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Dicionário das Crianças · Episódio 13

Paternidade Confinada — Ricardo Martins Pereira

14 de fevereiro de 2021 · 1 h 20 min · com Ricardo Martins Pereira

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No 13.º episódio do Dicionário das Crianças, Nuno Simões recebe Ricardo Martins Pereira, jornalista, empreendedor e uma das vozes mais conhecidas da blogosfera portuguesa através da marca "O Arrumadinho". Gravada em pleno confinamento de fevereiro de 2021, a conversa parte de uma pergunta muito concreta: como é que um pai gere sozinho três filhos em telescola, com aulas online a horas diferentes, refeições, banhos e uma empresa para dirigir ao mesmo tempo?

A resposta é desarmante de honestidade: "quem fica para trás sou eu". Ricardo descreve as 13 estações de trabalho que montou em casa, a filha de dois anos que só assiste às aulas ao colo, o filho de sete que a professora puxa à distância e o adolescente que é preciso vigiar para não jogar Minecraft durante as aulas. Pelo meio, presta homenagem aos professores, atirados de um dia para o outro para o ensino online sem tempo de preparação.

Mas o episódio vai muito além da logística do confinamento. Maratonista com 16 provas e uma ultra no currículo, Ricardo explica como a corrida lhe ensinou uma disciplina e uma capacidade de sofrimento que transporta para a vida profissional e familiar, e partilha os hábitos de saúde, da alimentação vegetariana à meditação, que o fazem sentir-se melhor aos 44 anos do que aos 25.

Na educação dos filhos, o seu lema é claro: mais do que alunos geniais, quer criar boas pessoas. Fala de humanismo, de estimular a curiosidade, de educar pelo exemplo, sendo o pai que dá banhos, cozinha, muda fraldas e trabalha em casa, e ainda da missão de mostrar os clássicos do cinema a filhos que crescem num mundo de algoritmos e streaming.

A fechar, o percurso empreendedor, da fundação da NIT ao e-commerce Pips Bazaar nascido no confinamento, a anunciada candidatura à presidência do Benfica e uma mensagem final que resume tudo: "be kind". Um episódio que continua a falar a qualquer pai ou mãe a equilibrar trabalho, filhos e a própria sanidade.

Neste episódio

Guia prático

Educar com Amor

Disciplina positiva sem gritos, castigos ou culpa.

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Transcrição completa

0:00 com Nuno Simões, do Gymboree Play & Music Portugal. Uma conversa semanal com especialistas sobre o dia-a-dia da parentalidade e do desenvolvimento da primeira infância para pais, avós e educadores de crianças do 0 aos 5 anos. O conteúdo deste programa é meramente informativo. Independentemente das opiniões expressas pelos nossos convidados, deverá sempre consultar o seu médico, terapeuta ou pediatra. Olá, Ricardo. Olá Ricardo. Olá Nuno, como estás? Tudo bem? Obrigado por este bocadinho.

0:30 Obrigado eu pelo desafio. Ora bem, pá, eu não te vou apresentar, toda a gente te conhece. Eu deixei uma série... Não tenho assim tão boa conta. Pá, eu tenho essa sensação, recebi uma série de telefonemas, mas mesmo falar com o Ricardo vou. E portanto, deixe também uma série de links sobre os teus projetos que possivelmente vamos expandir durante este podcast, porque eu duvido que tenha lá colocado todos.

0:53 A minha primeira pergunta era um bocadinho, porquê que escolheste a marca, o Arrumadinho, como marca pessoal, tens um conjunto de blogs muito bem sucedidos debaixo desse chapéu, como é que isto surgiu? conjunto de blogs muito bem sucedidos debaixo desse chapéu. Como é que isto surgiu? Basicamente, numa fase, o blog arrancou em 2008, eu na altura era solteiro e tinha a casa dos meus sonhos como eu gosto de ter e idealizo sempre que é, toda arrumada, com os DVDs por ordem alfabética, as camisas ordenadas por cores os livros por autores ou por origem dos autores.

1:31 Eu gosto de ter as coisas, efetivamente, muito, muito arrumadas. E foi assim, foi por isso que é um traço meu de personalidade que se vai manifestando sempre que possível e eu gosto muito de viver de forma organizada. Tem uma justificação que é, eu sou completamente despistado, ou seja, eu sou aquela pessoa que nunca sabe dos óculos, nunca sabe das chaves, ando sempre à procura das coisas, tenho uma coisa na mão, vou sair de casa, já não a tenho e ando meia hora à procura dela e que a tinha há um minuto e a organização é uma forma minha de contrariar isso.

2:06 Ou seja, eu tendo as coisas arrumadas e organizadas, eu sei sempre onde é que estão as coisas. Eu crio-me e obrigo-me a criar rotinas. Quando chego a casa, se tiver um sítio onde eu vou pôr os óculos e as chaves, eu vou lá pôr os óculos e as chaves e não tenho que andar à procura. E isso poupa-me tempo, que é para mim a coisa mais valiosa e mais preciosa que eu tenho.

2:23 E que é o tempo, eu dou imenso valor ao tempo, e eu odeio perder tempo com coisas, portanto para mim o tempo significa sempre alguma coisa. E lá está, passar 10 minutos à procura de umas chaves, para mim é uma coisa que me corrói. Por exemplo, outro exemplo, eu deixei de ter carro em 2013, essencialmente por duas razões, uma razão ambiental e por uma razão de tempo.

2:43 Ou seja, ao contrário do que a maior parte das pessoas pensam, o tempo que eu perdia dentro do carro, no trânsito, à procura de lugar, é uma coisa que me consumia os nervos. E eu não quero isso. Prefiro usar esse tempo, por exemplo, para e demorar o mesmo tempo, ou até um bocadinho mais, numa bicicleta, onde igualmente eu não estou a fazer mais nada, mas estou a privilegiar a minha saúde, estou a fazer exercícios, estou a sentir o ar fresco, estou a privilegiar a minha saúde, estou a fazer exercícios, estou a sentir o ar fresco, estou a tirar prazer dessa experiência, agora no automóvel não, e de facto desde que deixei de ter carro, sinto que sou muito mais feliz e isso e sinto que valorizo mais o meu tempo.

3:18 Muito bem, e consegues manter essa arrumação agora depois de três filhos e com os teus projetos todos, eu não conheço nenhum empreendedor organizado neste momento, se calhar só tu Não é nada fácil sobretudo nesta conjuntura eu acho que temos que discernir aqui duas dois momentos ou seja, este momento de confinamento com miúdos em casa e em telescola é dramático até para a pessoa mais arrumada como eu, ou para a pessoa mais organizada.

3:48 Eu não sou particularmente organizado, eu gosto muito de me rodear de pessoas que me complementam. Não gosto nada de estar rodeado de pessoas parecidas comigo. Eu normalmente sou o gajo, meio desfistado, meio maluco, cheio de ideias, cheio de projetos e quero fazer tudo ao mesmo tempo, mas depois preciso de uma pessoa com os pés na terra que me puxe para baixo, preciso de uma pessoa que seja especialista em Excel e organização de coisas em Excel e que me faça os relatórios que eu nunca faria na vida, preciso de uma pessoa que seja muito focada na parte de gestão e financeira e tudo mais, portanto eu gosto sempre de me complementar e muitas vezes os projetos não são, e felizmente tenho tido alguns projetos de sucesso, que são, dos quais eu sou o rosto, mas que o mérito é de muitas pessoas, não é?

4:36 E não teriam nunca tido sucesso se não fosse o mérito dessa equipa, no fundo, desse conjunto de pessoas que eu, de alguma forma, vou escolhendo e com que me vou rodeando e que muitas delas andam comigo durante anos, porque gostam de trabalhar comigo, eu gosto de trabalhar com elas, as coisas que fazemos correm bem, portanto, é um bocadinho por aí. Nesta altura de confinamento, pá, e sobretudo agora em casa, por exemplo, em que não há, tem que se criar rotinas novas e aí eu acho que é um bocadinho isso, é sermos rigorosos nas rotinas que criamos, mas não é nada fácil, não é?

5:07 E este, sei lá, o exemplo desta minha última semana com uma filha de dois anos já em telescola, não é? E com atividades às nove e meia da manhã, ao meio-dia e às três. Com o outro que entra de sete anos, que entra às nove e meia, tem ao meio-dia e meia, tem às 4 e meia, e depois ainda tem que ficar até às 6 e meia, tudo online, não é?

5:28 Com estações diferentes, eu montei 13 estações diferentes, depois tenho o mais velho, não é? Com 14 anos, está no 9º ano, com o horário normal de escola, que tem que organizar, e aí é garantir que ele está, de facto, a tentar as aulas e não está a jogar, enquanto está com o telefone ligado na aula e está a jogar Minecraft ao mesmo tempo. Portanto, tem que ter um nível de controlo sobre cada um, a miúda à pequenina, muitas vezes as aulas dela, eu tenho que ir ter ao colo e tenho que estar eu a participar na aula, porque ela, de facto, se não levanta, se vai-se embora, não é?

5:57 Portanto, eu tenho que estar ali a obrigá-la um bocadinho a participar das atividades. O de 7 anos é o mais focado, apesar de tudo, e tem mais um sentido de que está numa aula e que de facto a professora puxa imenso por ele e há dele que se está com menos atenção, eu ouço que ele tem o som ligado e eu estou sempre a controlar e a professora está sempre a chamar a atenção dos mídios todos e é impecável nisso e os mídios estão ali na linha e o mais velho é outro tipo de atenção, é garantir que de facto ele não está só a fazer mil coisas ao mesmo tempo e pelo meio disto tudo, eu estou a trabalhar portanto eu estou em casa a controlar isto tudo e a trabalhar ao mesmo tempo é complicado. E eu acho que essa era a minha próxima pergunta, o que é que fica para trás com três crianças em telescola confinadas, tens que fazer refeições, tens os teus projetos empresariais seguramente queres consultar por amigos tens pessoas que te solicitam alguma coisa tem que ficar para trás o que é que escolhes?

6:45 Basicamente quem fica para trás sou eu. Eu acho que é sempre isso. É sempre isso. Porque é sempre, ou quer dizer, ou nesta fase, eu acho que é o possível. Porque eu tenho aquela coisa de, lá está, gostar de ir correr e gostar de ter tempo para ver uma série ou para ver o que quer que seja. Eu tento, ou seja, o dia vai avançando, e eu de manhã, apesar de tudo, eu tenho uma passadeira em casa, portanto eu sou mais ou menos privilegiado, não é?

7:08 E às vezes consigo, antes deles acordarem, ir correr para a passadeira e ter ali um bocadinho de tempo e eles quando acordam vão para a sala e eu acabo por vê-los lá na sala. Mas, e muitas vezes para o meu treino a partir do momento em que eles acordam. Mas muitas vezes deixo para a noite, eu já sei que quando deixo para a noite não vai acontecer.

7:23 Não vai acontecer, mas mesmo as séries e essas coisas todas, eu quando muitas vezes consigo deitá-los a todos, entre os banhos, os jantares, essas coisas todas, às, sei lá, 10h30 estou eu pronto para mim, não é, para ter o tempo para mim, e às 11h estou a dormir profundamente, não é, esquece, não dá, tanto é que há por ser eu a ficar para trás, aí depois tento... Também sei que isto é uma cena... É um período, não é?

