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Dicionário das Crianças · Episódio 3

O que faz um Pediatra? — Dra. Rita Sousa Gomes

8 de dezembro de 2020 · 34 min · com Rita Sousa Gomes

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Quase todos os pais já viveram aquele momento: o pediatra apalpa a barriga do bebé, estica-lhe as pernas, espreita-lhe a garganta — e nós, do outro lado, confiamos que alguém sabe exactamente o que está a fazer. Neste terceiro episódio do Dicionário das Crianças, Nuno Simões conversa com a Dra. Rita Sousa Gomes, pediatra e co-autora do conhecido blog Bê Á Bá da Pediatria, para perceber o que se passa do outro lado do estetoscópio.

A conversa começa pela história da própria especialidade: a pediatria só nasceu no final do século XIX, numa época em que a criança era tratada como um adulto em miniatura e a mortalidade infantil era enorme. Hoje, o pediatra acompanha o ser humano do nascimento até aos 18 anos, com cinco anos de especialização dedicados exclusivamente à criança saudável e à criança doente — uma diferença fundamental face ao médico de família, que Rita explica sem desvalorizar nenhuma das especialidades.

Rita partilha também o seu percurso pessoal, que está longe de ter sido em linha recta: dois anos em medicina dentária antes de perceber que a sua vocação era outra, a paixão descoberta na urgência de pediatria do Hospital de Santa Maria e a maternidade vivida em pleno internato, com 40 horas semanais de trabalho e urgências de 24 horas. É uma história de persistência que humaniza a figura, por vezes intimidante, do médico dos nossos filhos.

Para os pais, há conselhos muito práticos: comunicar bem os sintomas, perceber quando uma mensagem não substitui uma observação presencial e, sobretudo, confiar mais nas próprias capacidades parentais em vez de esperar que o pediatra decida tudo. Rita insiste que os pais são quem melhor conhece os filhos — e que um bom pediatra os ouve sempre.

O episódio termina com temas que continuam actuais: o mito do andarilho (a famosa "aranha", que atrasa a marcha e aumenta o risco de acidentes), a importância do brincar livre ao ar livre, na linha do professor Carlos Neto, e o problema das crianças cada vez mais sedentárias e agarradas aos ecrãs. Uma conversa tranquilizadora para qualquer pai ou mãe entre os 0 e os 5 anos — e não só.

Neste episódio

Guia prático

Marcos e Design de Sessões

Os marcos do desenvolvimento e como desenhar sessões à volta deles.

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Transcrição completa

0:00 com especialistas sobre o dia-a-dia da parentalidade e do desenvolvimento da primeira infância para pais, avós e educadores de crianças do 0 aos 5 anos. O conteúdo deste programa é meramente informativo. Independentemente das opiniões expressas pelos nossos convidados, deverá sempre consultar o seu médico, terapeuta ou pediatra. Olá Rita! Olá Nuno, boa noite! Como estás? Obrigado por estar disponível eu sei que isto são horas indecentes e tu tens uma vida de médica super agitada, muito obrigado Amanhã é feriado Amanhã é feriado, pois é Ok, Rita eu acho que a nossa audiência já percebeu que tu és pediatra, tu também és autora de um blog super conhecido chamado Bê Á Bá da Pediatria, como é que está a ser esta experiência de influencer social e médica assim mais pública?

0:56 Dá-me esse trabalho, mas é muito gratificante. Eu tenho o Bê Á Bá da Pediatria em conjunto com a doutora Sara Aguilar e portanto fazemos aqui uma parceria e nas alturas em que uma está mais ocupada há uma que fica mais responsável pelas publicações e assim vamos nos revezando uma com a outra e tem sido possível nem sempre conseguimos fazer as publicações que gostávamos, que gostaríamos todas as semanas mas vamos fazendo e vamos mantendo e no que pudermos ajudar e temos projetos novos em andamento e portanto foi tudo uma experiência muito gira Ok, Rita obviamente queria-te agradecer por estares aqui hoje mas também te queria agradecer por uma outra coisa, tu és pediatra dos meus bebés tu és uma das pessoas mais importantes na minha vida neste momento eu sei que não te chatei muito, mas estou super grato por teres tempo para nós e por responder às nossas perguntas.

