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Dicionário das Crianças · Episódio 11

ABC da Educação Especial — Maria Joana Almeida

1 de fevereiro de 2021 · 1 h 07 min · com Maria Joana Almeida

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O que é que faz um professor de educação especial? E o que é, afinal, 'normal' e 'especial' quando falamos de crianças? Neste episódio do Dicionário das Crianças, Nuno Simões conversa com Maria Joana Almeida, professora de educação especial há quase duas décadas, mãe de duas meninas, cronista no jornal Público e autora do blog Pedimos Gomas Como Resgate, para construir um verdadeiro abecedário da educação especial.

Joana começou aos 22 anos num colégio de educação especial, com uma turma dos 3 aos 16 anos, cada criança com necessidades diferentes. Foi aí, conta, que se sentiu mais aluna do que professora, e que construiu a convicção que atravessa toda a conversa: o foco nunca é o rótulo, é o João, a Maria, a Inês. Quando pomos um holofote sobre o 'problema', deitamos por terra aquilo que dizemos querer, que é incluir.

Aliás, para Joana a própria palavra inclusão é extenuante: quem fala em incluir assume que há um 'nós' que decide aceitar o outro. Prefere falar de diversidade, de respostas diferentes para cada criança. E dá exemplos concretos, como a história da Isabela, uma aluna com uma doença degenerativa a quem tratava com equidade e humor em vez de condescendência, porque o paternalismo é a pior coisa que se pode fazer a alguém com uma condição especial.

A conversa desce ao terreno prático que interessa a pais e educadores: os três patamares de medidas de apoio nas escolas portuguesas, os sinais de alerta da dislexia (e o que ela não é), os diferentes métodos de aprendizagem da leitura, como o das 28 palavras, e a razão pela qual ler e escrever são, nas palavras de Joana, as nossas ferramentas de liberdade.

Gravado durante o confinamento, o episódio termina num registo mais íntimo, sobre maternidade, luto e legado, e sobre os 'croquetes metafóricos' que Joana gostava de deixar às filhas: a coragem de arriscar e a certeza de que uma mãe não tem de se anular para o ser. Uma conversa que continua actual para qualquer pai que queira olhar para cada criança como ela é, e não como o rótulo que lhe puseram.

Neste episódio

Guia prático

Fundamentos Teóricos e Planeamento

A teoria por trás do brincar, para quem trabalha com crianças.

Ver o guia

Transcrição completa

0:00 das crianças com Nuno Simões, do Gymboree Play & Music Portugal. Uma conversa semanal com especialistas sobre o dia-a-dia da parentalidade e do desenvolvimento da primeira infância. Para pais, avós e educadores de crianças do 0 aos 5 anos. O conteúdo deste programa é meramente informativo. Independentemente das opiniões expressas pelos nossos convidados, deverá sempre consultar o seu médico, terapeuta ou pediatra. Olá, Joana. Olá, Nuno. Tudo bem? Obrigada por este convite.

0:30 Tudo bem? Obrigada. Obrigado eu. Joana, tu és uma professora de educação especial, tu és muitas outras coisas, és escritora, és cronista, tens um blog fabuloso que eu já recomendei aqui nas nossas... Obrigada. Na descrição. Como é que tu te identificas? Também és mãe. Qual é a tua primeira profissão? A primeira profissão é ser... Olha, pois, eu era muitas coisas antes de ser mãe, não é? Mãe é uma coisa que me ocupa constantemente, sempre e para sempre, naturalmente.

1:04 Mas antes disso fui primeiro professora, a minha base é professora de primeiro ciclo, depois tirei a especialização em educação especial, porque comecei logo a trabalhar num colégio de educação especial. Depois mais tarde especializei-me em perturbações da linguagem porque senti que tinha essa lacuna na minha formação e tinha crianças com perturbações da linguagem e eu sentia que não conseguia chegar até elas, ou a melhor forma para conseguir trabalhar com elas fui mãe tenho duas meninas uma de um ano e três mas uma coisa que é muito importante para mim é exatamente este equilíbrio entre o ser mãe e ter digamos a minha carreira, a minha profissão que eu gosto muito e que me faz muito sentido a escrita foi aparecendo aos poucos eu sempre gostei, agora parece aquelas coisas do eu sempre gostei muito de escrever mas a verdade é essa, gosto, aliás quando tu me convidaste, a primeira coisa que eu pensei acho que partilhei contigo foi bem, eu acho que me parece muito melhor a escrever do que a falar mas sim gosto imenso de escrever, é uma forma para mim de expressar gosto muito de educação, gosto muito de educação especial e tenho escrito muito em torno dessa área não só no blog tenho tido a oportunidade de escrever também no jornal público o que é muito interessante também e sim, sou um conjunto de todas essas coisas, sim E não tarda nada vai sair um livro talvez, não?

2:28 Olha, seria sim, é uma coisa que eu ando a tentar planear confesso que li assim alguns receios, mas gostava bastante, tenho algumas ideias, tenho algumas coisas escritas e vamos ver se vai para a frente, já desafiei a Inês Afonso Marques para escrevermos juntas também, portanto sim, talvez nos próximos tempos, sim. Ok, esse livro eu não vou perder. Joana, nós já vamos voltar aqui a esta parte da maternidade e se calhar até uma análise um bocadinho mais meta da maternidade, que é enquanto nós, enquanto filhos também.

3:01 Mas nestes meus estudos sobre educação especial destes últimos dias, houve uma frase em particular que me marcou, de uma colega tua e que foi quem é realmente o professor e o educador nesta relação de professor especial e criança entre aspas especial alguma vez te sentiste se calhar mais à aluna numa dessas relações, nesses binómios que tu às vezes tens que ter, não é? com crianças a necessidade de ajuda já te sentiste mais à aluna do que à professora? Sim, sem dú que ter, não é? Com crianças, a necessidade de ajuda. Já te sentiste mais aluna do que professora?

3:26 Sim, sem dúvida, sem dúvida. E isso não é nenhum clichê, Nuno. Repara, eu comecei a trabalhar, eu teria formação em primeiro ciclo, mas comecei agora a trabalhar num colégio de educação especial e nós há bocadinho tentávamos conversar sobre isso. Portanto, eu tinha 22 anos quando comecei a trabalhar, quando entrei naquele colégio pela primeira vez e tinha uma turma portanto, repara, dos 3 aos 16 anos, todos diferentes todos com as suas necessidades específicas individuais e tu ficas, o que é isto? Onde é que eu me vim ter?

3:59 Porque era extremamente intenso, era daquelas coisas que tu quase que, pá, acabou, eu chegava a casa estourada, eu não quero ir, não quero porque estavam completamente constantemente a desafiar-te e tu ainda eras nova portanto não, aquilo é uma coisa, aquilo que a universidade te dá, outra coisa é quando tu vais para a parte prática. Portanto foi um desafio gigantesco, porque eu fui sempre à aluna durante, e sou ainda, não é?

4:22 Durante estes, portanto eu tenho 38 anos estamos a falar de quase 17 anos, sempre na educação especial, e claro que ainda me sinto imensa aluna, eu também tive muita sorte, como a minha tia e outras pessoas, claro, de ter pessoas incríveis, que me ensinaram imenso, e de ter tido também muitas experiências, porque eu tive 4 anos num colégio de educação especial, onde basicamente fui atirada à parede relativamente àquilo que eu necessitava de resiliência de tolerância de tudo porque eu ali naquele colégio tu tinhas de tudo portanto tinhas as crianças com um comprometimento cognitivo gigantesco quase vegetais era impressionante até chegarmos às partes do comportamento social, completamente disruptivos e pronto foi mesmo um desafio foi como se tivesse sido atirada assim para a arena e ter que nos imbecilhar mas foi incrível estes primeiros 4 anos que eu tive no Colégio de Educação Especial foram imprescindentes, eu lembro quando ia às entrevistas de emprego, diziam ah, mas já trabalhou no Colégio de Eduardo Claparède então consegue fazer tudo percebes, porque era, tinhas de tudo tu ali conheces tudo e tinhas de aprender a lidar com tudo repara foi ali também eu se calhar se tivesse tido outra experiência não teria, se eu tiver a ir à volta da conversa, diz-mehar se tivesse tido outra experiência não teria se eu tiver a ir à volta da conversa se eu tivesse se eu tivesse tido outra experiência eu provavelmente nunca teria sido construída da forma como eu fui em relação aos paradigmas que tenho disto, não é?

5:54 eu cheguei a ir buscar crianças a casa eu tinha que conter fisicamente alunos porque se passavam porque como não tinham repavam porque como não tinham repara, como não tinham competências de comunicação muito desenvolvidas portanto tu partes para a agressão, é isso que tu fazes para que tu consigas ouvir portanto eu tinha de tudo no meu dia a dia eu chegava a casa completamente estafada e até que tu conseguisses ter a relação com aquelas crianças, que elas começassem a olhar para ti como uma figura de referência porque no fundo é um bocadinho isto que tu lês foi assim um 31 pronto, mas quando isso acontece é um trabalho incrível porque tu vês mudanças inacreditáveis portanto sim senti-me muito à luna, aliás senti-me apenas à luna ali eu andava ali um bocadinho ao sabor do que que ia acontecendo, no fundo.

