Dicionário das Crianças · Episódio 15
Expressão Dramática e Teatro para Bebés — Sandra José
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Neste episódio do Dicionário das Crianças, Nuno Simões conversa com Sandra José, licenciada em Música, mestre em Teatro, professora desde 1999 e actriz desde 2001. Vencedora de dois prémios de Melhor Texto Drama no Teatro Rápido e autora do livro "Para Sempre", incluído no Plano Nacional de Leitura, Sandra é uma das vozes portuguesas mais dedicadas ao teatro para bebés, projecto que iniciou em 2012 com o encenador António Terra.
A conversa parte de uma convicção simples e poderosa: a arte desenvolve as emoções, e são as emoções que nos tornam pessoas empáticas. Para Sandra, o contacto com a música e a expressão dramática desde a primeira infância não é um luxo, é urgente. Antes de sermos bons profissionais, temos de ser boas pessoas — e é aí que a arte trabalha primeiro.
Sandra faz um retrato honesto das escolas portuguesas: a música tem melhorado, mas raras são as salas bem equipadas, e para o teatro falta quase tudo. Fala também da escassez de formação artística para educadoras de infância e professores do primeiro ciclo, precisamente quem passa o dia inteiro com as crianças. E há um momento especialmente tocante sobre o poder terapêutico da arte, com o testemunho de Nuno sobre as visitas da Operação Nariz Vermelho durante o internamento da filha — "comprimidos de felicidade", como lhes chama Sandra.
Do lado mais pessoal, Sandra conta como a escrita nasceu como desabafo escondido até se tornar profissão, e como o livro "Para Sempre" surgiu da necessidade de explicar a morte aos filhos depois da perda da sobrinha. É um capítulo sobre falar de temas difíceis com crianças que continua a ser dos mais úteis para qualquer família.
Para os pais, ficam dicas imediatamente aplicáveis: dar às crianças objectos do quotidiano que possam transformar — uma caixa de cartão, papel de embrulho, um estendal pintado — em vez de brinquedos caros, porque é na transformação que a criatividade se estimula. E ficam ainda reflexões sobre educar para o consumo de cultura, a meditação na sala de aula e a respiração como ferramenta de calma, tão relevantes hoje como quando o episódio foi gravado.
Neste episódio
- 02:02 Porque é que as artes são urgentes na primeira infância
- 05:00 Como estão equipadas as escolas: música sim, teatro não
- 09:59 O efeito terapêutico da arte e a Operação Nariz Vermelho
- 17:41 Da escrita escondida ao primeiro texto dramático
- 19:39 "Para Sempre": explicar a morte às crianças
- 23:04 Formação com Paulo Lameiro e o método de Edwin Gordon
- 24:28 O projecto de teatro para bebés com António Terra
- 27:12 Dicas para criar teatro em casa com objectos do quotidiano
- 30:25 Educar as crianças para o consumo de cultura
- 40:25 Meditação e respiração na sala de aula
A Brincar, A Brincar
O essencial do brincar com intenção, do nascimento aos seis anos.
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0:00 crianças com Nuno Simões do Gymboree Play & Music Portugal uma sessão semanal com especialistas sobre o dia-a-dia da parentalidade e do desenvolvimento da primeira infância para pais, avós e educadores de crianças do 0 aos 5 anos o conteúdo deste programa é meramente informativo, independentemente das opiniões expressas pelos nossos convidados deverá sempre consultar o seu médico terapeuta ou pediatra. Alô Sandra! Olá! Tudo bem? Tudo bem, tudo bem. Boa tarde. Boa tarde Sandra, obrigado pela disponibilidade para falar connosco, é um privilégio. Eu sei que a roubámos aqui de uma formação e ainda por cima é um domingo.
0:50 É mesmo assim, hoje em dia tudo online. Pois é. Muito bem. Sandra, vou só fazer uma breve apresentação, apesar de eu já ter colocado alguns links aqui na descrição, a Sandra originalmente estudou Música e depois expandiu para o Teatro. Como é que se identifica mais hoje em dia? Sou atriz. Uma atriz. Sou atriz, sim. Muito bem. Eu escrevo também, mas a Música foi quase uma... Na altura que eu era miúda, eu fazia Teatro já desde a escola e os meus pais não aprovavam muito, porque queriam que eu estudasse, é normal, não é?