1:52 E, há bocado, estava a pensar nesta nossa conversa e a lembrar-me da nossa última consulta, que já foi há algum tempo por causa do Covid. Ultimamente eu não tenho podido entrar na consulta. Mas estava a pensar que a última vez, tempo por causa do Covid, ultimamente eu não tenho podido entrar na consulta, mas estava a pensar que a última vez, e quase todas as vezes, tu amassas a barriga deles e esticas-lhes as pernas e abres-lhes as goelas, as espretas lá para dentro, e eu estou a pensar internamente, aperta com força, Rita, tipo, descobre tudo o que está aí dentro, faz a tua cena e apesar daquilo parecer super doloroso, eu acho que é super tranquilizador saber que pronto, existe alguém que sabe o que está a fazer e que está a fazer todas aquelas análises e diagnósticos possíveis, portanto é uma coisa super gratificante para um pai. Já não sou um pai de primeira viagem, já tenho dois filhos mais crescidos, mas é um conforto poder confiar nas mãos de um pediatra especialista.

2:53 Rita, eu ia-te perguntar, se calhar eu acho que é uma pergunta que pode levar-nos a outros caminhos. Como é que começou isto a pediatria? Não contigo em particular, já lá chegaremos, mas se nos pudesse dar aqui um bocadinho um enquadramento histórico, como é que se passou da medicina genérica para esta especialidade em particular? É assim, a pediatria é uma especialidade relativamente recente, ela surge mais ou menos no final do século XIX, até porque a criança não era criança, a criança era considerada adulta aos oito anos, até durante muito tempo, havia o trabalho infantil, portanto a pediatria surge como especialidade no final do século XIX, numa altura em que a taxa de mortalidade infantil era gigante, era enorme, e portanto foi criada a necessidade de haver uma área médica que se dedicasse a estes pequenos seres e portanto a pediatria foi evoluindo depois ao longo dos anos, inicialmente durante muito tempo seguia crianças até aos 12 anos desde o nascimento até aos 12 anos depois estendeu-se até aos 15 e desde 2010 para cá nós seguimos crianças jovens, adolescentes até aos 18 anos portanto temos um papel muito importante na vida do futuro adulto do jovem adulto e do futuro adulto e portanto é uma especialidade que foi evoluindo, primeiro era muito generalista e entretanto foi havendo necessidade de surgirem várias subespecialidades, portanto foi havendo diferenciações, hoje em dia há várias subespecialidades dentro da pediatria eu sou pediatra geral, eu sinto as crianças de uma forma generalista, sou encarregue de detectar problemas e de os referenciar devidamente depois a quem aos devidamente competentes.

4:48 E pronto, e é mais ou menos assim, resumidamente, esta é a história da pediatria. É uma história recente, não sei se pretendias saber mais alguma coisa. Não, acho que era isso. Como é que sentes que tem evoluído, assim, mais recentemente? Nós no Gymboree, eu pessoalmente também, fui muito marcado pelo Brazelton e pelos livros dele. Eu considerava o Brazelton um bocadinho um pai desta pediatria mais moderna, mas ele já tem uma certa idade, não sei...

5:14 O Brazelton até já faleceu, se não me engano. Eu acho que até já faleceu, recentemente, sim. Mas pronto, é uma referência importante, há outros pilares da pediatria que nós devemos saber, nós pais interessados, que devemos seguir ou é uma coisa pouco interessante e vocês compilam indiferenciadamente? Nós acabamos por... É assim, o Brasil também é mais na área do desenvolvimento, do teatro e do desenvolvimento. Nós seguimos, temos as nossas guidelines e sim, acabamos por compilar um bocadinho de tudo, não nos focamos apenas numa doutrina, não é?

5:52 Muito bem. Olha, como é que se ajuiz de ser médica? Quando é que despertou esta vontade? Lembras-te? Eu, desde pequenina, que sempre tive esta bichinha tive esta paixão pela medicina Em parte porque o meu pai é médico Portanto, eu sempre tive a medicina muito presente na minha vida E é um excelente médico Portanto, é um grande exemplo para mim E depois tinha uma irmã mais velha que também tinha a mesma vontade E desde pequenina que dizia que queria ser médica E eu fui seguindo aquela quer dizer eu gostava mas não sabia se era esta a minha paixão, passou-me pela cabeça de ser veterinária porque adorava animais mas depois este amor pela metina foi crescendo sempre assim muito secreto, sem grandes manifestações.

