Dicionário das Crianças · Episódio 5
30 Milhões de Palavras — Cátia Severino
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Quantas palavras ouve um bebé até aos três anos? A diferença entre famílias pode chegar às 30 milhões — e é esse fosso, identificado pela investigação americana e popularizado pela iniciativa 30 Million Words, que dá o título a este episódio do Dicionário das Crianças. Nuno Simões conversa com Cátia Severino, investigadora do Lisbon Baby Lab, sediado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, sobre a forma como os bebés adquirem a linguagem muito antes de dizerem a primeira palavra.
Cátia Severino estuda bebés a partir dos 4 ou 5 meses, precisamente porque a compreensão da linguagem se desenvolve muito antes da produção. Quanto mais cedo se sinaliza um desvio no desenvolvimento, mais eficaz é a intervenção — e é por isso que o Baby Lab tem criado instrumentos de avaliação pensados de raiz para o português europeu, como a adaptação do questionário CDI, validada em todo o país, em vez de meras traduções do inglês.
A conversa desfaz alguns preconceitos comuns. Falar "à bebé", com ritmo mais lento e melodia exagerada, não é infantilizar: é uma estratégia natural que ajuda o cérebro a segmentar o contínuo sonoro em palavras. E a linguagem não vive isolada — o desenvolvimento motor, a música e a interação afetiva alimentam a mesma necessidade comunicativa.
Para os pais, ficam os 3Ts da abordagem de Chicago: Tune In, sincronizar com a criança e segui-la com escuta ativa; Talk More, falar mais e ler histórias variadas; Take Turns, falar à vez, respeitando silêncios e esperando resposta. Ferramentas simples, ao alcance de qualquer família, que nutrem a linguagem — a base de tantas outras aprendizagens.
Há ainda uma visita fascinante aos bastidores do laboratório — as toucas de eletroencefalograma que parecem equipamento de polo aquático, o eye tracking que segue o olhar dos bebés — e reflexões sobre genética, autismo e dislexia. Anos depois da gravação, feita durante o confinamento, o essencial mantém-se atual: conversar com um bebé, desde o primeiro dia, é o investimento mais barato e mais poderoso no seu futuro.
Neste episódio
- 01:33 O que é o Lisbon Baby Lab e porque se estudam bebés dos 4 meses
- 09:17 O vocabulário como referente do desenvolvimento da linguagem
- 14:18 Falar "à bebé": o preconceito e a ciência do manhês
- 17:14 Pergunta de ouvinte: linguagem e desenvolvimento motor
- 23:22 O fosso das 30 milhões de palavras e o papel dos pais
- 26:27 Adaptar o questionário CDI ao português europeu
- 30:38 Os 3Ts: Tune In, Talk More, Take Turns
- 32:40 Eye tracking e toucas de EEG: como se estuda o cérebro dos bebés
- 40:59 Segmentação: como o bebé descobre onde começam as palavras
- 56:37 Conselho final: parar, pousar o telefone e usufruir da criança
Marcos e Design de Sessões
Os marcos do desenvolvimento e como desenhar sessões à volta deles.
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0:00 Uma conversa semanal com especialistas sobre o dia-a-dia da parentalidade e do desenvolvimento da primeira infância para pais, avós e educadores de crianças do 0 aos 5 anos. O conteúdo deste programa é meramente informativo. Independentemente das opiniões expressas pelos nossos convidados, deverá sempre consultar o seu médico, terapeuta ou pediatra. Bom dia. Olá, Cátia, tudo bem? Boa tarde Obrigado por ter aceito o convite Eu é que agradeço imenso, é um prazer estar aqui convosco e poder partilhar um pouco da minha experiência e de alguns dos meus pequenos conhecimentos, digo pequenos no oceano, que é o universo do desenvolvimento da linguagem dos bebés e das crianças.
0:57 E é um prazer imenso estar aqui nesta conversa. Ótimo. Cátia, nós temos imenso para falar. Eu hoje estive a ouvir alguns podcasts sobre esta área e fiquei ainda mais fascinado do que eu já estava. Eu ia começar só por lhe pedir que se apresentasse muito brevemente e nos falasse um bocadinho sobre a sua investigação e sobre o BabyLab, que é fascinante em todos os seus termos, mas lhe pedir que fosse concisa porque depois temos um mundo de assuntos para debater e que eu tenho perguntas para lhes fazer que eu acho que vão ser muito giras para a nossa audiência Com certeza, então eu trabalho como investigadora no Lisbon Baby Lab que está sediado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa o Lisbon Baby Lab é um laboratório que tem como enfoque o seu trabalho, o trabalho de investigação, em aquisição da linguagem com bebés e crianças.
1:52 Na sua fundação tem por base duas ideias fundamentais, assim resolvendo para os pais, que foi responder a duas questões que faltavam responder na área da investigação. Por um lado, é termos a investigação focada nas primeiras etapas do desenvolvimento da linguagem, um bocadinho aquela ideia que os pais têm que as crianças, a linguagem associa-se muito a quando as crianças começam a falar, quando os pais se perguntam se tem algum atraso da linguagem, se está tudo bem em termos de linguagem, normalmente se espera ali pelos dois anos e meio, três, para perceber se as crianças estão com o desenvolvimento expectado em termos de linguagem.
2:37 E aquilo que nós sabemos é que as crianças, muito antes de começarem a falar, elas têm todo o seu desenvolvimento de linguagem, mas é da parte da compreensão. Essa é uma área de investigação que é muito mais recente, porque se esperava que as crianças começassem a falar para então saber o que é que elas saberiam em termos de linguagem, e foi necessário haver algum desenvolvimento tecnológico para que pudéssemos ir um pouco mais à frente na investigação da compreensão.
3:08 E daí nós começamos a estudá-las a partir dos 4 ou 5 meses e fazemos o acompanhamento até elas atingirem a produção, exatamente para perceber quais são as etapas pelas quais elas passam no seu processo de aquisição da linguagem, no seu processo de aquisição da linguagem, para que esse é o objetivo último, saber, termos o conhecimento para termos esse acompanhamento o mais cedo possível, porque sabemos nos dias de hoje que quanto mais cedo nós fazemos a sinalização de algum desvio no seu desenvolvimento e quanto mais cedo foi feita a intervenção, mais eficaz ela se torna.