7:46 É uma fase em que isto... Em que nós estamos obrigados a isto. Não temos alternativa. Portanto, estar aqui a sofrer e a chorar por uma coisa que não há alternativa, fazer o quê? Os meninos não podem deixar de ir às aulas. Eu não posso deixar de cumprir com as minhas obrigações, não é? Enquanto pai. E, portanto, tem que as fazer. E respeito imenso o trabalho das pessoas que estão do outro lado e o esforço que elas fazem, porque se eu sei que o meu filho de 7 anos tem uma aula às 9h30 e das 9h30 às 10h30 eu sei que acaba às 10h30 porque às 11h começa outra e onde ele já não está, mas a professora divide as turmas em dois, portanto os desgraçados dos professores estão ali desde de manhã até ao fim do dia com várias turmas divididas em várias pessoas, portanto eu também me ponho do lado deles e percebo a dificuldade que é para eles também manterem os miúdos focados, interessados numa realidade que para eles também é completamente diferente e completamente nova, não é?

8:35 As pessoas nunca viveram isto, não é? Nós não, os professores também não. Portanto, é completamente diferente. Tu tens a tua formação e a tua experiência profissional enquanto professor numa realidade presencial e de repente de um dia para o outro dizem-te agora é assim mas online, tipo, oi? Sem tempo de preparação, uma coisa é sei lá, eu também comecei no jornal em papel e o online foi aparecendo, nós tivemos anos de transição, que ainda hoje está a ser feita e de migração e de aprendizagem e tudo mais isto foi de um dia para o outro, foi meus amigos a partir daqui a 15 dias é tudo online.

9:07 Desde plataformas técnicas, se os miúdos têm ou não têm computadores, se o som está bom, se os pais sabem mexer nas plataformas digitais. Portanto, há tantas, tantas coisas que se levantam e tanta discussão que isso pode gerar, mas que não houve tempo para discutir, não houve tempo para pensar, não houve tempo para nada. É implementar e começar já, porque senão é tempo que se está a perder e os miúdos, eu já sinto isso, não é? Eu já sinto que este ano de 2020 e para onde estamos a ir agora em 2021 foi um ano semi-perdido, não é? Em termos de aprendizagem escolar, porque obviamente que embora as pessoas façam o melhor possível, não é a mesma coisa, não é a mesma coisa. Não dá. E eu acho que os miúdos vão acabar por ser os principais prejudicados.

9:48 Olha, falando aqui um bocadinho no online e no digital, esta pergunta surgiu-me agora durante a tua resposta porque eu tinha aqui um outro alinhamento que ficou arruinado agora com o teu testemunho. Fala muito, não é? E falas bem, mas esta coisa surgiu-me. Tu vives um bocadinho no online já há muito tempo, portanto és um especialista em comunicação digital, estratégia, marketing, inovaste numa série de campos nesta parte do digital e agora estás a observar esta dinâmica de todas as pessoas, vamos lhes chamar, as pessoas ditas normais que usavam a internet para se divertirem se calhar por fins meramente hedonísticos ou porque queriam trocar uns e-mails usavam aquilo, se calhar 2% do seu potencial e agora estão a trabalhar em frente a um ecrã, horas a fio e as próprias crianças que usavam a net se calhar para se divertirem, para verem uns vídeos no YouTube uns TikToks, agora estão a ter aulas como é que tu vês esta dinâmica e quão fácil foi para ti, que és do meio, adaptar-te a esta realidade que agora só temos online? Acabou-se o offline, só temos online.

10:52 Sentiste essa transição? Foi fácil para ti e quão difícil será para quem não estava no teu ponto de partida? Sim. Para mim, em termos profissionais, eu tive uma vantagem em relação a todas as outras pessoas, que foi eu sou um visionário até outras pessoas, que foi... Eu sou um visionário até nisso, que é... A minha equipa está confinada... Confinada não, está em teletrabalho desde dezembro de 2019, quando ainda não havia Covid.

11:14 Ou seja, eu na altura, eu comprei o projeto que tenho atual da MAGG, comprei o Observador, que era o meu sócio, eu comprei a cota deles, e na altura houve necessidade de nós sairmos das instalações deles e eu andava à procura de um escritório. Então eu pus provisoriamente a minha equipa em casa enquanto encontrava um escritório. Portanto, basicamente as pessoas começaram em teletrabalho em dezembro e fizemos todo o mês de dezembro em teletrabalho e quando ainda nem sequer se falava em teletrabalho. Isto foi em dezembro, foi em janeiro, foi em fevereiro. Em fevereiro finalmente encontrei o escritório que estava pronto em março e quando tinha a data de entrada do escritório, pum, confinamento, vai tudo para casa. Portanto, eu basicamente adiei a entrada do escritório para junho, portanto, eu tive a equipa de sete meses em teletrabalho, sendo que depois trabalharam dois ou três e voltaram para o teletrabalho. Portanto, basicamente, estamos há um ano sensivelmente em teletrabalho. E não foi estanque, ou seja, isto foi por fases. Eu senti que os primeiros três, quatro meses foram muito complicados do ponto de vista emocional e de rotinas de trabalho. As pessoas não estavam claramente preparadas para uma situação de teletrabalho.

12:10 O rendimento foi muito abaixo do normal e isso teve reflexos em todos os aspectos da empresa. É completamente diferente conseguir motivar uma pessoa que está em casa sozinha a trabalhar ou uma pessoa que está ali connosco porque os olhares o chamar, agarrar num braço, levar ali para ali beber um café e falar sobre as coisas as expressões com que as pessoas chegam quando chegam ao escritório tu percebes logo, se as pessoas vêm tristes, se as pessoas estão muito motivadas, se têm um namorado novo tudo isso são aspectos que tu podes usar do ponto de vista de recursos humanos e de motivação que transformam muitas vezes as pessoas e os ambientes de trabalho e eu gosto de fazer isso, eu não sou nada o chefe chato de olhar para o relógio as horas a que as pessoas entram ou as horas que as pessoas saem, não faço ideia tenho lá pessoas que controlam isso não sou minimamente só se as pessoas estão de folgas ou se já foi-lhes dar os dias de férias eu confio sempre que as pessoas na estrutura hierárquica competente, vão ter esse tipo de controle sobre as coisas, porque eu não preciso ter, não quero ter, e não tenho jeito para ter.

13:10 Portanto, ocupe-me também muito desse lado, do lado da estratégia, obviamente, do lado das macro-decisões, mas também do lado da motivação humana e de fazer com que as pessoas se sintam bem nos projetos, que gostem de trabalhar naquelas equipas, que estejam motivadas, e isso é muito difícil quando estás em teletrabalho, é mesmo complicado. Até para mim é um bocadinho frustrante, porque por muito que se tente juntar as equipas em reuniões de Zoom ou o que quer que seja, não é a mesma coisa.

13:37 Não consegues ler as pessoas, só estás em contacto visual com elas durante aquela meia hora ou durante aquela hora, não sabes o estado de espírito da pessoa, não sabes os problemas com que ela está, se está mesmo tendo as pessoas abertura, e fazem isso, as pessoas de vez em quando mandam-me o WhatsApp a dizer, pá, queria falar contigo, tens aí meia hora, pá, claro, e falamos e falo individualmente com alguns, e tento resolver os problemas que eles têm e ver de que forma é que eles podem estar mais satisfeitos, ou podem estar, ou posso melhorar alguma situação, mas é completamente diferente. E isso nestes primeiros meses foi muito complicado.

14:07 Depois, o que é que eu senti? A partir de junho, quando as pessoas voltaram ao trabalho, as pessoas já estavam a entrar numa fase de conforto. Já estavam a perceber o conforto de trabalhar em casa, e de que, de facto, gastavam menos dinheiro, podiam comer sempre em casa, e isso fazia com que não gastassem dinheiro, não perdiam tempo em transportes públicos, podiam trabalhar de pijama, havia ali uma série de coisas que as pessoas começaram a valorizar e a partir do momento em que do dia para o outro, meus amigos, bora lá, vamos todos para o escritório a partir de agora, vamos estar separados, não sei o quê, com máscara, quem quiser, e já não havia, obviamente, aliás, era essa a ordem do governo, que era meus amigos, vamos voltar à vida como ela era e não sei o quê, lávem-se as mãos e não estejam muito próximos,os. E foi um bocadinho esse o espírito que nós tivemos na empresa.

14:48 As pessoas voltaram e eu senti que as pessoas agora estavam muito bem em casa e agora é que temos que voltar para aqui. Portanto, acho que depois houve essa habituação. Acho que nós somos bichos de hábitos, não é? E acho que sabemos adaptar-nos às situações mais adversas ou mais confortáveis e tendemos a encontrar o nosso conforto dentro de uma situação adquirida, numa situação que sabemos que vai ser a nossa.

15:11 As pessoas não podem dizer, não quer estar em teletrabalho? Não é uma opção, estás em teletrabalho e não há outra opção. Portanto, tu não vais estar a martirizar com isso todos os dias, tens é que aprender a adaptar-te e a ser feliz dentro dessa realidade que tu tens. Portanto, eu senti que, para mim e para a minha equipa, e dentro dos meus projetos, o teletrabalho e o trabalhar à distância e através do uso de novas ferramentas digitais e tudo mais, foi sempre oscilante, não foi uma coisa estanque, nem foi uma coisa progressiva, nem as pessoas foram ficando cada vez melhor, cada vez pior.

15:37 Eu acho que depende um bocadinho dos estados de espírito, que também são influenciados pela realidade do país e da doença, não é? E da pandemia. Portanto, isso vai tendo algumas pessoas, como agora, não é? Agora é normal, as pessoas estão muito mais assustadas, não é? Do que estavam em agosto, não é? E vêm os números e, de facto, é assustador, não é? E da mesma forma que agora, como os números já começam a cair, as pessoas também já começam a sentir um bocadinho mais aquela coisa de querer sair e de querer encontrar-se e de marcar jantares.

16:03 E eu acho que é normal. Depois que cabe-nos a nós decidir, pá, ainda não é o momento ou não vamos fazer isso agora ou o que é que seja. Portanto, é encontrar esses pontos de equilíbrio que nem sempre é fácil, mas que nos cabe a nós, os líderes dos projetos, e de tanto. E tu como operador privilegiado aqui do mundo digital sentes que isto vai abrir mais oportunidades?

16:23 Estás à espera de uma dinâmica positiva agora de crescimento nos teus projetos digitais, sentes que as pessoas podem sentir alguma fadiga e fugir um bocadinho deste campo. Eu vou-te contar, no nosso caso em particular no Jimboree nós tivemos que fazer um pivô para o online porque fazia todo o sentido, mas tu que já estavas nesse mundo, sentes mais ameaças porque houve realmente um fluxo de pessoas para o digital, achas que é uma questão de oportunidade, qual é a tua perspectiva, mais otimista, mais pessimista, mais neutra?

16:52 No curto prazo é relativamente otimista, ou seja, o facto das pessoas estarem confinadas para quem trabalha em digital é quase sempre uma vantagem, porque as pessoas estão mais predispostas para consumir conteúdos digitais e online, portanto, e nós tivemos um crescimento brutal da audiência, ou seja, o ano de 2020 foi o ano, de facto, de explosão da MAGG, e teve muito a ver com isso, com o facto de as pessoas estarem em grande parte do ano confinadas em casa a consumir muito mais conteúdos.

17:16 Nós conseguimos, aumentámos cinco vezes a nossa audiência em 2020, portanto, mesmo em termos de faturação, a faturação aumentou brutalmente, portanto, houve aqui uma série de vantagens que nos trouxe o facto das pessoas estarem confinadas. Portanto, na perspectiva do curto prazo, para mim é otimista e positiva. No longo prazo, ou no médio-longo prazo, não é assim tanto, porque eu acho que nós vamos pagar a fatura, não é? Ou seja, o peso que todas estas medidas representam para o Estado, vai ter que, essa fatura vai chegar, esse cheque vai chegar nos próximos anos, não é? E isso, provavelmente, se calhar vai nos levar a ter que pedir mais ajudas internacionais e isso vai ter reflexos necessários na economia e, portanto, preocupa-me na perspectiva do médio e longo prazo.