6:47 Depois quando cheguei ao secundário tinha aquela paixão, sempre tive a paixão pela área das ciências e pronto, fui devagarinho, as notas eram muito altas, eu não sabia se ia conseguir entrar e não consegui, ainda tive dois anos em medicina dentária antes de entrar para a medicina e pronto, acho que é uma coisa que existe em mim desde sempre eu sempre adorei ciências sempre adorei, sempre quis ter um papel importante na sociedade poder ajudar os outros poder ter um papel diferente e achei que a medicina outros perderam um papel diferente e achei que a medicina, achei que tinha vocação, pronto acho que melhor do que ninguém, Nuno, podes dizer está mais do que estabelecida eu acho que depois, mais à frente se calhar até posso partilhar um bocadinho sobre a minha experiência enquanto eu não sei se sou teu paciente,, se sou só o motorista do teu paciente, mas pronto.

7:51 Eu acho que... Eu sou o pai. Eu sou o pai. Eu acho que tu destaques um pouco pela tua empatia, mas também pela tua disponibilidade para explicar as coisas e para simplificar a ciência para nós leigos eu acho que há uma diferença muito grande entre há uma pessoa por mais interessada que seja mas não seja um médico é que lhes falta um alfabeto não é? Nós não tivemos anatomia, não tivemos microbiologia não tivemos farmácia, não tivemos uma série de coisas que tu tiveste e portanto poder perceber o que estás a fazer e o que é que estás a pensar é super tranquilizador para mim, que sou muito curioso.

8:30 Portanto, essa parte da minha experiência é ótima, porque, pronto, tu nunca te negas a responder às coisas, nunca dizes, ah, isso é um disparate, não se preocupe com isso, deixe-te lá ficar, deixe-te estar que eu já vi o que tinha a ver. Nesse aspecto, isso é precioso para mim ter esse retorno depois em termos de diagnóstico também não tenho queixas porque nunca deixaste de passar nada grave que eu saiba, porque eles estão ótimos estão supervisosos, estão gordinhos e bem dispostos portanto perguntei-te como é que decidiste ser médica e depois a pediatria em si veio quando?

9:05 Foi ao longo da faculdade? Olha, eu sempre quis ser sempre tive vontade porque o meu pai é médico generalista portanto eu sempre gostei da medicina generalista a vontade de ser pediatra surgiu mais tarde eu sempre achei que tinha mais vocação para a área médica do que para a área cirúrgica e eu adoro o desafio do diagnóstico portanto, este meu namoro com a pediatria se calhar começou mais no quinto ano da faculdade foi quando eu comecei a ter mais contacto com a pediatria quando comecei a ver doentes pediátricos e portanto eu tive uma experiência muito gratificante na urgência de pediatria do Hospital de Santa Maria e depois tive a oportunidade de repetir esta experiência no sexto ano e tive mais autonomia.

9:51 E acho que foi aqui que surgiu a minha grande paixão. Obviamente, depois fiz o exame da especialidade, tive uma nota boazinha e permitiu-me depois escolher a especialidade no serviço que eu queria, que era precisamente o serviço de pediatria do Hospital de Santa Maria. Pronto, foi aí que eu decidi que era este o caminho que eu queria seguir. É assim, é uma escolha muito particular. quando eu imagino aqueles órgãos mínimos, aquelas veias super fininhas, o sofrimento numa criança é sempre mais doloroso do que ver o sofrimento num adulto tu escolheres ir dar a tua face a esta responsabilidade e a estas dificuldades eu acho que é uma escolha muito particular percebes? Também tive já bebés no hospital a serem canalizadas veias e a colocarem-lhes oxigênio e portanto aquilo é particularmente doloroso e complicado para aquelas pessoas que ali estão. Tu achas que vocês depois ficam anestesiados e aquilo passa a ser só mais um paciente ou tens que ter uma camada extra?