3:44 E depois também a outra resposta que nós queríamos dar dentro desta área, é termos a investigação e temos a produção de materiais focalizados para as crianças que estão no processo de aquisição da linguagem, mas neste caso específico é da língua portuguesa. Nós sabemos que as línguas têm processos de desenvolvimento que são diferenciados e havia, ou ainda continua a haver, uma tradição de muitos dos materiais que são utilizados para a avaliação do desenvolvimento da linguagem, acabam por ser materiais que são literalmente traduções de outras línguas, maioritariamente do inglês, ou então, quando existem, alguns fazem uma tradução aproximada do espanhol, quando existem materiais já produzidos para a língua espanhola.
4:33 Uma vez que as línguas se processam de formas diferentes e as suas propriedades, algumas têm semelhanças, mas também têm as suas divergências, o que pode, muitas vezes, ser expectável numa etapa de desenvolvimento para uma determinada língua, pode não ser aplicável para uma outra língua. Por isso é importante também sabermos quais são estas propriedades por um lado e saber então dentro das propriedades da língua quais são as pistas que as crianças utilizam no seu processo de aquisição e que etapas que elas utilizam para chegarmos àquilo que é o expectável, que é a fala do adulto, e aquilo que nós consideramos que é um desenvolvimento normal ou expectável da linguagem.
5:12 E é isto. Ok. O que mais me fascinou, portanto eu sou um moleque nesta matéria, não tenho formação específica nesta área, nem na pedagogia, nem na saúde, mas o que mais me tocou foi que nós pensamos com palavras, portanto esta realização de que o nosso pensamento estabelece-se com pequenos vocábulos, portanto vamos imaginar que as palavras são o nosso alfabeto e quanto mais rico for o nosso alfabeto, mais complexas podem ser as palavras e os parágrafos que nós conseguimos construir ou até entender e, portanto, a importância da acessão da linguagem baseia-se muito nisto, não é? Portanto estamos aqui a falar dos pilares da aprendizagem, dos pilares da compreensão, portanto a importância disto é desta monta, e portanto eu pedi à Cátia que se pudesse expandir um bocadinho nos fundamentos, lá está, dos pilares da acessão da linguagem e quão críticos são no desenvolvimento da aprendizagem humana, eu penso que isso pode tocar, se calhar, um conjunto de famílias e espalhar aqui um bocadinho esta palavra e esta ideia que se calhar não é universal ainda.
6:15 Bem, isto é um tema que temos que ir um bocadinho passo a passo para esclarecer. É óbvio que quer nos materiais que são muitas vezes utilizados para a avaliação da linguagem e quer muitos dos estudos que são feitos usam a palavra como referente para a avaliação desse desenvolv universo da linguagem, ou seja, o vocabulário, o número de palavras que a criança é capaz de produzir, é uma parte da linguagem, não é? Porque ela se enquadra num universo muito mais complexo que é a linguagem, não é? Tem a parte da sintática, tem a parte da semântica, tem a parte da fonologia, da própria fonética, da língua, não é?
7:11 Então, as palavras, na verdade, elas acabam por ser um bom referente do desenvolvimento, não é? Usamos aquilo como referente para extrapolar para todo o outro universo. Mas nós sabemos, por exemplo, em casos, em situações de perturbação do desenvolvimento da linguagem, de crianças que têm um vocabulário riquíssimo, ou seja, em número de palavras que elas são capazes de utilizar, mas depois sua construção frásica, a sintaxe da frase, não é a que é expectável.
7:51 Por isso, há aqui um duplo sentido. Por um lado, ele é um bom referente, porque esperamos que se a criança tem muito vocabulário, é expectável que ela o utilize no seu devido contexto e com o seu devido significado, mas também pode acontecer o outro lado, não é? Por isso, quando nós falamos aqui no enriquecimento de palavras, temos que pensar que também temos estes dois lados. sendo ele um referente quanto mais rico ele for maior ou mais complexo será o universo da linguagem de qualquer ser independentemente de ser criança ou de ser adulto Ok e portanto esta ideia de que nós pensamos com palavras como é que poderíamos enriquecer além de palavras obviamente que há conce mais abstratos, mas eles não têm que se basear em alguma forma de entendimento, quer dizer, nós quando estamos a pensar dentro de nós, quão importante é realmente termos uma palavra e de que forma é que às vezes uma palavra nova expande a nossa compreensão de um determinado assunto? Vocês têm isso estudado?
9:01 um determinado assunto. Vocês têm isso estudado? Sim, no sentido em que nós, uma das avaliações também que nós fazemos, um dos instrumentos que nós desenvolvemos, por exemplo, foi o questionário do CDI, em que nós monitorizamos o desenvolvimento lexical, o desenvolvimento do vocabulário, ele vai-nos mostrando também as próprias etapas de complexidade, não é? Vai do início. Nós sabemos que as primeiras produções das crianças focalizam-se nas palavras, não é? Ou seja, nos nomes.
9:40 E depois, quando nós começamos a observar a emergência de outras palavras, por exemplo, que têm categoria de verbo, não é? Então já temos aqui um sinal de desenvolvimento mais complexo em termos sintáticos. E daí por diante, quando sobre isso adicionam-se os adjetivos e depois mais à frente, numa fase mais tardia, as adverbios, não é? e depois mais à frente, numa fase mais tardia, a diferença de verbos, não é?
10:06 Ou seja, as palavras e as categorias das palavras nos mostram a complexidade do universo em que elas estão a fazer desenvolvimento, não é? Claro que se nós tivermos uma criança que tem palavras, mas elas focalizam-se muito ainda no universo só dos nomes, e não temos produção de verbos, não temos produção de adjetivos, isto já nos é um sinal que nas outras áreas da linguagem há aqui uma situação que tem de ser observada.
10:28 Por isso, este enriquecimento de vocabulário e de palavras, quando pensamos neste enriquecimento, é em todas as categorias das palavras que são existentes, porque elas sim são os verdadeiros marcadores destas pistas de desenvolvimento. marcadores destas pistas de desenvolvimento. Se isto é importante, é extremamente importante este enriquecimento, uma vez que quanto mais estímulo for dado e quanto mais exposição e quanto mais vemos que o seu eco de construção de estruturas cada vez mais complexas, a sua ramificação, acaba por ser cada vez maior.
11:13 Por isso é extremamente importante existir este estímulo. E para este estímulo o papel dos pais é fundamental, não é? Não só pela, aquilo que se defende que é a biologia da linguagem, aquilo que ainda nós temos como fundador desta competência que nós, enquanto espécies, desenvolvemos para satisfazer uma necessidade comunicativa. E o papel dos pais em termos de socialização, tendo em conta a proximidade que têm com o bebê e com a criança e a sua relação de afetos, de cuidado e do lado social mais estreito, eles são, sim, eu diria, a primeira linha para a satisfação desta necessidade comunicativa, que linguagem acaba por ser isso, necessidade comunicativa.
