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Dicionário das Crianças · Episódio 21

Olimpíadas e Alta Competição — Nuno Frazão

4 de abril de 2021 · 1 h 06 min · com Nuno Frazão

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O que é que um atleta olímpico ensina aos pais? Neste episódio do Dicionário das Crianças, Nuno Simões conversa com Nuno Frazão — licenciado em Educação Física, pós-graduado em Esgrima em Budapeste, professor, treinador de atletas de altíssima competição e autor do livro "Histórias do meu Diário e mais uns escritos". Foi atleta olímpico, mas surpreende logo ao início: os Jogos nem sequer estão no top 3 dos momentos mais marcantes da sua carreira, e nunca chegou a entrar no Estádio Olímpico.

Essa aparente contradição resume a filosofia de toda a conversa: o bolo importa mais do que a cereja. Para Frazão, alta competição não é um estatuto reservado a uma elite, é uma forma de estar — dar o nosso melhor em busca de um sonho, seja numa final mundial, numa sala de aula ou a lavar os dentes. A história do miúdo que, às sete da manhã de um sábado, já tinha treinado afundos na cozinha com uma colher de pau enquanto a mãe fazia o pequeno-almoço vale mais do que muitas medalhas.

Pai de dois atletas de esgrima, Frazão fala sem rodeios sobre o equilíbrio delicado de treinar os próprios filhos: a preocupação de não empurrar (e o risco, afinal, de estar a travar), a importância de eles pertencerem a um grupo, e a convicção de que o treinador é parceiro de um sonho que tem de ser do atleta — nunca do treinador ou dos pais.

Para as famílias sem passado desportivo, a conversa está cheia de pistas práticas: quando começar um desporto, porque é que aos três anos se trabalha psicomotricidade a pretexto da esgrima, como as condições nunca são suficientes (e porque é que isso não é desculpa), e como reconhecer um mau treino — o sorriso do miúdo, ou aquela dor de barriga que aparece sempre à hora de treinar, dizem quase tudo.

Anos depois, este episódio continua actual porque toca no dilema de qualquer pai: valorizamos o conseguir ou o tentar? Frazão defende que os sucessos que alimentam a motivação raramente são as notas ou as medalhas — são o miúdo que pede para se deitar cedo na véspera da prova, ou o introvertido que entra sozinho num ginásio cheio de desconhecidos. E lembra que o melhor modelo que podemos dar aos filhos é um modelo imperfeito, que admite os erros e quer melhorar todos os dias.

Neste episódio

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Transcrição completa

0:00 Olá Nuno, boa tarde. Olá, boa tarde. Como está, tudo bem? Tudo bem, obrigado. Antes de mais, agradecer-lhe a sua disponibilidade para falar connosco no fim de semana, mais ainda um destes fins de semana de família. Obrigadíssimo pelo seu tempo. Eu é que agradeço o convite. Muito bem. Bom Nuno, vou começar se calhar por apresentá-los cá com a sua ajuda. Nuno é licenciado em Educação Física, fez uma pós-graduação em Esgrima, é professor, é autor de um livro sobre o qual eu também gostaria de falar um bocadinho.

0:34 E não só foi atleta olímpico, como treina atletas na altíssima competição. Dá-me a escapar aqui alguma coisa importante da sua vida que gostasse de preencher? Não, é assim, praticamente esses são apenas os detalhes, porque de resto sou uma pessoa normalíssima igual a todas as outras, portanto esse talvez seja só um bocadinho, um bocadinho daquilo que realmente sou, eu sou tudo o resto, uma pessoa exatamente igual às outras à procura de ser feliz e tratar de ajudar a minha família a ser feliz, portanto o resto, esses são os pormenores.

1:07 Muito bem, se calhar acho que vamos tocar nessa parte, isto é um podcast sobre parentalidade e portanto há aqui uma componente de extrairmos um bocadinho a experiência dos pais e das mães para inspirar outros pais e outras mães e acho que vai haver uma altura propícia para nós introduzirmos esse assunto mas agora no início era importante às vezes expandir um bocadinho o histórico dos nossos convidados e uma coisa muito notável na sua vida, se calhar um dos seus superpoderes foi ter sido um atleta olímpico eu acredito que isso tenha sido um grande efeito na sua vida a par de ter sido pai e ter feito obviamente outras conquistas, mas é uma coisa realmente que está no nosso imaginário, não é?

1:50 Mas ainda pessoas que tenham feito desporto percebem quão difícil consegue ser, pode ser qualificado para umas Olimpíadas e depois estar lá e darmos o nosso melhor. Pode-nos falar um bocadinho sobre esse percurso, o que é que significou para si que memórias ficaram eu acho que é interessante ouvirmos o seu testemunho Ora bem, assim eu espero não defraudar as expectativas em relação a isso mas até foi uma conversa que há pouco tempo tive com outro amigo meu Ora bem, os Jogos Olímpicos são é indiscutível que são o momento mais alto da carreira de um atleta que tenha no mundo da competição os seus grandes objetivos.

2:37 E de facto, eles foram também marcantes naquele que foi o meu percurso. Agora, às vezes as pessoas ficam um bocadinho, eu não falo muito sobre isto, mas às vezes quando temos algumas conversas, quando perguntam se foi o momento mais importante, foi a competição mais importante em que eu participei, mas quando olho para trás na minha carreira, não foi o momento mais importante, e se calhar nem está nos top 3 daquilo que para mim foi mais importante, especialmente quando olho para o percurso como atleta.

3:14 E portanto, agora, há uma coisa que é curiosa e onde ele assume uma importância de facto quase que maior do que aquela que acaba por ter, sem estar aqui a menosprezar, obviamente, o que é poder estar nos Jogos Olímpicos, especialmente a possibilidade de representar o nosso país. Mas o que é extraordinário é a importância para as pessoas que me conhecem de eu ter estado nos Jogos Olímpicos, que é uma coisa um bocadinho diferente e que acaba por ser uma grande responsabilidade também, não é?

3:51 Os Jogos Olímpicos trouxeram momentos inesquecíveis, de facto, com muitas coisas boas. É importante dizer também que não foram todas boas, não é? Porque às vezes quando nós falamos daquelas coisas que são as coisas boas da nossa vida, elas também têm alguns aspectos que não foram aspectos o mais positivo, não é tudo deslumbrante, ok? Claro que as coisas boas associadas superam largamente as outras, não é? Mas, por exemplo, às vezes quando as pessoas me dizem e como é que é aquela sensação?

4:27 Eu posso-vos dizer que, por exemplo, eu estive nos Jogos Olímpicos, mas nunca entrei no Estádio Olímpico. Porque, por coincidência, a prova de esgrima em que eu participava era exatamente no primeiro dia de competições e, portanto, obviamente, na véspera era uma noite de descanso e do maior descanso possível, portanto, eu limitei-me ao final da tarde ou ao meio da tarde a ver as pessoas abandonarem, eu e outras pessoas, como é óbvio que tínhamos competição no primeiro dia, a ver as pessoas abandonarem para irem para o Estádio Olímpico, não é? Aquilo com que todos vibram e todos vibramos na televisão, eu tirando daqueles onde lá estive, vi todos na televisão, e de resto já só ouvi o barulho perto das 5 da manhã, quando eles estavam a regressar as comitivas à Aldeia Olímpica.

5:19 Mas portanto eu não entrei sequer, aquela coisa daquele momento que muitas pessoas marcam falam como marcante de entrar no estádio, daquilo tudo eu não entrei e depois nós não permaneciamos o tempo todo, ou seja eu estive 20 dias na aldeia olímpica, 10 dias antes da competição 10 dias após a competição mas portanto eu não entrei no início na tal grande cerimónia porque competia no dia a seguir e não entrei na cerimónia final porque já não estava lá isto aqui por exemplo, pequenos detalhes onde às vezes as coisas também possam falar mas portanto sem dúvida uma experiência fantástica é o palco mais alto que qualquer atleta pode almejar mas pelo menos para mim se calhar também tem um bocadinho a ver com a forma como como eu vejo o desporto e como olho naquilo que valorizo não é o momento mais mais marcante é talvez o mais importante mas mas não o mais marcante. Vamos a isso, quais foram os mais marcantes? Esse top 3, por acaso, fica curioso.

