Dicionário das Crianças · Episódio 10
Criatividade e Positividade — Gracinha Viterbo
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Neste décimo episódio do Dicionário das Crianças, Nuno Simões recebe Gracinha Viterbo, uma das designers de interiores mais conceituadas de Portugal, mãe de quatro filhos e promotora incansável da educação positiva através dos seus Domingos Positivos no Instagram. A conversa, gravada em pleno confinamento de Janeiro de 2021, cruza dois mundos que afinal se tocam: o design e a parentalidade.
Tudo começa na criatividade. Para Gracinha, a regra-base é não ter medo de errar, uma lição que trouxe de uma infância em que a deixavam pintar fora das linhas e o sol podia ser de qualquer cor. Essa liberdade tornou-se o motor de uma carreira de vinte anos a interpretar vidas através de espaços, e é também, defende, o valor que mais falta faz na escola, tão essencial como a matemática ou a ciência.
Há dicas práticas de decoração para famílias: fugir às tendências e ao Pinterest, olhar para o próprio armário para descobrir as cores com que gostamos de viver, e incluir as crianças na arrumação dos brinquedos a partir dos três anos, com soluções ao nível delas, transformando a organização num jogo em vez de numa batalha.
O coração do episódio é a viagem de Gracinha até à educação positiva: dos cinquenta livros comprados na primeira gravidez ao Dr. Phil às três da manhã, até à mudança da família para Singapura, onde descobriu o respeito pela criança como humano e o growth mindset que transformou a sua forma de educar. A primeira ferramenta que recomenda aos pais é desarmante de simples: aprender a respirar antes de reagir, porque educar não é mandar, é guiar.
Entre histórias como a dos pratos partidos por um filho que afinal só queria ajudar, e recomendações de leitura que vão de How to Talk So Kids Will Listen ao Mindset de Carol Dweck, fica uma mensagem que resume tudo: não existem crianças desobedientes, só crianças desorientadas. E nós, pais e educadores, estamos cá para as guiar. Uma conversa tão actual hoje como no dia em que foi gravada.
Neste episódio
- 02:36 A regra-base da criatividade: não ter medo de errar
- 03:53 Interpretar vidas através de espaços: 20 anos de design de interiores
- 05:28 O alfabeto da decoração: fugir às tendências e conhecer-se
- 09:31 Brinquedos arrumados: incluir as crianças a partir dos 3 anos
- 15:49 Viver em Singapura com quatro filhos e descobrir o Gymboree
- 22:51 Do Dr. Spock ao Dr. Phil: o caminho até à educação positiva
- 30:06 A primeira ferramenta dos pais: respirar antes de reagir
- 38:41 A história dos pratos partidos: pensar duas vezes antes de gritar
- 45:11 Livros recomendados: How to Talk, Mindset e Big Life Journal
- 50:45 Pés no chão e respiração: rituais para dias sobrecarregados
Transcrição completa
0:00 Play and Music Portugal, uma conversa semanal com especialistas sobre o dia-a-dia da parentalidade e do desenvolvimento da primeira infância, para pais, avós e educadores de crianças do 0 aos 5 anos. O conteúdo deste programa é meramente informativo e, independentemente das opiniões expressas pelos nossos convidados, deverá sempre consultar o seu médico, terapeuta ou pediatra. Olá Gracinha, bom dia. Olá Gracinha, bom dia. Olá Nuno, bom dia. Muito obrigado por este bocadinho, vai ser precioso.
0:32 Obrigada pelo convite. Gracinha, eu acho que dispensa apresentações, uma das designers e arquitetas mais conceituadas portuguesas. Eu hoje queria falar um bocadinho consigo não só sobre o design, que é seguramente um dos seus superpoderes, mas também sobre educação, a parentalidade positiva, que também é fortíssimo. Nós temos muitas coisas em comum e eu ia lhe perguntar, acordou a que horas hoje? Eu acordo muito cedo. Eu sei, eu só queria chocar a nossa audiência Eu vou dizer que acordo sei lá, eu facilmente acordo às 5h30 da manhã, 6h mas eu acordo por mim, obviamente porque os meus filhos já são um bocadinho maiores mas por acaso sempre fui uma pessoa de dia, de manhã e gosto muito de acordar cedo, também por mim própria para ter o meu tempo antes da casa acordar e os meus filhos também se habituaram a acordar cedo É por mim própria para ter o meu tempo antes da casa acordar e os meus filhos também por também se habituaram a acordar cedo é uma ótima prática também recomendo a minha gracinha ia começar por uma pela criatividade que eu vi recentemente um vídeo vídeo seu no Facebook em que falava de criatividade e fiquei super impressionado com a sua visão e se perguntar como é que é o seu processo, o que é que me pode falar sobre a criatividade, porque claramente é uma palavra que tem muita profundidade. É, é uma palavra muito forte e realmente é um valor um bocadinho posto à margem como se fosse menor e que é tão importante como a matemática que é essencial a disciplinas como a matemática, a ciência, os grandes, grandes nomes que nós conhecemos de pessoas que na história se destacaram eram sobretudo criativos, sejam eles cientistas, matemáticos, historiadores, políticos, todos eles tinham uma coisa comum que é a criatividade.
2:22 Por isso eu acho que a criatividade é um bem necessário e um valor que deveria ser mais focado na escola. Como é que é o seu processo? Como é que desenvolveu a criatividade e como é que a nutre no dia-a-dia? Eu acho que uma das regras-base da criatividade é não ter medo de errar. E eu tive a sorte de crescer numa família que ficou muito nisso. E os meus pais não se importavam, isto é um bocadinho clichê, mas é mesmo verdade, que eu pintasse fora das linhas. E eu lembro-me de pintar as coisas de cores diferentes e não havia a tendência de dizer o sol é amarelo e o mar é azul. Não.
3:10 Se eu via o sol de outra cor, a minha mãe deixava-me o pintar de outra cor e dava-me tanta segurança nas minhas ideias que eu, mesmo que estivesse num ensino tradicional que tive na escola, eu tinha sempre aquilo na minha cabeça de que eu podia, se quisesse, sonhar e ver de outra maneira e depois, quando tinha que estar alinhada no ensino tradicional, adaptava-me. Mas eu acho que é muito importante os pais ensinarem que o erro não é um problema, não é?
3:36 É uma lição e isso é o princípio da criatividade, é o não ter medo de errar. Muito bem. Como é que é ser designer de interiores? O que é que mais lhe apela e o que é que é mais desafiante? Eu acho que o que mais me apela na minha profissão é realmente interpretar vidas através de espaços. E, aliás, é realmente, está tudo interligado com os meus domingos positivos e com a minha forma positiva de ver a vida, porque eu muito cedo eu faço há 20 anos a minha profissão exerço há 20 anos a minha profissão e muito cedo percebi que não era só sobre coisas bonitas agora vou pintar a parede uma cor agora vou fazer isto isso é a mesma coisa que comprar uns sapatos e não se pode confundir a parte material que não nos preatos e não se pode confundir a parte material que não nos preenche, não é?