12:13 Ok. Eu tenho aqui uma mão cheia de perguntas sobre esse papel dos pais, um bocadinho mais à frente. Eu era a lhe perguntar, o que é que nós sabemos neste momento sobre os pilares da aquisição da linguagem? Já sabemos quais são os precursores da aquisição da linguagem? Já sabemos quais são os precursores da aquisição da linguagem? Se tivéssemos que desconstruir há barreiras ou há atalhos que podemos passar aos pais para identificar como facilitar a aquisição da linguagem de um bebê ou é algo que se calhar ainda muito desconhecido, muito dentro do cérebro e ainda não sabemos o suficiente?
12:49 Posso fazer o meu comentário pessoal, não querendo estar aqui e entrar numa área demasiado especializada, e tornar a linguagem um bocado complexa. complexa. A percepção que eu vou tendo da minha experiência é que eu acho que neste momento aquilo que mais poderá afetar o desenvolvimento da linguagem das crianças também tem uma forte componente social, a forma como nós, enquanto sociedade, nos organizamos. O facto de o tempo com os quais nós passamos com as nossas crianças, em que esta possibilidade de interação com os pais que as crianças têm, acaba por ser bastante limitada, e muitas vezes passamos menos tempo com as crianças, vamos para casa e ainda estamos ocupados com as coisas a fazer, e este trabalho de interação que é fundamental para o desenvolvimento que a criança o faz, acaba por ser, esta estimulação extra que a criança tem, acaba por ser um estímulo bastante reduzido daquilo que naturalmente é expectável, não é?
14:07 Muitos dos resultados nos vão refletindo, algumas coisas vamos atestando depois com a investigação, que é algo que naturalmente os próprios pais, na sua interação natural com as crianças, acabam por fazer, não é? Quando falamos com uma criança, falamos de uma forma mais lenta, aquilo que muitas vezes as pessoas têm um pequenino preconceito, que é falar à bebê. O falar à bebê, que nós já verificamos com trabalhos que outros colegas também já desenvolveram quando foram analisar as produções quando o adulto fala com o adulto e o adulto fala com o bebê uma criança a conclusão geral é que o adulto fala igual como se falasse com outro adulto a única coisa que faz é que salienta tudo, amplia não é? Ou seja, nós as palavras por exemplo as sílabas tónicas que são a sílaba mais alongada dentro de uma palavra o que nós fazemos é nós esticamos e abrimos tudo, ou seja as durações são exatamente as mesmas e está tudo no mesmo sítio. Em termos de frequência e de intuação aquilo que nós fazemos é igual quando nós falamos do adulto, só que fazemos tudo muito mais lato.
15:11 Basicamente aquilo que nós fazemos é, nós tornamos tudo muito mais saliente. E conforme as crianças vão crescendo, nós vamos adaptando cada vez mais, ou seja, naturalmente nós o fazemos. O que a ciência vem fazer é exatamente atestar isso e chamar a atenção para a importância que essas interações têm. E aqui estes conselhos que muitas vezes os pais vão tendo de quem está na área da intervenção e quem está mais na área da saúde por exemplo, a relevância de se fazer leituras com as crianças é exatamente usarmos aqui, e essa leitura que eu faço é exatamente usarmos estratégias de contornarmos um bocado o que a sociedade nos tira nesta nossa interação, no caso dos afazeres que nós temos, e nem que seja por 10 ou 15 minutos, estarmos ali forçosamente focalizados naquela tarefa de interação que é fundamental para o seu desenvolvimento.
16:17 E é um universo fantástico este desenvolvimento da linguagem e eu, no meu trabalho, sinto-me uma privilegiada porque muitas vezes me apercebo de coisas que as crianças fazem e o que os pais não se usam fazer porque pegam na fralda, pegam no saco e agora tem que fazer aqui, já estão a planear a seguir, já me aconteceu por várias vezes, eu perceber que a criança já dizia, por exemplo, mamãe e a mamãe estava à espera, ainda não diz mamãe? Não, não diz e eu, não, mas eu acabei de gravar ela disse nesta sessão, disse pelo menos umas 20 vezes chamou mamão e a mãe ainda não tinha percebido de mandar a gravação e ela mostrou à família toda porque nem se tinha percebido, ou seja mas elas são são acho que o corpo humano e o cérebro humano e o universo são linguagem é engenharia tecnológica de ponta, que nós andamos aqui a trabalhar com máquinas, mas a natureza já sai de carregar esse trabalho.
17:12 Claro. Ó Cátia, nós temos aqui uma ouvinte, a Sofia Vilar, que é psicomotricista e que nos pergunta como é que o desenvolvimento do processo de comunicação estará ali relacionado com o desenvolvimento do processo de comunicação estará ali relacionado com o desenvolvimento motor? Eu percebo que isto possa fazer sentido de várias maneiras, não sei se quer falar um bocadinho sobre isto. É muito interessante esta pergunta e o próprio trabalho de investigação reflete esta evolução no sentido em que quando se inicia o trabalho de investigação começa sempre por algum ponto e normalmente começa-se por um ponto isolado quem trabalhou na parte da linguagem ficou muito preocupado em descrever as etapas da linguagem quem trabalhava na parte da motricidade ficou muito preocupado em descrever as etapas do linguagem, que eu trabalhava na parte da motricidade, fico muito preocupada em descrever as etapas do desenvolvimento motor e felizmente com as pecinhas do puzzle que nós vamos montando que é assim que eu vejo o trabalho de investigação são pecinhas do puzzle que nós montamos chegamos a um ponto em que nos é possível juntar peças, não é?
18:26 E o trabalho de correlação entre o desenvolvimento da linguagem e a parte motora é uma área que eu considero que é extremamente interessante e tem mostrado resultados muito interessantes e que mostra exatamente esta correlação. Não é de todo descabido se pensarmos a linguagem enquanto necessidade comunicativa, não é? Se nós alargarmos o universo, o espaço em que nós temos a nossa necessidade comunicativa correspondida, não é? Imaginemos que o nosso universo é o quarto, não é?