6:26 Como é que os identifica? Porquê foram mais marcantes do que... É assim, não sei o porquê comparar, é assim, eu sou uma pessoa muito do do tentar, independentemente do conseguir, ok? Isto faz muito parte da forma como eu olho para as coisas, como olho para o desporto em si. Não é desvalorizar aquele que é o objetivo principal, ok? Mas, para mim, o conseguir é uma cereja no topo do bolo.

6:55 E o bolo sempre foi mais importante do que essa cereja, certo? E, portanto, quando eu olho, eu tenho, pronto, alguns momentos que são momentos claramente desportivos e associados a momentos desportivos, e inclusivamente há pouco na questão do livro, o livro fala de um deles que é um campeonato do mundo, onde nós numa prova de equipas obtivemos um oitavo lugar, portanto entrámos na altura no top 8 entre os gigantes da espada mundial e onde estivemos à beira de eliminar a equipa que viria a ser medalha de prata, que foi a Estónia, portanto foi um dia verdadeiramente inesquecível e se calhar verdadeiramente inesquecível também porque, embora as grimas sejam de esporte individual, aquele foi um momento de equipa e portanto foi um momento que não foi vivido de forma nenhuma sozinho e isolado e se calhar no top 3 estão sempre momentos de grupo, momentos onde estivemos em grupo e obviamente também uma coisa que se calhar os atletas especialmente os mais novos numa altura em que estão ali naquele fervor de querer fazer logo tudo bem ao início as coisas passam-nos um bocadinho ao lado, mas obviamente que neste top 3 estão pessoas que conheci no mundo do desporto, que não conheceria se não estivesse, por exemplo, com a possibilidade de me cruzar com outras pessoas de outros países do mundo e tudo mais, que as grimas e as grimas de competição me permitiu e, portanto, seguramente esses momentos também fazem muito parte daquele que é o nosso top.

8:47 E às vezes não olhamos para eles logo na altura e depois, com calma, sabemos olhar para eles e não são os resultados e não são as medalhas, muitas vezes, que depois vão ocupar esses lugares, mas foram outros momentos especiais, outras pessoas que nós conhecemos, outras pessoas que nos ajudaram em determinada altura importante, outros momentos em que nós conseguimos ser importantes para outras pessoas e na vida de outras pessoas, e sem dúvida, esses sim, esses eu devo ao desporto.

9:17 Eu acho que sim, estava aqui a ouvir, eu estava a concordar 100%, e a pensar que estes momentos são notáveis por uma razão meramente emocional, não é? Portanto, racionalmente nós podíamos ir lá pelos pontos que fizemos ou pelas medalhas que ganhámos, mas houve provas em que, houve provas se calhar fáceis em que saímos lá com o ouro e há provas em que estamos a fazer para acabar e deixamos lá a alma, não é?

9:38 E essas ficam na memória para sempre, lá está, depois há os conhecimentos e depois há as aprendizagens e há a superação e há realmente aqui um contacto muito grande com as emoções, depois são elas todas muito subjetivas e cada um tem a sua forma de as interpretar, não é? Nuno, gostava de falar um bocadinho sobre o seu livro, que tem, obviamente, no título Diário, eu percebo que extraiu do seu diário que está público e está online que mais? É que lá está, eu percebi que tem outras histórias e a capa é um bocadinho intrigante porque tem, metade do Nuno está em modo esportivo e metade está com fato e gravata, eu gostava de perceber a razão disso, porque eu já percebi que foi uma edição de ator, não é? Eu não consigo encontrar o livro na FNAC, mas podemos encomendá-la diretamente através do seu e-mail imagino eu. Exato, exato.

10:26 É, foi, foi, bom, a história do livro é assim, o livro está para além daquilo que são os textos, o livro tem textos que foram escritos nos últimos 15 anos e começa exatamente por explicar um pouco a história do diário, porque o diário do Nuno foi algo que foi criado num site de esgrima daquele que era o nosso clube da altura, ou seja, quando os meus, os primeiros atletas com os quais eu trabalhei chegaram a um campeonato do mundo, que foi exatamente o campeonato do mundo de cadetes em Linz, em 2005, e eu tive a possibilidade de os acompanhar, eles eram três, era o Pedro, o Miguel e a Sara, e eu decidi, nós tínhamos o site, tínhamos o nosso site, e decidi fazer um diário naquela perspectiva de, olha, vou estar lá e nós vamos, e eu vou escrevendo o que é que está a acontecer.

11:14 E, portanto, este era o objetivo, era permitir que as pessoas aqui fossem vivendo esta nossa experiência dia a dia. experiência dia a dia. Mas depois comecei a escrever sobre o pretexto de várias coisas, comecei a escrever no diário, portanto esse é o diário que nasce e que depois se alonga para além desse campeonato do mundo e que vai ocupando um determinado espaço, depois a determinada altura com o aparecimento do Facebook há determinado tipo textos que eram na mesma linha, mas que deixei de escrever no diário e passei a escrever aí.

11:49 Daí o facto de dizer e mais uns escritos, não é? Porque, portanto, o diário é a base, mas depois havia bocadinhos do diário por outros lados. Mas quando decidi fazer o livro, ele não era, e não tem esse objetivo de ser, digamos, uma compilação desses textos e dessas reflexões. Ou melhor, eu já tinha feito esse tipo de tentativa há seis ou oito anos atrás. Confesso que também o produto final não era bem aquele que eu depois olhava e não era bem aquilo, porque na altura era realmente só uma compilação de textos, respeitando a ordem cronológica em que eu os tinha escrito.

12:24 E de facto, desta vez não é. Eu comecei por contar a história do diário e a partir disso comecei a falar sobre as coisas que são importantes para mim. E que são importantes para mim no processo como pessoa, como professor, como treinador, como atleta. E as histórias, esses textos do diário e do Facebook e desses sítios onde eu ia escrevendo, vêm apenas ilustrar aquilo que eu estou a falar no presente, no livro, não é?

12:50 E, portanto, isso foi uma coisa, embora o livro tenha sido escrito muito rapidamente, ele, na prática, foi escrito ao longo de 15 anos, não é? Tem uma quantidade de conteúdos que depois, em relação à linha das coisas que eu queria falar e das coisas que eu queria aqui arrumar, digamos, nas várias caixinhas, eu depois tinha dezenas de histórias escritas que tinham a ver com esses assuntos e o livro vai buscá-las.

13:17 E, portanto, vai buscá-las porque é essa fotografia, porque o livro vai buscar as minhas vivências no mundo desportivo, vai buscar as minhas vivências no mundo desportivo, vai buscar as minhas vivências no mundo das relações pessoais no mundo do ensino e portanto fica ali até porque eu raramente visto camisa e gravata e fato e portanto às vezes as pessoas dizem mas o que é que estás ali com o metade sim, tem a ver com isso aquele lado que nem sequer me representa a mim só me representa em situações mais formais, digamos, é um livro sobre pessoas, é um livro sobre pessoas, e portanto, a pensarmos sobre várias coisas, que para mim são determinantes, sejam que contextos, transversais a vários contextos, e podendo trazer da minha experiência, quer como no mundo do desporto, quer no mundo da educação.

14:25 E acaba por ser um livro, não é um livro que traga... Porque às vezes também me dizem assim, mas eu li aquilo tudo e tu nunca dizes ali, olha, isto é assim ou é assado. O livro não funciona assim. O livro é um bocadinho... Eu digo, olha, eu nesta história vi isto. E tu o que é que vês? É um bocadinho desta forma que eu tento traduzir o livro. E portanto, e porquê uma edição de autor? Uma edição de autor porque há seis ou oito anos, e quando eu fiz aquele outro ensaio, andei à procura de editoras e comecei a enviar e tudo mais. E nenhuma editora me consumiu tempo a responder. Portanto, passei pelaquela e arrumei a ideia, não era assim uma coisa.