4:28 Muitas pessoas se enganam e acham que ir comprar coisas, cuidar de brinquedos às crianças nos preenche e rapidamente depois se fartam e não percebem porquê. Eu então virei isso um bocadinho ao contrário na minha profissão e tento ir à essência da pessoa, à sua identidade e acho que se ela tiver projetada na sua casa, no seu norte, ela vai se sentir empoderada, vai se sentir enraizada e mais feliz.
4:54 E é o que eu mais gosto na minha profissão. Muito bem. Bom, nós agora, neste momento, toda a gente está em contato permanente com a sua casa e, portanto, há aqui desafios próprios acho que podemos passar algumas dicas da organização interior qual é o alfabeto da decoração para um leigo para onde é que podem começar estamos a falar da luz, dos móveis estamos a falar qual é o alfabeto mais básico eu acho que a primeira coisa que eu vou dizer é tentarem não seguir tendências, nem copiar uma imagem de algo que gostam.
5:33 Porque, obviamente, isso é uma direção. Nós começamos a tentar perceber o que é que nos identificamos, e ver imagens, tudo bem. Mas o replicar não preenche uma pessoa dentro do seu espaço. Por isso, cuidado com o replicar imagens de um Pinterest ou de onde seja, porque não se está a espelhar a si próprio. Às vezes, são coisas tão fáceis como ir ao nosso armário e ver o que é que vestimos.
6:03 Quais são as cores com as quais mais nos gostamos de ver? Porque se calhar são as cores com as quais mais gostamos de viver. Ou então as não cores, porque há quem não goste de cores e gosta mais de um ambiente neutro e de um ambiente mais... todo ele com menos cor, não é? E isso é o que nos vai identificar, por exemplo, a nível de cor é uma boa maneira de vermos, é irmos ao nosso armário, ou a cor que nós não nos gostamos de ver também. Pensar como é que vivemos, há crianças, não há crianças, há animais, não há animais, há algum problema de saúde, ou de costas, ou para poder escolher por exemplo, a altura de um sofá ou de uma cama, ou a rigidez tudo isso são as primeiras coisas, é fazer uma lista do que existe, quem são as pessoas que vivem na casa, qual é a personalidade dessas pessoas, tentar também um bocadinho interligar, porque não é só um que conduz, quando é em comunidade, quando é uma família tem que se pensar em todos, nas crianças, nos pais, e depois tentar, eu acho que, pensar em cada lugar como um momento, como um cenário das memórias que vão fazer.
7:14 Então agora que nós estamos sobretudo mais em casa, e então se calhar ver o cantinho da leitura, e que pode ser relaxado, não tem que estar tudo certinho, não faz mal essas almofadas se misturarem todas, não vamos fazer um problema à volta de um momento que pode ser ótimo. E com isso, pensar nas outras zonas da mesma maneira, que são cenários das nossas memórias em casa. Na sua sensibilidade, aproximava-se mais de manter tudo como está ou mudar tudo, uma vez que estamos confinados pelo menos 15 dias?
7:48 O que é que acha que é mais proveitoso e animador, ou menos estressante? Viver na casa de sempre ou na casa nova? Diga, diga, desculpe, não percebi. A pergunta era mais, tipo, para evitar estresse, o ideal é vivermos na casa onde sempre vivemos ou tentamos criar uma casa nova deste tempo de confinamento. Eu acho que isso vai depender das personalidades. Eu, por exemplo, sou gêmeos e, por mim, mudo sempre qualquer coisa todos os dias em minha casa, porque gosto de estar sempre a mudar qualquer coisa, preciso desse movimento de energia e de mudança e os meus filhos já são um bocadinho assim também.
8:23 Mas sei que há pessoas que precisam imenso da segurança, da continuidade. Eu acho que isso não há uma regra geral, eu acho que vamos então ouvir-nos a nós próprios, o que é que nós precisamos. Estamos estressados, estamos ansiosos, vamos tentar não mudar muita coisa, se calhar se estivermos bem, não é? Dentro do que estamos, ou então ver qual é que é a zona da casa onde nos sentimos melhor e ir mais para essa zona da casa se há uma zona da casa que apanha mais luz natural, eu por exemplo gosto de estar ao pé das janelas, eu preciso de luz natural às vezes mesmo naqueles dias que uma pessoa está mais esgotada eu gosto de estar a tomar um chá ou um café e sentir a luz na minha cara, é uma coisa que me faz bem. Eu acho que quando estamos muito tempo em casa é descobrir estes recantos que nos fazem bem e vivê-los mais do que os outros.
9:15 Muito bem. Gracinha, as pessoas que têm crianças pequenas e que têm este problema dos brinquedos espalhados pela casa, o que é que recomenda? Acha que os brinquedos devem estar confinados a uma divisão ou devem ter o livro trazido pela casa, o que é que recomenda? Acha que os brinquedos devem estar confinados a uma divisão ou devem ter o livro trazido pela casa? O que é que acha mais proveitoso?
9:29 Para a felicidade da família. Acho que a partir dos três anos podem perguntar às crianças. Acho que é a primeira coisa. Acho que não devem ser os pais a decidir. Acho que desde essa idade as crianças já podem dar ideias de como é que vão arrumar os seus próprios brinquedos. as crianças já podem dar ideias de como é que vão arrumar os seus próprios brinquedos. É a melhor maneira de, eu às vezes, quando tenho famílias com crianças, eu pergunto às crianças e como é que elas gostam de arrumar mais as coisas e como é que vamos pensar na forma que elas vão entender e fazer parte da arrumação da casa.
10:02 Eu acho que isso não é um sonho, é possível e se incluirmos mais as crianças dentro destas ações as coisas aparecem mais vezes arrumadas. Não é perfeito, mas aparecem. E sobretudo porque elas têm uma imaginação muito mais fluida e vão nos dar se calhar ideias que há certos pais que praticaram tanto a criatividade e, se calhar, ideias que há certos pais que praticaram tanto a criatividade e que, se calhar, estão ali e têm que ser sempre da mesma maneira.
10:30 Eu sou um bocadinho um elemento disruptivo quando venho dizer estas coisas, mas é verdade. E depois é tentar ter a arrumação ao nível das crianças. Também acho que é uma coisa importante, porque se a arrumação está pensada para o adulto, vai ser sempre o adulto a arrumar e se a partir do momento em que nós incluímos as crianças também na altura em que pomos as caixas ou as coisas que elas têm que arrumar e nos sítios mais improváveis, a ver um bocadinho, quando eles são muito pequenos, eu acho que é importante a ver num bocadinho em toda a casa algum sítio onde eles possam arrumar na sala, na cozinha eu lembro que tinha uma das portas debaixo da cozinha, tirei as panelas e pus brinquedos e sabia que era, mas eles voltavam a arrumar lá dentro, e claro que eu abria, e aquilo ao princípio estava muito desarrumado, depois à medida que eles foram crescendo tinham as coisas mais arrumadas, porque comecei a brincar com eles e a separar em categorias a brincar e eles gostavam de também separar as categorias porque ficou um jogo e tudo que fica um jogo eles fazem e eu acho que se pudermos então separar um bocadinho nas zonas onde eles brincam, que seja do outro lado da casa onde se vai arrumar já ajuda muito.