18:07 No curto prazo e olhando para mim e para a minha realidade e para os meus negócios, pá, tem sido bom. Ok. Ricardo, eu ia voltar um bocadinho atrás e já voltamos, se calhar, aqui à parte empreendedora, que é uma parte importante aqui também das minhas questões. Tu és um maratonista experiente, tens 16 maratonas no teu currículo, certo? Certo, 16 e uma ultra. E uma ultra, pronto. Nós falámos um bocadinho sobre isto em off há bocado e eu acho isto fascinante e ia-te fazer uma pergunta. O que é que achas que aprendeste com a corrida? O que é que significa para ti hoje em dia este tipo de desporto?

18:40 Que eu consideraria até um bocadinho um desporto radical porque, pronto, isto não é propriamente correr 5 km para a tua saúde, nada na maratona diz saúde. O que é que significa para ti correr a este nível? A maratona obrigou-me a uma disciplina, um espírito de sacrifício, uma capacidade de sofrimento, que eu consegui transportar para a vida real. que eu consegui transportar para a vida real. Ou seja, eu sinto mesmo isso, que uma pessoa que tem a capacidade de resiliência de uma maratona consegue muitas coisas na vida.

19:11 E isso é uma coisa engraçada porque, por exemplo, eu quando olho para os currículos das pessoas, eu procuro sempre nos micro-skills se as pessoas têm coisas desse género. Se são pessoas que praticam desporto, que desporto é que praticam? Pergunto muitas vezes isso nas entrevistas. Porque eu acho que isso é uma característica que aporta muito valor ao lado humano e necessariamente ao lado profissional. Portanto, quando só quem já correu uma maratona é que sabe o que é chegar ao quilómetro 37, não é?

19:40 E chegar ao quilómetro 37 implica... O muro que vai ali dos 30 aos 35, 36, 37, depende. O muro... Já apanhei o muro várias vezes, já fiz várias maratonas em que não apanhei o muro, portanto é ali aquela quebra, quando nós parece que levamos com uma marreta em cima e já não temos forças para nada. Mas chegar ali ao quilómetro 37 é em que nós olhamos para a frente e pensamos já só faltam 5, não é? 5 qualquer pessoa diria já só faltam 5 e nós pensamos ainda faltam 5 e começamos a pensar ok 5 quanto muito são para aí 22, 23 minutos a correr ainda o que para muitas vezes, para muitas pessoas é um treino normal, é quando as pessoas vão correr uma meia horinha. São 22 minutos à Benfica não é toda a gente que faz aquilo em 22 minutos, sim.

20:26 Portanto, é muito duro e só de facto com uma capacidade de sofrimento muito, muito grande é que nós conseguimos superar isso. E cada maratona para mim tem uma história diferente. Todas elas têm uma história. Eu lembro-me de cada uma. E há uma coisa que eu costumo recordar muitas vezes, que é, só houve uma das 16 maratonas que eu corri, só houve uma em que, quando eu cortei a meta, não tive vontade de chorar, ou não chorei mesmo e não me emocionei mesmo a sério, não é? E já corri 16, não é? E nós pensámos, ok, isto já não porque uma maratona, o que custa menos é correr aqueles 42 quilómetros. Eu cheguei a correr 1000 quilómetros para preparar uma maratona. Ou seja, o sair de casa, sair da cama às 5 da manhã para ir correr 25 quilómetros e depois voltar a tomar banho e trabalhar, é uma coisa que custa, não é? Fazer semanas em que tens que correr 85 km numa semana, não é?

21:26 E tens que fazer à segunda corres 17, à terça corres 12, à quarta corres 25, à quinta descansas, à sexta corres 14 e ao sábado vais correr 30, não é? Tudo isto implica um nível de sacrifício, de desgaste muito grande. Portanto, a preparação da maratona é uma coisa muito dura, muito séria, que não pode ser levada com nenhum tipo de leviandade. A prova em si, nós conseguimos tirar um prazer tremendo em vários momentos, mas quando aquilo chega ao fim, quando nós cortamos a meta e sentimos que, pá, consegui, e eu penso muitas vezes isto que é, qual é a percentagem de pessoas no mundo que conseguem fazer isto que eu acabei de fazer, não é? Sinto-me um privilegiado, sinto que, pá, consegui dar uso a faculdades que tenho, não é? Felizmente tenho saúde e uso essa saúde para o meu bem, não é?

22:16 E acho que as pessoas muitas vezes, e eu critico muito isso, pessoas que são absolutamente saudáveis e que não fazem desporto nenhum, que se impõem a elas próprias limitações parvas, inventam desculpas parvas, quando há tantas pessoas que gostavam de o fazer e não têm possibilidades. São pessoas doentes, são pessoas que têm algum problema físico, são pessoas que têm um problema de coração, são pessoas que têm um problema num joelho e que gostavam muito de o fazer e não podem.

22:39 E depois há pessoas que não têm problema nenhum e que não o fazem por opção. E eu faço, felizmente não tenho problemas, faço, cumpro e quando chega ao fim é o misto de uma descarga física, psicológica e emocional, sobretudo emocional também. Portanto, nós vamos com os nervos todos esfrangalhados, não é? Portanto, eu vejo, isto aconteceu, acho que foi na maratona de Barcelona, eu ia a correr, ia também no quilómetro 32, 33, ia muito, muito cansado, já não estava a tirar grande prazer da corrida, estava um bocadinho triste e olhei e vejo um cartaz de uma criança, pai, com 4 ou 5 anos, a dizer força papá, és o meu herói, não sei o quê.

23:20 E eu desato a chorar no meio da prova, por isso, não é? Porque é o estado emocional em que tu vais, em que o desgaste físico implica um desgaste emocional e tu estás completamente descompensado em tudo, não é? E quando cortas a meta é quase o descarregar de tudo isso naquele momento em que fez de facto com que sempre que isso me aconteceu, mesmo que a prova tenha corrido bem ou mal ou o que quer que seja há sempre essa descarga e só quem correu uma maratona é que sabe isso e é que sente isso Eu ia-te falar um bocadinho sobre isso há uma componente, eu argumentaria que qualquer pessoa poderia fazer uma maratona com mais treino ou menos treino, mais tempo, menos tempo mais gel, menos gel, mais um isotónico, mas nem toda a gente se calhar tem aquela capacidade de serrar o dente e dizer não, naturalmente que vou correr uma maratona e se for preciso corro-a já.

24:11 Consegues identificar quando é que esse momento aconteceu na tua vida? Quando é que tu sentiste eu consigo serrar o dente e eu consigo fazer isto acontecer? Sim. Foi há muito tempo? Eras novo? Foi mais tarde? Foi curiosamente na minha segunda maratona, ou seja, a primeira maratona eu corria num ambiente de trabalho. Foi um desafio que me foi lançado na altura quando eu era editor da revista Sábado e eu ia fazer a cobertura jornalística de uma pessoa que ia correr a sua centésima maratona.

24:35 E então acabei por fazer a reportagem em ambiente de corrida. Eu próprio fui correr com ela e foi a minha primeira maratona, foi assim, foi em trabalho. Portanto, essa, apesar de ter sido a primeira, para mim não conta tanto. E depois eu disse, não, eu tenho que correr uma maratona a sério, mesmo com uma prova oficial e tudo mais. E foi assim, na minha segunda maratona, que foi em 2013, eu corri a primeira em 2012, em 2013 eu decidi que ia correr a maratona de Lisboa, que era em setembro. E em julho nasceu o meu primeiro filho, o meu segundo filho, aliás, o Mateus, em julho de 2013.

25:10 E ele foi prematuro, teve alguns problemas, era aquela coisa, um bebê prematuro, nós temos que ter alguns cuidados especiais, ele era muito pequenino, era muito frágil, portanto, houve ali uma série de coisas que para nós foram complicadas e eu basicamente que tinha começado a preparação para a maratona um mês antes, interrompi a preparação portanto basicamente ele nasceu a 17 de julho, de 16 de julho e eu parei de treinar e o grupo de pessoas que estavam a treinar comigo continuaram, e basicamente eu ia assistindo pelas redes sociais às preparações deles, aos treinos e aos tempos e tudo mais. E eu chego ali, tipo, a agosto, se passa-se o agosto todo, eu não me mexi, não é? Portanto, eu não fiz mais nada. Não corri um quilómetro desde julho, quando o miúdo nasceu, até a final de agosto. E uma semana antes da maratona, a maratona era 23 ou não sei o que de setembro, e eu ia 16, 17 de setembro, disse pá, eu vou correr, pá, vou correr não quer saber, eu vou correr, eu consigo vou meter na cabeça que vou conseguir, pá, e eu vou conseguir pá, e assim foi, eu fui saí um dia para correr 10km e cheguei ali aos 8 e achei que já não aguentava mais, já estava no limite portanto eu estava a valer oito, dez quilómetros nessa altura, sem preparar durante essa semana corri sempre oito, dez, doze seis, oito, sempre de segunda a sábado, no sábado descansei e domingo fui para a maratona os meus amigos quando viram lá diziam que era doido, completamente maluco nunca na vida isto vai acontecer, e eu disse, pá, olha, eu vou ao meu ritmo, sem stress, mas vamos desafiar a mim próprio a ver o que é que eu consigo, o que é que eu valho nesta fase.

26:53 E assim foi, pá, e fui devagarinho, parti já sem ambição nenhuma, só com o objetivo de chegar ao fim, queria obviamente tentar não andar, não é, ir sempre a correr e nunca parar, pá, e assim fui, fui é, ir sempre a correr e nunca parar, e assim fui, fui ao meu ritmo tranquilo, até aos 30 quilómetros aguentei-me bem, a partir dos 30 fui num sofrimento atroz, atroz mesmo, e aí já era, já entrávamos mesmo no campo do sofrimento, mas sempre, pá, tu vais conseguir, tu não vais desistir, não vais desistir, tu não desistes das coisas, vamos embora, vais até o fim, vais, pá, tu vais conseguir tu não vais desistir, não vais desistir, tu não desistes das coisas vamos embora, vais até o fim e é uma guerra mental entre o corpo e a mente constante e a toda hora, pá, e acabei e cheguei ao fim e de facto foi um sentimento uma pessoa acaba aquilo e diz, pá, e fica ali tipo, pá a sério, não há palavras, só mesmo vivendo a situação é que a pessoa consegue Não compraste t-shirts para os teus filhos a dizer o meu pai Não, porque ele era pequenino, ainda era pequenino e o outro não liga nada a essas coisas, o outro era pequenino mas depois tive uma coisa mais ou menos parecida mas aí foi um desafio que eu me lancei a mim próprio, que foi se eu seria capaz de correr 3 maratonas seguidas oficiais em 15 dias e portanto eu sempre gostei assim de desafios, de cenas malucas.

28:06 E assim foi, eu tive 3 meses a preparar-me para a maratona de Berlim, porque queria bater o meu recorde. E sabia que estava em condições de bater o meu recorde. Estava ali muito focado naquilo. Fiz uma preparação perfeita, exatamente como eu queria fazer. Não falhei em nada, com tudo, ali tranquilo. Fiz a maratona de Berlim, fiz 3 horas e 17, que ainda hoje é o meu recorde.

28:28 E acabei, e na semana seguinte era a de Lisboa. E eu pensei, eu senti que na Maratona de Berlim, eu tive ali dois erros de estratégia, eu queria fazer abaixo das 3,15. E não o fiz por duas razões, por um erro de estratégia e por um erro de principiante básico que eu fui amartilhar durante tempos e tempos, que é nós nunca devemos ou seja, devemos sempre contar e quem corre sabe isto quando nós corremos uma prova de 10km, o nosso relógio quando chegamos ao fim não marca 10km, marca tipo 10km e 200m ou 10km e 400m porquê? Porque o percurso é traçado no seu percurso mais curto, ou seja, quando nós fazemos uma curva por dentro, se a fizermos por fora estamos a correr mais, isto numa? Isto numa maratona faz com que o desvio possa ser de um quilómetro, às vezes, ou 900 metros, 800 metros, o que implica 4, 5 minutos, não é? Ou seja, correr mais 900 metros implica 4 minutos e tal, não é? Portanto, e o que é que eu fui fazer? Eu fui na maratona de Berlim sempre a fazer as contas às 3 horas e 15, a calcular pelo relógio que estava a correr 42, 195.