11:02 É assim, tu como pai tens sempre nós acabamos por nos acostumar e nós sabemos que as crianças são muito são muito resilientes e têm esta capacidade de dar a volta que é fantástica portanto eles hoje estão muito mal e amanhã estão excelentes estão ótimos mas eu penso que como pai eu sei, eu também sou mãe e também já vi a minha filha a ser picada e portanto sei perfeitamente que dói muito mais, é como se estivesse a doer em nós e portanto dói-nos muito mais a nós até do que a eles, passa-lhes rápido dói na hora, amanhã já nem se lembram portanto nós acabamos por ter um bocadinho esta noção e é assim é para o bem deles, não é para o mal nós sabemos que estamos a fazer o melhor que podemos Claro Olha, tu tocaste aí num ponto interessante que foi, tu própria és mãe, como é que tu achas que a tua maternidade afetou a tua profissão e o contrário também, como é que o facto de seres médica afetou a tua forma de seres mãe e a tua...

12:04 A maternidade afetou a tua forma de seres mãe e a tua maternidade ou a maternidade afetou a tua profissão? Ou as duas, sim Olha, eu fui mãe durante o internato quando estava a fazer a especialidade estava no terceiro ano e ia para o quarto ano e não foi nada fácil eu tinha os os meus pais eu não sou de Lisboa, portanto os meus pais moram longe, eu não tinha apoio dos avós tinha uma avó paterna com uma vida muito ativa que não conseguia dar apoio e portanto eu tinha, quando voltei a trabalhar depois da licença de maternidade tinha 40 horas de trabalho semanal, com 24 horas de urgência às vezes com alguns bancos extra, e depois pelo meio ainda tinha exames e relatórios e trabalhos para apresentar em congresso e múltiplas coisas para fazer.

12:51 Depois tinha uma bebê em casa que precisava da minha atenção, não é? Portanto, foram anos muito duros, foram anos de muito trabalho, em que eu fiz o que pude para ser a melhor mãe possível e pronto, acabou por ser tudo muito gratificante no final mas eu lembro-me que andava sempre muito cansada sempre muito cansada e às vezes olho para trás e nem sei muito bem onde é que ia buscar tanta força para aguentar tudo, não é?

13:18 porque era muita responsabilidade hoje a minha família já está mais crescida e provavelmente eu já consigo ter um horário mais tranquilo e, portanto, já consigo aproveitar da melhor forma possível e com a melhor qualidade o tempo que nós passamos juntas. Portanto, as coisas já estão muito mais toleráveis, não é? Ok. toleráveis a idade também não ajuda depois o contrário olha eu acho que a maternidade altera completamente o nosso foco a parentalidade, aliás porque és pai muda completamente a nossa forma de ver a vida eu acho que os filhos são sem dúvida o melhor que nós temos, são centro do nosso mundo e nós ensinamos-lhe muitas coisas mas eles também nos dão muitas lições ao longo da vida e portanto eu acho que como pediatra, ser mãe tem sempre um impacto muito positivo é muito positivo, eu acho que não me imaginava eu acho que me ajudou muito na minha profissão porque ser mãe ou ser pai os nossos filhos não trazem ensinou-me que os nossos filhos não trazem livros de instrumentos e que nós nem sempre conseguimos seguir a arriscar aquilo que está escrito nos livros ou seja muitas vezes a prática é muito diferente daquilo que nós temos na teoria ou seja, não existe uma forma certa de fazer as coisas, não vale a pena sermos fundamentalistas, não vale a pena julgar muitos outros sem tentarmos primeiro aquilo que tu disseste há pouco que eu tentava sempre perceber e que nunca deixava eu dou sempre muita atenção àquilo que os pais me dizem pouco, que eu tentava sempre perceber e que nunca deixava, eu acho eu dou sempre muita atenção àquilo que os pais me dizem, porque os pais são quem conhece melhor os filhos e portanto, é o que eu te digo, é assim a teoria, tudo muito bonito na teoria, mas o pai me diz que a criança não está bem, eu tenho que acreditar e portanto eu acho que a maternidade nesse sentido que não é uma pessoa mais mais empática, mais tolerante, que consiga perceber melhor o outro lado do que se calhar se não fosse mãe, se calhar não sei.

15:37 Ok. Olha, tu tens um estetoscópio, tens os teus aparelhos, tu achas que a tua filha é mais escutada do que as outras crianças só porque tu sabes o que estás a fazer tipo, achas que vais escutá-la mais vezes se acabar é sim, graças a Deus a minha filha tem sido muito saudável mas não eu olho para ela, eu vejo-a saudável ela corre, pula, salta quando tenho as minhas dúvidas Quando tenho as minhas dúvidas, quando tenho as minhas dúvidas existenciais, falo com a minha amiga Sara, portanto ligamos uma para a outra, ela comigo, eu com ela, olha, o que é que tu achas disto? Ela queixou-se assim, pronto, porque aqui há sempre a parte emocional envolvida e pronto, mas estou muito tranquila, muito tranquila em relação à minha mãe.