11:46 Uau, isso é uma ótima dica. Eu acho que estou a fazer tudo mal. Eu tenho uma bebê agora com um ano e picos, que está sempre a pegar, adora os meus livros e desarruma-os todos. Ela acha que é divertido tirar, tipo, 30 livros. Ela vai adorar ler, se continuarem a deixar fazer. Eu espero que sim. Eu espero que sim, mas pronto, depois eu tenho que os arrumar todos de volta e basicamente a minha profissão agora é arrumar os livros que ela desenvolve.
12:08 Gracinha, ainda no campo da decoração, como é que descreveria os seus melhores clientes e quais são os mais desafiantes? Como é que podemos ser um bom cliente de um designer de interiores? é o cliente que percebe que nós estamos ali para ajudar e que não estamos um projeto não é uma discussão é uma evolução é um progresso e eu acho que é suposto ser um momento memorável um momento de crescimento um momento de partilha com muitas coisas na vida, não é?
12:41 Eu também acho isso de trabalho, também acho isso de educação mas é verdade porque o projeto, eu estou a entrar na vida de não é? Eu também acho isso do trabalho, também acho isso da educação, mas é verdade, porque o projeto eu estou a entrar na vida de outra pessoa, estou a tentar entendê-la para criar para ela, isso é a maneira que eu trabalho, eu não trabalho porque o amarelo é giro e porque o azul é giro e tem que ser assim, não, eu quero perceber a pessoa e quero potencializar o espaço onde ela vive, de modo a ela ser mais feliz lá dentro, ela e as pessoas que lá vivem, e eu acho que é muito importante o cliente perceber que nós estamos ali para fazer parte dessa, fazer um veículo, ser uma ponte, para que ele possa viver melhor a partir daí nesse espaço.
13:22 E o cliente que percebe isso é um cliente que tem um projeto com muito mais sucesso, entre aspas, no resultado final, do que o cliente que resiste. Muito bem. Eu sei que a Gracinha fala uma série de línguas, já em muitas partes do mundo. Como é que foi viver fora de Portugal e, tanto sozinha como em família, como é que foi a sua experiência? Eu adoro viajar, adoro ter o desafio de me adaptar a um lugar que não conheço, a uma língua que não conheço, a uma comida que não conheço e perder-me para me encontrar outra vez, eu acho que são patamares, cada viagem e cada momento que eu vivi fora foram patamares de crescimento na minha vida e fiquei um bocadinho viciada nisso e foram experiências de alturas muito diferentes da minha vida a primeira vez que vivi fora tinha acabado de fazer 18 anos e fiquei fora até aos 21 comecei a trabalhar a minha carreira o primeiro trabalho foi fora e foi um momento obviamente que eu era mais nova que havia uma descoberta uma série de coisas, mas eu ainda estava a crescer noutra série de coisas, por isso tudo era uma descoberta mas eu também fui sempre muito curiosa e muito independente, portanto aquele sentimento de saudade não me fazia não aproveitar onde eu estava.
14:49 Eu sempre aproveitei o momento da vida no lugar onde eu estava. Sem arrependimentos de eu tenho saudades e eu quero estar ali. Não, eu acho que se estamos neste momento da vida vamos aproveitar este momento da vida e tirar o melhor dele. E em todos os momentos que vivi fora acabei por ter essa mentalidade, portanto na altura da universidade e do primeiro trabalho estava em Londres depois voltei para Portugal e depois fui para a Ásia e no intermédio sempre viajei muito na minha profissão, por isso pelo menos quatro meses do ano fora, em viagem não, não de seguida mas sempre em viagem, por isso há um contato bastante grande durante o ano, antes do Covid por razões de trabalho, mas em que acabamos por ir para países às vezes que não conhecemos, outros conhecemos melhor, agora a ir para a Ásia foi também espetacular porque fui com os meus filhos bastante pequenos, dos três aos nove.
15:49 Aliás, foi lá que eu conheci o Gymboree, eles iam todos ao Gymboree. Ah, que giro! E pronto, e foi realmente, eu acho que aí, um crescimento em conjunto enorme, por todos os lados, porque a trabalhar o tempo inteiro com crianças pequeninas, elas não sabiam falar inglês quando foram, nem chinês, e aprenderam ambas as línguas e é uma aprendizagem que eu recomendo, que é difícil, mas é extraordinária.
16:17 Gracinha, eu percebo que essa passagem por Singapura vos marcou imenso em família e também, quer dizer, a matemática é simples, a minha filha teve 4 filhos em 5 ou 6 anos, não é? Em 5, em 5 anos. Muito próximos, em 5 anos. Como é que foi essa experiência e o que é que trouxe-te lá? Eu, a experiência, eles já tinham vindo connosco em algumas ocasiões, porque nós já estávamos a trabalhar lá desde uns anos antes e realmente uma das razões por que fomos foi porque estávamos cada vez mais a trabalhar lá na altura e eu comecei a sentir que não estava a fazer bem à família eu estar tanto tempo fora, obviamente e como mãe também não conseguia, se bem que tenho um marido presente um pai espetacular e sempre que eu ia, eu sentia que eles iam crescer de outra forma e acho que na vida os casais organiz que eles iam crescer de outra forma.
17:10 E acho que na vida os casais organizam-se, sejam porque estão divorciados ou porque cada um trabalha de uma certa forma, acho que as crianças se adaptam e os casais organizam-se. Por isso, nós construímos na altura uma fórmula que funcionava para nós, mas chegou a um ponto onde achámos que fazia mais sentido irmos todos juntos e estarmos lá uns anos e depois voltarmos. E a experiência lá foi realmente extraordinária, a todos os níveis, humano, como mãe, como profissional, mas sobretudo a nível da educação e a nível da ligação que os adultos lá em geral têm com as crianças, eu comecei a sentir logo desde o início a forma que falavam, a forma que diziam, é sempre a maravilha do mundo da criança e o que é que nós adultos quase podemos aprender com eles porque nós já nos esquecemos e há um respeito pela criança como humano que é igual a estar a falar com um adulto, praticamente.
18:12 E isso foi uma coisa que eu tive que reaprender estando lá porque realizei que eu não tinha essas ferramentas comigo e quis aprender. Essa foi a maior, eu acho, lição de estar lá, à parte da língua, da comida, da parte toda cultural, foi realmente abrir o mindset a outra maneira de educar. Foi o país que lhe deixou mais saudades, Singapura? Não, todos os países têm, assim, qualquer coisa que me deixam muitas saudades.