19:08 Então, nós desenvolveremos vocabulário, não é? Ou desenvolveremos a nossa necessidade comunicativa para o espaço do quarto. Se do quarto alargarmos para a cozinha, não é? Temos um todo outro universo, se precisamos de usar a comunicação para o descrever, para falar sobre ele, para aquele contexto específico. No desenvolvimento da motricidade, aquilo que nós vamos observando, correlacionando com este desenvolvimento da linguagem, é exatamente este abrir cada vez mais de horizonte, vamos, cada vez mais abrir a novos passos.
19:44 Isto, em termos de desenvolvimento motor, reflete exatamente isso. É a criança que está, passa deitada no berço, faz a sua interação no berço ou na alcofa e depois, quando ela começa a gatilhar, começa a andar pelo espaço e depois começa cada vez mais a ir para a rua e essa sua própria exploração do espaço que o desenvolvimento de motor lhe proporciona também ele cada vez mais enriquece o seu vocabulário e o seu desenvolvimento da linguagem, não é? E daí também a importância das crianças brincarem, porque brincar é exatamente isso, é explorar, fazer essa exploração do espaço.
20:30 E quando temos, aquilo que por outro lado também vemos, quando temos crianças com preservações do desenvolvimento motor, também temos parte da sua linguagem afetada, daí a importância do trabalho motor e esperemos que cada vez mais este trabalho conjunto das diferentes áreas seja feito, porque aquilo que nós vamos vendo é que não são áreas isoladas, são exatamente áreas que funcionam em conjunto e estão correlacionadas. Eu ia por aí mesmo, quer dizer, nós temos claramente um alfabeto de palavras, temos um alfabeto de movimentos, temos um alfabeto de emoções, estas coisas estão todas interligadas.
21:08 Quão longe é que nós estamos na investigação a casar estes vários alfabetos, o alfabeto das artes e da expressão artística, musical ou visual? Temos algum estudo que esteja a integrar todos estes desenvolvimentos em paralelo? Todos não. Vamos tendo alguns trabalhos que, por exemplo, recordo temos uma investigadora da Universidade de Aveiro que fez um trabalho conosco que é uma tese de doutoramento que ali exatamente foi observar a importância das aulas de música no pré-escolar para depois vermos a sua evolução no sucesso escolar, não é?
21:58 E comparou dois grupos o grupo que fez tinha a atividade os trabalhos manuais, não é? E os outros de trabalho musical. Ou seja, ainda vamos fazendo só par e par, não é? São áreas complexas, também há aqui várias questões de projetos e desenvolvimento de projetos e trabalhos conjuntos, mas eles vão sendo a par e par e é um processo bastante lento, infelizmente não é tão célebre quanto gostaríamos de o ter e o trabalho de investigação em Portugal também ainda conta muito com o voluntariado dos pais, ao contrário que noutros países também já as etapas que hoje estão em termos de investigação nestas áreas estão um pouco mais à frente, nós já estamos numa fase inicial já vem havendo algumas coisas salpicadas, mas ainda no seu todo, não estou a falar só no caso no contexto português, mas mesmo a nível internacional, isto são áreas que começam agora a fazer esse casamento, e também depois quem está na sua área o grau de importância que vê neste trabalho ou se continuam focalizados só na sua área ou começaram a fazer este trabalho, só isso, são outras sub-áreas de investigação e vamos tendo algumas coisas, mas ainda há muito trabalho para ser feito.
23:20 Claro. Oh, Cátia, eu decidi chamar este podcast 30 milhões de palavras por causa de um estudo, da iniciativa 30 milhões de palavras, o gap das 30 milhões de palavras que se verificou numa investigação já nos anos 60 originalmente e que agora está um bocadinho mais na moda e a ser desenvolvido por uma cirurgiã que colocava aqueles implantes cerebrais para crianças que não ouviam, ela percebeu-se que mesmo depois do implante havia crianças que tinham uma performance muito superior às outras e acabou por identificar realmente uma riqueza de discurso muito maior numas famílias do que nas outras, em alguns casos havia uma correlação com o estatuto socioeconómico, noutros não necessariamente, mas pronto, realmente às vezes o sucesso profissional e muitas vezes pessoal, acredita-se que seja relacionado com a nutrição, lá está da linguagem, desde uma etapa muito precoce. E portanto, a minha pergunta aqui era muito, qual é realmente o papel dos pais, dos professores, do ambiente social, dos amigos, no desenvolvimento, e de que forma é que nós podemos realmente começar a piratear um bocadinho isto e antecipar-nos às necessidades das crianças e, de certa forma, universalizar ou democratizar o acesso às palavras desde uma altura muito mais precoce, não é?
24:43 de uma altura muito mais precoce, não é? Sim, hoje em dia está mais do que confirmado, até porque nós vamos vendo de uma forma mais explícita ou mesmo não explícita, por exemplo, os relatórios da OCDE, que faz a avaliação do sucesso escolar de vários países, não é? E tem parâmetros de avaliação do sucesso escolar. E aquilo que observa que as crianças com o menor sucesso escolar, de facto, são as crianças que têm o seu contexto socioeconómico mais baixo e mais afetado, não é?
25:22 E isto é reflexo também no seu próprio enriquecimento da linguagem. Se pensarmos, de facto, o nível das autorizações literárias dos pais tem um fator de impacto. Se pensarmos também a disponibilidade que os pais têm de uma classe social menos favorecida têm de estar com os seus filhos o acesso à informação, o acesso a todo o contexto a toda a linguagem de facto tem as suas consequências e isso estará mais atestado infelizmente para os estudos da linguagem em Portugal temos essa noção mas ainda não conseguimos de facto verificar qual é o grau que é o teste nós temos referências de outros países mas no teste, por exemplo, eu contive a experiência de fazer o levantamento para a aferição do questionário da CDI e acho que é dos trabalhos nos quais eu participei, nos quais eu acredito mesmo, porque foi uma ferramenta que apesar de sua origem ser norte-americana, ele já está implementado, já foi adaptado para mais de 140 línguas.
26:51 Nós fizemos a adaptação para o português europeu e quando nós falamos de adaptação é usamos o instrumento, mas as palavras que lá estão, exatamente médio desenvolvimento do vocabulário, as palavras que lá estão são palavras que foram selecionadas tendo em conta o desenvolvimento da linguagem do português europeu, não é? Nós utilizamos dados de interação, de produção de adulto para adulto, de adulto para criança também e os dados do desenvolvimento da linguagem das crianças, ou seja, quais são as palavras que emergem primeiro, quais são as palavras que emergem mais tarde e com isto, tendo em conta as palavras que lá estão, a estrutura das palavras que lá estão, nós conseguimos identificar os períodos do desenvolvimento das linguagens, não é? E depois, para além de questionar esta ferramenta, foi necessário então fazer a validação da ferramenta onde nós aplicamos o questionário em todo o território nacional, Portugal continental e também nos arquipélagos, e testámos zonas urbanas e zonas rurais também, exatamente para certificarmos que o instrumento, independentemente da variante dialectal da região do país e do extrato socioeconómico, ele funcionaria exatamente da mesma forma, porque a ideia é exatamente, temos aqui um instrumento de avaliação de desenvolvimento de vocabulário.
