coisa transversal e que é abordada não numa perspectiva simplesmente de conhecimento, de saber-saber, mas numa perspectiva de eu ser capaz de trazer isto para a minha vida, de eu ser capaz de perceber que há qualquer coisa que eu quero mudar e tenho as ferramentas certas para conseguir fazer a mudança que quero e portanto os meus investimentos iriam por um lado para capacitar profissionais que trabalham com famílias, por outro lado, para investir nas próprias estruturas, condições das comunidades, para tornar o dia-a-dia das famílias mais fácil de ser saudável, não é? É uma oportunidade imensa que nós temos e que continuamos ainda a desperdiçar.
19:34 As crianças passam tanto as horas nas escolas e muitas vezes este papel para a promoção da saúde das crianças é um papel que continua a ser muito invisível e, portanto, eu acho que precisamos de potenciar aquilo que temos à disposição. Ok. O que é que nós já aprendemos de outras experiências no resto do mundo, se calhar que foram mais cedo ou começaram mais depressa? Acho que perdemos a Filipa.
19:54 Ela já aqui está outra vez. Olá, desculpa, foi a internet, foi a ligação. Ok. Que inspirações internacionais é que temos que já estejam a resultar, quer dizer, que estejam a funcionar? De memória lembro-me que o Jamie Oliver teve uma intervenção interessante aqui há uns anos atrás, que levou cozinha fresca, alimentos frescos nas escolas, isso prevalece, foi um fogacho, eu não acompanhei depois, quando estava na televisão seguia com atenção, depois perdi-lhe o rasto.
20:27 Isso é uma boa abordagem, há outras mais interessantes, eu gosto sempre de me inspirar em quem está a fazer bem, está a fazer há mais tempo. Não sei se a Filipa quer avançar. Oi? Se quer, a Filipa está aqui com a manete está com um pequeno lag Então em relação à iniciativa do Jamie Oliver eu acho que foi uma excelente iniciativa mas que se confrontou com barreiras importantes logo à partida provavelmente antes de lançar este tipo de abordagem se calhar precisávamos primeiro ter feito alguma coisa junto das comunidades para que estivessem mais receptivas para esta iniciativa e eu acho que esta é uma lição que precisamos de aprender de uma maneira geral que é nem sempre uma iniciativa boa desencadeia os resultados que queremos porque as comunidades podem não estar prontas para acolher. E esta é uma coisa que precisamos de considerar, é até que ponto uma comunidade está pronta para acolher uma intervenção, uma iniciativa.
22:06 equivalente dessa iniciativa é uma mensagem essencial, não é? Aquilo que é saudável não vem em embalagens, não é? Portanto, é aquilo que é mais natural, mais original e essa é umaissionais de saúde e de outros contextos, da área social e por aí fora, para tentarem trabalhar com uma abordagem, de facto, de parceria com as famílias. E depois foi crescendo e eu até acredito que houve aqui uma inspiração mútua entre o Henry e o Papa Bem. O Henry atualmente tem uma série de intervenções dirigidas diretamente às famílias e procurou de facto levar para os contextos em que atua o tal espírito da comunidade saudável.
22:39 E esse acho que é também o exemplo fabuloso que temos no caso do Henry, que é as famílias que se envolveram com o Henry, os pais que se envoláveis com os seus filhos, de aceder a informação que é relevante e eu penso que isto é também qualquer coisa de muito inspirador, é vermos as próprias comunidades a mobilizarem-se para conseguirem alcançar aquilo que acham importante e que acham necessário e portanto é também alguma coisa que nós gostaríamos de conseguir alcançar.
23:33 O que é que vocês diriam que são países com níveis de saúde muito elevados e por oposição, que país é que tem realmente níveis de saúde muito baixos? Mesmo que tenha sido atingido de forma orgânica e não tenham projetos desenhados como este, o que é que nós devemos almoçar? Há algum país assim próximo de nós no qual nos consigamos inspirar e porquê? Ou se calhar a dieta mediterrânea, que eu sei que tem uma série de evidências de quedas mais saudáveis, não é?
24:07 Se calhar é mais saudável e com estudos mais transversais, não é? Se calhar somos nós, não é? Somos nós esse país inspirador ou podemos melhorar? Eu acho que nós temos em Portugal uma série de ingredientes que são essenciais para conseguirmos alcançar melhor saúde. Nós somos um país da relação e isso é essencialmos alcançar melhor saúde. Nós somos um país da relação e isso é essencial para alcançar melhor saúde.