18:42 Ali tivemos realmente um momento muito marcante, porque foi quase um sentimento do momento certo, no lugar certo, para a idade deles certa, e para a família. Foi uma viragem enorme. Porque mudámos de mentalidade, mudámos de um mindset fixo para um mindset de crescimento, que eu falo imenso, que é o growth mindset, e é uma maneira de ver as coisas ao contrário do que se vê cá na educação e foi uma coisa que nos transformou literalmente como mãe, como mulher como humana e é tão fácil e é tão difícil ao mesmo tempo mas nós pensamos que são coisas tão pequeninas mas que realmente transformam a confiança deles a linguagem deles, é linguagem deles, é uma coisa que é realmente quase difícil de explicar. Por isso é que eu tenho muitos domingos para falar sobre isso.
19:33 Vamos falar sobre isso agora mesmo. A Gracinha é uma promotora, é uma praticante da educação positiva e tem o seu vlog chamado Domingos Positivos que eu desde já recomendo. Aliás, eu queria fazer aqui uma pausa e deixar uma nota pessoal para seres o que me diz a preparar este podcast e tive a oportunidade de rever alguns materiais que eu já conhecia e outros que conheci de novo o seu vlog é precioso portanto, queria exprimir aqui a minha gratidão, a forma gentil como apresenta uma série de lições, gentil consigo mesma, porque foi um processo, não nasceu com aqueles conhecimentos, gentil com quem está ali, porque é muito natural que a gente sinta ansiedade, culpa, medo de falhar, e a forma como a Gracinha apresenta aquilo é super pedagógico, super humilde, super gentil, e fica, portanto, as lições ficam.
20:25 Não só a parte que é a mais técnica e teórica, como a parte prática e os conceitos práticos que dá. Portanto, há um bocado em off, estava-lhe a pedir o favor, por favor, pôr aquilo em formato podcast, para eu poder ouvir quando estou a correr. Já muita gente me pediu, vou trabalhar nisso, estou aqui à procura da minha solução. Muito bem. O que é que é para si a educação positiva? E qual foi a sua maior influência original? O que é que a fez prestar atenção a esta forma de educar?
20:55 Eu, quando soube que estava à espera do meu primeiro filho, Santiago, em 2004, a certa altura, um mês ou dois depois, o Miguel veio chegar, eu não vou mentir, deviam ser 50 livros, a certa altura, um mês ou dois depois o Miguel vê chegar eu não vou mentir deviam ser 50 livros de educação eu não sabia nada zero, mais nova de três não temos nem irmãos mais novos nem primos mais novos sou a prima mais nova da minha família, de tanto um lado como do outro, eu não tive o contato com crianças na minha adolescência, a não ser os meus amigos na escola, por isso eu vejo a minha filha, a minha filha tem imensas, contato com crianças muito mais novas que ela, bebês e tudo, tem um jeito enorme, pega neles, já sabe tudo, estou sempre a dizer que ela vai ser uma mãe espetacular à parte de ser uma profissional que quiser o que ela quiser ser espetacular também e então eu não tinha aquele reflexo de saber, eu não sabia trocar uma fralda eu tive que pedir a uma amiga da minha irmã para me ensinar a trocar fraldas porque eu não sabia trocar, por isso eu tive que aprender tudo do zero e tinha um receio enorme, uma ansiedade muito grande de será que estou a fazer ensinar a trocar fraldas, porque eu não sabia trocar, por isso eu tive que aprender tudo do zero.
22:10 E tinha um receio enorme, uma ansiedade muito grande de, será que estou a fazer as coisas bem, será que não estou a ler tudo? E a única coisa que eu lia, eu tive uma mãe muito liberal, mas liberal com direção, que já na altura eu via bastante diferença entre como é que a minha mãe nos educava e como é que muitos outros pais que eu via me educavam os meus amigos, ou tias, com os primos, e já sentia que havia ali uma diferença.
22:37 Ouvia a nossa opinião, falava muito conosco, e não havia, não me lembro de haver berros em casa havia sobretudo elogios, percebi a minha mãe um bocadinho sem saber, falava-me sempre de um psicólogo que era o Dr. Spock que era muito americano, que era na altura muito diferente e muito radical e depois houve muito prós e contras na nossa geração do Dr. Spock e eu ainda fui comprar um livro do Dr. Spock porque tinha sempre ouvido falar dele quando nasceu o meu primeiro filho, mas esses livros, 10, 50 livros que eu comprei, não me identificava muito com as coisas, porque a minha própria educação não tinha sido assim, era uma coisa muito mais tradicional, muito mais, e era muito pesada, e era muito, e eu lia aquilo, dizia-te, está bem, olha, eu é que não percebo, isto tem que ser assim, e isto é que faz bem às crianças, e eu li aquilo, e dizia, está bem, olha, eu é que não percebo, isto tem que ser assim, e isto é que faz bem às crianças, e dizer que não, e o saber dizer não, e eles têm que saber ouvir não, e regras, e uma série de coisas que eu comecei a praticar, mas não me sentia nada bem com isso.
23:40 A querer que o meu filho comece bem à mesa com 18 meses, quer dizer quando ele queria era brincar e tudo aquilo não jogava comigo e à noite quando levantava às 3 da manhã e à meia da noite por causa de lhes dar leite abria a televisão e estava a dar uma coisa que era o Dr. Phil, na altura e só dava às 3 da manhã na televisão, 2004, pelo menos e ele tinha uma versão e uma atitude para com os problemas de família e que estavam a dar que eu comecei a ouvir, eu não sei porque passava ali, parava, era meia da noite silêncio, e começava a ouvir e dizer isto é tão diferente, mas eu não conseguia eu ouvia, fazia-me sentido mas eu não conseguia eu ouvia, fazia-me sentido mas eu não conseguia processar a informação de modo a usá-la, também a minha filha na altura era muito pequena, era bebê por isso eu fiquei sempre mais agarrada ao lado das coisas tradicionais que eu tinha tido na escola e que tinha lido e sempre a parecer-me muito, muito negativo e eu com peso enorme de ir dormir a pensar isto, há aqui qualquer coisa que não está certo.
24:46 Por isso, eu acho que comecei a ir e depois já só foi, quer dizer, durante eles caem, ainda antes de ir para Singapura, eu tentava fazer as coisas um bocadinho diferentes e tinha muitas pessoas um bocadinho a olhar que eu sentia esta aqui, não sabe, ou seja, não cumpre bem e houve uma pessoa uma vez que foi até comigo e disse a senhora não é boa mãe ainda me lembro onde é que foi, foi aqui ao pé e eu olhar, porque eu estava com os três estava-me a rir, não era sobre ensinar naquela altura, eu queria era ter um bom momento e eu lembro de ficar a olhar para essa senhora que conheço e pensar e ter pena dela, porque ela não estava a perceber a minha linguagem, mas eu também seguia em frente.