6:48 Depois tive várias experiências, depois saí e trabalhei numa escola regular com crianças que realmente tinham muitos comprometimentos, não tanto e tão intensos como no colégio. Estive também numa unidade para perturbações do espectro do autismo, que também foi muito bom para o meu desenvolvimento académico, porque nunca tinha estado, aprendi muito, bastante mesmo. Depois estive no PF também, que também era muito exigente, muito desafiante. Portanto, fui tendo assim muitas experiências que, olha, que me fizeram a pessoa que sou hoje e que com uma visão muito particular no sentido que é a minha sobre a educação e o que é isto de educação especial e o que é ser professor de educação especial mas serás sempre aluno e eu acho que é bom tu também te sentires assim, não é? Porque ninguém tem verdades absolutas e nunca vais ser até ao final da tua vida. Claro sabes que aqui no mundo do empreendedorismo, que é o que eu conheço melhor nós vemos de uma um paradigma que era o empreendedorismo é uma coisa inata há pessoas que têm jeito têm um perfil de risco particular e entretanto nos dias de hoje já não se acredita nisto acreditamos que é uma disciplina como qualquer outra ensina-se e aprende-se desde que se possa passar um alfabeto básico das ferramentas mais comuns. A minha pergunta para ti é, achas que é preciso um professor especial para fazer ensino especial, ou é uma coisa que qualquer pessoa com vontade poderia fazer?

8:16 Olha, eu acho que qualquer pessoa com vontade poderia fazê-lo. Se tu me perguntar se isto é um perfil definido há algumas coisas que eu acho que são absolutamente necessárias é muito importante tu embora eu agora ia-te dizer isto e já tenha conhecido pessoas que encaixavam a vida toda em caixinhas, em gavetas e que se tornaram professores incríveis porque tiveram a humildade de alguma forma de perceber que tudo aquilo se calharhar, estava absolutamente incorreto, e lançaram-se, e lançaram-se para o desafio.

8:51 Eu acho que é preciso teres isto, não é? Não teres medo para te lançar. Por exemplo, agora falando um bocadinho do colégio, eu lembro que muitos professores chegaram àquele colégio para dar aulas e passado uma semana saíram, não conseguiram. Não sei se isso terá a ver com alguma coisa intrínseca, não te sei dizer, mas claramente tem muito a ver com a vontade. Agora lembro-me daquela frase que é a criatividade existe, mas tens que estar 99% do dia a trabalhar nela para conseguires.

9:20 Pronto, é um bocadinho por aí. Há uma sensibilidade que é absolutamente necessária mas que se tu viveres algum contexto ou se viveres alguma situação ela pode surgir de ti, não é? agora há muito, agora lembrei-me disto é muito comum tu ouvires dizer que, ah porque de certeza que já ouviste isso porque os professores podiam fazer assim e porque as professores não são sensíveis e porque as professores não fazem isto, só dão conteúdo é muito ingrato às vezes para os professores, eu posso dizer que é maior a porcentagem de professores que é incrível e que se preocupa e que já tem esta questão da relação absolutamente intrínseca neles e tu nem precisas falar acerca disto e há aqueles professores que sabes que a educação especial trabalha-se muito nos bastidores, repara e isto é mesmo muito importante o que eu te estou a dizer porque tu precisas ter uma atitude também de não te colocares num pedestal que tu sabes tudo não é? De que sabes isto e que sabes aquilo e falares com os professores e dizes, olha, vou-te agora dar aqui uma conversa, se calhar, com uma professora que é um bocadinho mais difícil de perceber estas coisas, ou porque está num secundário e, portanto, ela está mais virada para a questão dos exames, por exemplo, mas se eu chegar ao pé dela e tiver uma relação com ela e lhe disser, olha, ele está um bocado olha, sabes que perdeu a irmã, não está bem portanto, nós temos que fazer aqui um bocadinho de trabalho ter um bocadinho esta noção, falar se calhar um bocadinho com ele e quando tu falas disto, nos bastidores porque às vezes em conceitos de turma tu não consegues falar acerca de tudo tu sensibilizas as pessoas e as pessoas depois são capazes de fazer coisas incríveis pronto, eu acho que é muito por esta inspiração tu modificas não por decreto, não é?

11:04 porque tu podes ter todos os decretos, mas se tu não sentires, tu não vais mudar absolutamente nada. Tu modificas por inspiração mútua, não é? Por veres a fazer e por veres a fazer e a veres que funciona. Agora a pessoa tem que estar predisposta a isto, naturalmente. Pois, estava a ouvir agora e estava a pensar. Eu tive, e muita gente teve, professores absolutamente inspiradores que ficaram connosco para a vida e professores se calhar que não deixaram uma grande marca ou professores que nós vamos ouvindo ao longo dos anos nas reuniões de turma há sempre pais a queixarem-se têm um viés contra o meu filho ralha-lhes toda hora insulta-os e realmente às vezes parece que houve pessoas que nasceram realmente dotadas de uma sensibilidade particular e outras pessoas que pela sua programação têm um viés às vezes menos favorável para o ensino mas se calhar isso liga bem com esta pergunta que eu tinha para te fazer a seguir eu acho que nós fomos ensinados desde pequenino a sentar nos direitos ouvir o professor, usar a nossa voz interior quando quiseres pensar pensa em voz baixa não estejas a partilhar qualquer impulso que tenhas com os colegas do lado uma piada que tenhas, guarda para o intervalo e nós associamos isto à normalidade e portanto há aqui esta pergunta que é o que é normal e o que é especial normal é obedecer às regras da sociedade e da escola ou para ti é outra coisa qualquer, tu tens uma definição clara e estanque do que é que é normal e do que é que é especial?

12:30 Não, de todo, de todo, e é muito fácil tu veres isso, por exemplo, num conselho turma, que é, tu falas acerca de um miúdo, e há um professor que diz, esse miúdo é terrível, esse miúdo nas minhas aulas é uma coisa terrível, não o consigo, não está a sossegar, não está atento, não faz nada, e de repente ouvese outro e diz, não, mas ele na minha está ótimo.

12:46 Ele na minha está perfeito, não tem nada a dizer sobre isto. Isto acontece imensas vezes. E depois tu queres perceber, então o que é que se passa aqui? Portanto, essa questão da normalidade e do especial é absolutamente relativo. Sabes que há muito... Ora bem, nós quando falamos um bocadinho de educação especial, das necessidades educativas especiais, nós temos sempre se tivesse que pensar num logotipo imediato, quase aquilo que é socialmente mais visto, é a cadeira de rodas, não é?

13:11 Se eu pensares assim, é logo a primeira coisa que te surge, pronto. Tu tens mil e uma coisas, não é? Mil e uma coisas. As necessidades educativas especiais são um espectro gigantesco, assim como é a perturbação do espectro do autismo. Não tens um miúdo que seja igual, não é? É um espectro. Portanto, aqui a questão da normalidade é absolutamente não faz sentido tu dizeres isso agora perdi um bocadinho na cabeça desculpa, estávamos a falar da questão do espectro e se tinhas uma definição clara de...

13:42 não há definições claras, vamos lá ver há sinais de alerta naturalmente que tu tens, ver, há sinais de alerta, naturalmente, que tu tens, que são os sinais de alerta do que é que o desenvolvimento da criança deveria ser e aquilo que ela de facto não está a fazer dentro dos padrões que seriam aceitáveis. Tu vais à pediatra e também tu vai vendo claramente estas questões. Portanto, e isto é importante nós estarmos atentos para perceber se efetivamente há ali algum comprometimento, se deverá ser avaliado, por quem, como.

14:09 Agora, quer dizer, há imensas questões de miúdos que têm uma agitação psicomotora muito grande, e tu colocas logo ali o rótulo da hiperatividade, e portanto achas que só por causa disso é especial, mas às vezes é mesmo uma forma de ser, e é uma forma de ser que pode ser completamente diferente com um professor do que com outro que às vezes tem muito mais a ver só com a questão de como é que o professor capta a atenção dele como é que o lê de alguma maneira e tem o empenho e o interesse de o trazer para si no fundo, não é?

14:47 Portanto, não se consegue dizer isso. Agora, naturalmente, há coisas que são bastante claras e há coisas que são bastante claras desde o nascimento e que tu percebes que vai ser uma condição para o resto da vida. Agora, é importante, acima de tudo, no meio disto, mais do que é especial ou normal, é o João, é a Maria, é a Inês, não é o NEE, como tu costumas ouvir, não é? E não é os testes para os NEEs, que é uma coisa terrível que eu odeio ouvir, que é mas o que é que é os testes para os NEEs?

15:16 Eu não sei, estás a falar de quem? Do João, da Maria? Porque eles são absolutamente diferentes, não têm nada a ver quando tu colocas o foco quando tu colocas o foco no problema, no que é fora do digamos regular que tu estás habituado tu estás a pôr ali um holofote em cima daquele miúdo. E isso deita absolutamente por terra aquilo que tu defines como a inclusão. Aliás, mais do que a inclusão nós temos que pensar na diversidade. Existe uma diversidade social.

15:44 Portanto, tens respostas diferentes para cada criança. No fundo é um bocadinho isso. Claro. E depois há aquelas crianças que sempre questionaram a autoridade e vão continuar a questioná-la pela vida fora. E às vezes isso não é indesejável, não é? Mas tu consegues traçar uma fronteira de quando é que deve parar este porquê. Às vezes aqueles porquês são super desconfortáveis. Eu jutei ciências numa outra vida. Quando os meus filhos me começam a perguntar porquê, há uma altura em que eu não tenho um porquê, ninguém tem.