24:30 Nós somos um país da refeição à mesa e é uma coisa que precisamos de continuar a insistir. A refeição em família é claramente um ingrediente protetor da saúde, a investigação mostra isso claramente e depois... E uma característica de saúde terânica. E porquê? Já agora, podem-me explicar porquê é que essa parte é tão importante, eu não consigo ver a ligação assim de forma imediata. Entre a relação e a refeição à mesa e por aí fora, por várias razões. Em primeiro lugar, porque as nossas preferências pelos alimentos não têm só a ver com as características dos alimentos, têm a ver com o contexto em que nós os ingerimos também.
25:14 E, portanto, se eu associo a sopa a um jantar em família em que estamos bem dispostos, em que nos divertimos e que é agradável, então, se calhar, é mais provável que eu goste de sopa do que se eu estiver a associá-la a um momento de comer a correr, com pessoas a ralharem comigo e por aí fora. Isto por um lado. Por outro lado, a relação no momento da refeição introduz um ritmo, que é um ritmo mais saudável, não é?
25:41 Portanto, um ritmo que nós ingerimos mais pausadamente e, portanto, também damos mais atenção aos sinais de saciedade e comemos aquilo que precisamos e não continuamos a comer até estarmos a transbordar de cheios, não é? E depois, por outro lado, mesmo do ponto de vista mais fisiológico, há uma série de ingredientes que a relação traz para estes momentos que a tornam mais favorável a outras dimensões da saúde, nomeadamente estes momentos de prazer em família, contribuem para uma coisa essencial que é o desenvolvimento da autorregulação.
26:22 E a autorregulação é um ingrediente que a investigação nos mostra esta capacidade para eu identificar para onde é que quero ir ser capaz de analisar que estratégias sou capaz de utilizar, ser capaz de controlar o meu comportamento e por aí fora é qualquer coisa que sabíamos que está associado a níveis mais adequados de atividade física, de sono, uma alimentação mais saudável e a uma série de indicadores de saúde, por refeição em relação, é um contributo para este desenvolvimento, porque contribui para que sejamos também mais capazes de olhar para nós.
27:11 Uau, eu confesso-lhe, eu nunca tinha ouvido esse conselho, estudei este tema há algum tempo, me preocupava com microbiota, com macronutrientes, com vitaminas, com sais minerais nunca me tinha ocorrido que fosse tão importante comer em família e por acaso não é um hábito assim tão estranho aqui em casa, mas faz todo o sentido mas não é um conselho mainstream nunca me disseram, eu tenho 44 anos, nunca me chegou esse conselho assim de forma muito objetiva e é uma pena porque eu acho que é uma mensagem muito válida E é uma mensagem que se tem de aprender um bocadinho nos hábitos da população portuguesa Uau isso é mesmo importante E que precisamos levar para outros contextos nós olhamos por exemplo para sei lá, para as creches e para os jardins de infância e é importante que os adultos se sentem com as crianças à mesa, e isso nem sempre acontece, por razões várias, de logística e por aí fora, mas efetivamente é qualquer coisa que favorece o desenvolvimento de bons hábitos e que contribui também para outras dimensões do desenvolvimento da criança, e é isso que precisamos de pensar.
28:23 Estas coisas não estão em prateleiras separadas, estamos sempre a falar em termos globais de desenvolvimento saudável, não é? Ok. Que outros conselhos práticos é que nós podemos deixar aqui aos pais? Conselhos do dia-a-dia? Além de comerem juntos, já percebi que é crítico, ao nível da escolha dos alimentos, da confecção, das quantidades, eu não sei, eu percebo que não podemos dar aqui uma lição super completa, mas se calhar em grandes traços, por ordem de importância, ou aquelas três ou quatro ou cinco mensagens que vocês acham que eram mesmo importantes.
28:57 Se só tivéssemos uns minutos para doutreinar aqui as nossas famílias, o que é que nós gostaríamos de lhes ensinar? de eu treinar aqui as nossas famílias o que é que nós gostaríamos de lhes ensinar Bem, eu se calhar começo e depois a Filipa a completa com coisas mais específicas Bem, a primeira coisa que eu gostava de dizer é que eu não gosto muito de levar isto para a perspectiva de dar conselhos às famílias, não é? Porque cada família é muito única e precisa de encontrar a sua própria forma de fazer Mas se calhar aquilo que é o desafio que eu gostava de deixar às famílias é exatamente olharem para si, olharem para aquilo que é o seu dia-a-dia, olharem para aquilo que querem alcançar e tentarem perceber até que ponto há coisas do seu dia-a-dia, do seu estilo de vida, que gostariam de mudar. E depois tentarem concretizar isso em pequenos passos. Sei lá, estamos desde o início da pandemia mais sedentários do que aquilo que gostaríamos, gostávamos de aumentar o nosso nível de atividade física, mas isto parece uma coisa muito abstrata, muito ambiciosa. Então, em vez de olharmos para tudo aquilo que são os motivos pelos quais reduzimos a atividade física, vamos tentar ver até que ponto há pequenas oportunidades no nosso dia-a-dia. Se calhar até consigo perceber que posso usar mais vezes as escadas, ou que há deslocações no nosso dia-a-dia que até podemos fazer a pé. Que há dias na semana em que fazer determinada deslocação para as compras ou assim a pé não vai significar uma baralhada no resto do dia, porque nos vamos atrasar e porque vamos chegar mais tarde a casa e por aí fora.