25:26 E depois, foi uma coisa natural, eu tinha sempre em mim um lado mais positivo. Vi a maneira que os professores, por exemplo, falavam do meu filho Santiago, que é um desportista nato, precisa de espaço, precisa de se mexer, precisa para aprender, ele precisa de espaço. Eu na altura ainda não percebia, só percebi depois porquê e a maneira negativa quando olhavam para um reflexo muito natural dele não me revoltava, mas eu tinha pena de pessoas que vinham ter comigo e que me diziam coisas que eu olhava para elas e dizia eu pensava assim, não a senhora é que só sabe ver dessa maneira.
26:06 Eu já sabia que deveria haver ali outra maneira, até que encontrei uma pessoa que para mim é a pessoa que mais percebe de educação positiva em Portugal, que se chama Jill Itchwa, em Carcavelos. E a Jill, onde eu pus a minha filha Alice durante uns tempos, é uma pessoa extraordinária e foi uma pessoa que me abriu a porta da educação positiva e me mostrou o Howard Gardner que fala das inteligências diferentes e fui ouvir em Lisboa na altura, ele estava nos Estados Unidos mas houve uma conferência com ele, ainda fui ouvir em Lisboa uma conferência com ele e comecei a ler, sobretudo, das inteligências diferentes, e no fundo, isto do meu filho Santiago, não era déficit de atenção, não era nada disso, é um miúdo com inteligência espacial, que pode ir desde um neurocirurgião até um atleta de alta competição, com um span enorme de capacidades, mas que, forçosamenteamente não gostam de estar sentados numa secretária a fazer durante seis horas do dia as coisas de uma maneira, quer dizer, comecei a perceber que o ensino estava antiquado que ainda praticamos um ensino da revolução industrial por exemplo, em Singapura já não há a campainha que chama é quase um insulto para as crianças chamá-los como a campainha, chama, é quase um insulto para as crianças chamá-los com uma campainha como se fossem gado ou como se fossem quer dizer, tudo isso são coisas que no mundo já estão a mudar que em Portugal ainda estão muito atrasadas e com uma série de pessoas e de passos na minha vida me mostraram que há outros caminhos que há outras portas e daí eu queria passar essa informação mas foram estas pessoas o Dr. Phil, a Jill e depois a Singapura, que me abriram as portas aqui para a educação positiva.
27:51 É, e nós não vamos conseguir, no tempo que temos, falar sobre tudo, porque é realmente um mundo. Mas a Gracinha já fez um trabalho espetacular, porque nos primeiros 16 episódios já temos ali imenso com o que vamos entreter. Sendo que os portugueses ainda estão muito longe deste ideal da educação positiva. Eu já senti mais, por acaso. Acho que há uma vontade enorme, enorme, mas não há ferramentas.
28:19 Não há... Eu vou ao Amazon, ou vou a uma livraria quando estou em algum sítio e tenho muito mais. Tenho aqui o meu cão que também quer participar. Mas sinto que há o material em português falta. E eu acho que não é por vontade por exemplo, os próprios professores também têm uma vontade enorme de mudar. Eu tenho imensos professores a mandar-me mensagens que estão a aplicar algumas coisas nas salas de aula deles.
28:49 Eu acho que não há ferramentas para a formação. E tem que haver mais ferramentas, tem que haver mais livros, tem que haver mais ferramentas na internet, em português, que passem esta mensagem da educação positiva de forma coerente, que passem esta mensagem da educação positiva de forma coerente, não como um método alternativo e permissivo, que é uma coisa completamente errada sobre este método, não é uma educação permissiva, e então não vamos pensar na educação positiva como um método nem permissivo, nem completamente a anarquia total, as crianças podem fazer o que quiserem, um dia também me escreveram uma mensagem a perguntar se as crianças não ficam selvagens, não, não ficam ficam felizes e os pais também e as salas de aulas também e encontram-se capacidades e percebe-se que é um progresso e não é uma ditadura, não é?
29:46 A Gracinha costuma dizer imensas vezes e muito bem que educar não é mandar, educar é guiar. Nesta altura do confinamento, como é que nós podemos guiar, então, estes pais eles próprios começarem, se calhar, a praticar um bocadinho, pelo menos, as jogais da impressão positiva? Tem alguma dica, ou a primeira, a que acha mais importante? É respirar. É respirar. Aprender a respirar. Porque nós não respiramos, nós reagimos. E então a nossa educação é baseada num reflexo animal.
30:20 É o dizer o não logo, como se fosse autoridade e como se isso nos fizesse ser bons educadores, não estamos a ensinar absolutamente nada com o não. Então vamos, em vez de dizer, não com as bocas abertas, dizer podes te engasgar e deixar que a criança perceba o que é que tem que fazer e nós ensinarmos qualquer coisa uma coisa que acontece que é espetacular com a educação positiva é que as crianças a nível de coeficiente inteligência nem falo da emocional, obviamente porque essa é óbvia mas a nível de coeficiente inteligência tem muito mais alto com a educação positiva do que com a educação tradicional porque ouvem porque raciocinam, porque há uma conexão de neurónios muito maior na interação entre adulto e criança do que cortar ali as vasas e acabou, não faz.
31:20 Então ficam robôs que depois, mesmo na vida, vão ser pessoas com muito menos iniciativa, com muito menos poder de raciocínio, porque estão habituadas a que alguém lhes diga não, sim, vai. E depois de repente chegam aos 30 e aos 40 e são adultos insatisfeitos, que não percebem porquê, mas no fundo não são eles próprios, porque isto depois vai encrescendo. E é uma coisa gravíssima que hoje em dia sabemos a importância da saúde mental, não é? Agora, eu acho que aqui a importância do respirar, que é muito simples, eu até disse outro dia numa conversa, não foi a brincar, é se tiver dificuldade em respirar, encha a boca de água e deixe o sentimento da explosão passar e só depois é que engolo.
32:07 Se for preciso, é um primeiro exercício. Porque é difícil. O nosso reflexo está em dizer que não, porque foi o que nós ouvimos. E os pais queixam-se das crianças dizerem que não de volta, ou responderem, ou não fazerem. Mas elas estão a ouvir isso o dia todo, dos pais e dos professores. Por isso, elas estão a imitar. Elas não conhecem também outra forma de comunicar. Por isso o respirar, o voltar a nós, o ver a situação de fora, o perguntar porquê que eles fizeram isto.
32:35 Porquê que fizeste isto? Qual foi a tua ideia quando fizeste isto? Deixa-me eu perceber o que é que te passou pela cabeça. Eu às vezes mudo de ideia, depois dos meus filhos me explicarem porquê que fizeram alguma coisa que eu achei que estava errada. Porque eu digo, olha, realmente, isso não foi má ideia, mas... E depois digo o que é que eu tinha para dizer. Vê se calhar da próxima vez tenta desta maneira. Porquê é que tem que ser de uma forma agressiva? Porquê é que tem que ser de uma forma negativa?