29:28 Está perfeito, estou para as 3,15 no último quilómetro acelero um bocadinho e faço 3,14 e qualquer coisa. Sempre com isto. Eu chego ali ao quilómetro 38 começo a refazer as contas e a pensar isto não vai dar. Porquê? Porque eu estava a passar ao quilómetro 37 e o meu relógio marcava 37,600. Portanto, o 37 era muito lá para trás. Portanto, o desvio já era muito grande eu acabei com um desvio de quase um quilómetro e mesmo os meus dois últimos quilómetros foram, para quem corre sabe o que é que estas coisas significam, foi a 4.16 e 4.21, ou não sei o que, os dois últimos quilómetros da maratona, portanto eu estava mesmo muito em forma e acabei fortíssimo, e fiquei em martirizame imenso por aqueles dois minutos que eu perdi estupidamente. E depois senti que houve ali um erro de estratégia também. Porquê?

30:07 Porque corri a primeira metade, que é como se deve correr mais lenta do que a segunda. Portanto, fiz ali o split negativo, que é como se chama, correr a segunda parte mais rápida do que a primeira. Portanto, eu consegui fazer o split negativo, mas senti que na primeira fui demasiado lento. Eu achei que podia ter ido um bocadinho mais rápido. Então, o que é que eu fiz? Eu disse, não, próxima semana, Maratona de Lisboa, vou fazer uma coisa que é, vou fazer ao contrário.

30:26 Que é, pá, vou partir rápido e quando rebentar, rebentei e depois vou devagarinho até à meta e mesmo assim eu acho que vou fazer um resultado bom. Pá, e assim foi. Para teres uma ideia, eu cortei, eu passei à meia maratona com o meu recorde da meia maratona. Portanto, eu fiz, passei em uma hora e vinte e nove e qualquer coisa, não é? À meia maratona. Pá, e fiz os primeiros quilómetros. Eu ia a quatro zero quatro, quatro zero oito, quatro zero seis, quatro zero dois, quatro zero quatro, quatro zero oito, sempre, nos primeiros quilómetros da maratona.

30:50 E, portanto, fui muito, muito rápido. E cheguei ali aos vinte e cinco, comecei a sentir que estava a começar a quebrar ligeiramente, e depois comecei a pagar o facto de ter corrido uma maratona uma semana antes, da Berlim, também é um ritmo alto. Tu vais sempre a meter gel e isotónico? Não, eu tenho uma estratégia, normalmente, eu costumo pôr aos 12, aos 22, 23, aos 30 e aos 35. Normalmente tomo esses 4. Muitas vezes não tomo os 20, ou seja, tomo aos 12 e depois tomo só aos 25 e aos 32, ou 3 ou 4, não vou sempre a meter.

31:26 E nessa aconteceu-me isso. Ou seja, eu quebrei aos 30, quebrei completamente. Mas mesmo assim eu pensei, basta ires a 5. Se eu for a uma média de 5.00, para mim era lento naquela fase, e devagarinho, no registro tranquilo. Se eu for a 5.00, eu ia fazer 3 horas e 9. Portanto, eu ia mais do que tranquilo. Eu olhava para trás, eu não via o bandeirola, há sempre um bandeirola com os tempos nas maratonas, eu não via o bandeirola das 3 horas e 15. Portanto, ele nem estava à minha vista. Portanto, ia lá muito para trás.

31:54 Portanto, eu ia tranquilamente à frente para recorde, para ambiente recorde. E fui, a partir dos 30, eu olhava, ok, fiz 5.21, depois no outro a seguir 5.46, no outro 6.11. Mas a dar o meu máximo, eu ia a quebrar mesmo. Era como se um carro estivesse a perder a gasolina continuamente. Eu acabei tipo a 7.50 ou não sei o que, já nem sei. Ia de rastro, eu nem conseguia mexer, foi uma coisa horrível.

32:20 E mesmo assim, não bati o meu recorde de Berlim por 30 segundos numa maratona. Não satisfeito com isso, na semana seguinte fui correr a maratona de Munique. E aí fui tranquilo, não fui com nenhum objetivo, fui só para vais para acabar, vais a 5, 0, 0 acabas em 3 horas e meia e é assim, e fui. Meti a 5, 0, 0, fui sempre e eu olhava depois no fim, era 4, 59, 5, 0, 1, 5, 0, 0 4, 59, 5, 0, 1 e fui sempre no meu ritmo, passei um bocadinho nos últimos quilómetros, fiz 3 horas e 29 ou não sei o que mas cumpri as 3 maratonas em 15 dias.

32:46 Muito bem. Que outros hábitos de saúde é que tens? Tu consegues dormir com regularidade? Em termos de dieta tens alguma espécie de cuidados? Meditas? O que é que usas? Como é que é a tua rotina? Eu acredito que tenhas pensado um bocado sobre isto, sobre a tua saúde e deves ter encontrado se calhar aqui um sweet spot que usas. Podes falar um bocadinho sobre isso? Sim. Ou seja, eu fui, eu em 2017 tomei a decisão de, precisamente por três razões, por razões de saúde, por razões ambientais e por razões de defesa dos direitos dos animais, de fazer uma experiência vegana durante 30 dias. Ou seja, comecei em agosto, em julho, entre julho e agosto, e decidi que durante 30 dias não ia comer nada com proteína animal. E fiz uma alimentação 100% vegana durante 30 dias. E cheguei à conclusão de que aquilo fazia todo o sentido para mim e que aquilo era o caminho, não é? Enquanto numa lógica de responsabilidade social e ambiental, acho que todos nós temos que cumprir com o nosso papel para com o ambiente e com o mundo, e eu acho que estava a cumprir com isso, porque em termos de saúde me senti muito melhor, desapareceram completamente as alergias que eu tinha, senti-me mais desperto, senti que comecei a dormir bastante melhor, portanto para mim não fazia sentido voltar atrás, porque voltar atrás eu acho que este é o caminho.

34:01 E durante dois anos e meio eu fui 100% vegano. Portanto, não comi rigorosamente nada de proteína animal e isto até sensivelmente, foi até o confinamento, mais ou menos até março, abril deste ano eu fui 100% vegano. A partir daí comecei a abrir algumas exceções a coisas normalmente como sei lá, imaginem, uma festa de aniversário que era uma coisa que eu não fazia, e a uma festa de aniversário o bolo de anos leva ovos.

34:28 Pá, eu não comia de todo. Se leva ovos eu não como. E pronto, comecei a abrir esse tipo de exceções, não é? Ou seja, eu acho que não deixo de cumprir com o meu papel se houver estas exceções, ou sei lá, se vou comer uma pizza com os miúdos e pedi a pizza sem queijo e ela vem com queijo. Para estar a mandar a pizza para trás, o desperdício alimentar que isso significa, eu como a pizza com queijo não há de ser por isso, não é?

34:49 Este tipo de coisas pequenas, sei lá não cozinho carne nem peixe nem nada disso, portanto, eu neste momento até por uma questão de posicionamento nas redes sociais eu mudei de vegano para vegetariano precisamente por isso, porque já sei como é que as coisas são, há casos internacionais disso, pessoas que defendem e que são fanáticos de veganismo e não sei o quê, e depois são apanhados a comer farinha de churrasco e não sei o mais, e eu não quero, não quero que ninguém me diga, ah, tens lá que és vegano e estavas a comer uma pizza com queijo, pronto, para não haver este tipo de coisas eu mudei para vegetariano, portanto eu levo uma alimentação tendencialmente vegetariana, eu diria que 90% vegana e 10% têm este tipo de exceções e de coisas pequeninas de coisas que levam ovo, ou de coisas que levam leite ou de coisas, se há um chocolate que leve leite ou coisas desse género mas sou uma pessoa preocupada com a saúde, gosto imenso de ler sobre nutrição, sobre anatomia sobre o funcionamento do organismo dos intestinos adoroismo, dos intestinos adoro o tema dos intestinos e ler livros sobre o funcionamento dos intestinos microbioma essas coisas todas, portanto eu sou muito interessado nesse tipo de coisas, gosto de perceber o impacto que os alimentos têm no nosso corpo dos suplementos, dos macronutrientes dos micronutrientes, portanto tudo isso são coisas que me interessam bastante e que eu leio muito e depois de que forma é que isso impacta também o rendimento desportivo e a capacidade do treino. E uma coisa é certa, eu tenho 44 anos e sinto-me hoje muito melhor do que me sentia com 25, a todos os aspectos, fisicamente, acho que estou, sou hoje, tenho menos gordura, sou mais magro, tenho mais capacidade física, estou mais desperto, acho que melhorei em praticamente tudo quando era miúdo, e o que é que eu mudei radicalmente na minha vida foi a alimentação, e foi a postura e a preocupação para com a saúde.

36:35 Tu dormes quantas horas em média por noite, tens ideia disso? Eu tento não dormir pouco, porquê? Porque eu deito-me relativamente cedo. Não tenho nenhuma... Nunca fui apaixonado pela noite. Não gosto nada de bares, nem discotecas, nem gosto de ir jantar fora de vez em quando. Agora não dá, mas pronto, gosto de jantar fora. Mas para mim o jantar fora é, vais jantar às oito e meia e às onze acabou, não é?

36:55 Pronto, e estás em casa relativamente cedo. Porque também gosto de acordar cedo. E, portanto, para mim é importante acordar cedo. Gosto de começar a sentir-me útil durante o dia e fazer coisas, eu uso muito esta expressão, para querer fazer coisas. Eu, tipo, às vezes, ao sábado eu gostava mesmo de acordar às oito ou às sete e meia para fazer coisas. E para mim fazer coisas pode ser e posso ler um livro, não é? Portanto, não é é sentir-me, isso é melhor para mim do que estar a dormir, não é? Estar ali parado a dormir, para mim não faz muito sentido.

37:24 Eu não gosto muito de dormir, não valorizo nada o poder de dormir ou o que quer que seja. Deito-me relativamente cedo, não é... é por um lado porque eu acho que é importante o descanso e dar descanso ao organismo, sobretudo em alturas em que faço muito exercício, mas por outro é que estou genuinamente cansado e estou genuinamente de rastros e não aguento mais e pronto, ia a dormir. Ok. E tens alguma prática de meditação?

37:45 Como se a curiosidade... É engraçado que pergunte-se isto, porque eu a semana passada comecei uma sugestão de uma amiga minha que me sugeriu que eu começasse a fazer algumas aulas de meditação online, que existem agora, que era uma coisa que eu nunca tinha feito e que gostava muito de experimentar. E comecei a fazer. Portanto, não tenho ainda uma experiência, não consigo falar com conhecimento, ainda não consegui perceber exatamente que impacto é que isso vai ter na minha vida, porque é uma coisa muito recente, é uma coisa que tem uma semana, não é?

38:19 Portanto acredito que estou a gostar, consigo perceber o impacto imediato que aquilo tem na estabilização emocional do corpo e do desligar das coisas, mas também apanhou uma semana em que eu estive basicamente sozinho com os meus filhos, em que as aulas eram às oito e meia, online, às oito e meia, e há muitas vezes eles já estavam acordados. Portanto, tu estás a meditar com uma criança de dois anos e um puto de sete aos berros e o outro de 14 e que já consegueste as aulas mandar, não é?