30:34 E no fundo o desafio é tentarmos olhar para nós, pensarmos para onde é que queremos caminhar, mas a seguir transformar isso em pequenos passos que nos pareçam alcançáveis, porque eu acho que aquilo que sentimos todos é que isto é um desafio enorme que as nossas vidas são difíceis e portanto acabamos muitas vezes por não abraçar aqueles objetivos que gostaríamos de alcançar se calhar se os transformarmos em coisas mais pequeninas, vamos descobrindo que afinal somos capazes e portanto este era no fundo o mote que eu gostaria de deixar.
31:08 Agora, de certeza que a Filipa tem duas ou três mensagens mais específicas que eu gostava de deixar. Sim, em relação àquilo que são as escolhas alimentares da criança, existem orientações através das quais os pais podem orientar para guiar e adotar uma alimentação saudável. No entanto também é importante lembrarmos que a criança tem diferentes fases do seu desenvolvimento em que o apetite também vai variar e que estas orientações são isso mesmo, são orientações e depois cada criança é uma criança, mas naquilo que é o seu padrão alimentar, de uma forma geral, no seu dia-a-dia, se inclui aquilo que são os alimentos que deveríamos preferir, tanto em cada fase do ciclo de vida da criança, como integrado na alimentação da família, preferir sempre opções como a sopa, os vegetais no prato e perceber se conseguem dentro do seu padrão incluir isso e depois outros alimentos que devem ser menos preferidos na alimentação da criança estarem destinados a ocasiões mais específicas.
32:22 Como os doces e os sumos e os... Sim. Ó Filipa, todos os profissionais de saúde têm esse tipo de conselho, os pediatras não se esquecem de dizer isto, seguramente na escola as professoras também têm aulas dedicadas ao assunto. Porquê que não acaba a acontecer isso nos nossos pratos? Porque acaba lá sempre arroz, massa e catecário, peixe e... É para simplificar, é porque é mais barato, é por uma questão de educação e porque os nossos modelos que vêm lá muito atrás nos condicionaram para estas escolhas.
32:53 Mas há outra razão mais profunda que se calhar as pessoas tenham que refletir para conseguirem gerar essa mudança. Sim, acho que passa muito também de introduzir desde cedo a aceitação destes alimentos e isso tem sido um papel depois na formação dos hábitos alimentares ao longo da vida da criança e na vida adulta e depois não nos podemos esquecer que os nossos hábitos também são influenciados por fatores ambientais pela oferta alimentar, que os pais estão constantemente sujeitos cada vez que vão às compras e que depois acaba por ser difícil de gerir.
33:35 E depois também as crianças acabam por ter uma preferência natural para alimentos doces e salgados e acho que todas essas influências acabam por depois determinar que no dia a dia seja difícil adotar uma alimentação mais salgável. Ok. Eu sei que eu não gostava também. Acrescentava só aqui duas coisas. Exatamente, duas coisas importantes em relação a isto. Reforçar a ideia do ambiente. Nós vamos a um restaurante e qual é o ingrediente que é mais provável nós termos que pagar à parte? São os vegetais, não é? A salada e por aí fora, mas se calhar temos arroz, arrodos e batatas fritas numa quantidade louca, não é? Portanto, de facto o ambiente foi-nos condicionando num determinado sentido.
34:25 Mas aquilo que é a boa notícia é que estas preferências que fomos sendo condicionados a desenvolver se educam, não é? É claro que é mais fácil se educarmos a criança desde pequenina para aceitar determinados alimentos, mas conseguimos modificar e eu dou aqui um exemplo muito simples. De certeza que já muita gente teve a experiência de, numa determinada altura da sua vida, por exemplo, por motivos de saúde, precisar de deixar de colocar açúcar no café.
34:54 E no início parecia uma coisa impossível de se alcançar, mas foi-se insistindo e insistindo e a certa altura já não se tolera sequer a ideia de um café com açúcar e com os outros alimentos é a mesma coisa, se nós expusermos a criança e o adulto também várias vezes de forma persistente a novos alimentos, vai haver uma maior probabilidade de aos poucos ir desenvolvendo também uma preferência por esse alimento portanto as preferências também se influenciam e tem que se influenciar de uma forma positiva uma coisa é manter aquilo disponível para a criança outra coisa é pressioná-la para que limpe os vegetais do prato e portanto incentivá-la a experimentar, a provar e não desistir à primeira continuar a insistir e no fundo termos esta tentativa de contrariar aquilo que é o ambiente também à nossa volta.