28:22 Falando, isto eu estou a explicar só para dar um exemplo deste trabalho que nós desenvolvemos. Quando chegou, um dos itens que lá estava era pedido, por exemplo, a identificação das habilitações literárias dos pais e a profissão exercida. profissão exercida. Esta parte não nos foi possível, o que nos daria um bom indicador para fazermos uma correlação com o desenvolvimento ou com o estado socioeconómico dos pais em termos de desenvolvimento da linguagem das crianças. Infelizmente isto não nos foi possível porque aquilo que nós observamos as respostas ou o acesso às crianças e aos pais foi desmeditariamente facultado por infantários de instituições privadas, em que o contato direto com a direção era muito mais fácil para depois termos contato com os pais e aquilo que nós observamos, de facto, é que as crianças de um estado social mais baixo ou estão em instituições públicas, como a Santa Casa ou outras instituições, ou estão em infantais que pertencem ao Estado.
29:38 A burocracia para se chegar a essas populações é muito maior. Aquilo que nós fomos observar é que, de facto, nos nossos dados, a maior parte dos pais estavam num estado socioeconómico médio-médio-alto, ou seja, aquelas que nos interessaria depois ter como comparativo e vermos quais eram os efeitos, não os teríamos. Ou seja, também acho que aqui perdemos uma oportunidade de fazer esta avaliação, mas nós já vamos tendo isto como referência até noutras áreas que fazem estudos sobre o sucesso escolar em Portugal e o impacto que isso tem.
30:13 Se calhar devaguei-me aqui um bocadinho na conversa. Foi ótimo e eu estava aqui a pensar. A abordagem da Universidade de Chicago está realmente a pioneira neste tipo de estudos, que é também uma abordagem que o Gymboree adota, porque o Gymboree e o Emory Cunningham destas fontes, é a abordagem dos 3Ts, portanto do ponto de vista da intervenção dos pais, ou como é que nós podemos educar os pais a ajudar as crianças eles usam os 3Ts Tune In, Talk More e Take Turns, portanto sincronizar-nos com a criança, ouvi-la melhor falar mais e depois aproveitar um bocadinho Talk more and take turns. Portanto, sincronizar-nos com a criança, ouvi-la melhor, falar mais e depois aproveitar um bocadinho a bilateralidade e, portanto, falar com eles e esperar que eles falem de volta.
30:52 Exatamente. E costuma ser uma abordagem com sucesso. Eu estava aqui a pensar, qual é o papel da genética em toda esta questão da linguagem? É estudada também? A genética é estudada, é uma área também que é estudada também? A genética é estudada, é uma área também que é estudada e esse então é assim o universo mais recente não é? Havia aqui pistas para para algumas questões de linguagem a identificação do genoma ou do gene da linguagem mas a própria genética sendo ela uma área tão recente nos estudos aquilo é, quanto mais se sabe menos se sabe, por isso é tudo uma área muito nova e sim há quem esteja a estudar essa área, mas é uma área toda nova. Sabemos sim que há alterações genéticas que podem afetar a linguagem, por exemplo, quando nós temos uma perturbação genética, como é no caso de esse dia 21, uma perturbação genética, como é no caso desse 2021, sabemos que teremos sim uma perturbação da linguagem, mas exatamente identificar qual é a parte do gene que causa esta perturbação ou qual é a sua relação com os outros genes que poderão ser a causa desta perturbação é ainda toda ela uma área muito recente mas sim mas também tá a ser trabalhada por outros o máximo o cateto eu tenho um filho lá no baby levesse acompanhado por vocês há algum tempo e eu acho fascinante aqueles aqueles capacetes aqueles sensores que vocês usam imagino também fazem a façaam eye tracking, tentem acompanhar por onde é que eles olham, eventualmente as reações quando eles escutam.
32:49 Podem-nos falar um bocadinho sobre essa investigação, o que é que vocês esperam descobrir no curto, no médio e no longo prazo, porque eu acho que isso é fascinante para toda a gente. Obrigada pelo elogio. Eu também acho fascinante. Obrigada pelo elogio. Eu também acho fascinante. Sim, lá está. Como eu falei na minha apresentação inicial, foi necessário haver algum desenvolvimento tecnológico para irmos um pouco mais além num estudo da percepção da linguagem.
33:20 Exato. Os primeiros trabalhos de estudo da compreensão da linguagem eram feitos com base, nós chamamos de estudos bioculturistas, como fazemos aquele do jogo de louros ou medimos a atenção a diferentes estímulos sonoros, esses foram os primeiros paradigmas utilizados e hoje em dia aquilo que nós fazemos é fazemos combinação de diferentes paradigmas experimentais, porque exatamente sabemos que diferentes paradigmas experimentais nos dão diferentes resultados por isso nós trabalhamos em várias frentes e depois correlacionamos os resultados para perceber qual é o qual é então o identificador ou marcador que nós queremos identificar de desenvolvimento e destes dois equipamentos que nos permitem chegar um bocadinho mais além da parte comportamental, da observação comportamental, é, por um lado, um eye tracking, que nós sabemos que o olhar, dizemos que o olhar é uma janela para o cérebro, não é? Porque não é controlado e dá-nos uma reação muito mais próxima, tendo em conta as latências de reação daquilo que vai desde o comando que o cérebro nos dá até nós fazermos a ação, nós temos latências, não é?
34:59 E essas latências estão medidas, quer para o adulto, quer para a criança, então se nós medimos essa latência, sabemos quanto tempo nós vamos esperar dessa reação. O eye tracking nos dá uma reação, um olhar, uma vez também tem uma proximidade ao cérebro muito maior, dá-nos essa proximidade, essa latência cada vez é mais reduzida e é mais reduzida de todas, que é praticamente nós temos uma resposta ou temos uma leitura da resposta neuronal o mais imediato, é exatamente o eletroencefalograma que hoje também é aplicado na área de investigação.