16:26 Ok, olha, como é que achas que nós pais podemos ajudar o trabalho do pediatra? Óbvio que sim, comunicar o melhor possível os sintomas e as preocupações, mas que mais? Achas que há alguma coisa que a gente possa fazer para vos ajudar? Porque às vezes não é fácil estar do teu lado, quer dizer, a criança não tem um vocabulário rico, não sabe queixar, o que é que nós podemos fazer para ajudar, ou se calhar noutro campo?

16:51 É assim, eu tenho, às vezes, eu acho que aos pais é muito variável, por exemplo, existem situações em que nós não conseguimos avaliar por, e se calhar já aconteceu contigo, que os pais mandam esta mensagem ou aquela, a dizer o meu filho tem isto ou aquilo, e às vezes esperam que nós consigamos resolver os problemas através das mensagens. Infelizmente nem sempre conseguimos, então se for uma questão de pele, ou se for uma suspeita de uma infecção, assim, eu acho que a criança é fundamental em determinadas circunstâncias que seja observada.

17:29 E depois tem muito a ver com a relação que nós já temos com a família e com a relação de empatia que temos com a família. Eu sei que há pais com quem eu conheço melhor, com quem eu sei que se disser uma determinada coisa vão cumprir de uma determinada forma e outros que não. Portanto, isto é muito variável. Agora, onde é que podem ajudar mais um bocadinho?

17:46 às vezes se calhar serem um bocadinho mais seguros de si, eu tenho às vezes eu acho que há famílias que são um bocadinho inseguras estão sempre à espera que nós digamos tudo que nós orientemos tudo, confiarem mais nas capacidades nas suas capacidades parentais e não esperarem sempre que sejamos nós a dizer aquilo que têm que fazer porque eu acho que é o que está lá sempre portanto nós só ajudamos aqui a orientar pronto, há pessoas que às vezes não conseguem sequer decidir, tipo os iogurtes que vão comprar sozinhos ou mais por aí se calhar as pessoas começarem a confiar um bocadinho mais nas suas capacidades, terem mais confiança em si Ok Há algum tipo de pergunta que tu gostas de ouvir particularmente, quer dizer, quando os pais vão com determinadas dúvidas que tu te sintas isto é um ótimo caminho, eu gosto imenso de responder a este tipo de perguntas ou é-te um bocadinho indiferente, é tudo igual quer dizer, eu sei que ao fim de 20 famílias por dia, se calhar já estás ligado, aquilo te vale tudo, mas se calhar num dia ideal, como é que tu descreverias a consulta ideal, em termos de pai, de mãe, de turismo? Isto é possível, isto existe?

18:58 Não sei se existe uma consulta ideal, eu acho que existem famílias com as quais é normal, nós temos mais empatia do que outras e acho que isso acontece tanto com nós os médicos como com quem está do outro lado a mesma pessoa pode ir à minha consulta e não gostar da forma como eu atuo e gostar do outro colega eu costumo sempre dizer aos pais que é muito importante que exista uma relação de empatia com o pediatra porque o pediatra vai estar presente na vida deles sempre.

19:27 Para mim, vou ser honesta, para mim é sempre mais fácil, eu quando sigo os bebês, como sigo os teus filhos, desde pequeninos, desde recém-nascidos, é muito mais fácil. Eu já conheço aquela criança, aquela, como eu costumo dizer, é como se fossem também um bocadinho meus, eu também tenho ali um papel. costumo dizer é como se fossem também um bocadinho meus, eu também tenho ali um papel obviamente que aqueles doentes que me aparecem, ou pacientes que me aparecem assim uma vez por outra ou que me dão de pediatra consecutivamente porque há pessoas que não se conseguem orientar, só com o médico fica mais difícil porque é mais difícil depois de conhecer a tal história da família, a história, é importante nós termos esta noção para se estabelecer uma relação de confiança é importante esta relação forte, sólida com a família mas uma consulta ideal, acho que a consulta ideal não existe e como é que as minhas consultas são todas ótimas.