35:51 Os pais têm vidas difíceis, vão ao supermercado e têm à disposição uma série de alimentos processados que são péssimos para a saúde por muitas e variadíssimas razões, mas se calhar às páginas tantas fazer os douradinhos ou não sei o quê, não dá assim tanto menos trabalho do que chegar a casa e pôr uma sopa na mesa e uns ovos ou uma coisa assim do género, não é?
36:17 Portanto, nós sabemos que temos vidas difíceis, mas se calhar há escolhas que do ponto de vista nutricional são muito diferentes e do ponto de vista do nosso tempo não são assim tão diferentes. É, sem dúvida, eu estava aqui a pensar na… há aqui talvez um contributo da economia para explicar algumas destas escolhas, não é? As preferências das pessoas acabam muito por cair nos alimentos mais baratos e que estão embalados e portanto têm um shelf life, um tempo de vida muito superior, não é?
36:44 Portanto não se vai estragar. Se eu comprar estas bolachas, elas vão estar aqui daqui a um mês, estas… E são práticas como lanches no dia-a-dia das crianças e acabam por vezes ser a escolha mais fácil para os pais. A única forma seria-nos taxar de forma muito diferente este tipo de alimentos e isso cá não está a ser feito. E se calhar a nossa classe política, que eu sei que no plano teórico tem uma ideia de tudo isto que nós estamos a falar, mas, cara, não praticam no seu dia-a se juntam, pronto, têm muito pouco tempo para decidir e têm que decidir qualquer coisa que agrada uma grande maioria de pessoas, nomeadamente produtores, e se calhar os nossos produtores depois fazem muita pressão para venderes aquele pacote embalado, porque lá está, economicamente o que faz mais sentido é termos uma coisa que dure muito tempo e que seja mais barata.
37:46 E é muito debatível, em determinados contextos, não é? Se estivéssemos no meio de África, onde é difícil chegar um ingrediente fresco, e carne, e peixe, etc., eu percebo que era fácil vender as latas lá. Mas aqui, no sítio em que nós estamos em em particular e tendo em conta que estamos a tratar dos nossos filhos e que eles são feitos de todos os inputs que nós lhes dermos, não é? Se lhes damos porcaria, é natural que essa porcaria se vá manifestar em algum lado, mais cedo ou mais tarde, nomeadamente na saúde. E estamos aqui a falar de poupanças infinitas, não é? Em termos de saúde se tivermos uma atitude mais preventiva. Se eu tenho uma estimativa de quanto é que poderíamos poupar se fossem feitas pequenas alterações na dieta das pessoas, há um número, eu tenho curiosidade, não sei se existe.
38:32 Há algumas estimativas, mas eu não as sei de cor. Eu não tenho o número presente. Mas pronto, mas teriam muitos milhões por dia, possivelmente. Não, também não tenho o número presente, mas sim, sim, até depois nos custos de doença que traz, que isso traz para o nosso Serviço Nacional de Saúde, por exemplo. É, eu se calhar tenho essa questão para vos fazer. Nós estamos a ver hospitais a nascer em todo lado e vemos as populações a reclamarem por mais hospitais ainda que têm um custo e, portanto, e as pessoas lá estão, que têm este viés de eu quero um médico para tratar de mim quando eu estiver doente, mas não chamam assim, se calhar, uma parte dessa responsabilidade, se calhar também por falta de informação.
39:12 Mas não era muito mais económico e não podemos chamar um tanto, resolver muitos destes problemas e precisar de muito menos hospitais e muito menos profissionais. Eu percebo que isto se calhar é o vosso dia-a-dia, não é esta frustração. isto se calhar é o vosso dia-a-dia, não é esta frustração? No fundo isto tem a ver com o paradigma, não é? Porque é muito fácil dizer às pessoas que têm que se responsabilizar pela sua saúde, mas depois de facto também não lhes colocar à volta o ambiente que favorece essa responsabilidade, não é? Exatamente o que o Nuno estava a dizer ainda agora. Ok, nós temos hoje em dia o grande desafio das doenças crónicas e que são doenças altamente determinadas pelas nossas escolhas, do ponto de vista da atividade física, do ponto de vista da alimentação, do consumo de tabaco e por aí fora.