33:00 Nós estivéssemos no trabalho e alguém estivesse a berrar connosco o dia todo e a dizer que estávamos a fazer tudo mal o dia todo que é o que a maior parte das pessoas faz com as crianças nós fechávamos ou dizíamos eu não quero estar aqui, eu não sou feliz no meu trabalho, eu quero me ir embora eles não têm essa hipótese Eu vou reforçar tudo o que a Gracinha disse eu concordo com tudo se calhar dar uma outra imagem para os pais e pais mais técnicos nós somos um conjunto de hardware e de software.
33:26 O nosso hardware é a nossa biologia, a nossa genética, nós não conseguimos fazer muito em relação a isso. O nosso software é a nossa educação, não só intelectual como emocional. E há bom software e há mau software. Nós podemos receber maus modelos e ficamos contaminados com esses exemplos e é difícil às vezes sair deles e requer muito trabalho. Ou podemos ter um bom software e tudo fica mais fácil. contaminados com esses exemplos e é difícil às vezes sair deles e requer muito trabalho, ou podemos ter um bom software e tudo fica mais fácil, não é?
33:52 Eu acho que a Gracinha explicou isso muito, muito bem. Gracinha, agora com os seus quatro filhos, que estão entre os 10 e os 16 anos, se não me engano, quais são os seus planos para as próximas semanas? Tem uma agenda para o confinamento? Tenho, tenho. Tenho uma agenda para o confinamento e eles não deixarem de aprender e não deixarem de... A educação é um direito humano e nós não vamos tirar a educação aos nossos filhos. Portanto, os nossos filhos vão continuar a estudar em casa com coisas que eu lhes vou dar e com conteúdos que há na internet e vão continuar a explorar o que gostam e vão continuar a sua aprendizagem, não vai haver aqui momentos de a nível das horas de escola, nós cá em casa vamos continuar a ter dar valor à aprendizagem e à educação e a explicar-lhes o importante e a sorte que eles têm de viver numa democracia e de poder continuar a aprender e a sorte que eles têm de estar em casa seguros e não estar num hospital e aproveitar ao máximo para que um dia se for preciso, a geração deles salvar a humanidade como os médicos e os enfermeiros estão na frente, não é fazer agora. De repente as crianças deixam de estudar e não há médicos, não há enfermeiros e vem uma pandemia na geração deles e não há pessoas com as competências, com as que temos agora, para poder salvar a humanidade. Por isso, isso é uma coisa que vai acontecer.
35:28 E depois é o lado criativo e da brincadeira que vai ser importante manter também, porque é o que as crianças precisam. Elas gostam de brincar, precisam de brincar. E eu acho que é muito importante nós pais percebermos que eles também estão em tensão, eles também estão fora da sua normalidade. E nós temos que perceber que se eles estão nervosos ou ansiosos, eles não sabem dizê-lo. Eles vão mostrar no seu comportamento. Por isso, podem mostrar desorientação, às vezes, a fazer a coisa que nós achamos que é errada ou a chamar a atenção de uma forma mais negativa, porque não sabem verbalizar de outra forma. Por isso, é importante, se se calhar em vez de dar logo um berro e eu sei que estamos todos um bocadinho nervosos e ansiosos, mas procurar mesmo ferramentas de evitar o berro porque depois é uma coisa contínua e que não ajuda ninguém, nem os pais nem os filhos, por isso às vezes dizer o que é que se vê eu também disse isso numa conversa é eu vejo que partiste qualquer coisa, ou eu vejo que pintaste na parede, eu vejo que pintaste na parede, está a ser desenhar, tenho ali, vamos aqui já fazer, em vez de desangar logo aquilo, já se vai falar sobre o assunto, mas ele não está a pintar na parede porque quer magoar o pai ou a mãe.
36:45 O interesse das crianças não é serem desobedientes, não é? Eles estão desorientados. Vamos orientá-los. Está a te dizer desenhar. Vamos aqui. O que é que está a te dizer desenhar? Vamos começar a sonhar. Ah, eu queria desenhar um foguetão. Então vamos investir naquele momento que ele quer, que é da atenção e de criatividade e depois vamos falar sobre, olha, se calhar, que é da atenção e de criatividade e depois vamos falar sobre, olha se calhar, eu chamo isto da técnica da sanduíche, é primeiro abrir a porta, é que giro, está a parecer desenhar, e eles olham para nós, já temos a atenção deles sabes, se calhar em vez de pintares na parede, vamos antes pintar numa folha que eu essa posso guardar para sempre comigo então, e depois vais-me ajudar a limpar a parede isto é ensinar é criar uma conexão é depois-me ajudar a limpar a parede. Isto é ensinar. É criar uma conexão, é depois também ensinar a limpar, mas não é atacar.
37:32 Claro. Eu vou aproveitar para agradecer os comentários que estamos a receber. Estamos a receber muitos comentários aqui nas plataformas, no Facebook e no YouTube. Inclusive o Nuno Pinto Martins, também é uma referência aqui na educação positiva, também nos está a ver e deixou aqui uns comentários muito valiosos. Gracinha, numa dos seus primeiros vlogs, contou uma história super convivente, que eu agora me lembrei, sobre um filho seu que partiu um conjunto de pratos e que a Gracinha explodiu e depois retomou toda uma história por trás que eu me convidava a recontar porque eu acho que é um exemplo Não prometo não estar Não prometo Eu acho que ou podem ficar traumas para as crianças para sempre ou podem ficar memórias bonitas de aprendizagem para os pais e para os filhos e essa realmente é muito bonita. Quer que eu conte?
38:24 Por favor. Então, mãe trabalhadora, mas eu respeito imenso as mães que ficam em casa porque eu acho que é um trabalho duplamente difícil. Mas cheguei a casa cansada, depois de um dia estressante, trabalho. O meu filho tinha partido uma série de pratos na cozinha, a minha primeira reação foi zangar-me, vou chorar, zangar-me com ele, zangar-me com ele, porque eu sinto-me naquela altura que era uma bruxa, que já não é quem eu sou hoje em dia. Zangar-me com ele e agora de repente já não me lembro os detalhes que eu contei na outra mas com uma reação percebi, houve ali um momento em que eu percebi que eu estava a magoar com o meu a ralhar com ele e ele depois veio ter comigo ou quando eu fui deitar já não me lembro bem e ele no fundo queria lavar os pratos antes de eu chegar a casa, para ajudar.
39:26 Por isso, penso em duas vezes antes de gritar para os vossos filhos, porque eu acho que a maior parte das vezes eles só querem ajudar. Sim. Então, essa história comoveu-me também. Move-me, sim. Foi uma admissão para mim. Tenho umas parecidas também. Aliás, eu tive que parar de correr e passar a andar porque estava à pressa de focar a minha atenção nesse momento. Eu não sei, a palavra era mesmo mergulhar naquela sabedoria, naquela conexão que nós conseguimos naquele segundo.