38:48 Ou seja, é contra a natura do que é a meditação e do que deve ser a meditação, que obriga de facto a um silêncio, a uma introspecção que eu não consegui ter nesta semana em que estive com os miúdos. Agora, nesta segunda semana, vou tentar fazer isso já num ambiente mais silencioso e mais virado para mim e para o inner self, não é? Portanto, vamos lá ver como é que vai correr.

39:09 Se eu puder recomendar alguma coisa, recomendaria que fizesses logo a seguir a acordar, quando ainda estás grog do sono, porque é mais fácil realmente silenciar os pensamentos e eu acho que esse é um dos objetivos mais interessantes, é encontrares aquele silêncio, ou melhor, calares um pouco aquele ruído da nossa cabeça que está sempre a questionar a perguntar coisas a ruminar temas, às vezes maus e criar expectativas, quando estamos com sono isso não acontece tanto e é muito recompensador termos acesso àquele silêncio e podemos observá-lo, que eu acho que é um dos grandes benefícios da meditação Ricardo, eu há bocado, precisamente durante a minha corrida, ouvi um podcast teu, longo, de um canal que se chama Onde, Quando e Como Eu Quiser, em que tu falas mais ou menos uma hora e vinte sobre uma série de coisas, e falas muito bem, e eu queria fazer aqui uma pausa e recomendar a quem nos estiver a ouvir, agora e no futuro, para ver esse podcast, porque é um tratado sobre comunicação digital, sobre educação, um bocadinho sobre jornalismo, sobre empreendedorismo também e, portanto, respondeste a imensas coisas que eu teria que perguntar e que estão lá muito bem escritas ainda por cima, ninguém te interrompeu, portanto, estava estava ótimo.

40:20 Mas sobre o jornalismo, eu acho que estás numa posição particularmente relevante ou favorável para responder a isto. Sentes que neste momento existe um viés ideológico dos jornalistas mais tendencial para um lado do que para o outro? Sentes que há aqui um desequilíbrio? E eu sei que tu tiveste um percurso próprio na tua ideologia, mas tu também és um publisher agora e tu tens o privilégio de poder escolher quem é que escreve para ti ou não escreve. Isso é uma coisa que pesa na tua decisão, como é que tu vês este fenómeno? aconteceu em 2007, 2008. Na altura eu era diretor adjunto 24 horas e apareceu-nos um estagiário que era um miúdo super competente, com uma capacidade intelectual, um nível de conhecimento, de memória, sobre coisas que não eram de todo o tempo dele. Era um miúdo muito, muito acima da média. E até que num momento qualquer, já não me lembro exatamente porquê, eu e o diretor soubemos que ele tinha uma ideologia próxima da extrema-direita arruçar ali o nazismo e levantou-se essa questão que foi, nós vamos ter na nossa equipa uma pessoa que pensa assim, uma pessoa que faz este tipo de coisas e isto deu uma discussão interessante, não é? Ficámos ali sem saber o que dizer, porque, por um lado, nunca, em ambiente de trabalho, isso tinha sido manifestado, nunca.

41:51 Nós só vemos isto por outra, já não lembro exatamente como nem porquê, mas não tinha nada a ver com o comportamento dele, enquanto pessoa, no jornal. Não tinha, rigorosamente, nenhum impacto sobre aquilo que ele escrevia, porque, ainda por cima, eu acho que ele estava na secção de desporto. Portanto, nem sequer era, não tinha nenhuma relevância para isso. E optámos por deixá-lo estar e ali ficou. Provavelmente, eu hoje teria tomado a mesma decisão perante as mesmas circunstâncias, mas não acho que... acho que há limites, acho que há coisas que nós, enquanto publishers, devemos ter obrigação. Eu não sou muito… eu sou muito mais a favor da corrente americana de jornalismo do que da corrente francesa, por exemplo, e eu acho que deve haver um...

42:45 Os jornais não podem nem devem ser aquilo que as pessoas muitas vezes acham que é, que são 100% isentos em relação a tudo. Eu acho que não. O nosso trabalho não é apenas expor os factos e as pessoas que pensam o que quiserem. E há muita gente que pensa isso. Eu acho que não. Eu acho que os jornalistas têm o dever e a obrigação de interpretar esses factos, não é interpretar à luz da ideologia de cada um, é interpretar factos que são evidentes e que são lógicos, não é? Coisas que são óbvias, não é? Não é? E isso eu acho que é um bocadinho o nosso papel. A questão agora, por exemplo, do Chega e do crescimento do Chega, eu na MAGG, eu nunca tomo uma decisão autoritária em relação a nada. Eu tento sempre ouvir a opinião das várias pessoas com um poder de decisão sobre os assuntos e tomamos sempre as decisões de forma democrática, sempre.

43:44 E quem trabalha comigo sabe que é assim e qualquer pessoa que ache o contrário ou que diga o contrário está a mentir. Mas em situações desse género eu sou sempre a favor de que se nós pudermos dar o menos palco possível a esse tipo de pessoas, que é a decisão mais correta, não é? Muito mais do que estarmos a fazer crónicas a insultá-los, crónicas a mostrar que somos superiormente intelectualmente superiores a esse tipo de pessoas porque eles são os idiotas por pensarem assim nós é que somos pessoas sensatas porque não pensamos assim eu acho que não, eu acho que é só não lhes dar muito palco, é só falar o menos possível, portanto eu acho que quanto, e foi uma estratégia um tiro completamente ao lado de toda a esquerda nestas presidenciais, foi isso, foi virarem a sua campanha para um ataque a André Ventura, que sobrenunciou a André Ventura, não é?

44:31 E a Onamag tenta que haja esse bom senso por parte das pessoas, que é, estamos a falar de um partido que tem uma pessoa na Assembleia da República, não é? Portanto, a representatividade que ela tinha era praticamente nenhuma, sendo que o público que ela impacta muitas vezes é um público condicionado, é um público limitado, não é? São pessoas que não têm, obviamente, a capacidade de discernimento que têm pessoas mais normais, vá, chamando-lhe assim.

45:00 E, portanto, eu acho que, eu defendo isso que é, não os devemos calar, nem devemos proibir, mas devemos tentar dar o menos palco possível e dar a importância que eles têm, que é praticamente nenhuma, e que contrariam os tais limites básicos e essenciais da democracia e do civismo e do humanismo. Mas, Ricardo, antes do André Ventura e do Chega, que é um fenómeno relativamente recente, já havia um viés, quer dizer, eu não sei, eu teria, eu desafiava-te aqui a pensar um bocadinho sobre isto, achas que a formação dos jornalistas tem um viés ideológico neste momento ao nível das universidades, porque sente-se realmente um pendor um bocadinho mais para a esquerda, é óbvio que não é universal, e temos muitos jornalistas de qualidade à esquerda e à direita, mas começa-se a notar um bocadinho, portanto mesmo antes do André Ventura, nota-se há realmente às vezes uma tentativa de projetar não só a ideologia como uma moral superior como uma crítica comum que eu acho que acaba por estramar um bocadinho as posições e entrecheirar as pessoas nos extremos e eu acho que aí é um perigo o que a gente espera de um jornalista é uma profissão que eu respeito imenso e tenho jornalistas muito próximos era realmente um bocadinho de imparcialidade e aquela capacidade de ir buscar informação relevante para as pessoas decidirem mas às vezes não vemos isso e eu gostava de ouvir um bocadinho o teu pensamento porque estás muito mais dentro do que eu Historicamente e da minha experiência as redações sempre foram muito mais de esquerda, muito mais.

46:30 Eu, quando comecei a trabalhar, havia ainda muita gente que veio da geração do Diário de Lisboa, do Diário Popular, apanhei muita gente assim, pessoas do Partido Comunista, havia o peso do sindicato dentro dos jornais, era muito forte, as pessoas que eram sindicalizadas e o Conselho de Redação tinha uma força, coisas que hoje são completamente diferentes. Essa realidade, eu acho que desapareceu um bocadinho ali no final dos anos 90, que foi quando eu sentia muito isso, e depois foi esbatendo durante o início dos anos 2000 e hoje em dia sente-se muito pouco.

47:05 No entanto, continuo a achar que os jornalistas são muito mais de esquerda do que são de direita, por experiência própria, não estou a falar de experiências das várias redações por onde eu passei. Inclusive, já passei pela redação do Observador, que é um jornal tido como jornal de direita, e onde a maior parte das pessoas que trabalham no Observador não são pessoas de direita, não é? É um jornal que, e estão lá muitos amigos meus e pessoas que fazem, e alguns dos melhores jornalistas com quem eu já trabalhei até hoje, que estão hoje no Observador, que não são pessoas de direita, e são pessoas com consciência política, não é?

47:38 Mas que não tendem a fazer nada para beneficiar a direita e prejudicar a esquerda, rigorosamente nada, fazem um jornalismo isento e normal, eativo e surpreendente e se tiverem que bater à direita batem à direita, se tiverem que bater à esquerda batem à esquerda. O que marca o tom de direita do observador é a opinião, obviamente, não é? E foi para isso que o jornal também, é também esse o posicionamento que o jornal tem, é o jornal posicionado, não pelo conteúdo jornalístico, mas pelo conteúdo da sua opinião. E as pessoas não conseguem discernir muitas vezes isso, porquê? Porque aquilo que chega nas redes sociais é um texto do observador. E as pessoas que não são jornalistas sabem lá se aquilo é opinião, se aquilo é má notícia. Aquilo é um texto do observador a dizer bem de qualquer coisa da direita, pronto. Estes caras são todos direitos. Portanto, eu diria isso, eu acho que tendencialmente as redações e os jornalistas são mais de esquerda, são mais sensíveis aos temas da esquerda, sim, mas muitas vezes também têm orientação editorial acima deles que equilibram um bocadinho as coisas. ao contrário de muitos, por exemplo, aqui ao lado ou nos Estados Unidos ou em França ou em tudo mais que são a Inglaterra é outro dos grandes exemplos em que os jornais são completamente orientados cá não há isso, cá há jornais tendencialmente mais próximos de um partido ou de uma ideologia mas é tendencialmente, não soube marcadamente como existe noutros países E sentes que os algoritmos neste momento estão a estramar um bocadinho as posições, ainda mais porque, pronto, uma amiga qualquer sugere um artigo da MAGG, eu leio o artigo da MAGG, obviamente que o Facebook aprende que eu tenho preferência por este canal e começa a me oferecer repetidamente conteúdos vossos. E dêem aspas para o Observador, para outros canais, mas pronto, o que eu sinto é que depois de muitas iterações as pessoas acabam por receber no seu feed o que já gostam e deixam de receber o que não gostam e depois acabam por ter, lá está, um viés, todo o seu input é enviesado e portanto depois é muito difícil ver e basicamente é quase como nasceres com um filtro azul à tua frente, tu nunca viste o filtro entrar e portanto há de alguém que te diga que aquele sol não é azul, não é? Portanto não tens outra forma. Como é que tu vês este fenómeno?

49:50 Vejo com grande preocupação porque não tanto por o Facebook me mostrar aquilo que acha que eu gosto mas por não me mostrar aquilo que acha que eu não gosto porque eu gosto de muita coisa e o Facebook não tem o direito de me mostrar só ou de me reduzir àquilo. E eu acho que é isso que acontece. Isto acontece em termos de digital. É muito preocupante. Eu tive, e vamos passando isto até do jornalismo para outras fronteiras culturais.