15:04 E agora, quando foi esta altura também do primeiro confinamento, andava aqui a magicar e disse assim, é pá, eu mais um ano e faço 50 anos, podia, olha, podia escrever um livro e ia buscar 50 histórias, daquelas que escrevi, uma coisa assim do género, e depois no dia a seguir disse assim, é pá, mas eu não vou estar à espera disto, agora é que estava, não é, aquele entusiasmo de pegar, e comecei, comecei, e vou estar à espera disto, agora é que estava, não é? Aquele entusiasmo de pegar e comecei, e as coisas começaram a sair, exatamente aquilo que eu queria, e fiz e portanto, e depois, tentei usar, quer dizer, eu tinha resposta, não é?

15:35 Porque uma das coisas que costumo dizer várias vezes, foi uma das muitas coisas que aprendi com o meu pai, foi, ele dizia-me sempre, quando queres muito uma coisa, faz tu e portanto, eu tinha a resposta nas minhas mãos, não é? Se queria realmente, era dizia-me sempre, quando queres muito uma coisa, faz tu. E, portanto, eu tinha a resposta nas minhas mãos, não é? Se queria, realmente, era fazê-lo e, portanto, e foi o que acabei por fazer. Fui à procura de saber quem é que me podia ajudar na execução e, pronto, e, de facto, é um livro que não se encontra, é um livro que só contactando-me é que poderão ter acesso a ele.

16:07 Como é que podemos fazer isto? Já agora, para equipar a minha audiência, como é que fazemos isso? É assim, um dos sítios, eu criei também um e-mail só para o livro, e portanto o e-mail chama-se tudopegadoestoriasdomeudiário, arroba gmail.com, ou diretamente comigo, ou através do Facebook, ou através das pessoas que têm contato direto, mas se não, há este contacto de e-mail, exatamente com histórias do meu diário arroba gmail.com, onde me podem contactar e pronto, terei todo o gosto. O objetivo é esse, o objetivo é partilhar e partilhar reflexões sobre sobre aquilo que eu acho que é importante.

16:45 Eu vou colocar então esse endereço e as suas redes também lá na descrição aqui do nosso vídeo, que é para ser fácil de encontrar. Na parte das pessoas que nos cheguem, não nos cheguem necessariamente em direto, ao longo dos próximos dias é que, com o seu tempo, vão ver, porque realmente costuma ser uma conversa um bocadinho grande e não é toda a gente a esta hora está disponível Nuno, o que é isto de treinar atletas de alta competição ou atletas olímpicos para quem não sabe, porque é um bocadinho diferente de estar no ginásio ou de ter educação física na escola obviamente que há professores espetaculares que nos tocam e que têm um treino que nem tudo palavrazinho, do treino de alta competição, mas treinar em alta competição tem muito que se liga.

17:29 Nas suas palavras, porque é um especialista, como é que o definiria, o que é que acha que são os pilares de um treino de alta competição, como é que o diferenciaria do outro treino, vá lá, banal, de ficarmos fit ou para perdermos uns quilos? Bom, é assim, eu acho que tudo na vida é treino de alta competição, ok? Treino de alta competição resume-se a quê? Resume-se a dar o nosso melhor em busca de um sonho.

17:54 E, portanto, dar o nosso melhor em busca de um sonho, na vertente desportiva, para quem vai para a via da competição, é seguir esse sonho olímpico e dar o melhor de si para todos os dias evoluir e aproximar-se dessa oportunidade e, portanto, lutar por essa oportunidade. Mas se olharmos bem, é assim. Então, e qual é a diferença disto para as outras coisas que nós fazemos? É nenhuma, não é?

18:21 É chegarmos à escola, recebermos uma turma, olharmos para aqueles miúdos e ver o que é que podemos fazer de melhor para os ajudar a crescer, não é? É investir na nossa família e nos nossos amigos e dar tudo aquilo que podemos de melhor para contribuir para a sua felicidade e fazermos o mesmo pela nossa, não é? Portanto, aqui a questão é exatamente pensarmos assim, para quem pensa que o importante e o que se valoriza é o esforço e é o tentar, e desse esforço e desse tentar podemos ou não alcançar determinados patamares e determinados objetivos que nós colocamos, portanto, viver num sonho olímpico é viver nessa constante procura de nos superarmos, desde as coisas mais banais que fazemos, até as coisas que possam ter, um bocadinho como dizíamos há pouco, possam ter até um valor enorme, quer seja para nós, quer seja para as pessoas que nos rodeiam quando nos veem alcançar esses objetivos.

19:30 Eu posso dar aqui um exemplo, que muitas vezes nós no mundo do desporto, por exemplo, temos aquela questão de motivar, motivar os atletas, pois sabemos que nem todos têm o mesmo nível de motivação e que há alguns, independentemente do seu valor, que é preciso estar ali a puxar por eles. E eu conto-vos esta história, eu quando estava na escola Manuel da Maia, abri lá o núcleo de esgrima e nós tínhamos umas provas ao sábado e encontrávamos às sete da manhã em frente à escola, portanto ali em Campo de Ourique, em frente à escola às sete da manhã.

20:01 E há um dia que há um cito que chegou, veio ter comigo às 7 da manhã e que me diz assim, oh professor, eu hoje já treinei. E eu assim, olhei para o relógio, 7 da manhã, eu sabia que ele ainda para mais vivia na margem sul, portanto estava a imaginar, acordou, se calhar antes das 6, não é? E depois apanhar transportes, porque veio com a mãe, transportes e tudo mais.

20:26 E eu assim, então mas já treinaste? Já, já, enquanto a minha mãe estava a preparar o pequeno almoço eu peguei na colher de pau e andei lá a fazer uns afundos e tudo mais, e olhei por ali e conto esta história, muitas vezes que é assim, que dedicação mais de alta competição e mais olímpica do que este miúdo que nós muitas vezes podemos dizer assim, mas era uma simples prova de desporto escolar para um miúdo que estava na fase inicial.

20:53 Depende do empenho que nós colocamos nas coisas. Portanto, de facto, o alto rendimento, a alta competição, o olimpismo, a meu ver, é uma forma de estar. Não é, e é independente do objetivo, certo? Depois tudo se passa à escala, ok? Nós colocamos os Jogos Olímpicos ali no máximo do desporto, onde só vai chegar uma franja mínima, muitos atletas extraordinários não vão conseguir chegar àquele número reduzidíssimo, cada vez mais reduzido, de atletas que lá vão chegar, e portanto, em tudo, em tudo aquilo em que alguém está disponível para se entregar a perseguir um determinado sonho, esta é alta competição.

21:51 Seja no que for, seja a fazer esgrima, seja a lavar os dentes. É tentar melhorar a cada dia. Claro. Eu costumo olhar para estas coisas, a imagem que eu uso é um alfabeto, não é? Nós podemos ter um alfabeto mais rico ou menos rico, quanto mais letras tivermos, mais complexas conseguem ser as palavras e as frases que conseguimos escrever e que conseguimos entender. entre a geração, entre a genética, entre os meios, o material, não é?

22:26 No próprio treino é um mundo, não é? Portanto, um bom treinador consegue nos levar para sítios onde nós não imaginávamos e realmente o nosso alfabeto, o nosso subalfabeto nesse componente é sempre muito fraco, porque faltam nos anos e um pensamento próprio, mas depois aquilo torna-se uma opção, depois dormimos, sonhamos com aquilo, fazemos afundos ao pequeno almoço, portanto, eu nunca fiz esgrima, mas consigo empatizar com esse seu aluno.

22:51 Tudo se torna, aquilo é uma opção, não é? Tudo se torna aquele desporto. E pronto, agora para um, se calhar, tornou-se muito fácil, mas para um maçarico, um calor que chega agora à modalidade, se calhar é difícil para ele deslumbrar quão longe está, se calhar, dessa alta competição. Tem assim algum caminho rápido, alguma autostrada que podes levar até lá mais depressa? Não importa, eles encontram o seu caminho.