1:30 E a música, como o meu pai também tocava acordeão, foi uma forma de eu ter a premissa e a permissão deles de seguir a arte. Então, a música foi o meu escape de poder estar em contacto com a arte de alguma forma. Assim que tive a oportunidade, pronto, mergulhei no teatro de forma profissional. Muito bem. E agora é professor, inclusive, e faz uma série de peças para crianças.
1:56 Eu acho que gostava de falar sobre isso um bocadinho mais à frente. Mas eu se calhar começava por aqui. Qual é que acha que é a importância destas disciplinas? Portanto, estas artes, obviamente a música, a expressão dramática, na formação de um ser humano? E se calhar até tentava analisar aqui um bocadinho mais o micro, portanto, a importância na dicção das pessoas, na comunicação, na expressão facial e corporal, a autoconfiança, a empatia, a criatividade, muitas destas coisas nascem, obviamente, de uma boa expressão facial e corporal, a autoconfiança, a empatia, a criatividade, muitas destas coisas nascem, obviamente, de uma boa expressão e era importante todos termos um pequeno alfabeto de como estas coisas funcionam.
2:32 Qual é a sua visão sobre este tema e como é que acha que estamos servidos hoje em dia em Portugal neste tipo de educação? Já estivemos pior, não é? Eu, quando era miúda, a minha forma de estar com a arte era nos tempos livres da escola, não tinha o clube de teatro, eu fazia o clube de teatro com as minhas amigas, mas sentia essa necessidade de o fazer, portanto, era o jogo dramático, eu usava o jogo dramático por instinto. Hoje em dia, já não, felizmente, já estamos a adquirir padrões nas escolas, porque já tomámos a consciência que a arte, muito primeiro do que tudo, vai desenvolver as emoções das pessoas, vai transformá-las em pessoas, em pessoas empáticas.
3:22 a mente de todas é a arte, desde pequeninos. Seja a música, seja a pintura. Nós somos artistas por natureza, depois há a questão de desenvolver a aptidão ou não de cada um. Mas nós precisamos da arte, precisamos de ouvir música, precisamos de cantar, precisamos de dançar, de ir a uma discoteca dançar. Nós usamos as emoções para tomar decisões até da vida profissional, da vida familiar. É a emoção que prevalece muitas vezes.
3:46 A arte desenvolve a emoção. Portanto, para mim é óbvio que o estudo das artes, desde a infância, desde a primeira infância, e eu trabalho muito com a primeira infância, é muito, muito importante. É urgente até. E as escolas hoje em dia já estão mais sensibilizadas para isso. Já se percebeu que não é apenas o académico que faz bons profissionais, porque as pessoas antes de serem boas profissionais têm de ser boas pessoas.
4:14 E a arte torna-nos boas pessoas. Não tem que nos olhar para o mundo de outra forma. Ver outras coisas, não é? Ver para lá da imagem. Ver o que está por trás o que está cá dentro excelente visão eu acho que isso é a ponta certa para a minha pergunta a seguir que é, acha que as escolas atualmente estão equipadas em termos materiais e humanos para dar este tipo de disciplinas?
4:40 materiais, não não nós não temos, por exemplo eu na escola onde estou eu estou a dar música a nível de música está muito bem equipada mas é rara a escola que está e antes da pandemia a sala do nós tivemos que retirar tudo tudo que é instrumentos musicais por causa da questão do convite mas é uma uma escola eu estou em Miraflores em Algés, é uma escola em que os alunos entram na sala de música e em cima das mesas têm instrumentos musicais e todos os alunos têm um instrumento musical da sala de aula, são instrumentos Orff, xilofones instrumentos de percussão, tambor todos eles têm e vão-se revisando portanto, durante 15 dias um toca o xilofone baixo depois trocam pelo metalofone, por aí fora. Mas, e repara, eu já dou aulas há 22 anos de música e é a única escola que encontrei assim.
5:34 Nunca mais. Normalmente temos 10 instrumentos para uma turma quase de 30. O que temos muitas vezes de fazer é usar, fazer música através de objetos não convencionais, que é a mesa, o caixote do lixo, o próprio corpo, não é? Portanto, é muito raro termos escolas assim. A nível de teatro, não mesmo. Porque nós para teatro precisamos de uma sala vazia, precisamos de colchões, muitas vezes vamos para o ginásio que faz eco, ou para uma sala que temos que estar ainda a afastar mesas, portanto, não de todo. A música está a melhorar mas a música, como sempre fez parte do currículo ao quinto e sexto ano pronto, era quase obrigatório ter pelo menos um conjunto de dez instrumentos na sala de aula, mas devia evoluir muito mais, muito mais não é só chegar ao papel, ok, nós apoiamos as artes e depois entramos numa escola e não temos forma Claro, e em termos humanos, quer dizer, tirando as escolas que obviamente já contratam este tipo de serviços fora, e muitas vezes isto é tratado como um programa extracurricular se calhar devíamos começar um bocadinho mais cedo e se calhar até equipar as professoras conhece algum tipo de formação para educadoras de infância ou auxiliares que as possa equipar, pelo menos para a sensibilização das crianças para este tipo de artes ou ainda estamos em um estágio muito inicial?