35:34 É aplicado de uma forma diferente da clínica, não é? A clínica é o que nós chamamos um eletroencefalograma aberto, em que deixa-se correr e vai-se vendo quais são as variações da onda ali o que nós falamos do eletroencefalograma fechado é nós definimos no eletroencefalograma vamos definindo as janelas que são as janelas no local onde estão dados os tíbulos e depois comparamos as ondas mas naquele local específico e vemos que reações respostas neuronais é que nós temos ali.
36:08 E estes são dois dos equipamentos que nós utilizamos aqui, não é? Há outros países e também algumas faculdades nossas não estão aplicadas na área em que nós utilizamos. Utilizam a ressonância magnética também para os estudos da linguagem, essa é outra metodologia utilizada, mas aqui é tremendamente custosa, não é? E não temos ressonâncias magnéticas assim para o fazer. Há uns anos atrás tive alguma formação na faculdade de psicologia que tínhamos lá algumas pessoas a fazer estudos com a ressonância magnética julgarem adultos sim, eram com adultos e na altura diriam que o custo de cada sessão estaria à volta dos 550, 600 euros por sujeito, isso é incomportável ainda para nós, ainda é bastante incomportável, mas pronto, no caso do eye tracking e do estercefalograma, muitas vezes explico aos pais o eye tracking o sistema que existia anteriormente e que é já utilizado a adulto há várias décadas é muito parecida ao do dos consultores do oftalmologista tinha os por o queixo e ficar com os olhos abertos e tem pensado aplicarmos isso com bebê de 4 a 5 meses não é e o eletroencefalograma eu hoje em dia que trabalho com eletroencefalograma fica admiradíssima quando vejo os primeiros estudos que é o eletroencefalograma porque aquilo era uma verdadeira tortura tinha-se inclusive a rapar um bocadinho o cabelo para colar elétrico e elétrico, tinham de ser aplicados com uma fita métrica e fazer todas as medições e hoje em dia eu brinco um bocadinho e digo que os meninos vão jogar polo aquático que são as toucas, são literalmente umas touquinhas, não é?
38:03 como se estivéssemos a pegar as toucas de inverno para tapar as olhinhas e que põem as tocas e os elétrons já estão lá prontos, todos. Os anteriores eram muito à base de gel e que aqui eu ficava colado, era uma coisa pequenina. E este, já pensados também para a área de investigação com bebés e crianças, já usa uma solução salina. Nós preparamos laboratório que é água destilada com um pozinho de solução salina e uma gota de shampoo neutro, que é o shampoo de bebê e fazemos uma emoção e aquilo é imediato e os bebês até podem ficar a dormir tranquilos e faz a tarefa e não nos perturbam nada e é excelente e isso perdemos um bocadinho que ele faz a tarefa e não lhes perturbou nada e é excelente.
38:48 E isto perdido um bocadinho. E depois era tipo, que resultados é que estavam à procura? O que é que podemos esperar disto no curto, médio e longo prazo? Pronto, de facto os trabalhos experimentais e fazemos o estudo com bebés e crianças e pessoalmente no contexto em que nós temos no Sinal, da forma como a investigação é feita nós dependemos imenso de pais como ao Nuno, para nós termos então, o que eu digo os bebés a virem-nos ensinar o que é que é a linguagem nós andamos aqui a tirar doutoramentos mas são eles que nos mostram o que é que fazem por isso eu brinco um bocadinho que eles é que nos ensinam e o que torna bastante, não é? Por isso eu brinco um bocadinho que eles é que nos ensinam.
39:28 E o que torna bastante moroso, mas faz parte assim, não é? Ao contrário do adulto, em que nós dizemos, olha, vai fazer determinada tarefa e vai ter que ficar focalizado, as crianças nós dependemos muito da disposição com as quais elas estão para participar nos estudos. E aquilo que nós procuramos é exatamente isso, é, como eu disse no início, é, por um lado, fazermos o descritivo das etapas de desenvolvimento da linguagem, numa fase muito inicial, muito antes da parte verbal, ou seja, na fase pré-verbal, e começamos a utilizar, então, a emergência da parte verbal, e começarmos a utilizar então a emergência da parte verbal, percebermos o que é que está na origem da emergência da parte verbal e depois como é que a parte verbal se desenvolve e que competências é que eles têm que desenvolver para chegar a determinadas etapas.
40:19 Hoje em dia já vamos vendo que o desenvolvimento da linguagem é o que nós chamamos por unfolding, não é? Que é necessário adquirir determinada competência, não é? E as competências não é... Quando eu falo de competências, competências não é só... Competências para chegar à linguagem, não é só competências para chegar à linguagem eu poderia dizer por exemplo a importância de que nós falamos por exemplo numa fase muito inicial, que isto é um dos trabalhos que nós já temos feito ali já temos identificado, que é a competência de segmentação de palavras, é uma tarefa das que nós fizemos no início e a competência de segmentação, eu costumo dar um exemplo aos pais, que é muito semelhante, imaginemos que vamos viajar para um país em que nunca ouv conseguimos identificar ouvimos aquela modulação e modulação de sons mas nós não conseguimos identificar onde é que está a palavra, o que é uma palavra, onde está o início e o fim, e aquilo que nós chamamos de competência de segmentação é a capacidade, por um lado que as crianças, ou começamos a ter o nosso cérebro começa a processar o padrão melódico e usa esse padrão melódico e usa esse padrão melódico e sonoro para começar a ver quais são as repetições desse padrão.
41:53 E isso depois faz o corte. Esses padrões são as palavras, não é? Ou seja, é preciso fazer esse tuning, não é? Essa sincronização. E isso é o que nós chamamos de desenvolvimento de competência de palavras quando essa competência está desenvolvida ou seja, eles conseguem perceber qual é o padrão e conseguem perceber quais são as pistas que têm de seguir para fazer essa segmentação e lá está, essas pistas variam de língua para língua então eles adquirem a competência de segmentação e a partir daí, depois dessa competência desenvolvida eles são capazes de extrair palavras mesmo não sabendo o seu significado daí nós inicialmente começamos a ver aquelas reduplicações aquelas aproximações ao som que nós vamos produzindo e vamos depois a pouco e pouco identificando com palavras, ou seja aquilo que nós pretendemos aqui a curto prazo aquilo aquilo que eu puder dizer uma vez que o trabalho é longo, é fazermos então a identificação destas etapas, a curto prazo, se for dar, temos o máximo de material possível para nós então trabalhar sobre ele. Depois, a médio prazo é então cada vez mais com estados recolhidos, identificarmos quais são as etapas pelas quais eles, o desenvolvimento da linguagem tem que tentar. temos material que possamos disponibilizar para quem está na área da intervenção ter informação que consolide depois o seu trabalho, quer na construção de materiais de intervenção, quer para a otimização dessa intervenção.