16:14 O melhor professor da faculdade, o técnico, quando me pergunta porquê é que os corpos se atraem, ninguém sabe. Eu sei a força com que eles se atraem, mas eu não consigo explicar uma série de fenómenos. E fica super difícil de os ensinar a partir daí, não sei como é que tu lidas com isso. Eu ainda não lido muito com essa parte, mas sim, mas é de lidar.

16:34 Olha, eu vou-te dizer um bocadinho aquilo que eu disse à Inês, quando falei com ela. Eu não sou, agora se calhar entrando aqui um bocadinho mais na parte da parentalidade, eu acho que não me encaixo muito na categoria, há várias categorias e são todas legítimas, atenção, da mãe que se automartiniza por ralhar ou porque logo correu bem ou porque agora não está a apetecer ou agora a mãe não pode.

17:00 É importante que os teus filhos percebam, na minha crença muito pessoal, que às vezes não podem ser o centro das atenções, não é? Portanto, tu estás a falar com o pai, ou estás a fazer outra coisa, ou estás, aquilo realmente não pode ser. E dizer, por exemplo, agora falaste na questão dos porquês, não é? Ou até podemos transpor isso para uma sala de aula. Tu podes dizer algo tão simples como, olha, essas perguntas são ótimas, é muito bom que sejas curioso, é muito interessante.

17:23 Tu até podes ir, dependendo, podes ir ao tele telemóvel ou deixas-te agora um bocadinho e vais ver, ou vais ali ao computador, ou vais a este livro mas eu agora não te consigo estar a responder se esperas um bocadinho, ou até depois no final quando acabar o que estou a fazer, podemos falar acerca disso pronto, pequenas coisas que tu podes fazer que não estás de forma nenhuma a castrar ou quer que seja mas a perceberem que existem regras, porque vamos lá ver quando tu questionas a autoridade dependendo ali do nível é interessante fazê-lo não é? Agora a verdade é que ela existe e portanto a uma determinada altura na vida em sociedade tu vais ter que respeitar é a mesma coisa de que se tu não impões limites aos teus filhos porque não os queres ou magoar ou que eles fiquem tristes no meu ponto de vista não estamos a fazer um bom trabalho porque eles vão ter muitas frustrações ao longo da vida, não é?

18:16 Portanto, esta questão terá que ter sempre um limite que é um limite da pessoa que está à tua frente é um bocadinho aquela frase que eu demorei a perceber que o professor dizia imensas vezes que era a minha liberdade que começa, também era quando começa a liberdade dos outros, e quando eu ouvia aquilo eu nunca conseguia perceber muito bem, mas depois de repente faz sentido, de facto e portanto isso tem que ser respeitado Claro Joana, quão importante é para ti a questão das metas curriculares, tanto no contexto do ensino especial como no dito normal?

18:43 É uma chatice, as metito normal? É uma chatice. As metas curriculares são uma chatice. Há uma coisa muito boa que veio modificar aqui nestes últimos 2, 3 anos, que é as aprendizagens essenciais. Nós agora falamos de aprendizagens essenciais no final. Que me fazem muito mais sentido do que ser uma coisa muito categorizada, muito bloco o que é que tinha de bom um colégio de educação especial por exemplo não está minimamente preocupado com as metas curriculares não está minimamente preocupado com isso o foco é claramente o aluno e se ele se sente bem, como é que ele está emocionalmente e se está preparado para aprender no fundo o problema é que quando tu transpões isto para a escola regular, tu tens de preocupar com as aprendizagens essenciais a verdade é essa é por isso que tu também tens muitos níveis dentro da educação especial na parte legislativa para tu trabalhares com as crianças só para perceberes quando houve aqui esta parte do confinamento e as escolas fecharam, portanto as crianças. E isto agora, só para perceberes, quando houve aqui esta parte do confinamento e as escolas fecharam, portanto, as crianças que tinham medidas adicionais, nós temos três patamares.

19:51 Temos as medidas universais, que as pessoas utilizam para qualquer aluno que tenha algum comprometimento, que até pode ser só durante algum período de tempo, ou pode ser durante mais tempo. Tens as seletivas, que aí já tu podes fazer adaptações, podes fazer adaptações curriculares, mas que não impliquem as aprendizagens essenciais que tu tens que ter, é uma forma de acessar o currículo um bocadinho diferente, e depois tens medidas adicionais que aí tu modificas o currículo, pronto.

20:17 Claro que isso depois tem consequências na parte mais futura, porque depois estes miúdos ou não fazem exame, ou fazem um exame adaptado, mas no acesso depois à faculdade têm implicações. No entanto, o que faz é que consegue que estes miúdos, com uma forma diferente de tu dares o currículo, conseguem aceder a algumas aprendizagens. Pronto. Isto por um lado. Agora, a verdade é que as metas curriculares, vamos falar de aprendizagens essenciais, têm que cair por terra quando tu tens o melhor à tua frente, que emocionalmente não está estável, que não está bem, claramente não está bem, há qualquer coisa ali que está a bloquear por completo a conhecimento e tu tens que perceber o que é que é.

21:01 o que tu quiseres, o pino, dar as voltas que deres ao currículo, que ele não vai aprender, que ele não estará disponível para aprender. Portanto, tem que ser muito bem pensado, tem que ser uma coisa muito individual. Só a título de exemplo, no secundário eu não trabalho com medidos que têm medidas adicionais, porque só os que, agora só para fechar um bocadinho aquele ponto que estava a dizer, só as crianças com medidas adicionais, que só os que agora só para fechar um bocadinho aquele ponto que estava a dizer só as crianças com medidas adicionais que têm mesmo comprometimentos maiores é que mantêm a escola aberta com os terapeutas a trabalhar com eles que me faz muito sentido porque acho que os outros até conseguem de alguma forma ir acompanhando, quer seja online quer seja de outra maneira mas a verdade é que a pressa de conseguem de alguma forma ir acompanhando, quer seja online, quer seja de outra maneira.

21:49 Mas a verdade é que a pressa de... Sabe o que é que fica isso mais no secundário? Se calhar agora vou-te falar um bocadinho do secundário, mas podemos falar depois noutros níveis de ensino. É, mas ele tem que fazer exame, mas ele tem que fazer exame. Sim, mas não interessa se quer que eu pensasse acerca disso, ele está no décimo ano. Ele não está emocionalmente estável, ele não está capaz disso.

22:04 Vamos esquecer por completo os exames vamos tentar primeiro conhecê-lo que ele tenha uma relação com vocês às vezes nós acabamos por ser uma pequeninha figura de referência acabamos por ser ali um pequeninho tutores também daqueles alunos e só quando isto acontecer é que ele estará preparado para aprender o que quer que seja, e vamos ter que o fazer eu trabalhei durante algum tempo na escola da apelação, que é uma escola que está inserida num bairro social muito complicado. E o diretor dessa escola disse-me uma coisa fantástica. Porque tu tens os rankings, não é? Todos os anos tens os rankings.

22:34 Que são muito mais académicos do que sociais. O trabalho social que às vezes fazes com os meninos. E o diretor falou comigo, quando eu cheguei lá, e disse-me a primeira coisa que eu me disse, e foi exatamente assim. Nem eu conhecia. Eu costumo aborrifar para os rankings, nós estamos em último lugar eu não quero saber, eu quero é que estes miúdos do bairro social que aqui estão gostem de vir à escola que isto lhes faça sentido, que eles aprendam alguma coisa, e isto é muito mais honesto do que outra coisa qualquer Claro, e com muito mais resultados também, eu estava aqui a pensar que há crianças muito mais empíricas do que teóricas e aquele modelo realmente socrático de aprendizagem... Sufoca. Sufoca e nós temos agora imensas correntes pedagógicas totalmente diferentes e muito mais holísticas, mas também muito mais modernas e sofisticadas. E depois temos os Cristiano Ronaldo, quer dizer, não se reconhece realmente assim grandes notas academicamente, mas pronto, ele é uma pessoa altamente funcional e talentosa, não é?

23:31 E portanto teve a oportunidade de aprender aquele talento e desenvolvê-lo, usar o seu empenho, o seu drive para aprender a jogar a bola. E às vezes a mim o que me faz pensar, como pai, como educador, às vezes como consultor, é realmente o que é que pensar como pai, como educador às vezes como consultor é realmente o que é que estas pessoas conseguem fazer e podemos nos focar nisto e enriquecer isto eu sei que isto é muito uma abordagem também do ensino especial versus o que é que eu gostaria que eles fizessem porque resultou para mim ou porque aparentemente está escrito ali numa meta qualquer curricular nós aprendemos imensa matemática, eu estudei engenharia numa outra vida, e não vou dizer que já me esqueci daquela matemática, mas posso-te garantir que 80% daquela matemática eu nunca usei, mesmo enquanto professor e enquanto explicador.

24:19 No entanto, aquilo aparentemente era precioso para quem desenhou aquele currículo, e acredito que ele tenha editado imenso, se calhar editou, havia outro 50% de matemática que ele disse, esta aqui não vale a pena. E é muito por aqui que às vezes há pouca saúde física, há pouca curiosidade intelectual, e nós continuamos a empurrar um bocadinho de geografia aqui, um bocadinho de história lá, um bocadinho de francesa colí, e se calhar aquelas crianças podiam estar apaixonadas por um conjunto de outros conhecimentos, igualmente úteis, serem felizes, nutrirem a sua curiosidade, e depois serem altamente funcionais e produtivos, não é?