23:19 É algo que importa, tipo, motivá-los para esse caminho? É assim, uma das coisas, como falou aqui, há que respeitar os carros são todos diferentes, ok? Os carros são todos diferentes e, portanto, logo aí, logo aí, não há receitas, esta é a primeira coisa, não há receitas e, portanto, não havendo receitas, talvez não existam atalhos, não é? E, especialmente, é preciso percebermos uma coisa, que é, nós somos, nós treinadores, nós somos parceiros de um sonho.

23:52 Nós somos parceiros de um sonho, não somos, na minha visão, é assim, eu não concebo que um treinador tenha a ambição de conseguir um dia ser campeão olímpico através dos seus atletas. Isto faz sentido se as pessoas com as quais nós trabalharem, ou pelo menos uma, tiver esse sonho. Se não tiver, os treinadores servem para ajudar as pessoas a concretizar sonhos. E esse, pelo menos na minha visão, ou melhor, naquilo que eu pretendo ser como treinador.

24:26 E, portanto, o meu sonho é ajudar outras pessoas a atingir os seus sonhos. Se os seus sonhos se canalizam para o tentar ser de alto rendimento e tentar chegar às elites mundiais, pois empregarei o meu maior esforço nesse sentido, com os recursos que tenho e tudo mais. Se o seu sonho é outro, porque é isto que eu acho que é importante, mas talvez tentando não fugir à pergunta, há uma coisa que para mim é muito importante, que é, não posso dizer que é desvalorizar a meta para onde estamos a chegar, não é isso.

25:13 Mas, se o caminho não valer a pena, pelo menos nas Grimas, estamos no desporto errado, se estivermos à espera só de... Se as Grimas só valer a pena, se aquele caminho só valer a pena com o cortar da meta, então eu sou o pior parceiro para ir nesse carro, ok? Eu sou um parceiro que não tenho problema nenhum em assumir qual é a meta onde nós queremos chegar, agora estou muito disponível para arrancar com alguém, se esse alguém estiver disponível para dar o seu máximo nesse caminho, independentemente se vamos ou não vamos chegar ao fim.

25:51 Porque há muitos atletas e há muitas pessoas que no fim até acabam as suas carreiras muito frustrados porque a sua carreira tinha um objetivo máximo e sem aquele objetivo máximo ela não faz sentido. E portanto, porque nós, independentemente de tudo, é assim, nós treinadores, nós trabalhamos com os atletas numa parte fundamental da sua vida, que é uma parte de crescimento e de formação pessoal. E a pessoa que está connosco não vai ser atleta toda a vida, mas vai ser pessoa a vida toda, não é? E, portanto, há todo aqui um conjunto, pelo menos para mim, de valores que são intocáveis e que não há medalha nenhuma olímpica que possa fazer parte do preço a pagar do ponto de vista pessoal, certo?

26:38 E, portanto, há todo aqui um conjunto de princípios dos quais eu não abdico, e se calhar uma das coisas é mesmo essa, que às vezes as pessoas dizem assim, mas será que o teu atleta ou o atleta está pronto para ganhar, está pronto para ser um campeão? Para mim é importante é que ele esteja pronto para perder. Enquanto ele não estiver disponível para aceitar que vale a pena ir por aquele caminho, mesmo que a gente não chegue ao fim, se ele não estiver disposto, ele vai encontrar muitas formas quando o carro para, para. Mas não somos nós que o vamos travar. Eu encontrei aqui uma série de caixinhas que eu gostava de ordenar, se fosse possível, com a sua ajuda, por ordem de importância e na sua opinião para um atleta bem-sucedido, independentemente dos resultados.

27:54 Um atleta bem-sucedido é um atleta feliz, que tenha orgulho na sua carreira e elas não estão originalmente em nenhuma ordem especial, mas eu gostava que a gente tentasse, mais até para os pais que não estão a ouvir, ordená-las. E basicamente são o quê? A genética, o talento, a motivação, as condições familiares, o treinador, a alimentação, o descanso, o país onde se está, o material, os componentes, outras que, entretanto, o mundo se lembre. Como é que a gente as pode ordenar?

28:22 O que é que é mais importante destas coisas para um atleta? Qual é a base, a rixe, os pilares mais importantes,, como é que a gente as pode ordenar? O que é que é mais importante destas coisas para um atleta? Qual é a base, a rixe, os pilares mais importantes para onde é que começaria? É sem dúvida a motivação, é o seu sonho, não é? É o seu sonho. Porque a partir do sonho do atleta, tudo o resto se vai construir.

28:39 Comecemos pelo seguinte, as condições não são suficientes, nunca são. Nunca são. As condições é como o porta-bagagens do nosso carro. Nós temos um carro pequenino e temos sempre porta-bagagens cheio. Depois compramos um carro com porta-bagagens um bocadinho maior, porque julgamos que aquilo vai ser, e o porta-bagagens vai continuar cheio, não é? E até ter um camião tiro e ele vai estar cheio de ir e ele vai estar cheio de coisas lá dentro. Portanto, esta é a primeira coisa importante, que é nós centramos-nos muito naquilo que nos falta e aproveitamos pouco aquilo que temos, certo?

29:15 E há bocadinho, quando estava a ouvir e bem, e é interessante o exemplo do abecedário, quantas letras eu tenho disponíveis para fazer palavras, mas o importante é e quantas letras eu uso daquelas que eu tenho? Porque muitas vezes, muitas vezes, há pessoas que têm ali poucas letras, mas desmultiplicam em milhentas palavras, e há pessoas que têm o alfabeto inteiro e usam aquelas duas, três palavras do costume, não é?

29:42 sumo, não é? Portanto, aqui eu faço muito essa distinção e posso reparem, usar lá está, usar um exemplo, vou contar-vos aqui uma história que tem a ver com um treinador que agora está na China, que é o mestre Aubry e que quando estava em França a esgrima francesa, agora não sei, com o atualizado, medalhas mas há não muitos jogos olímpicos atrás a esgrima francesa tinha mais medalhas do que as outras modalidades francesas todas juntas.

30:09 Portanto, só para verem o peso da esgrima em França. E em Londres, em 2012, a França, pela primeira vez na sua história, não obteve nenhuma medalha nos Jogos Olímpicos na esgrima. E um outro, este treinador é da minha geração como jogador, portanto nós conhecemos de jogarmos. E há um outro treinador, que é o treinador da equipa israelita, que também é do nosso tempo de jogador, e com quem eu estava a falar há não muito tempo, e ele disse-me, olha, eu fui estagiar com os israelitas, com a equipa de Israel, a Paris, e o centro de treino em Paris, o centro de esgrima, é assim uma coisa, não falta nada.

30:49 Tudo aquilo que a gente imagina que era um bom centro para a esgrima, eles têm e ainda nos mostram coisas que nós não tínhamos pensado. E ele disse, eu cheguei lá e disse assim, fiquei maravilhado com aquilo. E disse ao Aubry, é espetacular isto, e o Aubry deixou-o falar, o francês deixou-o falar, e depois diz ele, depois pôs-me assim a mão por cima do ombro e diz, gostas tudo o que vês? Deu-nos zero medalhas em Londres, tudo o que aqui está já cá estava. Isto não é mais importante, o mais importante é as pessoas, a forma como as pessoas estão disponíveis para usar estas coisas que estão aqui.

31:28 E, portanto, de facto, nós que temos muito esta sensação do que nos falta, é muito importante utilizarmos. Este é um exemplo, não é? E muitas vezes, nós agora, posso dar um outro exemplo, o próprio Miguel, nós tivemos um ano sem competir, e aqui há três semanas atrás fomos à Espanha a uma prova de sénios. Miguel é o seu filho, não é, Nuno? Sim, o meu filho mais novo. E ele foi terceiro numa prova de sénios, onde eliminou vários jogadores da seleção espanhola, que é uma seleção muito forte, com vários atletas que fazem finais do circuito mundial e tudo mais.