50:22 Eu dou um exemplo que é, eu, por exemplo, há seis meses mais ou menos comecei uma epopeia com o meu filho mais velho, tem 14 anos, que foi mostrar-lhe os meus clássicos do cinema. Os filmes que me apaixonam. E aí, lá está, vai do Casablanca ou Top Gun, não é? Portanto, é desde a cultura pop urbana até os clássicos do cinema, que eu acho que ele tem que ver, dos Condados de Shoshenko, o Pulp Fiction, o Padrinho, o Once Upon a Time in America, portanto, todos aqueles filmes que de alguma forma me marcaram, eu vou começar a mostrar-lhes. Felizmente, eu tenho uma coleção muito grande e rica em DVD, da qual não me desfiz, e eu consigo mostrar-lhe isto.

50:57 O que é que está a acontecer nesta nova geração? Que é se pais de miúdos desta nova geração não têm a possibilidade de lhes mostrar isto, esses miúdos nunca vão ter acesso porquê? Porque nós não vamos encontrar no Citizen Kane na HBO, nem na Netflix, nem nada porquê? Porque não dá retorno não está lá, e se não está lá hoje em dia as pessoas já nem sequer têm um leitor em casa para ver um DVD, não é? Portanto como é que estas novas gerações vão ver estes filmes?

51:20 Como é que vão ter acesso a estas coisas culturais? Quem diz isto, diz sei lá, vou dar um exemplo há dias estava a fazer uma playlist do Spotify e quis criar a minha de saudosismo de música portuguesa. Eu adoro música portuguesa. Eu ouço muito da música portuguesa. Eles têm, o Spotify tem, sei lá, sete canções do Zeca Afonso. Com a discografia que ele tem. Eu tinha os LPs em vinil, que entretanto não sei onde é que estão e perdi-os e desapareceram, mas eu tinha a coleção praticamente toda do Zeca Afonso em vinil.

51:48 E hoje em dia, eu não sei como chegar, eu não tenho como ouvir. Não tenho como ouvir. Como é que eu vou ouvir esses discos? Onde é que eu vou buscar os discos? Não sei. E isto reflete-se do ponto de vista cultural e é um gap muito grande que o digital tem. Ou se vai para uma situação em que tu podes pagar um plus, se calhar, em vez de pagares 7,99, Netflix pagas 12,99 e eles inserem uma série de títulos não comerciais, que são coisas desse género, não é?

52:13 Que eles podem adquirir direitos e podem, ou se vai para um caminho deste género, que ainda existe, diz no Spotify, em relação a outros temas, ou então, eu acho que vamos estar mesmo a pagar uma grande parte da nossa história cultural e a limitar o acesso a essa mesma história cultural a muitos miúdos, que eram coisas que, sei lá, eu quando era miúdo, muitos desses filmes, o Citizen Kane, os grandes clássicos, Casa Blanca, o Citizen Kane, eu vi-os praticamente sempre em cinema.

52:38 Porque havia reposições históricas e coisas que eu ia ver, mas depois, lá está, mas depois saíram em DVD e eu comprei-os. Hoje em dia já não há essa segunda hipótese. Provavelmente eles ainda podem continuar a vê-los se houver um ciclo especial de cinema em algum momento. Agora, se não houver, temo que seja muito difícil eles terem acesso a essas coisas. Claro. Então, ainda aqui neste tema da educação dos teus filhos, tu consegues identificar os pilares onde assenta a educação dos teus filhos? Tu sistematizaste isso? Quais são as coisas importantes para ti?

53:05 O que é que tu gostavas de assegurar na educação deles? Para mim há uma coisa que está acima de tudo o resto, que é o humanismo. Ou seja, eu quero criar boas pessoas. Eu quero que os meus filhos sejam genuinamente bons cidadãos, boas pessoas, que tenham valores básicos e essenciais para a sociedade. Tendo essa base, eles podem ser o que eles quiserem. O que eles quiserem. Para mim, o meu trabalho, em grande parte, vai estar feito.

53:30 Porque eu acho que eles, sendo boas pessoas, eles vão aportar algum tipo de valor à sociedade, nem que seja um valor humano. Eles não precisam de ser o melhor médico, o melhor advogado, porque também não acho que seja isso que os vai trazer o máximo de felicidade. Eu acho que eles vão ser aquilo que quiserem ser, aquilo que se proporcionar que venham a ser. Nunca irei orientar as escolhas profissionais deles neste sentido ou naquele.

53:50 Vou estar, obviamente, e estou atento àquilo que são os gostos deles, àquilo que possam ser talentos, que eles possam manifestar em algumas áreas. E vou tentar dar-lhes força nessas áreas e fazer com que eles sigam isso e que desenvolvam por eles e que sejam curiosos, que é uma coisa que eu acho que é muito do papel dos pais, é estimular a criatividade e a curiosidade das crianças, não é? Porque as pessoas curiosas são quase sempre pessoas inteligentes, não é? São sempre pessoas que vão à procura de saber um bocadinho mais sobre qualquer coisa. Eu gosto muito disso. Portanto, para mim, isso está acima de tudo o resto, não é? Eu escrevi uma vez um texto no meu blog sobre isso, acho que foi um dos textos mais lidos de sempre do meu blog, cujo título era mesmo este, eu não quero criar géneros, eu quero criar boas pessoas, ou não quero que os meus filhos sejam alunos geniais, quero que eles sejam boas pessoas.

54:34 Eu nunca fui um aluno genial, eu era aquele aluno que tinha quatro disciplinas que eu gostava, tipo português, francês, inglês, história e geografia, depois tinha três, a física, a química e a matemática, eu nunca fui um aluno brilhante. Fui sempre um aluno mediano a querer jogar a bola e que não me chateassem a cabeça. E isso não fez de mim uma pessoa sem sucesso profissional na vida, ou quer que seja.

54:54 Fui-me adaptando eu próprio quando escolho um estagiário. Eu quero saber a média com que ele se licenciou. Ou se vende a nova, ou se vende o aula, ou o que é que sei. É bem diferente. Não olho mesmo para isso. Olho muitas vezes mais para os micro skills. Olho para... Valorizo muito a entrevista pessoal. Faço imensas perguntas sobre que filmes é que eles gostam de ver. Porque eu acho que isso consegue-se extrair um bocadinho da dimensão humana que as pessoas têm.

55:15 Depois o resto eles aprendem. Sejam da all com 17, sejam da nova com 12 ou... Acho que é um bocadinho essa postura que eu tenho com eles. Da mesma forma que tenho com os meus filhos. Eu acho que tento passar-lhes muitas coisas também pelo exemplo e eles verem o pai que o pai em casa é 100% autónomo, é o pai que lhes dá banho, que lhes faz o almoço, que faz o jantar que lhes vai deitar, que lê a história que muda as fraldas, que vai pôr o lixo que constrói os móveis, que faz os buracos na parede e que trabalha em casa o dia todo e que se levanta de manhã e vai correr.

55:47 Portanto, eu acho, eu gosto que eles vejam, que olhem para mim como um exemplo, porque eu acredito que isso lhes vai ficar para a vida, não é? E acho que isso os vai marcar de alguma forma, e eles viverem com essas referências. E tento cultivar muito isso, a honestidade, o serem bons cidadãos, que sejam amigos das pessoas, que sejam bem educados, pronto, esse tipo de coisas são as coisas que eu valorizo muito mais, não sou nada obcecado com o estudo e com e tens que ter cinco a tudo, e pá, não, os meus pais não eram assim comigo, eu também não sou assim, claro. Claro, e tu sentes que esses teus valores estão alinhados com o valor da mãe deles, é uma coisa que vocês têm que debater entre vocês, eu tenho um amigo que se eu lhe perguntasse esta pergunta ele responderia exatamente como tu, quer que sejam boas pessoas quer que sejam curiosos, a mulher dele quer que eles tenham boas notas e que saibam matemática e que saibam português e que saibam, pronto é fácil para vocês descarem um consenso?

56:41 É relativamente, porque se há coisas que para ela são importantes ou relevantes, eu digo-lhe, e nisso é mesmo assim que é, ok, então põe em prática, põe em prática, atua, age, faz, não vou dizer, nunca irei dizer se ela diz, ah, eu acho que é importante eles terem uma cultura musical, então escreve no violino, na viola ou no piano, o que quer que seja, escreve, eu não vou dizer que não, é, pá, não quer que o meu filho vá para o piano pá, não, se tu achas que isso é importante força, põe na prática, agora isso implica, tens que o ir levar ao piano à terça e à quinta às seis e um quarto, e tens que o ir buscar a não sei o quê pá, tens vida para isto, consegues vais sacrificar e vais fazer isso, pá porque eu já faço algumas coisas, pá, e posso assumir algumas das responsabilidades e distribuirmos esse tipo de responsabilidades não quer dizer que não, a partir disso foi uma ideia tua agora és tu que faz isso, pá, e posso assumir algumas das responsabilidades e distribuirmos esse tipo de responsabilidades, não quer dizer que não, a partir disso foi uma ideia tua, agora és tu que faz isso, pá, não, é preciso é vermos se dentro da nossa vida temos capacidade de fazer com que essas coisas vão para a frente e depois tentar que essas coisas também façam sentido na vida dos miúdos, não é? Tu teres um miúdo que anda na viola e que para ele é o maior sacrifício da vida dele é andar na viola, pá que sentido é que isto faz? E que o miúdo não tem jeito nenhum para a viola, e eu conheço muitos casos assim pais que têm os putos só porque é giro estarem em determinadas atividades e os miúdos odeiam aquilo eu odiaria que me fizessem isso enquanto criança, e eu sempre gostei de ir fazer coisas que eu queria ir fazer às vezes podia fazer, às vezes não podia mas pronto, mas tento sempre que os miúdos me puxem para aquilo que eles gostam de fazer, sei lá, o meu filho de 7 anos, o Mateus, anda no Karaté foi ele que quis ir para o Karaté, e falava imenso do Karaté, pronto, lá foi para o Karaté, pronto, e agora está no Karaté e anda no Karaté na escola inscrevi-o no futsal e ele andou 2 anos no futsal e às tantas, não só eu percebia que ele não adorava aquilo, como ele depois também começou a dizer que era uma seca, e agora tipo então não vais para o futsal, não queres que tu andes no futsal só porque eu quero que tu andes no futsal. Desde que tu gostes, ah, tem que haver alguns limites, não é? Portanto, os mídios não podem fazer só aquilo que gostam, não é? Só aquilo que querem, senão só comiam chocolates e só jogavam PlayStation, não é? Portanto, é preciso obviamente ter algum tipo de orientação, mas coisas desse género, acho que não.

58:44 É preciso, obviamente, ter algum tipo de orientação, mas coisas desse género, acho que não. Ok. Olha, sobre o empreendedorismo, como é que isso começou na tua vida? E tu tens uma série de projetos, até gostava que falasses sobre eles. Um dos teus projetos mais recentes é o Pips Bazaar, que é um e-commerce que eu percebi que já tem alguma escala e possivelmente ganhará ainda maior. Mas no meio disto tudo, quão importante é para ti esse projeto?

59:04 Há outros que tenhas acima desse? Imagino que sejam muitas coisas. Podias escolher algumas e dar-nos aqui alguns exemplos e se calhar também servir de inspiração para estes pais que estão agora em casa e que se calhar estão com vontade de empreender. Sim. O imperadorismo nasce um bocadinho de uma... Nasce dentro de um grande grupo. Na altura eu era editor da Sábado, em 2014, 2013, e foi quando o Anem com o Mateus nasceu e eu tirei eu a licença de paternidade e fiquei os cinco meses em casa e durante esses cinco meses eu, na altura, eu era editor do Supimento de Cultura e de Lifestyle da Sábado, que é o GPS, que ainda hoje existe, e que foi criado por mim em 2011 e, basicamente, eu achei que em 2013, dois anos depois de ter lançado o suplemento, estava na hora de nós virarmos completamente as agulhas para o digital. Porquê? Porque eu analisando aqui o mercado da área do Lifestyle em digital, percebi que havia ali uma lacuna gigante, ou seja, havia um grande player de Lifestyle em Portugal, que era a Time Out, que era focada em Lisboa, e só havia a Time Out de Lisboa na altura, não havia sequer o Porto, e não tinha site. Time Out nem site tinha, não é? E eu achei, pá, temos aqui uma oportunidade. Nós temos que ser nós a ocupar este espaço e criar aqui a maior plataforma de digital lifestyle em Portugal.