43:39 Ok. Sim. Cátia, a Sofia Vilar volta a perguntar se há estudos neste caso para crianças com perturbações no espectro do autismo. Fazem parte do vosso grupo de estudo ou há equipas a estudar crianças com autismo com os capacetes ou com as toucas e com o eye tracking ou é uma coisa demasiado complexa, uma variável demasiado desconhecida para introduzir num estudo deste género? Não, a questão com as crianças do aspecto do autismo é que quando normalmente o diagnóstico é feito na fase dos dois anos e meio, três, exatamente é uma das perturbações do neurodesenvolvimento em que a linguagem é um marca identificador da perturbação, entre várias outras, mas a linguagem é uma das preocupações que levam os pais a recorrer depois à consulta e fazer uma avaliação como marcador de perturbações do neurodesenvolvimento.
44:52 Normalmente as crianças que estão diagnosticadas com o síndrome do espectro do autismo já estão numa faixa etária que não é aquela que nós especificamente nas Babylab trabalhamos. No entanto, nós temos alguns trabalhos, por exemplo, na área da produção do espectro do autismo, que foi desenvolvido pela doutora Cláudia Bandeira, que fez o doutoramento também em parte connosco e eu tive o prazer de trabalhar com ela e dar-lhe o apoio técnico para a recolha dos dados. Porque ela depois faz um trabalho comparativo das produções de desenvolvimento à linguagem de bebés e crianças com a linguagem e o desenvolvimento da linguagem com crianças do síndrome do espectro do autismo, na altura em que são diagnosticadas e depois ver qual foi a evolução delas com a intervenção.
45:50 Esta já é uma área que sai do nosso escopo, não sei se estará mais alguém a trabalhar essa área mais à frente neste momento, Mas aquilo que nós fazemos no laboratório é estudarmos um outro grupo, que são as crianças, que são irmãos mais novos de meninos diagnosticados com síndrome de espectro de autismo, exatamente para ver qual é a sua evolução e ver se existe aqui alguma correlação, naquilo que se aponta a ver uma correlação genética, do irmão mais não para os mais velhos.
46:28 Também não é uma área que é muito, muito ainda, com muita informação, porque ainda também dentro do síndrome do espectro do autismo, e quem está na área saberá falar melhor sobre isto, mas aquilo que me foi passado para quem está a trabalhar mais com esta população é que a cultura do filho único ainda se aplicava muito aos pais que têm filhos com síndrome do espectro do autismo.
47:00 Ainda havia muita ideia de que quem tinha um filho e diagnosticado com o síndrome do espectro de autismo era recomendado, até muito recentemente, não é? Era recomendado que não se tivessem mais filhos. Hoje em dia já existe um trabalho para quem está nessa área de informação que uma coisa não estará relacionada com a outra e não significa depois que um filho posteriormente também venha a sofrer da mesma perturbação do desenvolvimento por isso também filhos mais novos ou irmãos mais novos de meninos e meninas diagnosticados com síndrome de espectro do autismo até socialmente acabam por só aparecer agora e o mesmo também acontecia por exemplo com outro grupo com os quais nós trabalhamos, com os meninos de 30 e 21, também havia esta ideia que depois daquilo os pais já não arriscavam mais, mas hoje em dia já se vai mudando aí bem e vamos verificando sim que já vão aparecendo os humanos mais novos destes meninos e meninas. Por isso, se alguém está a estudar, não sei, mas seria fundamental, até porque vamos vendo que os perfis de desenvolvimento são diferenciados e depois, especificamente no síndrome do espectro do autismo, é o próprio, lá está, é o espectro, não é? Ou seja, vai da perturbação mais profunda a mais ligeira e depois tens todas as suas comorbilidades, não é?
48:32 Pode ter uma perturbação com perturbação cognitiva, sem perturbação cognitiva ou seja, há aqui uma série de comorbilidades de combinações que depois afetam-nos de maneira diferente. Claro, claro. Cátia, sobre esta sua área da linguagem, recomendaria algum livro para os pais que nos estão a ouvir, há-se alguma obra ou algum filme que expanda o nosso conhecimento sobre isto e que seja relativamente acessível? Que seja, tipo, uns anos atrás de ter um doutoramento e vários cursos sobre estes temas?
49:14 Ah, isso é uma pergunta muito ingrata e quando eu lembro de coisas que são demasiado técnicas, aquilo é todo o universo. Mas eu tenho tido um feedback muito bom com esta série da Netflix, dos bebés que anda muito popular agora sobre os bebés é uma atualização na informação de outros documentários que nós já assistimos anteriormente que estão nesta área e eu acho que é uma boa janela para se começar a perceber o que é este universo a pouco e pouco e numa linguagem muito simples mas se tiver mais algumas sugestões eu tirei todo o gosto depois em mandar ao Nuno para divulgar, porque os que eu tenho, desculpe mas acho que são um bocadinho aborrecidos para quem não está na área Eu tenho um filho mais velho que foi diagnosticado com dislexia e houve um filme que me ajudou imenso chamado Like Stars on Earth, é um filme indiano e ajuda-nos de forma muito visual e com uma história a identificar os desafios de uma criança com dislexia, que imagino que seja toda uma nova conversa para um especialista A dislexia ela também o próprio consel? A dislexia ela também, ela própria o conceito de dislexia tem eu no tempo de experiência não é a minha área, não é?
50:34 Lá está, eu trabalho a parte inicial a identificação da dislexia tem uma relação depois com quando se introduz a parte escrita e ela própria aquilo que eu fui observ escrita e ela própria, aquilo que eu fui observando é que ela própria foi tendo evoluções no seu conceito, não é? Houve um conceito inicial do que é a dislexia ou já se tem uma visão diferente da dislexia. Eu não me esqueço de uma vez ter ido a uma conferência na Gulbenkian sobre linguagem e tínhamos lá o Lobo Antunes, o neurologista, não é?
51:13 O António Lobo Antunes, e ele dizia, em tom de brincadeira, mas abriu logo a conferência a falar sobre dislexia, dizia que dislexia só existia seis pessoas com dislexia em Portugal. O resto era tudo mal diagnosticado. Por isso, eu não poderei falar muito do que é a dislexia, como eu disse, não é exatamente a minha área, mas aquilo que eu tenho observado é que, de facto, o conceito de dislexia, o que é que se aplica ao conceito de dislexia, tem evoluído bastante. pai e tem as suas preocupações extremamente legítimas e fundamentadas, porque estamos a falar do bem-estar de quem está ao nosso cuidado, muitas vezes é desesperante, não é? Porque sentimos que andamos bastante no escuro, não é? Andamos aqui às apalpadelas à procura de informação e parece que nada corresponde exatamente ou responde às necessidades que têm.