32:11 Que estiveram, antes dessa prova, estiveram duas semanas em estágio com a equipa do Cazaquistão e com todas as condições. Nós temos treinado aqui no quintal, porque só está autorizado o treino para os atletas de seleções nacionais e de alto rendimento, de toda a maneira o espaço onde o nosso clube trabalha é numa escola e como tal está fechado, e nós treinamos no quintal, portanto, com condições que são as que são, treinamos com um grupo de sete pessoas no quintal, treinamos com um grupo de sete pessoas no quintal, e não foi isso que lhe fez, que lhe retirou portanto, a possibilidade de ter o desempenho que teve há três semanas atrás. Portanto, tudo o que tem a ver com condições com o país com não sei o que mais, ok, é tudo importante e quanto melhor forem as condições que tivermos, não é? Digamos não sei se é mais fácil o caminho, mas pelo menos percorrer mais aprechados, certo?

33:08 Com mais soluções, com mais pneus suplentes, com mais com a comida mais adequada para... com esses aspectos todos. Mas, sem dúvida, é quanto é que estamos disponíveis para rentabilizar o pouco que temos. É isso que faz a diferença. E seja no desporto, seja no resto. Sim. Ora, não leva mal, mas nesse exemplo que me deu em particular, quer dizer, o Miguel tem o pai que tem, não é?

33:32 Um treinador de elite. Ex-olímpico. Não, peço desculpa do interromper. E veja, com essas limitações todas que numerou, imagine o que conseguiu fazer. Não é? Eu percebo a piada,. Não é uma limitação. Eu percebo a piada, mas não é uma limitação. Mas pronto, ele em particular, quer dizer, vocês em casa imagino que tenham muito boas condições, mesmo que não sejam um centro de estágio espetacular. Mas eu acredito, pronto, eu percebi o propósito e a sua história foi ótima.

34:01 Mas pronto, em particular o Miguel, eu acho que está muito bem servido em termos de treino, mesmo que vocês só tenham um bocadinho de praia e duas canas, se calhar dá para fazer um treino muito decente, porque, pronto, o Nuno tem um alfabeto completo, não é, nesse aspecto, e consegue fazer do pouco muito, e, portanto, no fundo é isso, não é, um sábio é uma pessoa que consegue, com muito poucas palavras e de forma muito simples, passar ideias muito complexas ou simplificar conceitos para leigos, não é? E nesse aspecto, pronto, se calhar já temos de entrar aqui um bocadinho na parte da educação e da parentalidade. Todos nós pais temos de alguma forma algum superpoder que gostaríamos de passar ou pelo menos explicar aos nossos filhos, não é? E o Nuno tem essa sorte, não é?

34:45 Tem os seus filhos já a fazer esgrima e se calhar até surgiu aqui uma questão foi uma coisa muito natural para eles aderirem às esgrimas, foi o Nuno teve que dar um empurrãozinho como é que se sente em termos de responsabilidade deles terem sido atletas de esgrima? Isto tem aqui várias fases e se calhar é importante falarmos sobre isto, até porque, como dizia, estamos aqui entre pais também, não é? Que é muito aqui também o âmbito das pessoas que nos ouvem. É assim, nós...

35:16 Isto é um percurso e é um processo onde eu até mudei um bocadinho. Uma das nossas preocupações sempre foi que eles não fizessem nada pelo simples facto de que nós também fazíamos. Certo? E, portanto, obviamente que em casa há cultura desportiva, havia muito a parte das grimas também, não é? Por exemplo, o meu filho mais velho, quando saiu do hospital depois de ter nascido, antes de chegar a casa, parou no sítio onde eu treinei.

35:45 Portanto, a primeira casa onde ele entrou, isto obviamente que transpira muito asgrima e tudo mais. Mas sempre tivemos esta preocupação que é assim, é importante que eles não façam porque nós gostamos, ou porque nós fazemos, e sempre tivemos essa preocupação aqui em casa. Mas a determinada altura, o que nos deparámos foi, ao não querer estar a empurrar, quase que estávamos a fazer o contrário, que era quase que estávamos a travar, certo?

36:14 E depois pensámos, espera, mas também não faz sentido, porque na realidade é assim, obviamente, e há bocadinho nas expressões que aí estávamos a falar também um bocadinho da genética, e a genética, se calhar, a genética para além da genética, que é o contexto e o envolvimento em que nós estamos, assim, a cultura desta família é uma cultura de vivência desportiva e de vivência desportiva à volta de duas modalidades, de ginástica rítmica e de esgrima.

36:40 Neste caso, a ginástica rítmica, embora já seja feita também por rapazes internacionalmente, ainda é uma modalidade, do ponto de vista olímpico feminino, portanto aqui, com dois rapazes em casa, ficavam à merc como para nós, nas idades, muito cedo, o que é importante é a vivência, e portanto também faziam natação, e o caso do Filipe, que é o mais velho, que gostava de futebol, também fazia futebol, e portanto a esgrima ocupava aquele espaço de uma, duas vezes por semana na classe de iniciação onde o culto era brincar à volta da esgrima e, portanto, trabalhar a psicomotricidade a pretexto da esgrima e não uma esgrima com vista a uma especialização precoce ou o que quer que fosse, mas, portanto, de uma forma natural, a esgrima ocupou esse espaço de mais uma modalidade naquele momento em que desde cedo eram as experiências para brincar a tudo e ter à sua disposição uma bola, um boneco e uma espada, que andou sempre de volta deles também, desde pequeninos.

37:53 Depois, o que aconteceu a seguir foi um bocadinho, e mesmo eu sempre pensei, ok, vou retardar o tê-los a treinar comigo. E embora eu no meu clube não tivesse divisão, a nossa modalidade é suficientemente pequena para que não haja, todos os treinadores trabalham aosíssimo treinador também, obviamente que não tinha a experiência que eu tinha, não é? Que é o Ricardo Candeias, e a determinada altura depois fizemos o percurso contrário, que era assim, os outros miúdos da idade deles, alguns já estavam a treinar comigo, neste caso com um treinador mais experiente, e as duas pessoas pensámos assim, então mas quer dizer, estes só porque são filhos, não treinam já com alguém que pode acrescentar um bocadinho mais só.

38:49 Então, houve aqui encontrar este equilíbrio. Eu acho que assim, foi fácil e foi natural, mas foi preciso estar atento a isso. Porque nós, no nosso caso, estávamos a fazer o percurso um bocadinho ao contrário, que era, ao não querer empurrar, até estávamos a travar, certo? Agora, pronto, depois a coisa foi evoluindo neste sentido, porque eles também gostaram, agora, obviamente que não seria, não é verdade se dissermos que, obviamente, que este contexto, se os miúdos, por natureza, veem nos pais os seus modelos, não é?

39:23 todos por natureza vêem nos pais os seus modelos, não é? Identificam-se com as coisas que eles fazem. Se se viram para o desporto e se há uma vertente esportiva que acompanharam, é perfeitamente natural que de alguma forma também os vá impulsionando. Agora, sempre foi muito claro para todos que assim, só faz sentido enquanto fizer sentido para eles, não é? Isso sem nenhum problema. E o começar? Quando é que acha que se deve começar um desporto fora da escola? Depende de desporto ou desporto, não sei, no caso do esgrima em particular?

39:56 É assim, a questão é que tipo de esgrima vamos fazer ou que tipo de modalidades vamos fazer. Nós no nosso clube, o nosso grupo da formação para miúdos a partir dos três anos, estamos, de facto, a trabalhar psicomotricidade a pretexto das grimas, certo? E, portanto, na prática, quem olhar para aquilo e diz mas eles andam ali só a brincar. É, naquela altura, é para brincar, explorando equilíbrios, explorando coordenações, explorando oculomanualidade, portanto, fazendo essas explorações dentro do contexto das grimas.

40:33 Portanto, eu acho que todas as modalidades devem fazer parte, especialmente nos miúdos em idades suficientemente baixas. E quando estamos a falar disso, repare, assim, acaba por ser aquilo que nós pais acabamos por fazer com eles também, quando na praia lhes damos uma pá para escavar e quando a seguir atiramos uma bola e ele nos devolve a bola, podíamos rapidamente catalogar de quantas modalidades fomos nós como pai treinadores até aos 3 anos, ou até aos quatro até aos cinco muitas não é e portanto se essas primeiras etapas depois de vivência deles nas várias modalidades forem dentro dessa linha sem dúvida que vão só vão enriquecer os e o que quer que eles sigam depois mais à frente, assim haja capacidade de lhes dar tempo para evoluir, porque é outra coisa que muitas vezes limita, e às vezes estamos a falar de condições, mas há outras condições muito mais importantes que nós não respeitamos, o tempo.