20:25 São todas ótimas. Olha, para aquelas pessoas que às vezes não sabem bem distinguir um médico pediatra do médico de família, às vezes há pessoas que estão totalmente à hora. Como é que nós lhes podíamos descrever o que faz um pediatra? De forma muito simples. O pediatra tem, para começar, nós temos 5 anos de especialização nós só estamos 5 anos a estudar a criança na sua vertente saudável e na sua vertente doente o médico de família tem uns estágios ao longo da sua e nem todos gostam da do criança tem mais gosto pela crianças, outros que não mas é completamente diferente a medicina geral e familiar é uma especialidade do generalista, eles vêm e vêm crianças, nós só vemos crianças só por aí mas eu confio confio na medicina geral e familiar totalmente para avaliar a criança saudável é assim, a diferença é enorme quer dizer, é super evidente quem se debruçar sobre isto vai perceber as diferenças eu acho que algumas pessoas não conseguiriam descrever o que faz o pediatra não conseguiam imaginar uma consulta de uma hora ou uma consulta de 20 minutos, quer dizer, se tu lhes pudestes explicar, olha, eu se tiver muito, muito pouco tempo, eu preocupo-me com estas três coisas ou estas cinco coisas que eu tenho que ver sempre, se calhar um bocadinho para sensibilizar, eu não sei, este pai imaginário que eu tenho aqui na minha cabeça que não vai ao pediatra por alguma razão não sei, mas terias coisas que eu não sei, se tivesse muito pouco tempo numa consulta, se não tivesse o tempo estándar para uma consulta, se só pudesses fazer duas ou três coisas muito rápidas o que é que farias?

22:18 é difícil, é assim, nós temos a nossa experiência é tão grande eu às vezes acho que nós olhamos para a criança e já sabemos se ela está bem ou mal. É muito difícil lhe dizer assim, ah, agora três coisas, é fundamental avaliar o crescimento, mas isso o médico de família também consegue, não é? Às vezes eles se calhar preocupam-se com algumas coisinhas que nós já são, que não são nada, porque já estamos habituados, porque já vimos muito.

22:45 Eu acho que assim, o fundamental, eituados, porque já vimos muito. Eu acho que, assim, o fundamental, e nós sabemos, é o desenvolvimento, o básico, não é? O básico, saber se a criança tem um desenvolvimento saudável e se tem um crescimento saudável. Pronto. E... E depois é assim, nós já temos... Ok. A nossa experiência é enorme, nós conseguimos perceber claramente, nós sabemos imenso sobre a patologia infantil, portanto, o nosso conhecimento é muito vasto.

23:15 Ok. O nosso conhecimento é muito vasto, sim. Muito bem. Olha, Rita, houve algum livro ou algum filme que tu achas super recomendável para famílias? Alguma coisa que tenha marcado? Pode ter sido a nível pessoal ou a nível profissional, mas há algum conteúdo para quem, para onde tu nos pudesses dirigir ou não queres tocar nisso? Eu sei que o conhecimento é super vasto e às vezes é difícil estar a escolher.

23:42 Livros, em que sentido? Mas livros de puericultura, é isso que estás a dizer? Quaisquer. Olha, de puericultura era super útil, pronto, mas pode ser outro qualquer que tenha marcado. Pode ter sido um romance que tenhas dito, olha, isto está aqui, este é o paradótipo do pai ou da mãe que eu gosto, isto é útil. Ou de puericultura também. Não sei, eu leio muitos romances históricos ultimamente até nem tenho lido coisas técnicas mas assim não estou a ver nada que agora de puericultura olha, gosto imenso do Hugo Rodrigues do Pediatria para Todos, que lançou agora um livro e do professor Paulo Oom, que também tem o livro dos pais, os livros de Mário Cordeiro também são ótimos, os livros de puericultura.