7:01 tem que se preocupar com a questão dos créditos eles para progredir na carreira eu própria para progredir como professora tenho que fazer todos os anos uma ação de formação e o que eu vejo quando abro um cronograma de formação de um centro de formação é que começo a ver as ações e não vejo nenhuma formação em artes eu neste momento estou a dar eu já na primeira vez que vou a uma escola já trabalhei com o centro Leirimar em Leiria, em que dei todos os anos, durante 4, 5 anos, formação a educadoras e a professoras de 1º ciclo.
7:32 Exatamente porque são as únicas que conseguem trabalhar com as crianças a tempo inteiro. Depois temos os professores especializados em matemática, em português, normalmente esses não têm muito interesse, porque lá está, têm que progredir na carreira, e quando há uma formação aberta de artes, nem sequer está direcionado a essas pessoas, quando eu acho que é importante também estarem, porque a colocação de voz... Um professor é um ator, não é? Nós somos atores à frente de uma plateia, e para mim a base do teatro, e agora estou a referir apenas o teatro é muito importante. O que eu estou a colaborar é com educadores e vou iniciar uma ação de formação agora em março, dia 9 de março online. É estranho para mim vai ser a primeira vez que vou dar uma formação de dramática online com a associação portanto acho que ainda devem poder inscrever. A Associação, portanto, acho que ainda se devem poder inscrever, a Associação Nacional de Educadores de Infância, que está a promover a formação.
8:31 E eu vou inserir a questão de contar histórias, como contar histórias, como trabalhar a linguagem artística, a linguagem musical com bebé, por exemplo, que ainda há muito receio, porque as pessoas não têm ferramentas para isso. Quando tiramos o curso, não é isso que nos ensinam. Ensinam-nos tudo, menos a arte. E depois a educadora, por exemplo, quer trabalhar com um bebé ou com uma criança de 4 anos, a música, e a única forma que tem é por um CD e bater a poluição com a criança e fica por aí e há tanta coisa para explorar a nível rítmico, a nível melódico e é isso que eu vou tentar passar desta vez infelizmente online porque eu gosto de estar gosto de estar olho com olho com as pessoas e para elas se movimentarem mas vai ter que ser assim, vou ter que vamos conseguir, de alguma forma vamos conseguir, não é?
9:23 Este tema é fascinante e toca-nos muito de perto aqui no Jimboree, porque tem sido um bocadinho o nosso percurso desde o início. Este tipo de programas são o nosso pão com manteiga, é o que fazemos de A a Z. Mas tenho aqui tantas perguntas para lhe fazer que podemos passar à frente e eu queria tocar aqui numa outra importância, às vezes pouco faladaada da expressão dramática que é, se calhar, o seu efeito terapêutico e isto toca-me de perto também porque tive uma bebé internada depois de ter nascido e teve talvez três semanas, quinze dias, três semanas internada e fomos visitados várias vezes pela Operação Nariz Vermelho que chegam à sala e fazem umas palhaçadas, ou lêem uma história, tocam um instrumento e é absolutamente fascinante para pais e para crianças.