52:12 Eu, da minha parte, estou na parte da investigação, eu percebo isso, e gostaríamos de dar respostas muito mais celas, mas, de facto, estamos a falar de questões que estão todas no seu início de estudo aquilo que nós sabemos hoje é diferente do que nós sabemos ontem e aquilo que nós vamos saber mais à frente nós sabemos que transforma aquilo que nós sabemos hoje isto é um processo de aprendizagem e estamos todos em aprendizagem se por um lado podemos achar que nem toda a gente nos está a dar as respostas devidas porque não nos informou bem, por outro também, não é?
52:51 Porque não tem tanto conhecimento, ou um conhecimento tão aprofundado de tudo, não é? Por outro lado também há coisas que ainda estão muitas para serem respondidas e isto é um universo que está eu diria na sua fase ainda de semente embrionária, principalmente em Portugal é todo o universo e no mundo inteiro é todo o universo de transformação e que eu poderei dar assim a percepção que eu tenho, parece que só agora construímos o foguete Para ir à lua, agora que temos todo o universo Para descobrir, estamos nessa fase Eu julgo que estamos nessa fase Agora construímos o foguete E estamos a começar a levantar a voo Estamos a começar a levantar a voo Mas espero que Que de facto Se olhe para a importância De todo este trabalho de estudo e de investigação, porque isto é que nos vai dar, sim, informação mais consolidada e que torne mais eficaz todo o trabalho e que esta atualização daquilo que já se vai sabendo em todas as áreas de intervenção é fundamental, por isso é um trabalho de formação contínua mas o que cada vez mais é essa a ideia que nós temos não existe um conhecimento estanque e perpétuo, é um trabalho de estudo contínuo, todos os dias nós sabemos coisas novas e como eu disse, transformam aquilo que nós sabíamos e muitas das coisas vão para um caminho completamente diferente o que também é bom e é desafiante Claro Cátia, se eu lhe desse um cartaz gigante que toda a gente conseguiria ler, que mensagem é que escolheria lá colocar?
54:43 Ui, que bela pergunta. Que bela pergunta. Pode ser uma questão de uma coisa totalmente pessoal e não profissional. Eu sei que a pergunta é mesmo pessoal. Ok. Eu colocaria, usufrua da sua criança. Ok. Eu colocaria usufrua da sua criança. Ok. Eu colocaria isso, usufrua da sua criança, porque eu acho que nos 13 anos de trabalho e investigação que eu tenho dedicado da minha vida a esta área, eu sinto que elas deram-me mais, quer do ponto de vista profissional mais quer do ponto de vista profissional, quer do ponto de vista pessoal, elas deram mais a mim do que aquilo que eu ainda dei para o universo para quem quer saber mais desta área e eu nos dias de hoje eu fico a pensar que nós os adultos e principalmente neste período de pandemia que nos levou a tanta reflexão nós pensamos tanto naquilo que nós procuramos que é a felicidade e aquilo que nós queremos atingir na nossa vida e o mercado está cheio de livros de autoajuda, de procurar simplicidade e quando observo e então os meninos que eu vou observando até aos 3 anos olho para eles e dizem eles têm lá tudo, a vida é simples vivem um dia de cada vez é aquela brincadeira do chocolate perguntamos o que é o chocolate hoje ou o que é amanhã é tudo para agora, porque o homem não tem pensado eles ensinam-nos imenso por isso usufruam ao máximo e são um universo fantástico, por isso é a mensagem que eu deixo e é ótima, e é perfeita cá tem mais uma última pergunta também um bocadinho pessoal, que é quando se sente a soberbada e sem foco como é que faz?
56:41 que truques é que usa para se centrar de novo? pouco, como é que faz? Que truques é que usa para se centrar de novo? Isto também nós vamos fazendo essa evolução pessoal, mas eu acho que eu aprendi a parar. O mundo não acaba. É importante parar. A louça pode ficar para lavar, a roupa fica para amanhã, o telefonema, o telefone também nos tira muito tempo. Deixemos o telefone de ladoraiu muito tempo deixamos o telefone do lado e pronto e usufruam da criança é chato, é abirrento mas quem é pai sabe perfeitamente que todas as etapas são mágicas e elas não voltam atrás e têm as compensações devidas eu não tenho filhos adultos não é? e tem as compensações devidas.
57:28 Eu não tenho filhos adultos, não é? Mas eu tenho minhas sobrinhas com que tive a possibilidade de as ter bastante próximas. E eu acho que uma das coisas mágicas, por exemplo, eu tenho uma sobrinha que fez agora 26 anos e ver agora uma jovem mulher e olhar para ela e dizer caramba, é uma mulher, é um ser diferente, mas aquilo é meu, não é aquela característica específica.
57:56 E quando se voltam para mim e dizem, tia, calma, há tempo para tudo. E eu penso, eu passei a vida toda a dizer-lhes aquilo e eles agora falam. Por isso esta é a magia dos euforismos e são os melhores retributos que nos dão. E dos meninos com os quais eu tive a possibilidade de trabalhar estes anos todos. Por exemplo, um menino diagnosticado com síndrome do espectro do autismo não faria interação com as demais identificação do rosto e uma vez eu saí do metro a mãe estava a entrar com ele e ele voltou-se e chamou pelo meu nome e a mãe disse que foi a primeira pessoa que ele chamou o nome e eu senti o maior elogio do mundo Muito bem, oh Cátia muito obrigado pela ajuda por este pedaço do seu domingo, que ainda por cima é um período de descanso.
58:49 Espero que possamos voltar a falar de novo e convidava as pessoas que nos seguiram a subscrever aqui o nosso canal, porque vamos continuar com conversas deste género para o futuro e, portanto, com a subscrição vão receber uma notificação. Cátia, muito obrigado e um beijinho. Até à próxima. Obrigada, Nuno. Até à próxima e obrigado também a todos os pais que estiveram aqui presentes e tiveram a possibilidade de participarmos de conversa e espero que tenha ajudado um pouco mais.
59:15 Ajuda de certeza. Obrigado. Obrigada e bom domingo, Nuno. Obrigado.