40:03 que isto tem a ver simplesmente com as nossas escolhas, mas não tem a ver simplesmente com as nossas escolhas, tem a ver com quanto é que eu tenho para investir, tem a ver com o contexto em que eu vivo por exemplo, será que eu vivo num contexto que é seguro e que favorece que eu me desloque a pé e por aí fora, tem a ver com políticas de apoio à família, é muito bonito dizermos que é melhor preparar os alimentos de raiz do que comprar os processados, mas os nossos pais trabalham até horas indecentes e portanto chegam a casa pressionados pelo tempo e portanto acabam por fazer este tipo de escolhas que não são só suas no fundo são as escolhas que o país fez para todos nós e que o mundo fez para si, não é?
40:45 Portanto, claramente conseguirmos melhorar também implica uma mudança de cima, não é? E uma mudança de políticas, de condições de vida, de infraestruturas que estejam à disposição das famílias. Isto por um lado, por outro lado, de facto, quando nos contextos da saúde se abordam estes temas, abordam-se muitas vezes atirando para as mãos das pessoas a responsabilidade de fazerem as suas mudanças. não é? E, portanto, não chega falar sobre os assuntos ou pressionar a pessoa a fazer uma mudança no seu estilo de vida, é preciso ajudá-la a construir essa mudança, não é?
41:31 Portanto, nós continuamos a ter um sistema em que o investimento vai para tratar a doença, o investimento em promoção da saúde é microscópico, não é? E, portanto, enquanto assim for, eu sei que isto é muito mais fácil de ver os resultados do ponto de vista político vemos muito mais depressa os resultados na doença, não é? Quantas pessoas trataram o AVC e por aí fora. E a promoção da saúde é a longo prazo e portanto isto é é sempre aqui uma conversa difícil de se fazer, mas efetivamente nós já temos esse tipo de estimativas, há países que têm feito este tipo de análise de post-efetividade que nos mostram exatamente quanto é que nós pouparíamos por fazer determinado tipo de mudanças do ponto de vista da alimentação, da atividade física, das condições do ambiente e por aí fora.
42:30 E portanto, nós é que temos que escolher se afinal queremos continuar a corrigir a doença ou se queremos efetivamente evitá-la. Bom, claramente que as pessoas dão importância à sua saúde, se calhar se fizéssemos uma estatística ia estar no topo das prioridades, mas depois as pessoas acabam por não votar se calhar naquele político mais atlético e abdominal mais saudável e deixam-se guiar se calhar por outras tentações, não é?
42:51 O que é que vocês diriam que são sinais de alerta? Quando encontram uma família se calhar no pior caminho o que é que os preocupa mais? É realmente a qualidade dos alimentos que escolhem, os hábitos a questão do sentar à mesa por onde é que começaríamos? O que é que vos preocupa mais? É realmente a qualidade dos alimentos que escolhem, os hábitos, a questão do sentar à mesa, por onde é que começaríamos? O que é que é importante? Qual é a raiz ou os pilares mais importantes da saúde?
43:21 rotinas, é de facto e isto tem a ver com a rotina tem a ver com o planeamento também e o nosso dia a dia ser organizado de forma a que também nos facilite a vida no sentido da saúde e sermos capazes de organizar o nosso tempo, as nossas horas e por aí fora, levando isto em conta, não é? E por exemplo pensarmos antes em vez de pensar hoje ou pensar às seis da tarde o que é que vai ser o jantar, se calhar preciso pensar no fim de semana, por exemplo, como é que vai ser para que depois em cada dia o desafio não seja assim tão grande. E, portanto, eu diria que um dos aspectos importantes é, de facto, o planeamento, porque se não planearmos com alguma antecipação a seguir é muito difícil conseguirmos concretizar.
44:09 Depois, para além deste planeamento, eu diria que também é o sermos capazes de estabelecer algumas regras e limites ao dia a dia, não é? E isso torna a vida mais fácil para toda a gente, para as, porque torna o dia-a-dia mais previsível e para os pais porque têm algumas balizas pelas quais se vão guiar Filipa há bocadinho falava da questão dos alimentos açucarados, por exemplo torna-se muito mais fácil quando dizemos assim o doce acontece uma vez por semana e a criança interioriza esta regra com muita facilidade e quando pede e nós lhe dizemos hoje não é sábado ou o que é que seja o dia que tenha sido escolhido, a criança aceita com muito mais facilidade e portanto a rotina e esta estrutura trazida por algumas regras, por alguns limites que introduzimos para a criança, mas que são também para nós próprios eu penso que são elementos que provavelmente são transversais quando as coisas não estão a correr bem, passa muito também por estas rotinas e por estes limites.