10:10 Eu não sei se a Sandra conhece bem este projeto, ou se conhece projetos paralelos. Eu, pessoalmente, o meu testemunho é que funciona muito bem. Tenho pena que não seja, se calhar, mais universal e mais democrático, porque, se calhar, as grandes cidades têm o privilégio de ter muitos artistas ou muitos voluntários e depois as cidades do interior não tanto. Não sei, gostaria de sugerir alguma coisa para podermos melhorar no futuro, Sandra, ou então falar da sua experiência com este tipo de projetos, porque eu acho que são muito importantes e às vezes pouco falados. Sim, a nível do Nariz Vermelho, eu acho incrível o trabalho que eles fazem e eles eu tenho alguma pena realmente disto não se estender a nível nacional mas o que eu percebi a nível de instituição hospitalar é que é necessário alguns cuidados básicos e eles têm que fazer uma formação inclusivamente porque não podem entrar para o hospital e fazer o que querem que lhes apetece e há alguns obstáculos e alguns entraves em relação a isso e o que acontece é que alguns artistas depois e vamos, convenhamos os artistas ganham muito mal e era muito bom eles terem apoio por estes projetos para se dedicarem a eles inteiramente o que acontece muito bom eles terem apoio para estes projetos para se dedicar a eles inteiramente. O que acontece é que se não têm apoio financeiro, como é que uma artista sobrevive e consegue fazer voluntariado deste género? Quem me dera a mim conseguir, não é? Mas ou estou a dar aulas para cuidar da minha família, ou estou junto com crianças que adorava, era a minha paixão, embora eu adoro dar aulas, eu adorava estar a tempo inteiro a trabalhar com a arte de uma forma pedagógica também, mas terapêutica desta forma que eles fazem mas eu não sinto ainda apoio do Estado para nós, realmente não sinto e eles próprios vivem com inúmeras dificuldades em relação a isso eles queriam ser mais, queriam estar em mais sítios e não conseguem.
12:05 E olha, eu vou tratar por tudo porque é mais raro. Por favor, por favor. É mais empático até. Era teu filho, não é? Que estava no hospital. A minha filha no caso, mas o meu filho também. Eu tenho dois bebés pequeninos e portanto... Tu percebeste a bomba, a pressão que é estar no hospital com uma criança doente e o desafogo e o alívio que é de repente entrarem-te com uma guitarra e começarem a cantar ou com um metalofone e a fazer um som de sinos.
12:36 De repente parece que te cuidam, que te curam através daqueles sons. E enquanto não tivermos alguém a governar que tenha uma pele galinha e a arrepiar-se cada vez que vir isto nós nunca vamos conseguir desenvolver estes projetos nós precisamos de alguém de lá que seja empático e que seja sensível a este ponto porque eu sou uma apaixonada a falar disto porque sou assim e se calhar era assim que perceba de alguém estar lá, para dar valor e para ajudar quem tanto faz.
13:11 E é preciso que alguém veja isto. E se reparar, só sabe do nariz vermelho quem está lá. Não se ouve falar nele, não é? Não se ouve. Não há uma notícia sobre o bem que estas pessoas fazem aos outros, por exemplo. E obviamente que a arte é terapêutica, que o teatro é terapêutico, que a dança também é. Aliás, há mesmo há mesmo, há musicoterapia, há ações de musicoterapia, há tratamentos que se fazem através da música que o nosso corpo se estiver relaxado vai produzir hormonas de relax, vai nos deixar felizes e a felicidade cura doenças.
13:52 Concordo 100%, eu até deixava aqui um apelo para se apoiarem, quem nos estiver a ouvir e quiser apoiar, as páginas são fáceis de encontrar, mas eu vou deixar links depois na descrição. O meu testemunho não podia ser mais positivo. A minha experiência era que quando nós estamos lá, obviamente muito preocupados e somos visitados repetidas vezes por médicos, por enfermeiros, por auxiliares vão limpar, vão picar, vão dar uma medicação e nós só queremos é sossego ou porque o bebé está a dormir ou porque nós próprios queremos descansar ou ficar em sossego. E aquela é a visita que eu não me importava ter e que pelo contrário é que me faziam rir se quisessem fazer uma aposta comigo, vais-te rir quando chegar a equipa do Nariz Vermelho, eu apostava, não vou rir, não tenho vontade nenhuma de rir. E com as canções e com as palhaçadas que faziam definitivamente que ficava muito mais bem disposto.
14:49 O Ebet também, era um ciclo virtuoso, um bálsamo que recebíamos e que absolutamente foi das coisas melhores que aconteceram lá. São comprimidos de felicidade. Totalmente, excelente termo, comprimidos de felicidade, espetacular. É isso. Sim. Eu, infelizmente, eu sei bem do que falo, eu tive uma sobrinha muitos anos, durante quatro anos, que infelizmente faleceu com tumor. Eu acompanhei muito de perto o IPO, muito de perto estas equipas e eu sei bem a espera que ela tinha quando eles estavam para chegar.