40:01 E eu acho que é uma história que nos pode inspirar realmente e tapar-nos nesse impulso às vezes mais negativos e que são totalmente humanos mas que às vezes são totalmente injustos também não é? Eu acho é que há aqui uma herança que vem de uma época completamente desatualizada anos 50 que nós temos que mostrar que sabemos tudo como educadores, e nós é que sabemos e ao dizer o não, nós estamos eu digo sempre nos meus domingos positivos, nas minhas conversas é saiam da vossa torre de autoridade que não existe e vamos educar humanos, vamos aprender com eles, vamos conversar, vamos aprender a dialogar, porque o que nós estamos a ensinar é a discutir.
40:46 Estamos a ensinar para a vida o que é uma relação. É a discutir, é a minha opinião e a tua opinião, e onde é que está a diplomacia? Onde é que está o ouvir o outro? Ouve-se tanto as pessoas a dizerem, mas depois não praticam com os próprios filhos. Portanto, eu acho que vamos quebrar com uma herança desatualizada, de uma educação desatualizada e obsoleta, e vamos criar humanos, vamos guiá-los a ser o adulto que nós gostávamos que os nossos filhos fossem, não é?
41:20 Totalmente. Há um livro que me marcou imenso que se chama The Four Agreements, do Don Miguel Ruiz, e dois dos agreements têm muito a ver com esta história que aconteceu. Um deles é não levar as coisas a peito, os pratos não foram partidos para nos ofender. E outra coisa é não assumir nada, sem perguntar nada. Claramente que se perguntássemos primeiro se calhar não nos tínhamos jangado, e pratos são pratos, não é?
41:43 Mas mesmo que sejam os nossos pratos preferidos e que tenham custado uma fortuna, a intenção era totalmente boa e aconteceu, pronto. Eu vou só aqui dar uma dica que ao princípio me ajudou imenso, que eu parecia a mãe maluca, mas uma pessoa tem realmente a reação do berro, não é? Ou de zangar, e eu começava a cantar, às vezes os meus filhos, eles eram pequeninos, achavam que eu tinha faz-te conta que era aos pratos, agora não foi porque eu não fiz isso nesse dia mas partiu os pratos eu queria era gritar mas queria, era vamos lá, pôr o berro para trás e começar a cantar e fazer isso uma brincadeira mas é um bom truque também começar a cantar e a dançar e ao mesmo tempo aquilo fica um tal jogo e eu acho que quando há associação positiva com as crianças há aprendizagem e as pessoas não percebem quando há associação negativa, corta-se, não se está a ensinar nada por isso, se nós conseguirmos que aquele momento onde nós nos íamos zangar, se torne uma associação positiva a qualquer coisa, estamos a ensinar muito mais do que se nos zangássemos com eles.
42:45 uma associação positiva a qualquer coisa, estamos a ensinar muito mais do que se nos jangássemos com eles. Claro. Gracinha, há pessoas incrivelmente estressadas agora com a questão do confinamento. Como é que nós podemos ajudar a dar um spin positivo a toda esta situação? Qual é o bright side desta história para si? Eu acho que se conseguirem é criar conexão com os filhos em casa, não é? Eu acho que mais cedo do que nós achamos, quer dizer, numa vida inteira, isto vão ser eventualmente um ano e meio, dois anos, não é?
43:16 E da nossa vida completamente com uma mudança imposta que foi esta pandemia. Mas se pudermos pensar em alguma coisa, nós nunca mais vamos poder recuperar o tempo que estamos a ter com os nossos filhos em casa. Nunca mais. E eles estão a ver os pais deles em casa. Por isso, se eles vêm ter connosco, eu ontem estava a ter uma reunião de Zoom com uma colaboradora minha e o filho dela, pequenino, dois anos, sempre a querer chamar a atenção, às vezes ela conseguia distraí-lo.
43:45 Eu, como líder de equipa, falo para outros, com a maior paciência, quer dizer, se é preciso parar, para, ele está a precisar de atenção, ele está em casa com a mãe e ela a pedir-me desculpa, eu disse, não é preciso pedir desculpa, está aí, ele está a ver a mãe, ele quer brincar com a mãe, porque quando ele precisava, eu vou a certa altura e disse, vamos parar a reunião 10 minutos, eu já volto a ligar, quero para ela lhe dar a atenção que ele precisava e eu vou, a certa altura eu disse, olha, vamos parar a reunião 10 minutos, eu já volto a ligar quero para ela lhe dar a atenção que ele precisava e depois porque eles têm a necessidade de atenção, não é?
44:12 E se não a têm, vão começar a chamar de formas que eles puderem e têm a necessidade de ter poder de decisão desde que nascem, por isso é que as crianças fazem birras quando não têm o poder de decisão necessário em casa nem que seja coisinhas pequeninas desde que têm 2, 3 anos, eles vão começar a reagir, por isso eu acho que é importante agora que estão em casa pensar que nunca mais vão ter a oportunidade nem que seja podermos chamar assim, mesmo que seja dentro de um momento difícil mundial e nacional de criar conexão com os vossos filhos. E isso é a coisa mais importante na vida de um educador, de um pai, de uma mãe, é o quanto a conexão que conseguirem fazer nos anos em que estão com eles em casa.
44:57 Eu concordo 100%. Gracinha, gostaria de nos recomendar algum livro, algum filme, algum conteúdo que tenha marcado recentemente? Sim, há vários. Eu acho que há um livro fantástico que é, eu não sei se há em português, mas que é o How to Talk So Kids Will Listen, How to Listen So Kids Will Talk. Como falar para as crianças ouvirem, como ouvir para as crianças falarem. Isso foi uma coisa que eu li, um livro que já tem várias edições, que eu li logo ao princípio e que ainda hoje, para ti, é coisa que eu li, um livro que já tem várias edições, que eu li logo ao princípio e que ainda hoje pratico, coisa que aprendi nesse livro, é extraordinário, é realmente já formas de educação positiva, vem em banda desenhada, como é que as pessoas normalmente dizem e como é que podem dizer de forma positiva a mesma coisa.
45:39 Acho que é um livro fantástico, acho que o Mindset, que há em português da Carol Dweck, é extraordinário também para se perceber. Acho que o Mindset, que há em português da Carol Dweck, é extraordinário também para se perceber a mudança do Mindset fixo da educação tradicional para o Mindset positivo. E acho que há uma plataforma muito, muito boa, que também já aconselhei, que é o The Big Life Journal, que ensina para pais e para filhos, é para filhos, mas eu acho que os pais também aprendem, e adolescentes também, também estratégias do tal mindset de crescimento, que é também uma das bases da educação positiva e de se ver a vida de uma forma mais positiva.
46:19 Ok. Se tivesse um cartaz gigante que toda a gente pudesse ver, qual era a mensagem que escolhia lá colocar? Qualquer coisa ligada com o erro, como eu estava a dizer. Ou seja, ou punha uma mente negativa nunca vai ter um dia positivo. Ou punha... Vai ser preciso. Não é? É mesmo? Porque a pessoa mesmo que é o não, não, não não vai e a pessoa que vê só o problema dos outros e não começa a ver o que é que ela faz para influenciar a vida à volta dela é uma pessoa que ainda não percebeu que tem que ver as coisas de outra perspectiva mas acho que o mais importante é não tenha medo de errar o erro é uma lição e aquela coisa que eu costumo sempre dizer, não existem crianças desobedientes, só existem crianças desorientadas. E nós estamos cá para as guiar.