25:04 Sem dúvida nenhuma, sim. Mas aí também há uma coisa que eu acho que é importante nós verificarmos, que é, como disseste aí bem, há miúdos, quer dizer, quando nós dizemos que todos têm desejos e objetivos especiais, há miúdos que passam pela escola de uma forma absolutamente regular e com boas notas e sem estresse absolutamente nenhum. Eu acho que, por um lado, eu também te queria dizer aqui uma coisa que é se calhar se eu tivesse de categorizar mecanismos de prejudicação especial também há muitos nichos eu enquadro-me um bocadinho naquela que não é de nada nem paternalista, que acho que é o pior que tu podes fazer em qualquer pessoa, e especialmente em alguém que tenha uma condição especial, digamos assim.

25:52 Não me faz sentido absolutamente nenhum. Pronto. E isto para dizer o quê? É muito importante que as crianças também percebam, de alguma forma, que a escola também é o trabalho delas, não é? Aquilo é o trabalho delas. Acho que também têm que perceber que têm que estudar, que têm que fazer isto, têm que fazer aquilo. Obviamente que isto tem que ser equilibrado, naturalmente, com os interesses que elas têm e tu percebes o potencial dela, porque tu podes encaminhá-la para mais algum lado.

26:18 Quer dizer, olha, por exemplo, eu tenho miúdos que... Estou agora aqui a lembrar de um miúdo que tem uma ótima matemática e a geometria descritiva é um miúdo que é um ótimo a matemática e a geometria descritiva é um miúdo de 20, incrível, incrível mas depois em inglês, a filosofia em português é doidos não dá, pronto, não é, não organicamente aquilo não dá, e eu penso, mas este miúdo agora vai ser prejudicado por causa disto se ele quer a matemática e a geometria descritiva então o que é que tu fazes? Falas com os professores e diz faz adequações nesta parte, porque ele não é a área dele portanto é aquilo que é o mais básico que ele deveria aprender e vamos apostar efetivamente naquilo que ele gosta e naquilo que ele é. Então tu estruturas a coisa desta forma. Não deixa de ser importante, por uma questão de responsabilidade e de compromisso, que ele, que o professor faça a adaptação, por exemplo, das disciplinas onde de facto ele não tem tão boas notas, mas que ele também cumpra aquilo que é necessário cumprir. Não sei se percebes aquilo que eu estou a dizer.

27:08 É claramente um equilíbrio neste sentido. Mas não vamos estar aqui a insistir numa coisa que não dá. Era como eu, quer dizer, eu a matemática e fisicologia era uma desgraça, mas depois tínhamos duas notas na parte das letras, pronto e depois há aqui outra coisa que é muito importante que é, às vezes tu tens esta coisa de, pois mas ele tem necessidades educativas especiais, não é? então se calhar vou-lhe dar o 10 só para, isto é horrível isto é de uma desonestidade e de uma falta de respeito, eu diria isso falta de respeito pela criança e depois tu exiges 50 no meio do que se quer, consegue dar 90.

27:46 E depois tu nunca sabes o que consegue dar. Porque tu só precisas de 50. A meta para tu foi só 50. Antes de o conheceres, antes de ter o perfil. Só para teres noção. Às vezes eu ouço assim. Então é para fazer testes adaptados. Imaginas, chega um conselho, turma. Mas eu não estou a culpar estas pessoas. Atenção. Porque não estavam, não estão sensibilizadas para isto não pensaram desta maneira então chega uma cintura, eles ainda nem conhecem o aluno e dizem a tua LME é para fazer testes adaptados e eu pergunto, mas adaptar o quê?

28:16 porque tu nem sequer o conheces, nem sequer fizeste uma parte diagnóstica, portanto tu não sabes o que é que ele pode dar portanto vamos adaptar e depois ele até podia dar muito mais e nós não sabemos não faz sentido, não é? tudo existe e de facto a coisa dá logo ali um input diferente e é a questão de não ser paternalista nem condescendente, é uma diferença enorme, eu posso dar inúmeros exemplos sobre isto mas este eu acho, eu disse isso num congresso eu tive uma aluna que era a Isabela que ela tinha uma doença degenerativa, ela estava no 6º ano, e a Isabela mediu um metro e vinte, um metro e, não, ela mediu um metro e um metro, pronto, não se desenvolvia. depois lá dá-me uma mochila enorme então tu tens dois tipos de professores, que é aquele que ah Isabela, coitada, tu não consegues dá cá a mochila, dá cá, dá cá, que tu não consegues vamos lá, dá cá a mãozinha para a gente descer as escadas ou então tens, por exemplo eu que dizia, oh Isabela, pelo amor de Deus, vai-te lá a mochila e vamos lá descer as escadas, vamos as duas, bora isto é completamente diferente qual era a pessoa com que ela se ligava mais a que vamos se ligar mais comigo, porque é com equidade, estás a perceber?

29:30 Respeitas a diferença, não é diferente. Ou seja, é diferente, mas tu não tens que pôr um holofote sobre aquilo. Ela consegue descer as escadas sozinha, ela consegue levar a mochila sozinha. Então por que raia é que não há de poder levar? Isto são ferramentas, tu dás estes minutos para o resto da vida. Quando tens este tipo de... E mover, quando tens este tipo de atitude. E usar o humor, que é fantástico.

29:49 Claro. Olha, eu gostava agora de falar um bocadinho sobre inclusividade. E tenho aqui um pequeno exemplo sobre o qual gostava de ouvir as tuas notas. Eu estava a ver alguns vídeos sobre colegas tuas que estavam a partilhar as suas experiências. Uma delas, em particular, contava a história de uma criança que tinha necessidades especiais e que tinha descompensado numa aula normal, numa escola típica. E ela estava descompensada e, portanto, a reação que ela teve foi pegar nessa criança, levá-la para uma sala à parte, para ela conseguir chorar tudo, gritar tudo.

30:23 E depois ela teve lá uma catarse e pensou eu não devia ter feito isto porque este tipo de disposição destas emoções é importante não só para esta criança como para as outras todas e a inclusividade é um bocadinho isto, é perceberem como lidar com isto, quer dizer, tornar isto normal para já o exemplo de exteriorizarmos as nossas emoções é uma coisa que não devia realmente ser amputada, desde pequeninos.

30:51 E, pronto, depois aceitar a exteriorização das emoções dos outros, não é? Para não sentir aquilo isto é normal, por favor, priva-me desse espetáculo, não é? E eu gostava de ouvir as tuas notas sobre isto, porque pronto, obviamente há de haver uma fronteira, não podemos chegar o dia todo a olhar para outra pessoa a chorar, mas também não podemos evitar 100% deste tipo de esterilizações, nem devemos amputá-los, não é? O que é que me podes dizer sobre isto?

31:22 será sempre o grau de confortabilidade da criança tu leres o que é que ser sensível ao que ela te mostra por exemplo, falando sobre isso agora nesse caso em particular que estás a dizer há aquelas crianças que percebes que começam a chorar por algum motivo e que se levam diretamente e querem sair, aí percebes claramente que ela não quer estar ali e portanto a ideia de a levar durante algum tempo para outra sala e falares calma a mim e tentares perceber, dá conforto e dá um conforto que é um bocadinho mais fechado, e isso faz muito sentido, porque através dos sinais que ela te transmite, percebes claramente que aquilo era o melhor a fazer, não é?

32:02 Se calhar depois depois se isto é uma coisa que pudesse ser, imagina, recorrente, tu sensibilizares a turma e aí é uma coisa também muito importante que é o trabalharem como turma, o trabalhares isto, não é? A turma é um barco que queres levar a bom porto e, portanto, todos têm uma função, todos têm que trabalhar. E isso é trabalhar desde o início, não é? Não é só num momento ou é num gabinete de 45 minutos, é todos os dias, cotidianamente. E tu sensibilizares e percebes que isso é possível e dizer, olha, a vossa colega provavelmente irá acontecer outra vez, e se acontecer nós vamos dar todo o apoio, e não faz mal chorar, e não faz mal vocês dizerem o que é que sentem, e prender ela a sentir que os colegas também vão perceber, e se acontecer novamente, até pode acontecer no meio da sala de aula que não há problema mas eu acho que é um bocadinho isso a fronteira é sempre a criança, é sempre aquilo que ela te transmite do que quer, de como é que se sente mais confortável não podes ser tu a definir isso, não é?

33:06 Porque senão estaria-se também a entrar aqui um bocadinho no campo da privacidade da criança e da exposição do corpo e da exposição, na sua exposição, é importante que ela se sinta primeiro segura para o poder fazer, não é? E portanto, se calhar numa primeira fase, numa primeira vez retirada da sala, e tu transmitir-lir essa segurança e dizer que não faz mal isso acontecer, que é pode acontecer perfeitamente e a professora está lá para quando isso acontecer, isto dá-te logo um colo um colo gigantesco e absolutamente necessário para o resto porque se tu não o fizesses a pior coisa que tu poderias fazer e eu espero que isto não aconteça é dizer então, mas o que é que te aconteceu? Estás aí a chorar. Tu até poderias dizer isto muito tempo depois da relação com ela que tu terias, não é? Agora numa primeira fase.