15:25 Portanto, eu vi as crianças no IPO, eu vi a felicidade que era e eu acho que estar a fazer um tratamento de quimio e estar a fazer um tratamento com os eu acho que deviam ser tratamentos que se podiam unir estás a me entender? Sim, sim, totalmente. É quase como aqueles tratamentos de naturopatas e que se juntam com a quimio para reforçar o sistema imunitário porque não inserir tratamentos através da música, através da arte é mais um elemento, é um reforço do nosso sistema imunitário, porque não inserir tratamentos através da música, através da arte, é mais um elemento.
15:49 É um reforço do nosso sistema imunitário, sim. Muito bem. Ok, estamos alinhados. Sandra, quando é que começaste a escrever e porquê? Eu a escrever... Olha, há uma coisa... Eu fui sempre de má aluna a português. Muito mesmo. Eu acho que eu era má aluna porque eu não escrevia exatamente aquilo que era suposto eu fazer trabalhos e os professores negaram o trabalho, porque diziam que não era eu que escrevia aquilo.
16:31 Portanto, eu não sei exatamente quando começou exatamente o gosto pela escrita. Eu sempre usei a escrita como desabafo. Portanto, estou escrevendo. E, de facto facto nunca me incentivaram muito a escrever porque eu tinha dois, eu tinha três e depois a minha mãe punha-me na explicação e eu não conseguia mesmo assim porque eu não percebia era a gramática pronto, etc. Para teatro, como eu nunca me desliguei da questão da escrita porque eu continuei a escrever, embora não mostrasse porque eu cheguei a uma altura que tinha vergonha de mostrar o que escrevia porque as pessoas não aprovavam o que eu escrevia, então eu não mostrei quando comecei a fazer teatro de forma profissional, fiz uma formação com o António Mascarenhas, que é ator e o exercício foi obrigarem-me a escrever e mostrar o que escrevia.
17:27 Infelizmente que o mostrei. Pronto, mostrei, ele liu aquilo e disse Andra, tu tens de continuar. Eu fiz uma página de um texto e ele disse vais continuar isto e vais escrever um texto dramático. E foi o primeiro texto que eu escrevi que se chama Não Chove de Baixo para Cima. E foi o primeiro texto que eu fiz em cena com chama Não Chove de Baixo para Cima e foi o primeiro texto que eu fiz em cena com o meu próprio texto, é um monólogo e é exatamente sobre violência doméstica que é um tema eu normalmente escrevo, gosto de escrever temas para chamar a atenção de alguns problemas que as pessoas às vezes não veem, ou têm medo de ver, não é?
18:03 E eu estive em cena com ele quase três anos, e fui às escolas secundárias, tentar levar este assunto, e depois no fim fazia debates, chamei psicólogos, clínicos, fizemos... E foi a partir daqui, desde primeiro o meu texto, que eu perdi o medo de mostrar o que escrevia. E depois não parei. E tento sempre falar sobre assuntos muito escondidos. E eu não sei. Acho que é isso. E agora és uma escritora premiada, não só tens um livro publicado, como tens as tuas peças também, que ocorreram muito bem.
18:40 Eu acho que o teu livro está no Plano Nacional de Leitura, não está? Está. Ele foi inserido no Plano Nacional de Leitura na altura que eu editei, porque eu enviei para lá, tínhamos que nos inscrever, e ele foi inserido, portanto, eu editei em 2016, se não me engano, e foi aí. E é exatamente, é como falar da morte às crianças. Pois, eu percebo que esse tema tocou muito de perto, não foi?
19:08 Foi, exatamente, eu na altura quando escrevi quando a minha a Vitória, que é a menina que se transformou em estrela ela faleceu eu tive que explicar aos meus filhos o meu filho tinha 8 anos a minha mais velha tinha 10 e ela tinha um irmão também de 8 anos, a minha mais velha tinha 10 e ela tinha o irmão também de 8 anos, que é o Mateus. E como é que se explica a um menino que a irmã morreu? Como é que se explica aos primos que já não vão mais ver a prima? E a minha forma, a minha melhor forma de explicar foi escrever. Então eu contei-lhes uma história. E o Para Sempre, que é isso, eu aproveitei esse lado, essa história da vitória para que os pais possam ter um livro, contarem uma história aos filhos e conseguirem abordar o tema da morte, que é um tabu enorme ainda. Nós parece que não sabemos lidar, como é que explicamos? Ah, é uma estrelinha!