47:13 Muito bem. Que mais recomendações é que costumo ouvir relacionadas com a sua profissão ou com a parentalidade? Que mais quê? Desculpa. Mais recomendações. Mais recomendações. Más recomendações. Coisas que o homem diz não concordo com isto. Mas em relação a quê? À educação? E também à decoração, sem contrário. Porque se calhar as duas são importantes. Na decoração ninguém sabe mais do que a Gracinha. Na educação, na decoração acho que duas coisas. Acho que as pessoas às vezes têm um bocadinho se calhar porque a vida corre e não temos muito tempo para parar e pensar, olhem nós próprios quem somos mesmo, o que é que gostamos, quase fazermos um questionário, o desafio as pessoas estão a ouvir, a fazerem um questionário em casa para se conhecerem melhor será que estão a ouvir a música que gostam mesmo será que estão a comer a comida que gostam mesmo será que estão a viverir a música que gostam mesmo? Será que estão a comer a comida que gostam mesmo? Será que estão a viver com as cores que gostam mesmo?
48:09 E fazerem-se um questionário para se autoconhecerem. Porque isso depois também ajuda na educação. Mas eu acho que um dos erros que as pessoas acham na decoração é que acham que uma sala com pouca luz natural tem que ser branca, ou de cor ou sem cor, quero dizer quando que uma sala com pouca luz natural usufrui muito mais com a cor e torna-se muito mais confortável com um certo tipo de cor do que se ficar branca porque achamos que o branco é uma cor clara por isso a sala fica mais clara por estar branca e não é verdade fica uma sala, às vezes um bocadinho, os ingleses dizem gloomy, assim um bocadinho não é carne nem é peixe, só por a pessoa ter medo de perder a luz e se pusesse uma luz e arriscasse, uma cor e arriscasse, se calhar tinha uma sala com mais personalidade onde gostaria de estar. Isso é uma dica.
49:05 Em relação à parentalidade? À parentalidade... Mais recomendações costumam vir. Mais recomendações... Pode não haver. Às vezes é sensível o tema. Não, eu digo-lhe uma coisa. Outro dia estava a ter, esta semana, tive aqui um desentendimento com um dos meus filhos e porque tínhamos as duas opiniões diferentes e a certa altura ele virou-se para mim e disse ó mãe, ele tem 14 ó mãe, os adultos têm a mania de como é que ele disse, eu até mandei a mensagem ao meu marido por whatsapp para não me esquecer mas estava tão certo os adultos tratam os adultos querem que os adolescentes hajam já como adultos mas não nos deixam decidir como adultos foi assim qualquer coisa desse género e eu fiquei a olhar, ele desarma-me sempre com estas coisas e depois eu estava ali a defender a minha opinião, eu olhei para ele dei-lhe um abraço e disse tem oh Guilherme, tem toda a razão tem toda a razão, desculpe, desculpe eu peço imensa desculpa e tenho imenso orgulho de ser uma mãe que pede desculpa e que eles saibam que os pais estão a crescer como eles e erram como eles falamos muito disto cá em casa, mas isto de nós exigirmos até aos pequeninos que façam coisas que nós não fazíamos com a idade deles às vezes esquecemos que já tivemos a idade deles e depois nós não fazermos ou nós não os deixarmos fazer é típico e é uma coisa que podíamos todos melhorar nisso Muito bem, tenho aqui uma última questão, Gracinha quando se sente a soberbada perdida ou sem foco, o que é que faz?
50:45 Tiro os sapatos ponho os pés no chão, keep grounded, enraizada, ponho os pés no chão e respiro. Eu acho que a respiração é... Há duas coisas que são fatores enormes a olharmos. É o cansaço e isso obviamente estamos todos estão agora com trabalho em casa com filhos, com escolas não escolas, a tentar arranjar um equilíbrio muito rapidamente a ebulição sobe, não é? a panela de pressão rebentar, mas eu acho que vamos realinhar vamos parar, vamos ter aqueles momentos para mim nem que sejam escondidos mas é verdade, houve umas conversas qualquer que eu disse, não, tenham o vosso ritual eu desde muito pequeninos eu agora já não bebo café, mas eu bebi café durante muito muito tempo e aquele momento do café para mim era um realinhar e é pensar que podemos ter vários por dia não cafés, mas momentos de realinhamento e não sei como é que se diz em português realinhamento, é assim que podemos ter vários por dia não cafés, mas momentos de realinhamento e, não sei como é em português realinhamento, é assim que se diz?
51:48 Sim, sim, sim e é como eles estudarem, eles não conseguem estudar durante horas, os meus filhos de x em x tempo param, nem que seja 10 minutos vão dar uma voltinha, correm brincam qualquer coisa durante 5, 10 minutos e voltam, porque o cérebro precisa, portanto o cansaço extremo, temos que estar correm, brincam com qualquer coisa durante 5, 10 minutos e voltam, porque o cérebro precisa. Portanto, o cansaço extremo, temos que estar atentos a isso.
52:10 Então, eu, de vez em quando, várias vezes durante o dia, gosto de tirar os sapatos, gosto de fechar os olhos e respirar. E respirar oxigênio ao cérebro dá-nos espaço para pensarmos em soluções rápidas, às vezes, de problemas diários aqui em casa, onde sejam, ou com as crianças, respostas rápidas. E é muito importante respirar. Eu até pus no meu Instagram, respiro fundo, tapo o nariz de um lado, expliquei mesmo, faço às vezes o que for preciso, de olhos fechados, e as pessoas realmente deram-me um feedback espetacular, porque realmente sabe bem respirar durante X minutos e voltar a fazer várias vezes durante o dia.
52:53 Bom, é uma excelente dica também de parentalidade. Quando nós damos esse exemplo, se calhar as crianças aprendem muito mais facilmente do que se nós tentássemos impor, tens que respirar. Dizer às vezes não orientianta nada, mas praticar adianta totalmente. Portanto, eu acho que isso é precioso e é uma forma também de cuidarmos de nós próprios e se não cuidarmos bem, não vamos conseguir ser bons pais. Claro. Gracinha, muito obrigado por este tempo.
53:22 Nuno, muito obrigado também. Hoje mais que melhor, não sei se desculpe Mas foi precioso e espero poder repetir isto outro dia, quando tiver tempo para nós Obrigado pelo sábado e qualquer coisa que precise, por favor, disponha, está bem? O quê? O quê? Desculpe? Obrigado por este bocadinho do seu sábado sempre precisar de nós, por favor, despoja Está bem, obrigada Obrigada a todos que estiveram aqui Obrigado, até à próxima Obrigada Amam o seu filho?
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