1:00:21 E montei o projeto todo durante a minha licença de paternidade. Portanto, em 2013, entre setembro e dezembro. Quando em dezembro voltei ao trabalho, entre julho e setembro, peço desculpa. Quando em setembro voltei ao trabalho, o diretor da Sábado com quem eu tinha iniciado o trabalho do projeto, a quem eu apresentei a ideia e disse pá, força, desenvolve lá isso, vamos embora, tinha saído, o Miguel Pinheiro, hoje diretor do Observador.

1:00:43 Ele tinha saído da Sábado e, basicamente, eu senti-me na obrigação de apresentar à nova direção o projeto que tinha montado, estava todo montado, com a estrutura de custos, com o tipo de trabalho que íamos fazer, como é que ia ser o projeto, o foco, tudo isso estava tudo desenhado e tudo pronto a implementar. E a reação que tive foi, ah, logo se vê. E, opá, isto é, ou avançamos nós ou alguém vai avançar nós. De facto é tão evidente que é preciso uma plataforma deste género que alguém vai criar. Portanto, eu acho que temos que ser nós. E basicamente andei ali em, numa guerra de alguns meses com a direcção da Sábado, com a nova direcção, que basicamente não ligava nenhuma a este projeto e não queria implementá-lo e eu queria muito criar isto dentro da cofina porque achei de facto que era uma oportunidade muito grande.

1:01:30 E depois há um momento na vida, eu acho que quase todas as pessoas devem passar por isto, ou muitas pessoas devem passar por isto em algum momento e que curiosamente tive uma inspiração numa série, que foi uma série chamada Fargo, para quem não conhece é uma série fabulosa. Na primeira temporada do Fargo há uma cena em que uma das personagens desce a uma cave e onde está um corpo, já não me lembro exatamente do detalhe, mas ele desce a uma cave e nessa cave há um cartaz que está colado na parede, onde estão vários peixes a nadar numa direção e há um peixe sozinho a nadar noutra direção.

1:02:03 E a única frase que diz nesse cartaz é What if you're right and they are wrong? E eu pensei exatamente isto. Eu estava a ver a série e apareceu-me aquele cartaz à frente e eu pensei é isto. Eu acho que eles estão todos errados. Eu estou um bocadinho cansado de estar, de ter, na altura eu tinha 36 ou 37 anos e tenho pessoas que estão acima de mim que têm 40 ou têm, se calhar, tanta experiência como eu e que me estão a dizer o que é que eu tenho que fazer e o que é que eu não tenho que fazer.

1:02:31 E eu disse, pá, eu honestamente sinto-me com mais capacidade do que essas pessoas. Eu acho que essas pessoas estão erradas, acho que elas estão a tomar uma decisão absolutamente errada. E aí eu decidi, vou eu fazer. Pá, vou eu fazer. Eles não querem fazer, vou eu fazer. E basicamente comecei à procura de um investidor. Arranjei um contacto, que me pôs em contacto com um potencial investidor. Eu apresentei-lhe o projeto.

1:02:51 E nessa mesma reunião ele disse, ok, vamos avançar. Quanto dinheiro é que tu precisas? E eu, olha, lá fiz as contas e não sei o quê. Avancei. E pronto, ele disse-me, bora, vamos criar. E criei a NIT. E a NIT nasce assim. É este o início do projeto, acabei depois por levar comigo o editor de sociedade da Sábado, a editora do site da Sábado, mais os estagiários decentes que nós tínhamos lá na Sábado, e basicamente éramos cinco ou seis no início e criámos a NIT assim, portanto nasce dentro da Sábado, com pessoas todas que saem da Sábado para criar o projeto.

1:03:22 com pessoas todas que saem de sábado para criar o projeto. E foi assim que começou a minha fase de empreendedorismo, com grandes, grandes, grandes dificuldades no início, não é? Portanto, não havia dinheiro para nada, uma estrutura de custos que, não sendo muito elevada, era elevada, o desconhecimento absoluto que eu tinha na área empresarial. Houve aqui uma série de coisas e não é tudo um mar de rosas, isto não é de que criamos um projeto, isto agora é tudo.

1:03:50 O projeto demorou dois anos até maturar do ponto de vista financeiro, portanto foi, obrigou um investimento inicial que somado, não é, avultado, portanto, mas hoje em dia é um projeto altamente rentável, líder de mercado, absolutamente sustentado e, para mim, apesar de eu já ter vendido o projeto desde 2017, que me dá, obviamente, um gozo enorme, não é? Ter criado e ter fundado e ter tido a ideia desde o nome até montar o projeto inicial e as bases daquilo que é hoje a NIT foram pensadas por mim, portanto, isso dá-me, obviamente, um grande orgulho e desejo que a NIT tenha sempre o máximo de sucesso porque o sucesso da NIT é o meu sucesso, não é?

1:04:26 Portanto, para mim será sempre isso. Isto foi o primeiro e foi assim que começou um bocadinho tudo. A Pips Bazaar foi o projeto mais recente que nasceu no confinamento. Basicamente nasce de uma ideia que na altura eu trabalhei, eu estava a trabalhar em casa e a minha mulher na altura no trabalhei, eu estava a trabalhar em casa e a minha mulher na altura no Instagram dela, por iniciativa dela, promovia uma marca portuguesa todos os dias, ou seja, ela fazia um post só sobre uma marca, mostrava produtos que essa marca vendia, roupas de criança, roupas de moda, coisas de moda e não sei o quê, e o feedback que nós tínhamos de todas as marcas era, pá, agradecer-lhe, tipo, Ana, tu salvaste-nos o confinamento, vendemos não sei quanto à conta do teu post, pá, isto foi a melhor coisa que nos aconteceu e não sei o que mais.

1:05:10 E, basicamente, o que é que eu achei? Achei que era possível criarmos uma plataforma tecnológica de e-commerce em que, em vez dela comunicar uma vez aquela marca e nunca mais voltar a falar dela, encontrarmos um modelo de negócio que fosse vantajoso para as marcas, em que as marcas, por um valor muito, muito, muito abaixo daquilo que é um post patrocinado no Instagram da Pipoca Mais Doce, muito abaixo disso, conseguissem ter uma comunicação continuada ao longo do ano e ao longo da duração de um contrato e que não falasse apenas uma vez. E, com isso, ela cumprindo com essas contrapartidas e as marcas pagando um FII mensal muito baixo, nós conseguimos ter uma plataforma de exposição de marcas portuguesas e de pequenas marcas portuguesas, que as ia ajudar imenso. E a subsistir, e muitas marcas que nem sequer site tinham e podiam passar a ter a Pips Bazaar como o seu site e o seu ponto de venda de produtos e tudo mais. Portanto, foi um projeto que nasceu com uma ambição muito grande e com uma ambição de ajudar as marcas portuguesas e foi quase como que um projeto pensado com margens muito curtas para nós e que nos dava bastante trabalho, mas para ajudar a economia e para ajudar os pequenos negócios, as pessoas que mereciam e tudo mais.

1:06:22 Isto foi aquilo que nós pensámos e foi aquilo que nós quisemos criar. Depois levámos com a marreta da realidade, não é? Portanto, que é os problemas técnicos de lançar um e-commerce, os sistemas de integração entre a transportadora, o armazém, o sistema de faturação, o site, portanto, tudo isso é, eu nunca tinha lançado um e-commerce, não é? Portanto, foi um processo muito, muito, muito duro, muito, muito, muito caro para nós também, ou seja, obrigou-nos aqui um investimento brutal para conseguirmos meter a plataforma online e conseguimos, só o conseguimos fazer ainda com a plataforma do ponto de vista tecnológico de alguma forma deficitária no final de dezembro.

1:07:01 Ou seja, perdemos o Natal, perdemos o Black Friday, que eram momentos de vendas muito importantes para nós, e isto obviamente junto das nossas marcas parceiras gerou aqui um nível de insatisfação muito grande, não é? Que levou a que a nossa relação com as próprias marcas fosse de alguma tensão, que era completamente o contrário daquilo que estava previsto inicial e daquilo para qual a plataforma nasceu. Mas, uma coisa é haver uma relação de retenção e uma relação de...

1:07:32 Em que ambas as partes percebam as dificuldades que é lançar um negócio deste género, que é feito para as ajudar a elas, para ajudar as marcas, sempre com esse objetivo de fundo. Para nós havia só uma premissa base, que é, nós precisávamos, obviamente, que as marcas pagassem o FII mensal, porque esse FII mensal cobria a nossa estrutura de custos, e nós não estávamos a criar um projeto para ajudar as marcas e a perder dinheiro, nós não queríamos apenas não perder dinheiro, obviamente, com o projeto, e depois ganhávamos dinheiro na margem, que era muito curta também, dos produtos que íamos vendendo, com percentagens muito abaixo daquilo que são as percentagens de venda dos e-commerce.

1:08:05 Precisamente, pronto, aí fazendo um projeto que podia escalar, nós mesmo com margens curtas, mas com uma escala grande, nós acabámos por ganhar algum dinheiro com aquilo. E pronto, e sempre pensámos as coisas desta forma. Aconteceu que durante o mês de janeiro, que foi o primeiro mês online que nós tivemos, tivemos algum, continuámos a ter muitas dificuldades técnicas com o projeto e compras que acabavam por não ser feitas, pessoas que recebiam duas vezes o mesmo produto.

1:08:28 Portanto, havia aqui uma série de erros e bugs que ainda estávamos a corrigir em tempo real, porque, lá está, tivemos que lançar a plataforma ainda a tentar não perder o Natal e fazer algumas vendas no Natal, mas também que, do ponto de vista financeiro, nós não aguentávamos mais uma estrutura de custos muito pesada e muito cara durante mais meses. Ou seja, nós estávamos a pagar uma estrutura de pessoas, a Pips Bazaar tinha 11 funcionários, portanto, são 11 salários, mais os custos de armazém, mais tudo isso que estava do nosso lado, com estúdios, com um escritório com 300 metros quadrados, portanto, foi um investimento aqui muito grande que nós fizemos.

1:09:01 Durante o mês de janeiro, basicamente, tivemos aqui um problema acrescido em cima disto que foi, a Ana teve com Covid, portanto, tivemos 10 dias sem conseguir fotografar a Ana, e aquilo que no fundo eram os pacotes de contrapartidas que nós tínhamos com as marcas durante o mês de janeiro, não conseguimos cumprir com tudo, ficaram, sei lá, 20, 30% de contrapartidas por cumprir, e durante o mês de janeiro eu tive duas ou três reuniões com as marcas em que expliquei abertamente isto que foi, Não se preocupem com a questão das contrapartidas, que se não forem agora são no mês seguinte e nós vamos compensar mais para a frente. A única coisa que não pode acontecer é de facto vocês não pagarem o FII, não é? Porque o FII é o que nos cobra as estruturas. Eu não posso chegar ao fim do mês e não ter como pagar esta máquina toda e sepaco com os FIIs. E nós estamos a dar obviamente exposição, e uma exposição muito grande, estamos a dar uma exposição no quinto Instagram mais poderoso do país, não é? Para marcas, muitas vezes, que têm tipo 5 mil seguidores no Instagram e em que aparecem 4 e 5 vezes por mês num Instagram com 780 mil pessoas e com uma taxa de conversão das mais altas do país, não é? Portanto, havia aqui uma situação claramente win-win em que, para nós, achámos que sempre que teria de haver aqui um bom senso, de um entendimento de que foram as nossas dificuldades tecnológicas com a plataforma, que nos transcendem, ou seja, eu não consigo dar um murro na mesa e um conector começar a trabalhar.