24:33 Agora livros de romances, compras... Não que este, que é isso, ok. Que me lembro agora, não estou a ver, não. Ok, qualquer dia também vais escrever um, não? De puericultura, podemos contar com isso ou não? sim, sim está de parte está bem se pudesses colocar uma mensagem num cartaz gigante que toda a gente pudesse ver que mensagem escolhias? talvez mais amor mais união mais empatia ok ok acho perfeito recordas-te algum falhanço importante na tua carreira académica ou profissional que tenha sido precursor depois de um sucesso mais à frente, portanto uma história uma história de superação que possa-se escolher nem sempre isto é fácil, mas eu acho que às vezes é super revelador quando as pessoas conseguiram selecionar corretamente as prioridades implementá-las não sei se te lembras de alguma história desse tipo falhança, sim, que me lembra que eu considero, não foi bem um falhanço.

25:46 Na realidade foi a minha entrada em medicina dentária. Eu entrei em medicina dentária e achei que ia gostar. Pensei, pronto, vou ter uma vida mais tranquila, mais leve, não vou ser médica, vou ser dentista e tudo bem. E pensei que me ia acostumar e depois entrei na faculdade e fui caloura e até estava a gostar de amigos novos e entretanto comecei a perceber à medida que quando cheguei ao segundo ano, ainda fiz o primeiro ano, quando cheguei ao segundo ano comecei a perceber que eu não tinha a mínima vocação para ser dentista, pronto. E aquilo foi, fiquei ali numa grande, num grande dilema e tinha a minha irmã em casa a estudar Medicina e via os livros e eu queria estudar mais coisas eu não me queria só restringir a boca e a minha irmã nessa altura, a minha irmã e os meus pais obviamente deram-me toda a força e disseram se queres voltar para trás, volta para trás e eu nesse ano consegui deixei as cadeiras todas de Medicina dentária para setembro do segundo semestre fui repetir os exames para entrar em medicina e não entrei logo na primeira tentativa só depois na segunda tive a sorte foi de ter equivalência consegui sempre passar os anos em medicina dentária depois tive equivalência diretamente ao segundo ano isto para mim foi uma espécie de um falhanço, pronto. Mas eu não desisti.

27:12 Não consegui agora, mas eu vou conseguir no próximo ano. Vou conseguir e consegui. Eu estou aqui, sou pediatra, que era o que eu queria e pronto. Consegui concretizar os meus sonhos. Excelente. Perfeito olha ocorre-te alguma má recomendação que costumas ouvir relacionada com a tua profissão não obviamente da boca de outros médicos, eu acredito que saibam o que estão a dizer mas de outras áreas profissionais, se calhar não sei, de outras áreas profissionais se calhar não sei, às vezes ouvi-os se calhar professores a falar de nutrição fora de horas ou de atividade física ou de linguagem, alguma coisa algum mito na sociedade que tu gostasses de esclarecer e que recorre?

28:02 De repente só me lembro do mito da aranha sabes o mitoo da aranha, sabes o mito da da aranha, não é o andarilho aquilo é a aranha, sai sai sai o aranhice sim o aranhice exato, que é uma coisa que ainda está implementada nas lojas de puericultura e eu ia estar até criámos um post há pouco tempo sobre isso porque ainda no outro dia tive na urgência um acidente com um miúdo numa aranha, pronto, que os miúdos aquilo aumenta, além de atrasar a marcha de poder provocar problemas no nível da anca, ainda tem o risco de acidentes aumenta o risco de acidentes domésticos, ainda no outro dia tivemos o caso de um miúdo que virou ao contrário na aranha e um traumatismo craniano e portanto este agora de repente foi uma das coisas que eu me lembrei eu assim da nutrição e daquilo que tenho ouvido não tenho professor, não tenho ouvido assim nenhuma má recomendação e se calhar agora aqui no campo das boas recomendações, eu outro dia assisti a um podcast teu com o Carlos eu outro dia assisti a um podcast teu com o Carlos Neto, não foi bem um podcast, foi mais uma conversa sobre o brincar e o brincar não estruturado e ao ar livre eu percebi que é uma coisa super positiva que defendes portanto não tens preocupações em relação a esse campo tu recomendarias express portanto, expressamente aos pais que nos estão a ouvir para tentar conquistar um pouco de tempo na família para irem para a rua e, portanto, deixar as crianças brincarem.