41:38 E eles não andam todos ao mesmo tempo, e não melhoram todos os dias, e a seguir vêm aquelas idades em que eles cresceram muito e aquele mapa motor está todo estruturado e aquela coordenação desmontou-se toda e o indivíduo que se calhar até tinha bom rendimento nas provas e a seguir passa um ano em que não consegue tocar em ninguém e de repente se o culto já é muito de sucesso e sucesso desportivo, ele até tinha, agora não tem, vai-se aborrecer, o treinador de antes estava sempre contente com ele, agora não está tão contente e depois a seguir vêm umas dores de barriga para não ir ao treino, ok? E depois desaparecem e a gente diz, pronto, lá estava mais um que não gostava de trabalhar e quanto da nossa responsabilidade é que estava nesse percurso.

42:23 Claro. Alguma tensão, uma vez que treinam os seus filhos, alguma tensão extra por serem pai e filhos? Às vezes alguma frustração extra? Pô, vi isto e ganho aquele ponto. Não deve ser fácil. Eu tenho quatro filhos, tenho dois adolescentes e dois pequeninos. Os mais velhos, quando estavam no colégio militar, fizeram um bocadinho de esgrima. E eles eram bem-sucedidos, eles limpavam aquilo tudo. Mas noutros desportos, às vezes não eram tão bem-sucedidos e tinham medo.

42:54 No Jiu-Jitsu, por exemplo. E há uma frustração, não é? Nós como atletas daquela modalidade em particular às vezes sentimos, pô, eu ensinei daquilo, a gente trabalhou muito daquilo. Como é que é no vosso caso? É assim, eu acho que há aqui algumas coisas que, no meu caso, me têm ajudado. A primeira é, desde sempre estive predisposto para essa situação e perceber que, assim, ser treinador dos filhos não é a mesma coisa, é preciso estar atento, é preciso ouvir as histórias dos outros, é preciso ler outras histórias e acompanhar e, portanto, perceber que não é fazendo de conta, que é a mesma coisa que a coisa vai, que se vai passar ou que as dificuldades não vão, ou que as dificuldades não vão existir.

43:42 Agora, há para mim algumas coisas que são muito claras e que me ajudam. Primeiro é, eu não sou só treinador deles, e portanto eles estão inseridos dentro de um grupo, o que faz com que aquilo que eu penso que possa ser, por exemplo, às vezes, ou de mal entendidos, por exemplo, é assim, se houver uma relação só de pai treinador com filho, os próprios atletas não têm, eles nãoouver uma relação só de pai treinador com filho, os próprios atletas não têm, eles não têm outra referência, não é? E, portanto, será que, como é que identificam aquele código? Era o pai, era o treinador, o que era? Quando eu estou dentro de um grupo, quanto mais não seja, consigo ver a forma como se trabalha com os outros e como se trabalha com eles. Portanto, há aqui várias coisas que eram importantes.

44:28 Uma era, eu já era treinador de vários atletas antes de ser treinador dos meus filhos, e portanto os meus filhos chegaram a um grupo que já existia, e onde eu existia e onde outros atletas existiam. E portanto não são únicos aí, e isso ajuda-nos. E depois, há também uma coisa que para mim, se calhar me ajuda, que tem muito a ver com a forma como eu trabalho, que é assim, nós, eu trabalho muito numa visão de encontrar o que é que funciona com aquele atleta.

44:56 Portanto, não sou aquele treinador que tem um modelo que vai ter sucesso e em que os meus atletas são a minha matéria-prima. Não, é ao contrário. Eu é que sou a matéria-prima deles que posso ou não, umas vezes ajudo deles e de todos os atletas com quem trabalho, umas vezes ajudo outras vezes prejudico. Aliás, no livro eu tenho lá uma história com o meu atleta mais antigo, que é o Pedraredo, que fala muito disso, que é um campeonato da Europa, em que eu completamente estraguei a sua prestação, porque dentro de um assalto de iluminação direta, em que no intervalo em que nós podemos dar, em que ele até estava a ganhar, nós podemos, temos ali, são três períodos, três minutos, com um minuto de intervalo, e nesse minuto de intervalo, os conselhos que eu lhe dei para a gestão daquele assalto, custaram a sua eliminação.

46:04 E depois disso, eu percebi que aquilo que eu lhe tinha dito, não era aquilo que ele tinha pensado e, de facto, ele estava mais confortável naquilo que tinha pensado do que naquilo que ele tinha dito. E depois, uns tempos mais à frente, com esse mesmo atleta, volta a estar numa situação muito semelhante e, num minuto de intervalo, em vez de lhe dizer o que é que ele devia fazer, perguntar-lhe o que é que ele estava a pensar fazer.

46:23 E ele explicou-me o que é que estava a pensar fazer e, portanto, a análise que fizemos foi construída naquilo que ele estava a pensar fazer e não naquilo que eu estava a pensar que ele devia fazer. E, portanto, é muito assim que eu funciono. Portanto, isto também ajuda, também ajuda que é... Eu costumo dizer que o treinador é o fator limitante do atleta. As pessoas depois acham que, é pá, mas isso é-me esporzado.

46:50 Não, porque a gente muito, porque nós muitas vezes como treinadores, não é? Treinadores e professores e tudo mais, a gente diz assim, é pá, já viste aquele meu atleta espetacular? Sim, mas eu também tenho outro que fica no fim da tabela e sobre esse a gente não fala. E também é nosso aluno, portanto, é assim. Também somos nós, portanto nós de facto temos que como treinadores perceber obviamente o papel de treinador e de professor e de educador é fundamental mas é fundamental a, digamos a polir um diamante mas o diamante é o aluno, não somos nós é ao contrário, não é? Nós tentamos ali encontrar o melhor dele, polir a melhor fase, ajudar, criar oportunidades para que ele se desenvolva.

47:32 E, portanto, isto faz com que, no meu processo de trabalho, e em relação às Grima, nós construímos uma técnica, lá está, nós construímos um abecedário em conjunto, mas eles é que escrevem o texto. E a partir do texto que cada um escreve, porque isto depois é muito um jogo de personalidade, porque isto é um combate, não é? E não se pode pedir a uma pessoa atrevida que faça um combate de esgrima caudaloso e ponderado, porque está fora das suas características, e portanto, como é que ele pega nas ações técnicas e as conjuga naquela que é a sua natureza e aquilo que ele pode, de facto, levar para dentro da pista.

48:29 Portanto, para quem considera, como eu, que este é um jogo claramente de personalidade, é meter-lhes as ferramentas, é dar-lhes o abecedário, mas a partir daí, assim, deixá-lo construir o texto e analisarmos em conjunto e percebermos. Falta-nos mais palavras, falta-nos outra vertente escrita para outras situações e isso ajuda muito, porque é muito centrado neles e não centrado em mim. Muito bem. Ora, aqui para os pais que não são necessariamente aqui do mundo do desporto, atletas ou não atletas de alguma modalidade, o que é que acha que resulta para motivar as crianças a fazerem desporto? O que é que é ser um bom modelo neste campo? Na sua experiência, deve ter visto milhares de pais e milhares de alunos, o que é que está na base de uma relação saudável neste campo? Porque, não é preciso estarmos aqui a falar nas vantagens do desporto, são imensas e tocam uma pessoa para a vida toda. Eu acho que há pais que gostariam às vezes de facilitar esse pilar, essa âncora na vida das crianças, mas não sabem como. O que é que lhes podemos dizer? É como no contexto da educação, é valorizar os sucessos.