33:51 Claro que não, claro que não. Mas para mim a resposta a essa pergunta é isso, o limite é sempre aquele que tu lês, que tu lês na pessoa que está à tua frente. Ok. Olha, ainda no campo aqui da inclusividade, como é que nós trabalhamos a questão das etiquetas, a questão do estigma, a questão das expectativas, muitas vezes as baixas expectativas que se tem em relação às crianças?

34:12 Como é que nós podemos começar a semear no resto da sociedade, se calhar a visão certa ou a lente certa para tratarmos destas coisas? Olha, eu acho que nós já estamos num bom caminho. Eu acho também importante nós valorizarmos aquilo que nós já fizemos e aquilo que já existe. Ainda há um longo caminho a percorrer, verdade, sem dúvida. Mas já não é um apontar o dedo, um olhar absolutamente diferente como era aqui há uns anos atrás.

34:42 E eu, muito honestamente, penso que esta legislação foi um passo gigantesco para que isso aconteça os professores começarem a perceber as pessoas começarem a perceber que toda a gente faz parte da sociedade é mesmo esta questão, não é inclusão, é diversidade é diversidade existente quando nós falamos em inclusão eu também escrevi um artigo sobre isso que era a extenuante palavra inclusão depois estou a ver isto quando tu falas inclusão o que tu estás a dizer no fundo é que alguém, que não ele o nós que existe, decide incluir aquela pessoa e isto não é correto tu tens de falar em diversidade diversas maneiras de ver o mundo estar, de ser e que tem que ser respeitado e que tens que dar os apoios necessários se tiveres que dar e isso faz parte, é a vida é um bocadinho por aí olha, eu vou-te dar um exemplo daquilo que eu acho que não deve acontecer, vou começar assim sabes que há o dia internacional da pessoa com deficiência que é dia 4 de dezembro e normalmente as escolas lembram-se de fazer alguma coisa neste dia e normalmente o que é feito neste dia é uma coisa tão condescendente e tão paternalista que eu não quero fazer parte, normalmente.

35:50 Porque o que tu fazes é às vezes escrever coisas bonitas, que tu achas que são bonitas, mas que para mim são... são... como é que tu diria isto? São horríveis. Que às vezes tu dizeres não te preocupes, tu és diferente de mim mas és igual tu és bonito como és o que é isto? estou a partilhar contigo não me faz sentido absolutamente nenhum isto não me faz sentido tu espalhar as cartazes naquele dia, isto é a mesma coisa que tu dizeres, não se bate nas mulheres naquele dia mas todo o resto também existe pronto, estes dias são importantes para tu mulheres daquele dia, mas todo o resto também existe.

36:26 Pronto. Estes dias são importantes para tu assinalares isto, mas é importante que estes dias existam todos os dias, como é óbvio, não é? Portanto, isto para mim não me faz sentido nenhum. O que é que me faria sentido? Para já faz-me sentido que tu vais trabalhando isto nos bastidores. É mesmo nos bastidores, com os professores na atitude, ao falares com eles, ao falares com os alunos, ou desconstruídos, desconstruídos, assunções, desconstruídos verdades absolutas, o dizes, ah, porque ele fez aquilo porque ele é assim, então qual é que é o problema?

36:56 Então, tu não podes fazer, não é? Um bocadinho esta leveza, um bocadinho esta naturalidade em relação a isto e acima de tudo o respeito. naturalidade em relação a isto e acima de tudo o respeito. Mas, por exemplo, esta questão, vamos imaginar esta questão de intervenção da deficiência, faria muito mais sentido tu fazeres um trabalho ao longo do ano que não fosse uma coisa de tipo voluntariado muito pontual e que deixasse alguma marca no fundo.

37:21 Pronto, é um bocadinho a forma como eu encaro isto. É, eu ia-te ajudar sabes que as pessoas pensam com palavras, não é? o nosso alfabeto, tu não consegues pensar com palavras que não conheces nem que não existem e muitas vezes as palavras criaram pequenos preconceitos e é um software que vem de muito de trás, os nossos pais por mais bem intencionados que fossem também tinham aqueles pequenos conjuntos de ideias e as pessoas nem se apercebem realmente quão enviesadas podem estar a ver uma determinada situação.

38:02 Avidava a falarmos um bocadinho sobre algumas destas diferenças. Um exemplo que eu tenho muito próximo da minha vida é se calhar a dislexia. Há pessoas altamente funcionais, aliás, são uma porcentagem grande da população. Tu tens ideia de quantos são? Não? Tens assim um número na cabeça? Eu tenho números, mas não sei se são verdadeiros. Olha, eu vou dizer assim, os verdadeiros, não sei. Os mistos, são muitos.

38:23 Pronto, eu tinha ideia disso. Eu quando juntei esse assunto há uns tempos atrás, falava-se entre 10% e 20%. É uma quantidade impressionante de pessoas que podem ter alguma forma de dislexia. Mas depois podem ser altamente funcionais e podem ser um Thomas Edison, ou um Steve Jobs desta vida, um Bill Gates. Pessoas altamente funcionais e que atingiram os pinkers do sucesso. Não é que isso seja se calhar uma grande métrica, mas pronto, é perfeitamente possível fazer tudo com uma condição com uma dislexia mas nós não conseguimos distinguir, nós não queremos olhar para aquela pessoa e dizer, ah coitadinha a dislexia se lhe fizermos essa etiqueta, podemos ficar ainda bem que eu não sou ou pode ser canhoto, ou pode ser miúdo pode ser uma série de coisas que desviam um bocadinho da norma, mas que não são nada limitantes, não é?

39:09 E algumas delas realmente começaram a ficar mais aceitos, e portanto as pessoas aceitam, ok, esta pessoa usa óculos ou usa lentes, mas pronto, de caso contrário é totalmente igual a mim. Noutros casos ainda não, ainda é um palavrão, não é? Ah, é uma dislexia, é uma coisa super difícil. E eu acho que isto deriva, lá está das pessoas não terem estas palavras com as quais pensarem. E há educadoras, e se calhar há professoras primárias que não estão minimamente sensibilizadas para a questão da dislexia e deixam passar.

39:38 Este cara não é muito esperto, não consegue ler muito rápido e não há ali nenhum gatilho que diga, se calhar é melhor reencaminhar, avaliá-lo para ver se eu posso ajudar de alguma forma. E se calhar isso é o que dói mais, não é? É isto não estar bem disseminado, esta camada de software que nos torna mais sensíveis e mais alerta. Não está, não está. E depois também há outra coisa, sabes que, vamos lá ver, eu tenho formação em dislexia e, mas se nós tivéssemos falado mesmo sobre dislexia, eu dizia a pessoa que melhor me fez compreender o que é e o que não é, que é a Gracinda Valito que é uma terapeuta da fala e que se especializou nesta área e ela foi realmente, eu tenho fiz uma entrevista no meu blog, a pessoa que melhor me explicou o que era isto a verdade é que também e não é que isso importe muito na parte prática, estamos a falar mais apenas na parte científica, mas a dislexia é uma perturbação da linguagem.

40:34 Mas tu tens muitas perturbações da linguagem específicas, que podem ser nas várias áreas da linguagem, na semântica, na pragmática, na fonologia na parte lexical e quando a perturbação específica da linguagem é fonológica comporta-se de uma maneira muito semelhante a um dislexico, às vezes a fronteira tu dizes, o que é uma coisa e outra não é fácil e deve ser sempre avaliado por um psicólogo por um terapeuta da fala e por um professor porque cada um vai avaliar uma parte cognitiva outra parte da linguagem e outra parte pedagógica.

41:07 Porque muitas vezes, olha, eu recebo muitos miúdos que têm esse rótulo da dislexia e às vezes dão erros que têm a ver com o conhecimento gramatical. Isso não é dislexia. E são chamados dislexes por causa disso, não é? É diferente tu dizeres camisola com Z do que tu dizeres casimola. Pronto, isto é absolutamente diferente. E também há desconhecimento neste sentido, o que é exatamente a dislexia? Por exemplo, na minha experiência, qualquer erro é dislexia.

41:36 Pois eu tenho que explicar, não, não. É um desconhecimento, as regras gramaticais não têm a ver com isso. Quando tu falas depois da parte pedagógica, da parte de trabalhar, vais trabalhar muito esta reprogramação pedagógica e trabalhar a parte fonológica, independentemente de ser quase uma coisa ou outra. Mas, sim, há sinais de alerta, de facto, e por isso é que os professores especialmente no primeiro ciclo deveriam ter esta formação, que são efetivamente os sinais de alerta para que alguma coisa não esteja a correr bem.

42:08 Quando a criança tem muita dificuldade em acessar a leitura e a escrita em comprimir, quando tem uma velocidade leitora que é muito reduzida, é aquilo que seria o expectável, quando troca, de facto, sílabas, quando, por exemplo, escreve de uma maneira, nunca sabe se é uma ou outra, nem sequer são sons semelhantes, porque, por exemplo, escreve de uma maneira, nunca sabe se é uma ou outra, nem sequer são sons semelhantes, porque, por exemplo, nos pares iguais, quando tu dizes fe, ve, se, ze, que, tu usas o mesmo ponto de articulação.