29:35 O Carlos Neto até não se importa que eles caiam de uma árvore e que escorreguem ao contrário de um escorregue, eu sei que ele é, eu aliás, eu tenho hiper simpatia pelas coisas que ele diz eu adorei ouvi-lo é verdade nós todos hoje em dia somos todos pais muito preocupados temos todos muito medo que os meninos se magoem e eu acho que ele é fantástico nesta perspectiva de que realmente deixemos correr deixemos cair magoar-se dentro da claro rever as condições de segurança, mas deixar que eles explorem um bocadinho mais o ambiente e até eu naquele dia também aprendi muito com ele, o que eu acho é que às vezes é difícil colocar em prática no dia-a-dia esta questão de ir com eles todos os dias para a rua, quer dizer, quem mora nas cidades tem esta desvantagem porque nós temos uma vida muito corrida eu por acaso até tenho facilidades com o horário, mas eu percebo que existem pais, eu tenho casos de pais que saem de casa às oito da manhã e chegam a casa às sete portanto, nesta altura já é de noite é muito difícil ir com o filho mas sim, aproveitar os fins de semana acho que devem ser aproveitados ao máximo nos parques agora não nos parques infantis, não é porque os parques estão fechados mas ao ar livre, na natureza correr, jantar, andar de bicicleta andar de patins, ficar o mínimo de tempo possível nos tablets e à frente da televisão acho que sim, temos até que criar as crianças que estão cada vez mais sedentárias eu tenho imensos miúdos que entram no consultório com o nariz enfiado no tablet ou no telemóvel e saem com é incrível e pronto estamos a dar-lhes mas estamos em cabo claro quer dizer, temos aquele efeito temos vários detalhes, mas estamos em cabo claro temos aquele efeito de o músculo que tu treinas é um músculo que fica forte e o músculo que tu abandonas é um músculo que é podado, que é o efeito de bruning e o que o Carlos Neto diz com muito carisma é que é importante darmos às crianças um menu de movimentos e um alfabeto completo de de novas sensações portanto estimular a psicometricidade se não pudesse ser na rua que seja dentro de casa mas se deixarmos a criança realmente hiper desenvolver com a natureza até tem efeitos benéficos até ao nível do sistema imunitário portanto é sempre bom que a criança vá explorar o ambiente claro claro Rita, tinha aqui uma última pergunta que é, quando te sentes a suburbada como é que fazes? Como é que te recentras? Tens alguma técnica, algum segredo?

32:20 Olha, eu tenho uma vida um bocadinho complicada de vez em quando, eu tenho um horário eu consegui agora ter um horário mais tranquilo, mas eu sou mãe e sou pediatra e como eu tinha dito já inicialmente eu não tenho cá a voz não tenho aqui a voz próximos e portanto eu tenho que me organizar muito bem consegui fazer tudo e portanto normalmente ando sempre com uma checklist atrás de mim, já fiz isto já fiz aquilo mas há alturas em que eu fico completamente, é verdade fico completamente sem saber sem foco e portanto a maneira que eu tenho, olha na era pré Covid eu ia muitas vezes para a quinta dos meus pais, de vez em quando arranjo um fim de semana, vou para lá fico lá, reorganizo-me descanso e pronto eu organizo ideias agora, tem sido mais complicado eu sou católica e agora, olha, ultimamente tenho-me dedicado mais à oração há quem faça meditação eu vou orando tenho um guia um diretor espiritual com quem tenho falado mais e pronto, e é assim que eu vou gerindo-me com calma, tentando-me organizar da melhor maneira possível e eu tenho conseguido. Felizmente até agora as coisas têm corrido bem e eu vou conseguindo fazer tudo aquilo que me proponho.

33:42 me proponho e além disso ainda tens o teu blog, a tua página de Instagram vocês são super generosas com o conteúdo que partilham e também há ofertas muito giras, volta e meia arranjas lá uns giveaways espetaculares que eu tenho de começar a concorrer mais, acho que tenho que ver se faço batota e se meto uma cunha para ganhar uns cremes ou uma coisa assim olha convidava as pessoas a visitarem o teu blog, chama-se Bê Á Bá da Pediatria.

34:08 Eu vou deixar os links na descrição. E pronto, espero que te sigam. Super obrigado por este bocadinho, Rita. Obrigada, eu gostei muito. Sim. Já não te vi há algum tempo, é verdade. Sim, porque lá na clínica não me têm deixado entrar, não deixam entrar os dois pais com o bebê ok obrigado Rita boa noite beijinho, não gostei muito, obrigada beijinho e até breve, obrigado por tudo até logo e até breve. Obrigado por tudo. Até logo.