49:25 E aqui voltamos um bocadinho ao início da nossa conversa. Então, e o sucesso é a medalha? O sucesso é a participação olímpica? Não, há uma quantidade de sucessos. Esse é um dos sucessos, é provavelmente o mais visível e é o de maior expressão. Mas os sucessos são outra coisa. Os sucessos são se o miúdo está a dar o seu máximo. E dar o seu máximo é, por exemplo, ter o miúdo que na véspera da prova diz, eu hoje gostava de ir para a cama mais cedo porque preciso descansar. Não é aquele miúdo que nós temos que dizer, olha, amanhã tens prova, não achas que já é hora de desligar a Playstation e ires para a cama?

50:04 Tens prova, não achas que já é hora de desligar a Playstation e ires para a cama? Portanto, muitas vezes, o que nós acabamos por fazer de forma inconsciente é, lá está, ficamos com o sucesso do conseguir, que é só um, e desperdiçamos os milhentos sucessos do tentar, que estão no processo e estão no percurso, certo? E que podem ser valorizados a toda hora. E, portanto, é assim, a motivação nasce dos sucessos.

50:32 Nós, muitas vezes, é que não os vemos ali. Se eu tiver um miúdo, o meu filho é uma pessoa muito, faz de conta, que é uma pessoa muito fechada, muito introvertida, e que naquele dia disse, eu gostava de fazer aquela modalidade e entrou naquele ginásio, sozinho, no meio de 20 pessoas que não conhecia, que sucesso extraordinário que está ali, mas vai-nos passar ao lado. Nós vamos olhar muitas vezes e vamos ver, ou vamos chegar ao fim e temos que perguntar ao professor, olha, acha que ele tem jeito?

51:06 Que é para eu saber se vou inscrever. E estava lá um outro sucesso fantástico, que muitas vezes só os pais é que conhecem, porque nós não conhecemos, que é imaginar um miúdo que se calhar não troca palavras com ninguém ou que brinca sozinho, e que olhou para uma coisa e disse eu quero aquela coisa e saiu da sua área de conforto. E como estes tantos outros, do ponto de vista da organização, do ponto de vista relacional, daquele miúdo que se calhar chega à casa e diz, quando a mãe está a fazer o lanche para a prova e diz podias fazer mais uma sandes, porque tem lá o Manolinho que eu sei sempre que olha para as minhas sandes e gostava, mas não é, é estas coisas que é a capacidade do miúdo olhar para o outro no que está ao seu redor, identificar tornar-se disponível quer dizer, medalhas maiores que estas, não há não é, portanto muitas vezes o que acontece é isto, e no mundo escolar acontece a mesma coisa, que é nós estamos à espera das notas e há muitas coisas para além das notas que nós podemos valorizar, porque nós alimentamos de sucessos e só nos alimentamos com os sucessos quando eles são valorizados.

52:14 E ao nível da mutilagem, Nuno, isto é uma coisa que me é bastante cara. Nós ouvimos frequentemente as pessoas a dizerem as coisas certas, mas a não fazerem necessariamente as coisas certas, não é? Portanto, é um bocadinho de faz o que eu digo, não faças o que eu faço. É óbvio que é muito mais difícil ser um bom modelo do que explicar o que fazer. O Nuno intervém a esse nível às vezes, portanto, óbvio que na vossa casa já percebi que era claríssimo, vocês fazem desporto porque gostam e faz parte da vossa ADN mas noutros casos quão longe deve ir o esforço dos pais para se modelarem esta questão do desporto, dos bons hábitos da curiosidade, da disciplina portanto são coisas realmente se não nos ensinaram é difícil nós ensinarmos não é? É, eu sou perfeitamente a favor, é assim, esta coisa do exato, faças o que eu digo, não faças o que eu faço não faz sentido não faz sentido, não faz sentido. Agora, há uma outra coisa que eu acho que é muito importante, que é, nós devemos, nós todos, a sociedade em si, assim, nós devemos ser um modelo, mas para mim é muito importante que logo de partida, é preciso mostrar que este modelo não é perfeito, porque senão, estamos a falar da mesma coisa, é assim, se eu sou um modelo perfeito, imediatamente estou, esta é a medalha olímpica a qual o miúdo acha, epá, eu não vou chegar, eu não sou capaz.

53:38 E isto muitas vezes, esta é muito, não ideia da minha luta, mas é assim, é muito aquilo que eu tento passar e, por exemplo, mesmo em termos de escola, eu posso dar aqui um exemplo e se calhar um ou outro pai de turmas da qual eu sou diretor de turma possam ver este bocadinho, vão perceber o que é que eu estou a dizer. Eu normalmente na primeira reunião de pais, de direção de turma, a primeira coisa que eu digo é assim, depois de boa noite ou boa tarde, conforme nos encontramos, assim, eu garanto que vou cometer erros com os vossos filhos.

54:13 Garanto. Mas também garanto que todos esses erros foram feitos porque naquele momento, com os dados que eu dispunha, parecia-me que era a coisa mais acertada. Porque o que eu acho é que, assim, o que afasta também os miúdos, ou melhor, não digo que afasta, mas o que pode criar uma barreira, é quando o modelo é tão perfeito que parece inacessível e parece irreplicável. E, portanto, uma das coisas importantes do modelo é perceber que nós também cometemos erros, não estamos contentes com os erros que cometemos, são algumas limitações nossas também, e isso aproxima-nos, isso faz com que, lá está, faz com que o miúdo ou a pessoa que nos rodeia também queira tentar.

54:53 Porque se aquilo que lhe for pedido for a perfeição, ele com medo de falhar essa perfeição vai fugir. Há uma experiência muito interessante, é referida em vários livros, que é feita com grupos de miúdos, não sei agora até aqui as faixas etárias, que tem a ver com dois grupos separados a construir puzzles. E um dos grupos é valorizado o esforço que eles fazem em construir os puzzles, e no outro é só valorizado quando eles conseguem ter o puzzle. E depois, mais à frente, na experiência, colocam os puzzles em diferentes níveis e dão a hipótese ao grupo de escolher qual é o nível de dificuldade que querem fazer.

55:32 E aqueles miúdos a quem foi valorizado o esforço e a tentativa querem sempre os mais difíceis, querem o desafio. Aqueles a quem foi valorizado o conseguir só escolhem os puzzles mais fáceis. E aqui no modelo, se cal calhar está a mesma coisa, que é assim, nós muitas vezes queremos fazer um modelo tão perfeito que torna-se tão inatingível que eu olho e digo assim, eu não sou capaz de ser aquilo, mas nós não somos perfeitos, portanto, agora podemos é dizer, podemos é ser o mais perfeitos possíveis e podemos ser claros quando falhamos, a dizer falhamos e dizer falhamos e eu também não estou contente com isto que não fiz bem.

56:08 Esse se calhar é o modelo, esse é o modelo mais perfeito que possa existir. É o modelo que mostra como é que eu quero ser e o modelo que diz aqui não consegui ser aquilo que queria, não há problema, posso fazer a seguir melhor. Isso cria a oportunidade das pessoas dizerem, ok, então, mas pode ser um bocadinho imperfeito? Pode, se estiver sempre a querer melhorar. Bom, isto foi precioso e já me deu aqui material também para refletir aqui um bocadinho na minha prestação como pai.

56:42 Nuno, tinha aqui uma outra questão que era, como é que nós podemos identificar o que é que é um mau treino portanto, três ou quatro características para os pais estarem alerta, porque acredito que haja, obviamente, muito bom mas também muito mau, como é que nós podemos proteger os nossos filhos de um mau treino em alguma circunstância se não estiver confortável com esta pergunta não percebemos de... Não, não, não tem problema, é assim, eu acho que eu acho que há outra coisa também importante, é assim, cada família tem os seus códigos, tem aquilo em que acredita e tem os seus objetivos, certo?