45:15 Ok. Filipa, quer acrescentar alguma coisa? Sim, eu acrescentaria talvez o facto de nos focarmos, também falámos nisto no início, talvez o facto de nos focarmos também falámos nisto no início naquilo que é a forma como alimentamos as crianças porque há uma grande preocupação em perceber que quantidade é que a criança precisa de faixa da sua vida e quando muitas vezes a solução para questões relacionadas por exemplo com o facto da criança não aceitar os vegetais estão muito mais na interação que os pais têm com a criança e na forma como apresentam os alimentos à mesma, na forma como restringem os doces e outros alimentos utilizando uma atitude menos ativa e mais de estrutura e de definição de limites, a própria preocupação em respeitar aquele que é o apetite da criança, isso também pode acabar por gerar menos frustração e stress no momento da refeição e preocupação nos pais se souberem como lidar com estas questões, focando-se também na forma como alimentam a criança.
46:31 E depois temos aquela questão da alimentação como, vá lá, conforto emocional, não é? Se calhar é mais ali a praia da professora Ana. Isso é uma coisa que vocês abordam, onde as crianças têm esse problema ou manifestam esse, olha lá eu não sei como chamar-lhe mas essa característica de eu preciso de um doce porque com mal as crianças não manifestam nós é que utilizamos isso como estratégia, não é? No fundo vocês vejam de certeza que já todos nós que todos nós nos lembramos de momentos em que, sei lá andamos nas compras e vemos crianças com a bolacha na mão, não é? Porque os pais estão aflitos, a criança está impaciente já não é uma hora boa para ela e por aí fora, e o que é que nós fazemos para tentar entretê-la vamos entretê-la com um alimento, ou se comeres a sopa toda, no fim ganhas um doce ou qualquer coisa, exatamente, não é? Portanto, não é tanto o facto da criança manifestar essas necessidades, mas a questão é que a criança acaba por desenvolver preferência por estes alimentos que lhe são oferecidos nestas situações, porque eles ganham um outro tipo de valor, não é? A seguir a criança começa a sentir que naquele momento em que estava irritada comeu uma bolacha e a bolacha acalmou-a, naquele momento em que não tinha vontade nenhuma de comer a sopa, afinal a seguir a sopa transformou-se noutra coisa também de positivo e por aí fora e portanto estes alimentos menos saudáveis acabam por assumir um valor muito apelativo digamos assim, não é? Aquilo acaba por ser o segredo para tudo e mais alguma coisa, dá-me saciedade dá-me conforto emocional e por aí fora, não é?
48:24 Nós tivemos aqui uma eu tive uma pequena epifania porque acabamos por ser nós realmente a passar este software às crianças a pensar que eu preciso daqui de um bocadinho de paz e aqui os meus concidadãos que estão às compras também não têm a culpa que o meu filho esteja irritadíssimo hoje e portanto vou resolver isto eu por acaso não lhes dou de comer quando eles estão às compras, mas sim, já me ocorreu se calhar um dia difícil, provavelmente um dia difícil para mim, sei lá, usar uma bolacha ou sei lá, um iogurte particularmente mais doce, que eu sei que eles gostam para encontrar um bocadinho de sossego.
49:01 mais doce, que eu sei que eles gostam para encontrar um bocadinho de sossego e agora está-me a pesar um bocadinho a culpa mas, atenção nós cá em casa também, eu gosto de lhes dar bons modelos de desporto e nos alimentarmos bem, mas depois acabamos por ter este contrapeso há momentos em que falta-nos a clareza de espírito para os proteger, porque esta camada de software é gravíssima e nós vemos, eu tenho um pequeno vício de seguir no TLC aqueles programas dos obesos, particularmente casos muito graves e fascina-me, quer dizer, como é que uma pessoa se deixa chegar àquele estado, é uma coisa que me hipnotiza.
49:39 Mas lá está, começa com pequeninas coisas, não é? Portanto, é muito difícil perceber que se calhar há duas ou três gerações que a programação daqueles progenitores é toda condicionada para este tipo de más escolhas e, portanto, chega-se ali a um caso totalmente extremo, que é difícil para nós entendermos, mas que foi muito gradual e fez todo o sentido para aquela pessoa em particular, aqueles inputs não podiam levar a outro caminho. Aquela pessoa está numa calha e não consegue fugir dela, por mais que se esforçasse.
50:08 Isso é doloroso, não é? Qual tem sido a evolução histórica aqui em Portugal, em termos de saúde e alimentação? Temos melhorado, temos piorado? Quais são os pontos, os picos dos gráficos quando vocês estudam este tipo de coisas? Há ter havido momentos que se explicam, se cal calhar com fome e com pobreza, mas em termos de tendência estamos a melhorar, estamos a piorar, o que é que vocês têm observado ao longo dos anos?
50:37 Em termos de saúde e de... Sim, em relação aos hábitos alimentares, continuo a verificar se são baixos de consumo de hortofrutícolas, por exemplo, e um consumo acima, em excesso de alimentos como, por exemplo, os doces, e que acabam por ter um efeito a longo prazo e de consumidos de forma regular negativo na nossa saúde. Ou melhor ou pior do que no passado, Filipa. Há um sistema de vigilância...