42:36 E é normal que às vezes que eles se enganem a escrever, mas quando isso acontece, é mais uma perturbação da linguagem que tem a ver com este ponto de articulação. Mas se eles escrevem de uma maneira completamente diferente de sempre, estamos a falar claramente aí de uma situação que é mesmo, não é? Dislexia. Portanto, tem muito a ver com este conhecimento que devem ter destes sinais de alarme.

42:57 De estarem sensíveis para isso, efetivamente. E é muito importante perceber exatamente do que é que nós estamos a falar. Às vezes pode ser mesmo só uma imaturidade. uma imaturidade da criança relativamente a aceder à leitura e à escrita, não ter tido quase as competências pré-linguísticas muito desenvolvidas e ainda ser muito imatura. a coisa vai e funciona. Quando tu tens mesmo a dislexia, é uma condição para a vida inteira, que tu arranjas ferramentas e estratégias, mas que conseguem perfeitamente fazer tudo, não é? Quer dizer, há miúdos que só trabalham com o computador, porque é a forma como conseguem escrever sem erros, digamos assim, e não há problema nenhum, quer dizer, tens miúdos disléxicos com um grau severo de dislexia na faculdade, e que trabalham com o computador, também desmistificar isto um bocadinho com os professores e dizer isto, não é?

43:47 Quando tu dizes assim, agora que me lembro do secundário, eu tive um miúdo que, com o nível de funcionalidade do leitor e escrita muito reduzido, de facto, mas era um miúdo esportíssimo. E isto fazia muita confusão aos professores, especialmente do secundário, imagina. E eu dizia, mas ele pode usar o computador? Ele disse, o miúdo pode perfeitamente usar o computador, é uma estratégia para que ele consiga aceder. E eu dizia, há miúdos o computador. Eu disse, miúdo pode, perfeitamente, usar o computador. É uma estratégia para que ele consiga aceder.

44:06 E eu dizia, há miúdos na universidade que são disléxicos, que têm este nível de comprometimento e que usam os computadores, que não há problema em relação a isto. Pronto. É isto, é ir desmistificando estas questões, com formações, com pessoas que estão ao seu lado. É assim, eu tive uma experiência como disse, muito próxima de disléx aqui em casa e na altura eu pedi ajuda da Paula Teles na clínica da dislexia e ela tem um método chamado método fonomímico, porque é que não usamos isto todos nós? Nós podíamos ter aprendido todos a ler desta maneira, isto resultou lindamente com a criança disléxica, apanhou imediatamente a velocidade leitora dos colegas da mesma idade, mas no método anterior não funcionaria, portanto, porque é que nós não vamos buscar um ensino especial, se calhar os métodos que resultam para todas as crianças? Sim, nem tens que os ir buscar, repara, tu na tua quando se bem que, olha, eu vou ir buscar, repara, tu na tua quando se bem que, olha eu vou-te ser sincera, quando tirei a minha licenciatura, fui a professora do meu ciclo foi muito boa, foi incrível mas eu aprendi muito mais sobre comunicação e linguagem quando tirei o mestrado precisamente das preservações da linguagem porque ele tinha duas áreas tinha as para a terapia da fala e para o ensino da língua, pronto, e a minha área foi mais para o ensino da língua, e tu falaste de todos os métodos que existiam da forma como é que chegaram até eles e quais é que eram as vantagens e desvantagens de cada um eu não tive isso no primeiro ciclo na minha formação eu achei que foi uma lacuna gigantesca, pronto, mas aprendi-os depois e é verdade, tu tens métodos quer dizer, tu utilizas normalmente o analítico sintético que é o ires à letra para depois chegares à palavra há miúdos que efetivamente funciona exatamente ao contrário, que em termos de abstração não está tão desenvolvida para conseguirem perceber o que é que é o P, o P é uma coisa muito vaga, não é P, P mas quando deixem da palavra para a let perceber o que é que é o P. O P é uma coisa muito vaga, não é? P, P.

46:06 Mas quando deixem da palavra para a letra, que é ao contrário, aquilo já lhes faz muito mais sentido. Há um método, por exemplo, que funciona muitíssimo em uma forma global para todas, quase todas, digamos assim, os comprometimentos, que é o método das 28 palavras. Para mim é o que faz mais sentido. Então, para as pessoas da linguagem aquilo é ótimo. Que é, que é, tu tens 28 palavras e através daquel das 28 palavras para mim é o que faz mais sentido então para as profissões da linguagem aquilo é ótimo que é que é tu tens 28 palavras e através daquelas 28 palavras tu aprendes a ler, digamos assim, porque tens todos os fonemas mas parte da palavra menino, menina depois divida a sílaba, depois vais aprendendo mais palavras e vais dividindo, depois vais juntando as sílabas, é uma coisa que faz muito mais sentido portanto o que eu acho que acaba por haver, ainda há uma grande porcentagem de pessoasores de primeiro ciclo parece-me, sem querer estar a errar que não têm este conhecimento dos vários métodos existentes, então ensinam um bocadinho por aquilo que estão mais confortáveis em ensinar, e esse às vezes não é o mais adequado para algumas crianças e depois claro que acaba por ser muito frustrante quando eles não conseguem aceder à leitura e à escrita o que acaba por acontecer depois nesse sentido é que ele é encaminhado para a educação especial, é feito numa avaliação também, se tivermos dúvidas vamos falar com os psicólogos, com a treinadora da fala, para ficarmos com o conhecimento melhor, e depois acabamos por trabalhar um outro método e pedimos à professora que continue esse método depois na sala de aula, porque acaba por fazer mais sentido.

47:22 Muito bem. Joana e nós enquanto pais, obviamente que temos que ser educadores muito especiais porque cada criança é uma criança e não só nós temos que aprender com ela como ela vai ter que aprender connosco, quer dizer, é uma relação que nasceu com aquele nascimento e portanto a nossa própria paternidade nasce cada vez que um filho nosso nasce e portanto nós não temos um manual de pós-educar e eles não têm um manual para serem educados por nós.

47:50 Ainda bem, ainda bem. Ainda bem. Mas, obviamente, que alguns de nós, calhar, sentem imensa responsabilidade e eu, em particular, desde o meu primeiro filho, sentia realmente ansiedades, não queria falhar e tinha grandes ambições também, pronto, queria perceber a ciência deu imensos passos e eu gostava imenso de ter as ferramentas mais adequadas para ensinar os meus filhos onde é que isto começa? Enquanto pais, enquanto pais calhar leigos que a maior parte de nós somos, eu não sou muito onde é que isto começa? Onde é que achas que está o absoetário mais básico? Onde é que tu sentes que nós devíamos começar? Também para nos tranquilizar. Enquanto pais?

48:26 Sim. O que é que tu transportaste da tua formação académica? Para elas, sim. Uma das coisas que... Olha, primeiro de tudo, muita calma e serenidade. Acima de tudo. Que é difícil ter visto ao princípio, porque de repente quando és mãe e pai pela primeira vez, é tudo, não é? É tudo. É uma novidade, é o que é difícil ter visto ao princípio, porque de repente quando és mãe e pai pela primeira vez, é tudo, não é?

48:47 É tudo uma novidade, o que é isto? Não tem como me meter, às vezes uma pessoa pensa assim, porque é um desafio gigantesco. Mas depois acima de tudo, quando aquilo tudo acalma, é um bocadinho esta serenidade e calma que realmente depois tu vês num segundo filho que é muito mais fácil. Olha, uma coisa essencial, a minha mãe dizia-me sempre, eu escrevi isso no último texto que eu escrevi para ela a minha mãe dizia-me sempre duas coisas, que era lê, lê muito tens que ler, e endereita as costas constantemente e aquilo chateava a minha mãe, eu disse mas porquê que eu tenho que ler? Está bem, eu sei que ler é bom me percebo, mas porquê?

49:25 e o endereitar as costas, gostava de mas porquê? e eu ainda era as costas gostava de andar assim à vontade e estava sempre pensando que tinha as costas direitas mas, a questão da leitura foi absolutamente flagrante para mim a importância disso eu realmente lia muito e tornei-me a ler uma leitura compulsiva entre os 12 e os 16 eu lembro perfeitamente que acordava tinha insónias, acordava à meia-da-neite e ir a ler então eu pensava, 4, 5, 6 da manhã a ler li bastante, e o que é que ele me trouxe depois eu pensei, o que é que isto me trouxe além do vocabulário, enriquece-te claramente o vocabulário, trazia-me outra coisa que era a rapidez de leitura também e era outra coisa que eu queria dizer em relação a isto tu acedias muito mais rapidamente ao conhecimento olha em relação a muitas pessoas que eu conheço pessoas que realmente tiveram mais acesso à leitura leem muito mais rápido, acedem muito mais facilmente, qual é que é às vezes o problema da criança que não lê tão rápido, porque é que tu queres ter uma velocidade leitora que seja adequada? Porque senão tu perdes muito tempo a adquirir a informação e perdes-te na informação. Pronto, é isso que acontece.

50:32 E isto para te dizer o quê? Que o ler para mim era uma coisa fundamental nas minhas filhas. Quando eu estava grávida e quando pensava acerca do que é que eu queria ser, eu lia-lhe desde que ela era pequenina, através das imagens primeiro, depois de ler histórias. E para mim é fundamental elas lerem com... A pequenina é diferente, não é? Mas como a Júlia tem 3 anos, ler todas as noites uma história com ela.