57:19 Há muitas pessoas até que podem dizer assim, sim, está bem, mas e tu tiveste algum campeão do mundo, tiveste algum campeão da Europa algum campeão olímpico? Não tive não tive, ok? Tenho determinados outros patamares que consegui ajudar alguns atletas a ir, estes não tenho nem sequer estou a falar naquela ah, porque tu consegues isto, ou tu consegues aquilo, agora eu para mim tenho aquela frase que concordo todos os dias, ele vai ser atleta há pouco tempo, mas vai ser uma pessoa a vida toda, certo? Porque às vezes podem dizer ah, mas sem uma especialização precoce ah, mas sem o não sei o que, é assim eu, eu, o meu o meu, até aos últimos dias o que eu quero mostrar é que é assim construindo por esta outra visão do tentar e do não conseguir, eu acho que também dá para ser campeão olímpico.

58:10 Vamos ver, vamos ver. Sim, quem quiser arriscar o seu sonho nessa metodologia, eu estou disponível. Mas sempre com esta vertente. É assim, os treinadores são parceiros de um sonho, certo? Agora, enquanto os miúdos, especialmente até uma determinada idade, até aquela idade onde não há o treino de competição, é no sorriso dos miúdos que está, o sinal, claro, e naquela segunda dor de barriga de um miúdo que nunca tem dor de barriga e que tem aquela dor de barriga à hora do treino e que assim que já não é hora de ir para o treino, aquela dor passou. Há ali sinais que são muito claros. às vezes me fazem alguma confusão, até a mim como treinador, assim, eu já fui treinador, agora não tanto, mas há uns anos atrás, de alguns atletas, dos quais eu não conhecia os pais, mas eu dizia assim, mas este pai não quer ver quem eu sou, olhar para mim, ver-me falar, olhar para a minha pinta, mesmo que a minha pinta não queira dizer nada, certo?

59:22 Mas, assim, estamos a falar de um miúdo, a quem o pai, ok, pode ser sinal de segurança, entrega-me, entrega-me no clube, entrega-me se for preciso, até para eu dar uma boleia à vinda de uma prova, uma coisa qualquer, mas é assim, não olha para a minha cara para ver no carro de quem é que o meu filho anda, nesse aspecto, portanto, isso também é muito importante, que é, obviamente, que os pais têm que aceitar também qual é o seu papel na parte desportiva, que nem sempre é fácil, não é? Muitas vezes somos aquele pai de bancada e muitas vezes, como dizia há pouco, é assim, às vezes temos o nosso passado desportivo ainda por arrumar e estamos a arrumá-lo através dos nossos filhos, por arrumar e estamos a arrumá-lo através dos nossos filhos, que é a coisa que a gente vê mais vezes e que é provavelmente é o maior problema do desporto, mas pronto, esse é um exercício é um exercício de pais e nós temos muito treino para os filhos e se calhar temos pouco treino para os pais e às vezes os pais conversaram um bocadinho sobre isso, porque depois cada pessoa tem as suas características e tem tudo mais.

1:00:25 Mas isto eu acho que é importante, que é, não é agora que estamos em tempo de Covid e não podemos ter ninguém a assistir aos treinos, mas, sei lá, assistir um bocadinho, ver as pessoas com quem elas estão, ver como é que aquilo corre, uma pessoa que anda ali aos gritos e não sei o que mais, especialmente assim, os miúdos, os miúdos não fazem frete. Portanto, enquanto não estamos naquela parte, onde depois do desporto de competição, que também tem coisas que a gente não gosta, não é? E que tem uma carga de treino elevada e tem umas frustrações que também têm que ser geridas e têm que ser doseadas, mas é assim, o sorriso, a cara deles, então para que eu os conheço?

1:01:04 E ninguém conhece melhor as caras dos filhos do que os pais, os pais conhecem esses sinais melhor do que ninguém. Agora, é preciso olhar para o miúdo, é preciso ir buscá-lo ao treino, é precisoó e quando o pai chegou lá ou a mãe para lhe dar o beijo, ele estava a dormir, não é? E no outro dia leva o ensinado e coloca-o na escola. Mas há que encontrar esse bocadinho, porque esse bocadinho pode ser determinante numa coisa que é muito mais do que uma simples prática desportiva, ok? É a formação dele, É a formação dele numa idade determinante.

1:01:48 Muito bem. Uma última pergunta. O Nuno é pai do Miguel Frazão, que é um podcaster muito bem sucedido, tem um podcast chamado Palavras Soltas, não é? É verdade, é verdade. muito famosos e tem conversas deliciosas que me foram recomendadas pela Sandra Santos, que é uma amiga nossa em comum. Como é que vê essa… é um hobby dele, ele quer levar isto mais a sério, como é que vê isto?

1:02:13 É assim, eu sou um afortunado porque tenho dois filhos fantásticos, não é? Eu costumo dizer, eu tenho o segundo e o terceiro melhor filho do mundo. Só porque não devo ter a pretensão, deve haver um, se calhar, e então, de facto, eles são extraordinários. O Miguel, esta questão do podcast dele, do Palavras Soltas, o Miguel, quando foi o primeiro confinamento, ficou com um bocadinho de tempo a mais do que aquilo que o cérebro dele precisa, que ele tem que estar sempre funcionar. E então, decidiu avançar por aqui e, portanto, fez na prática, fez isto que estamos a falar.

1:02:52 E se o fez é porque provavelmente desenvolveu, através do desporto e através da sua cultura e daquele que foi atrás dela, foi pesquisar, começou, porque o engraçado do podcast, o engraçado do podcast dele, ou uma das muitas coisas engraçadas ali, que as pessoas às vezes não sabem, e pensam assim, ah, pronto, se calhar alguém conhecia aquelas pessoas, até porque ele, a primeira pessoa que entrevistou foi a Fátima Lopes, a estilista, não é? E, portanto, que é uma pessoa que nem dá muitas entrevistas e o Miguel, na altura com 17 anos, portanto, que é uma pessoa que nem dá muitas entrevistas e o Miguel, na altura, com 17 anos, portanto, começou a mandar mails, começou a ir aos Instagrams, à procura de quem é que tinha contatos, olá, cá estou eu, Miguel Frazão, não sei o quê, estou com este projeto. Pois é fantástico, não é? Aquilo depois que tem acontecido, não é? Já fez, já tem quase, não sei, 50, 60 entrevistados, pessoas dos mais variados quadrantes, mas especialmente muito a partir disto. É assim, muito a partir do tentar imaginarmos, epá, então, mas ele pega no e-mail e escreve para pessoas famosíssimas e diz, olha, sabe, eu gostava de entrevistar e a seguir entrevista-os e faz pesquisas profundíssimas sobre eles e depois tem feedbacks fantásticos de gente dos mais variados quadrantes tem sido de facto uma experiência e eu sou fã número um, aliás porque assim eu gosto muito de histórias, não é? Eu gosto muito de pessoas e portanto ele traz-me histórias com pessoas, é pá, fantástico Vou estender aqui os meus parabéns pelo Miguel obviamente pelo seu trabalho, eu não conheço ainda o trabalho do Filipe, espero um dia cruzar-me com ele e agradecer-lhe o seu tempo quero deixar alguma última mensagem para a nossa audiência olha, é assim, eu espero que para já que tenha que esta que é uma hora que tivemos aqui à conversa, seja do vosso agrado, que tenha ajudado, em algum aspecto, especialmente a refletir, é assim, não é preciso pensar da mesma maneira que eu, eu próprio não penso da mesma maneira que eu, porque estou sempre à procura de ver onde é que há outros aspectos e outras histórias.

1:05:06 Agora, espero que tenha ajudado a refletir sobre alguns aspectos. Para mim foi extraordinário e este é de facto é aquilo que a mim me dá prazer. Porque às vezes as pessoas dizem assim, é pá, mas tu fazes isto e fazes aquilo e eu digo, não elogies muito, é puro egoísmo. Sabe-me bem esta partilha sabe-me bem pensar em conjunto sobre estas coisas e portanto é de forma egoísta que o faço, desejo a todos muitas felicidades atravessar esta adversidade, aproveitando as oportunidades e pronto e disponibilizando-me aqui, é o mais que posso fazer, é disponibilizar-me aqui naquilo que acharem que de alguma forma posso contribuir ou ajudar ou transmitir algumas experiências pois estou completamente disponível e só tenho a agradecer o convite. Nuno, obrigado bom fim de semana.

1:05:59 Obrigado.