51:09 Eu acho que continua mal, não tem havido uma evolução positiva. Embora o sistema de vigilância da obesidade infantil que acompanha crianças entre os 6 e os 8 anos verificou-se uma redução, embora ligeira, mas foi significativa, dos GSP e obesidade infantil. Sim, mas continuam ainda em níveis preocupados, 30%. E em termos geográficos, vemos uma diferença do interior para o litoral, do norte para o sul? Sim, encontram-se algumas diferenças, não é?
51:49 Diga, diga, Filipa, porque tem esse número mais presente. Não tenho presente os números, mas, por exemplo, nos Açores, sei que há uma prevalência de excesso de peso e aqui uma diferença em relação, por exemplo, àquela que é prevalência a nível de peso. E no Algarve a evolução foi um bocadinho mais positiva do que no resto do país. país, segundo algum, pelo menos numa das rondas deste sistema de vigilância encontrava-se ali algumas diferenças regionais importantes que se prenderão com fatores dos próprios ambientes, mas também com iniciativas mais sistemáticas que em alguns momentos foram desenvolvidas em algumas zonas do país.
52:43 Ok. Há alguns alimentos que vocês se atreveriam a dizer que deviam fazer parte de todas as dietas? Três ou quatro alimentos importantes, não sei, o ovo, obviamente as ortofrutícolas, não sei, frutos secos, alguma coisa que vocês entendessem que se calhar não está tanto na dieta como devia estar? Força, Filihar, não está tanto na dieta como devia estar? Sim, eu destacaria, sim, parece que pode aparecer, provavelmente perdeu a ligação.
53:13 Eu destacaria a manutenção de hábitos como assuntos vegetais e privilegiar a fruta e vegetais, que são a principal fonte de vitaminas, de importantes vitaminas e minerais com função, por exemplo, antioxidante e de prevenção de doenças cardiovasculares. Disse também o teor de fibra, que também está associado à redução de diversas doenças, como a diabetes, por exemplo, e portanto eu destacaria esses alimentos e não um específico. A importante mensagem a passar deve ser a importância de termos uma alimentação equilibrada que inclua todos os grupos de alimentos nas suas quantidades recomendadas e para assim termos uma alimentação adequada.
54:01 adequada. Eu estava, a base da minha pergunta era se haveria aqui um atalho fácil de decorar para as famílias, aquelas que não podem escolher o melhor produto orgânico, fresco, se tivessem que escolher fome simples e económica, o que é que seria uma dieta relativamente barata, mas mais saudável do que a atual? Se calhar as leguminosas, muitas vezes eu sei que fogem um bocadinho à… Sim, as leguminosas… E é um alimento barato… Sim, as leguminosas são um exemplo, sim, de uma fonte de proteína e de outras vitaminas e minerais também importantes na prevenção de diversas doenças.
54:46 E nós atualmente estamos a consumir uma quantidade de carne acima das nossas necessidades e ajustar essa quantidade de carne às pressões que são recomendadas para aquilo que precisamos e tendo em conta as nossas necessidades e nível de atividade física, aumentando depois o consumo de leguminosas seria uma estratégia que é atualmente recomendado. E em termos de proteína animal, que eu sei que é importante, quer dizer, para quem não é vegetariano, há um conjunto de nutrientes, diria assim, vou-lhe chamar assim, importantes e que só estão biodisponíveis através da proteína animal. No topo delas, se calhar, o o assim, vou-lhe chamar assim, importantes e que só estão biodisponíveis através da proteína animal.
55:27 No topo delas, se calhar, o ovo, não é? Sim, é uma proteína acessível. E depois carnes brancas, se calhar, e depois lá no finzinho as carnes vermelhas, não é? Sim. Pronto, e o peixe também, obviamente, importante, tirando, obviamente, as questões da sustentabilidade, agora há aí uns documentários um bocadinho assustadores em relação à sustentabilidade do peixe, não é? E depois, em termos de carboidratos, eu sei que isto é o termo brasileiro, mas pronto, o resto só consigo...
55:55 Carboidratos de carbono. Devia saber isso, que eu numa outra vida seria aqui. Não, não faz mal. Quais seriam os hidratos de carbono mais favoráveis? As leguminosas de açúcar? Sim. Sim, são uma fonte de hidratos de carbono que complementam a nossa saciedade e que podem, por exemplo, substituir ou acompanhar o arroz, a massa ou a batata. o arroz, a massa ou a batata. Em relação aos hidratos de carbono, sempre que possível, optar por opções menos refinadas, porque acabam por ter um maior teor de fibra.