50:56 Uma rotina que faz parte. E tu o vês, porque também passa esse entusiasmo para ela, não é? Porque eu tenho muito entusiasmo em ler as histórias e ela tem um entusiasmo incrível em ler. Ela um dia deste, uma coisa engraçadíssima que ela me dizia, dela e não tem três anos, já fazia três anos agora. E ela à noite... Tenho com a mesma idade, exatamente. É, é preciso.

51:17 E então ela à noite, o que é que ela faz? Tem uma lanterna e fica a ver as imagens da história. Demora imenso tempo a adormecer, mas pronto, fica a ver as imagens da história. E todo o dia deste chamou-me, assim, muito triste, eu deixo ficar a ver as imagens da história, e todo o dia Deus chamou-me, assim muito triste, e dizia mas eu não consigo ler, o que é que é isto? Eu não consigo ler mas sei que eu te li, Senhor mas tens as imagens, através das imagens tu consegues perceber, depois mais tarde vais conseguir ler e para mim isto é uma coisa fundamental, porque a leitura sabes que às vezes eu digo isto e parece que cheiro um bocado a estado novo mas isto é verdade porque no primeiro ciclo tu tens de saber ler escrever e contar e tu podes fazer isto de todas as maneiras possíveis fazer o PIN da maneira que tu quiseres mas é fundamental que estes meninos saiam do primeiro ciclo a saber fazer isto mais do que o corpo humano mais do que muitas coisas que tu tens nas aprendizagens essenciais que não fazem tanto sentido.

52:08 Porque isto é que são as tuas ferramentas de liberdade. Ler, escrever. São as tuas ferramentas de liberdade para o que quer que seja. Tu podes... Às vezes os miúdos perguntam-me até mesmo no secundário, mas porquê é que eu preciso estudar? Porque quando tu estudas és muito mais livre. Porque és livre para escolher aquilo que tu queres fazer. Claro que vai haver sempre barreiras depois na sociedade, não interessa. Mas tens muito mais ferramentas e livre para escolher aquilo que tu queres fazer. Claro que vai haver sempre barreiras depois na sociedade, não interessa, mas tens muito mais ferramentas e podes escolher aquilo que tu queres fazer quando tu estudas, é por isso que tu estudas, não é?

52:32 E, portanto, se tu puderes dar, e para mim foi a principal preocupação, poderes dar este património, não é? Será muito, provavelmente, direi eu, não é? Se tudo correr bem, mais fácil para os teus filhos gostarem de ler, não é? E acederem mais facilmente, porque os comprometimentos na leitura e na escrita, quando chegas ao primeiro ciclo, se não tiveres estas bases, é muito complicado para eles apanhar o comboio. E se não tens um bom trabalho no primeiro ciclo, quando chegas ao segundo, ao terceiro e por aí além, por exemplo, o que é que eu faço com menores do secundário que não adquiriram bem a competência de leitura e de escrita? Tu já não consegues fazer muito. Tu já não consegues ter ali uma janela de oportunidade para modificares.

53:12 Portanto, tu dás ali estratégias que são muito mais imediatas para eles conseguirem trabalhar. Portanto, é mesmo no primeiro ciclo que é tudo, que é tudo. Vais beber dali para o resto do teu percurso académico Joana, eu identifico-me muito com a tua experiência, a minha foi muito parecida e atenção eu tinha exatamente essa fixação com os meus filhos têm que saber ler e escrever sumar e sumir, nadar e lutar eu tinha esses seis vetores mas entretanto e aqueles mais artísticos, seja gráficos ou musicais e os atletas há realmente uma série de valências que não passam muito pela leitura, se calhar nós não conseguimos criar um rapório imediato com esse tipo de inteligências, mas elas existem lá está, eu às vezes sinto-me com este meu filho, que realmente tem mais dificuldade a ler do que é que me adianta transformá-lo num leitor que fez imenso por mim e realmente deu-me imensos atalhos ajudou-me a pensar com muito mais palavras do que mas há outras formas que é de adquirir essas palavras seja por filmes, seja por séries seja pelos jogos que eles fazem até o iPad até o iPad pode ser não tem que ser aquele estigma do da tecnologia que estás a pôr é isso, há diferentes formas de tu acederes, desculpa não, não, sim, mas era pronto ia-te mesmo passar a palavra e pronto e depois lançar-te uma outra questão se calhar junto às duas, que era eu às vezes pergunto-me, quer dizer, no pior cenário, imagina quando estes meus filhos não têm aproveitamento e vai passando aqui pelos pingos da chuva até à escuridão obrigatória e depois não tem vontade ou não tem uma skill direta quão difícil seria eu pô-lo ao meu lado e durante um ano ensinar-lhe tudo o que eu sei eu vou fazer dele um bom empreendedor percebes? Portanto eu posso-lhe dar exatamente aquela nata da nata da nata a regra de parede, não é? Aqueles 80-20 eu posso ensiná-lo como antigamente se fazia, não é? Os mestres pegavam nos aprendizes e davam-lhes empiricamente as bases e o alfabeto todo do que eles necessitavam e aquilo realmente não tinha uma base escolar e académica por trás, era ensinado pronto, na altura certa para eles estarem prontos. E e pronto era um bocadinho ia-te deixar aqui esta batata quente para tu digerires, como lidar um bocadinho com isto, não é? E as crianças que não conseguem tradicionalmente ler, ou que não têm esse apetite, e até que ponto é que nós podemos forçá-los a isso e pronto e depois como é que se computa todas aquelas inteligências que não passam realmente pela letra escrita, não é?

55:46 Sim, sim porque na tua primeira pergunta, e muito bem obviamente que e de repescando um bocadinho aquilo que eu disse ao princípio, que é muita calma e serenidade claramente que se tu verificares que o teu filho, por exemplo, tu tens uma expectativa, tens uma crença e às vezes os miúdos trocam-te as voltas todas assim, mas não é nada daquilo e acho que deves manter a calma outra vez neste sentido porque a pior coisa e falámos nisto na nossa conversa aqui ao longo deste tempo que estamos a falar que a obrigatoriedade, o decreto é a pior coisa que pode acontecer porque vai sair sempre lá, vai sair ao contrárioade, o decreto é a pior coisa que pode acontecer, porque vai sair sempre lá, vai sair ao contrário.

56:27 Portanto, relativamente a esta questão muito particular que tu dizes da leitura e da escrita, tu felizmente hoje em dia tens uma série de formas de contornar isto, não é? Olha, por exemplo, tu tens autistas, e eu nunca gosto de dizer assim os autistas, porque são todos diferentes, pronto, mas tu tens crianças que não têm comunicação verbal. E, portanto, eles trabalham através de um sistema aumentativo de comunicação.

56:53 E o que funciona perfeitamente através desse sistema aumentativo de comunicação, consegue... Claro que há sempre uma parte que fica limitada, mas eles conseguem funcionar. Agora, não indo tão longe, obviamente, porque isso já estamos a falar no extremo, mas, como eu te dizia há bocadinho, em relação a muitos miúdos que são os léxicos, tu não vais estar a batalhar, às tantas já não vais estar a batalhar numa determinada idade para que ele consiga fazer isto ou aquilo porque depois torna-se um massacre. Mas tu tens formas hoje em dia de conseguir dar a volta a essa situação.

57:20 Embora eu acho sempre que seja importante, atenção, isto é a mesma coisa quando tu dás medicação. Houve aqui um boom, espero que esteja a diminuir, que era a medicação. Sim. Agitação psicomotora, medicação para cima. Eu tenho uma vertente, eu tenho sempre uma vertente muito integrada nestas coisas. Não me parece que seja o mais adequado. Há muitos estudos que indicam que isso, a longo prazo, pode trazer consequências. Em alguns casos poderá ser importante, mas se tu tivesse ao mesmo tempo um trabalho com, por exemplo, um psicólogo.

57:59 Ao mesmo tempo tens um trabalho terapêutico, não seja só um trabalho com uma terapêutica de medicamentos. E aqui é um bocadinho isto, é por exemplo o miúdo tem que funcionar e tem que escrever. Muito bem, temos um computador que consegue fazer esse trabalho ou porque ele lê, ou porque ele lida e escreve. Pronto, e pode fazer isso. Ao mesmo tempo tu podes ir trabalhando nessas competências. Agora é exatamente isto, é olha, é a mesma coisa às vezes com os miúdos que têm uma disgrafia muito grande e tu não percebes nada do que ele escreveu.

58:25 Às vezes o massacre que é para tu estares ali a perder tempo para que ele escreva e aquilo é um sofrimento para ele, às tantas ele consegue fazer melhor a letra de imprensa. Porquê cá de fazer a letra que não seja de imprensa? Vamos avançar, vamos arranjar uma estratégia e não vamos massacrar aqui este miúdo em relação a isso, não é? E depois também aqui tu nivelares e assimilares as novas crenças, outras crenças em relação àquilo que tu tens à tua frente, lá está mais uma vez e tu leres quem tens à tua frente e perceber quando é que é o limite quando é que já começa a ser a parte do massacre e que já não vale a pena tu fazeres isso vamos imaginar um miúdo que não gosta tanto de ler ou que ainda se calhar não descobriu um livro que ele gostasse de ver ou uma revista ou o que é que seja e às vezes vem mais tarde, às vezes vem muito mais tarde.