1:10:17 Portanto, é uma coisa que não depende de mim. Se eu tenho um informático que me diz, pá, já está ok, e depois aquilo não está a funcionar, a única coisa que posso dizer ao informático é para afinal não está ok que continue a dar erro e ele diz-me ok vou ver o que é que se passa e andar semanas nisto, portanto é uma coisa que para nós é muito frustrante e foi muito frustrante e foi muito muito dinheiro que investimos ali e a reação que tivemos das marcas foi muito pouco compreensiva e isto gerou primeiro uma tensão na nossa relação e depois um sentimento na Ana, na própria Pipoca, que criou este projeto para ajudar as marcas, de absoluta ingratidão, foi a sensação que se recusaram a pagar o FII, porque não tinham tido todas as contrapartidas que estavam negociadas em contrato, e nós tomámos a decisão de mudar radicalmente aquilo que é a plataforma, portanto, neste momento o que nós estamos a fazer é, estamos a reestruturar completamente o projeto, a PYS vai ser outra coisa completamente diferente, vamos continuar a trabalhar, obviamente, com marcas portuguesas, coisa completamente diferente, vamos continuar a trabalhar obviamente com marcas portuguesas, numa perspectiva diferente, com uma prestação de serviços também diferente, e perdemos um bocadinho, ou vamos perder um bocadinho o cariz social de ajudar e de querer ajudar, porque já o fizemos e se custou-nos muito, muito, muito, muito dinheiro, e a resposta que tivemos do outro lado não foi de todo satisfatória.

1:11:43 Portanto, a Pips Bazaar neste momento está a ser reestruturada e estamos a recriar o conceito precisamente para ir ao encontro daquilo que nós achamos e aprendemos muito com os erros que cometemos, que nós próprios cometemos, desde erros de relacionamento com as marcas até de erros nossos que cometemos com a tecnologia e com tudo mais mas para mim foi, e eu dizia muitas vezes isto, e ainda bem que aconteceu, que foi, eu nunca tinha tido um projeto que não tinha corrido como eu queria, ou que não tinha corrido mal.

1:12:12 E agora tive um, pronto, e isto para mim foi, de facto, uma aprendizagem muito grande e sinto que vou crescer imenso depois de todos estes erros que foram cometidos, do nosso lado, do lado de relacionamento com as marcas, tudo isso. que foram cometidos do nosso lado, do lado de relacionamento com as marcas, tudo isso. Portanto, acho que vai ser importante para o futuro, quando eu criar agora, mesmo agora no relançamento da Pips Bazaar, acho que vamos fazer coisas muito interessantes ainda com a marca e que vai ser um projeto que vai dar muito a falar.

1:12:38 Espero que sim e vamos ajudar como pudermos aqui do nosso lado, porque tem tudo a ver também com o nosso público. Ricardo, eu queria perguntar sobre a presença do Benfica, que é uma coisa que me interessa muito. Já tens uma data, como é que está esse projeto? Vais ter tempo para isso, no meio de todo este aparato profissional? Quero muito ter tempo para isso. Continuo firmemente decidido a ser candidato às próximas eleições, com basicamente uma certeza, que é não vou ser eleito.

1:13:09 Mas o meu objetivo principal não é ser eleito. O meu objetivo principal é ser a voz dissonante da voz tradicional. Ou seja, eu quero ser a pessoa e quero ser o candidato que defende a pacificação do futebol. Que defende que o futebol e os valores do futebol, do desporto, têm que estar acima de qualquer rivalidade, de qualquer guerra, defende quase um voltar às raízes nobres do futebol e do desporto. E é isso que eu defendo para o Benfica. Eu acho que o Benfica tem que, quem for o presidente do Benfica tem, obviamente, uma responsabilidade social, é quase um segundo presidente da República, não é?

1:13:48 Portanto, tem um poder de transformar. E eu acho que o poder de transformar tem que ser, tem que ir muito além do Benfica, porque eu acho que nós transformando o futebol português, nós também estamos a transformar o Benfica e estamos a transformar a sociedade, não é? E eu gosto de ter, quero ser esse discurso, quero ser essa pessoa, quero ser a pessoa que diz que o Porto não é meu inimigo, nem nunca vai ser, o Sporting não é meu inimigo, nem nunca vai ser, que os adeptos do Sporting e do Porto são mais do que bem-vindos ao Estádio da Luz e que é a nossa obrigação e nosso dever enquanto adeptos respeitá-los fazê-los sentirem-se bem-vindos, e eles não são meus inimigos, eles são apenas pessoas como eu, que vestem uma camisola diferente e que têm todo o direito de apoiar o seu clube, como eu tenho o direito de apoiar o Benfica, e eles apoiam os deles, eu apoio os meus, e no fim vamos beicop juntos, porque eu acho que a essência do futebol é essa, não é?

1:14:41 E o clima de guerra que foi instaurado muito por culpa da classe dirigente do futebol é essa, não é? E o clima de guerra que foi instaurado muito por culpa da classe dirigente do futebol é exatamente, é tudo, ao contrário de tudo aquilo que eu defendo para o desporto e para o futebol. Portanto, a dependência que o Benfica tem de empresários, os jogos de bastidoras, os problemas com a justiça, pá, tudo isso é o contrário daquilo que eu acho que deve ser o Benfica, é contrário do ADN do Benfica, da história do Benfica, eu acho que é preciso voltarmos atrás, acho que é preciso darmos dois, três, quatro, cinco passos atrás e voltarmos a fazer as coisas como deve ser, voltarmos a devolver a dignidade ao Benfica, porque não está, o ganhar um campeonato não está acima de tudo, não é? Há valores muito mais importantes do que isso, não é?

1:15:21 Sei lá, coisas que eu defendo e que são pouco populares, a redistribuição dos dividendos, dos direitos televisivos pelos clubes. O Benfica não deve receber 100 milhões e o Beira-Mar receber 600 mil euros. Não é justo, não é? É justo que os clubes pequenos recebam muito mais e os clubes grandes recebam muito menos, não é? Porque só equilibrando o futebol português e só dando competitividade ao futebol português e só dando competitividade ao futebol português, é que o Benfica também vai ganhar com isso. Porque o Benfica, jogando com clubes muito mais fortes durante a semana, vai, obviamente, ter uma prestação europeia bastante melhor. Não é andar a jogar durante a semana com clubes pequeninos e que não têm meios e que não têm dinheiro para nada e depois apanha com, quer dizer, não vou dizer um Bayern Múnich, apanha com o Eintracht Frankfurt e é eliminado.

1:16:06 É precisamente por isso, porque o nosso campeonato não tem competitividade. As nossas equipas competem com equipas medíocres, com todo o respeito. Não são medíocres por serem medíocres, são medíocres porque não têm meios, não têm capacidade financeira de investimento para serem melhores. Não têm capacidade de atração de público aos estádios, porque também não têm capacidade de contratar bons jogadores ou melhores jogadores. Isso faz com que as pessoas também não vão aos estádios.

1:16:27 Tudo isto é uma bola de neve que eu acho que é preciso, lá está, nós darmos muitos passos atrás e começar a transformar lentamente. Eu acho que ninguém mais do que um presidente do Benfica tem o poder de o fazer. Agora, se me perguntas se este discurso ganha eleições, pá, não ganha. Não ganha, nunca vai ganhar. Não é isso que o índio que vota quer ouvir. O índio que vota quer ouvir que eu vou contratar o Darwin que custa 30 milhões e é o maior e que chega aqui e muda tudo e que vou buscar o Jesus, que é um arruaceiro e que só faz mal ao futebol português, mas que tem um discurso populista, não é?

1:16:57 E que as pessoas... E é isso que deve ser o futebol e é isso que deve ser o Benfica. A grandeza do Benfica vai muito além de ganhar campeonatos, muito além e nós nunca podemos perder a nobreza do Benfica e eu acho que se perdeu muito, não é? Para mim, entristece-me muito ver o nome do Benfica na lama, nos jornais todos os dias com casos de justiça e com os casos dos e-mails e com essas coisas todas. Pá, isso não é o Benfica, isso não é aquilo que eu quero que seja o Benfica. Agora, nunca vou deixar de torcer pelo Benfica nunca vou querer que o Benfica, isso não é aquilo que eu quero que seja o Benfica. Agora, nunca vou deixar de torcer pelo Benfica, nunca vou querer que o Benfica perca só para eu mostrar que eu tenho razão. Eu nunca me manifestei este ano, desde que o Vieira ganhou as eleições, eu não me manifestei publicamente sobre nada do momento do Benfica, não é? No entanto, tudo o que está a acontecer agora foi tudo aquilo que eu disse que ia acontecer em sede das eleições.

1:17:40 Tudo. Eu disse sempre que ia acontecer. Portanto, todas as dúvidas que eu trouxe para cima da mesa são coisas que estão a acontecer agora. O gastares 90 ou 100 milhões num ano em que tu nem sequer sabes se vais à Champions, em que tu nem sequer sabes se vais ter público nos estádios, em que tu tens quase praticamente a certeza que vais ter receitas, talvez 50, 60, 70% abaixo de um ano normal e vais fazer o maior investimento da história do clube com base em quê? Em que vais trazer um treinador que é um treinador que, apesar de ter tido uma fórmula vencedora noutros anos, é um treinador cheio de anticorpos no clube.

1:18:10 É um treinador que desrespeitou o Benfica e a história do Benfica. Tudo isso são coisas, contratar-se um jogador mais caro da história do Benfica, que jogava na segunda divisão de Espanha, onde marcou um golo de cabeça em toda a época, onde marcou 16 golos, 11 deles de penalti e lá está, são coisas para mim, eu nunca disse, o Darwin não é bom jogador, eu não sei se o Darwin a questão é, eu também nunca disse, o Darwin vai ser o próximo não sei o que, que foi o discurso que se fez passar, o Darwin já era o maior e não sei o que, e vem a isto e vai fazer isto e vai fazer aquilo, vamos esperar vamos esperar para ver o que é que rende, vamos esperar para saber se um jogador de 24 milhões, para a realidade portuguesa, lá está, nunca um clube português comprou um jogador por 24 milhões, por alguma razão é.

1:18:51 Portanto, aquilo que se espera de um jogador destes é que chegue, e basicamente parte isto tudo, que seja o gajo que o game changer, está a ser, vai ser de futuro, não sei, lá está, não consigo fazer esse tipo de projeções. Agora, era o momento de contratar um de projeções agora, era o momento de contratar um jogador de 24 milhões era o momento para gastar 90 milhões não era mesmo eu acho que estás a pensar bem, escreveste um artigo muito esclarecedor sobre isto, com uma série de pontos que eu convidava as pessoas a irem procurar, porque está muito bem explicado Ricardo, tenho uma última pergunta para te fazer, se tivesses um cartaz gigante que toda a gente poderia ver que mensagem é que escolhias lá deixar?

1:19:32 Be kind sejam gentis é isso aí é perfeito, e se calhar deixavas bem claro que era be kind para vocês próprios e para os outros se calhar faz sentido eu acho que se nós formos gentis uns com os outros vamos ser todos muito mais felizes Genial Ricardo, foste muito generoso com o teu tempo muito obrigado por tudo gostava mesmo de continuar, eu pedi-te uma hora e roubei-te uma hora e vinte mas foi genial Obrigado por tudo muita sorte nos teus projetos e cá estaremos Obrigadíssimo Obrigado por tudo. Muita sorte nos teus projetos.

1:20:06 E cá estaremos. Obrigadíssimo. Obrigado. Um abraço. Bom trabalho. Obrigado.