56:41 Algumas opções são menos apetecivas, sim, podem ser menos apetecivas, e o que eu aconselho geralmente é variar, variar o possível, variar as opções que incluímos, tanto mais refinadas e menos refinadas. E nas gorduras, Filipa, quais são as fontes assim mais aconselháveis? Em relação às gorduras, a gordura de preferência, a gordura de adição às nossas confecções, à salada, como tempero, é como sabemos o azeite, um alimento também tipicamente português e portanto devemos privilegiar. E depois outras gorduras como o hômedo, que podemos recorrer através do pescado, geralmente do salmão, da sardinha, do atum, e neste caso podemos encontrar fontes mais acessíveis como os enletados, que são também uma opção prática para adotar numa alimentação saudável.
57:37 E destacaria também os frutos oleaginosos, que também podem ser, como no caso das nozes, uma fonte de ômega 3 e assim procurar o tipo de alimentos e buscar o máximo de variedade a estes alimentos. onde é que as famílias que nos estão a ouvir podem encontrar esta informação de forma essa semelheira de informação que vocês criaram obviamente não sei se está bem também está no vosso canal de Youtube que outras fontes é que vocês aconselham que as pessoas sigam para se manterem informadas O programa nacional para a promoção da alimentação saudável, portanto, Programa Oficial Português, é uma fonte também… Onde é que isso se encontra, Ana? Eu acho que não é mainstream ainda.
58:35 Se as pessoas pesquisarem por Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável, vão lá ter certamente. Por outro lado, através do próprio site da Direção-Geral da Saúde, nos programas prioritários, também encontram a ligação importante. Portanto, é uma fonte fidedigna de informação, de conteúdos para o desenvolvimento de bons hábitos. O programa também, o Programa Nacional de Promoção da Atividade Física, que tem também feito um esforço neste sentido de disponibilizar alguns conteúdos que apoiem o desenvolvimento de hábitos saudáveis e eu destacaria no fundo estas fontes que são fontes oficiais de informação mas que eventualmente não fazem tanto parte das nossas opções habituais quando vamos fazer pesquisas.
59:24 Sim, eu também favoreceria os vídeos do Papa Bem, que são curtinhos e são muito diretos ao assunto, com conselhos práticos. E eu destacaria também... Sim, Filipa. Sim, além dos vídeos, destacaria os folhetos. Os folhetos. Que também têm uma informação resumida e fácil acesso sim podemos recomendar a utilização aos profissionais de saúde que é uma forma fácil de fazer o aconselhamento às famílias ok eu deixei os links aqui na descrição do nosso vídeo no youtube portanto as pessoas podem facilmente lá chegar.
1:00:07 E no vosso site, eu penso também, estão lá contactos, se alguém quiser contactar diretamente, pode fazê-lo através do site, não é? Sim, ou pesquisando pelos nossos nomes, no meu caso, por exemplo, vai facilmente parar os meus contactos na Escola Nacional de Saúde Pública e, portanto, tem também esse acesso facilitado nesse sentido. Muito bem. Escapou-me alguma pergunta que vocês teriam gostado de responder sobre estes temas? Eu se calhar deixava só aqui uma mensagem final. No fundo, quando pensamos em estilo de vida e aqui pensar de uma forma global, e aqui pensar de uma forma global, pensamos mais facilmente no o que comemos, quanto à atividade física fazíamos, quanto dormimos e por aí fora, eu destacaria a necessidade de olharmos também para o como, não é?
1:01:03 Se comemos em família, se fazemos atividade física de uma forma que nos dá prazer e que é divertida, se não só dormimos um determinado número de horas de sono, mas se essas horas de sono acontecem com qualidade e com um ambiente que favoreça a qualidade do sono, penso que é também por aí que precisamos de olhar. E o caso de, se olharmos para os princípios da dieta mediterrânea, que acho que são muito inspiradores neste sentido, porque remetem precisamente não só para os ingredientes, mas para a frugalidade daquilo que é a alimentação saudável e portanto eu diria que precisamos nos preocupar também com isso, não só o que levamos para o nosso dia-a-dia mas de que maneira é que levamos.
1:01:39 Muito bem. Filipa, alguma nota final? Não, penso que não. Penso que abordámos o mais importante. Muito bem. Ana e Filipa, alguma nota final? Não, penso que não. Penso que abordámos o mais importante. Muito bem. Ana e Filipa, foi uma honra e um privilégio ter-vos aqui. Muito obrigado pela vossa ajuda. Quando tiver dúvidas, vou chatear também. Com certeza, Nuno. Muito obrigada também. Muito obrigada. Obrigada pelo convite. Bom resto de domingo.
1:02:04 Obrigada igualmente.