59:07 Tu não vais estar ali todos os dias em cima dele, ou fazes uma coisa que é terrível, que é, não fazes isto enquanto não leres três ou quatro páginas, tu matas, estás a matar por completo o bom que é ler, a motivação que é ler. Portanto, é um bocadinho por aí. A tua outra pergunta, eu não sei se tu me estás a perguntar diretamente é se se fores tu a fazer este trabalho se consegues que ele consiga ultrapassar dificuldades se pensas que isso não é feito na escola por alguma não sensibilidade digamos assim, o que estás a perguntar eu acho que em último caso, eu acho que é um bocadinho uma safety net, pelo menos mental, minha se a parte académica não funcionar se calhar nós pais temos tantas coisas importantes para lhes ensinar que podem torná-las funcionais e bons profissionais em alguma coisa que, não sei, é um bocadinho para reduzir a nossa ansiedade académica Certo, concordo absolutamente. E se é a mesma coisa, por exemplo, tu tens muitos dogmas em relação a isto e muitas visões diferentes.

1:00:12 Eu pessoalmente, e digo-te naturalmente, mais naturalmente possível, eu acho que todos os caminhos são absolutamente legítimos. O ires para a universidade, o tirares um curso profissional, o não ires e experimentares trabalhar e depois ires mais tarde se quiseres, para mim tudo é absolutamente legítimo achei que tudo tem que ser feito, é com rigor com muita honestidade e não como coitadinho essencialmente, pronto tudo é legítimo isto e por isso quer dizer o ser em casa, o pai a dar-lhe a outra parte que considera que a escola não está a saber dar parece-me bem, não vejo qualquer tipo de impedimento em relação a isto no entanto, o que é que poderia ser um impedimento?

1:00:49 em idades mais avançadas não me choca tanto quando são mais pequeninos é muito importante haver um trabalho de equipa entre a escola e os pais porque senão não funciona de tudo isso é a mesma coisa quando eu estou quando eu trabalho com crianças individualmente eu faço sessões individuais com muitos alunos porque é quase uma questão de doutoria depois eles também são mais velhos, eu não vou à sala ter com eles até porque não são comprometimentos muito grandes agora, mesmo que eu trabalhe mas eu não consigo fazer nada dos miúdos se eu não estivesse sempre em contato com os pais.

1:01:26 Não consigo, não é possível. Dependendo das crianças, dos jovens, porque eu tenho entre 15 e 17, com quem eu trabalho agora, mas muitos pais eu tenho reuniões mensais. Que é no sentido de nós irmos a frente como é que as coisas estão a ocorrer. Olha, nós definimos isto. Está a ocorrer assim. Se querem se fizer isto, talvez possa ajudar. Não é possível? Muito bem, então vamos aqui inferir o que é que é possível. E quandoorrer, olha, nós definimos isto está a ocorrer assim, se der em casa se fizer isto talvez possa ajudar, não é possível?

1:01:46 Muito bem, então vamos aqui inferir o que é que é possível e quando tu trabalhas assim e crias também uma relação com os pais tu consegues muito mais é óbvio, não é? Portanto, o trabalhar desfasadamente isso é que não vai funcionar quando tu és mais velho, já acabaste o secundário, estás a terminar e portanto tens essa parte que os pais dão que também vão sempre dar não me choca nada não sei se respondi à tua pergunta Lindamente, sim, lindamente Olha, Joana, há um dos teus posts mais recentes que tem um título que é a coisa que eu comi e ainda não sei fazer croquete tem a ver com a tua mãe que a tua mãe fazia croquetes muito bons aparentemente e a minha questão aqui é um bocadinho quais são os teus croquetes metaf, aparentemente. Os melhores. Sim, e a minha questão aqui é um bocadinho, quais são os teus croquetes metafóricos?

1:02:30 O que é que tu gostavas que as tuas filhas sentissem falta quando estivessem a fazer essa reflexão? O que é que tu gostavas que elas quisessem mesmo herdar de ti? Das tuas competências? O que é que tu sentes que te orgulha mais e gostavas de lhes deixar? O arriscarem. O arriscarem. O arriscarem sempre. Com a rede de segurança, naturalmente, os riscos que são controlados, mas o acreditarem em si próprios e arriscarem.

1:02:55 E outra coisa que é muito importante para mim, enquanto mãe, também, que é, de tal forma, a minha mãe também me passou isso, embora às vezes fosse um bocadinho dicotómica nesse sentido mas ela passou-me através de mensagens muito subliminares que é nunca me colocar como é que eu teria de dizer isto eu não conseguiria muito honestamente, eu não conseguiria ser mãe o tempo inteiro não conseguiria, por duas razões não faz parte de mim porque eu preciso de um equilíbrio para mim o importante é ser mãe e ser uma mulher com sucesso ao mesmo tempo para mim esse equilíbrio é o que me faz feliz e se me faz feliz eu tenho a certeza que vou fazer feliz às minhas filhas e também como modelo como exemplo, eu quero que elas eu gostaria que elas se tivessem orgulho e que gostassem de trabalhar e da sua carreira e que a construíssem.

1:03:49 E que percebessem que é possível ter as duas coisas. Se tu me perguntares se eu tivesse que escolher num momento de catástrofe, de caos, vou escolher sempre as minhas filhas, como é óbvio. Mas se poder ter esta parte do equilíbrio é absolutamente necessário para mim e portanto eu gostaria que elas um dia mais tarde também enquanto mães passassem isso, que elas nunca se deixassem no lugar olha, a minha mãe faleceu a 2 de dezembro e claro que é um processo que eu estou a passar foi uma doença muito prolongada e houve muito luto em vida, consigo falar acerca disso agora e desculpa, agora estava a lembrar disto passar, foi uma doença muito prolongada e houve muito luto em vida, consigo falar acerca disso agora e desculpa, agora estava a lembrar disso e agora não estava a passar a ver o que é que eu queria dizer, mas eu andei para a frente, era isso que eu queria dizer eu andei para a frente, eu tinha duas escolhas no fundo acho que é sempre duas escolhas que tu fazes ou afundas-te e não consegues fazer e estás ali muito tempo, ou então tu agarras-te às coisas, agarras-te e segues em frente porque é aquilo que tu sentes também que a tua mãe gostaria que tu fizeses se a minha mãe me viesse parar, ela dizia-me logo, acabou, anda para a frente, vamos embora não ficas aí nesse lugar tens competências, tens um trabalho e ela sempre teve muito orgulho naquilo que eu fazia e teria muito orgulho de estar a ouvir esta conversa, com certeza e nas coisas que eu lhe lia nos artigos que eu publicava e portanto orgulho de estar a ouvir esta conversa, com certeza e nas coisas que eu lia nos artigos que eu publicava e portanto eu quero isso, eu quero que elas percebam que isto é muito importante, que não é ser só mãe, não pode ser há outra parte na qual pode ser desfasada para nos sentirmos mais completas há pessoas, atenção, que faz sentido isto e ainda bem, porque acima de tudo é passares felicidade aos teus filhos é tu estares bem, às acima de tudo é passares felicidade aos teus filhos, é tu estares bem. Às vezes eu preciso estar sozinha, não é?

1:05:28 Não quero estar, quero estar sozinha, preciso algum tempo me restabelecer para conseguir estar melhor com elas. E isto para mim faz-me muito doce. Se os croquetes seriam eles. Sim, eu acho que se tivéssemos aqui uma psicóloga ou psicóloga capaz de nos dizer que se calhar há outras âncoras que devíamos juntar aqui, a nossa saúde física, emocional social se calhar termos uma distração ou hobby por aí fora, mas pronto sim estas duas são importantes Sim, tirando isso por aí é muito óbvio Uma última pergunta Joana quando tu te sentes perdida descentrada como é que te sentes de volta?

1:06:04 Tens alguma técnica especial que pudesses partilhar connosco? Olha, a Inês falou uma coisa muito interessante, que eu também faço isso muitas vezes, que é encontrares o teu lugar de pensamento que é confortável, não é? Que é um certo colo. Olha, eu procuro um bocadinho de colo. Procuro um bocadinho de colo e o colo pode ser várias coisas. Pode ser o fechar-me a ouvir música, pode ser o estar sozinha.

1:06:26 Olha, quando nós podíamos passear e fazer coisas, ir ao cinema, por exemplo, era uma terapia para mim. Porque é estar sentada confortávelmente e alguém te contar uma história. É um bocadinho isso que o cinema também é. Mas fazia um bocadinho isso. Mas o estar sozinha para me recentrar, para mim, é muito bom. Ou viajar de carro, andar de carro durante algum tempo também me ajuda gosto imenso, faço imenso isso vou confessar que um dia deste há pouco tempo, eu tinha a oportunidade de ir a Viseu porque ia buscar o meu pai imagina, podia vir de autocarro, mas eu pensei, não, mas eu quero ir buscar-lo, eu quero fazer esta viagem em 3 horas porque eu preciso preciso disto é um bocadinho por aqui cada pessoa há de ter a sua a sua âncora, não é?

1:07:06 para se conseguir recentrar Joana, muito obrigado por este bocadinho Obrigada, não é que sei muito Agradeço à tua família por este tempo que eu lhes roubei Ah não, faz mal, está tudo bem Um beijinho e até breve Um beijinho e até breve, muito obrigada Obrigado, até à próxima