20:04 Então, calma, vamos falar, vamos explicar as coisas como elas são porque as crianças superam isso muito mais facilmente que nós e nós temos, nós criamos obstáculos a assuntos que eles não criam só que nós não sabemos e quando comecei a abordar este assunto com crianças, eu percebi que eles aceitam tudo muito bem o nosso medo é que é tanto que bloqueámos esse assunto. Então o livro é um desbloqueio aos pais, não é às crianças.
20:32 É para os pais perceberem que podem falar na morte, que devem falar na morte, para as crianças entenderem que as pessoas nascem, crescem e morrem. E é um assunto normal. Se não cria frustrações nas pessoas, as crianças vão nascer com medo, com medo da morte. Claro. Que é se calhar um bocadinho um viés social e cultural. Eu acho que isto nos é um bocadinho impresso. Depois é difícil de eliminar este tipo de defaults que nós ganhamos, mas pronto, ainda bem que o teu livro vem ajudar.
21:06 E o teatro, Sandra, como é que surgiu na tua vida? Como eu disse há bocadinho, o teatro surgiu... Alguém ia à casa e a Sandra José já estava vestida e ia para a sala e aparecia de surpresa. E eu acho que foi por isso que os meus pais me começaram a passar com o teatro. Eu já estava a fazer uma dança e já estava a fazer uma dança e já estava a fazer qualquer coisa a mim convidavam para ir a uma festa de aniversário e eu levava uma mala atrás para a determinada altura ir a trocar de roupa e aparecia a fazer, imitar a tieta imitar a novela que estava a dar e eu imitava e o teatro foi inserindo assim e eu na escola aproveitava sempre que havia a festa de Natal a festa da Páscoa, e cheguei a uma altura, aí no meu oitavo, nono ano, em que encontrei uma aliada, que era a professora Goretti de francês.
21:52 E a professora Goretti, que era a professora mais para a frente na altura da escola, ela percebeu aquele meu jeito e caçou-me. E hoje em dia nas escolas há sempre o grupo, o departamento de expressões. E é esse departamento que resolve e trata das festas, etc. Na altura as escolas ainda não tinham esse departamento. Então quem era o departamento era eu e a professora Goretti. Portanto, eu de repente já estava dentro da sala dos professores com a professora Goretti a organizar as festas, a criar programas, a escrever peças de teatro para os colegas representarem, e o teatro começou e eu fui crescendo, fui estando sempre nos teatros das escolas, quando fui para a universidade criei o grupo de teatro na escola, da escola superior, depois estive na Tuna, depois comecei a dar aulas e já estava, fui para São Miguel dar aulas, estive lá cinco anos e obviamente fora dos braços dos pais, agora sou a comanda em mim e comecei com o teatro profissional na Ribeira Grande, no Teatro Ribeira Engrandense e comecei aí, depois não parei.
23:00 Muito bem. Olha, e os espetáculos infantis, como é que apareceram? Os espetáculos infantis apareceram porque eu, quando ainda estava a estudar Música, estava a tirar o curso superior, conheci um mestre, Paulo Lameiro, que é em Leiria,és, de música para bebés, perdão, e fiz uma formação durante um ano inteiro com ele, exatamente com um processo que Edwin Gordon, que era um músico, fazia, desenvolveu para a primeira infância.
23:38 E eu estive durante um ano a trabalhar com ele. Eu aprendi imenso para bebés, para a primeira infância, aprendi a psicologia das crianças e consegui associar a música, porque ele também era o diretor do Conservatório Nacional na parte de leiria, e adaptei a música para esse ensino aos bebés. E acabei o curso, pronto, comecei com o teatro e a dar aulas de música e quando regressei ao continente, reencontrei-me com um encenador que esteve em São Miguel, que é o António Terra, que era na altura o diretor da Companhia de Autores em Algejas.
24:21 esta formação que tinha tido com ele e ele, como vinha também do Brasil e do Brasil já havia este hábito de trabalhar a música e o teatro para bebés, ele desafiou-me então, vamos pegar aqui no teatro e vamos desenvolver um projeto de teatro para bebés. E comecei assim, comecei em 2012. O primeiro trabalho que fizemos foi o Pimpampu, é sempre uma criação de raiz minha e dele na altura, quando eu saí da companhia de atores, comecei a desenvolver o trabalho, mas muito mais direcionado agora à música.
24:52 Eu com o António Terra fazia mais um teatro mesmo, através de sons só, eram os Zumbarar e Bé, o Pimpampum, quem acompanhou conhece, o Gugu Gagaia, que era sobre os planetas. E quando saí da Companhia de Atores, comecei a abordar os compositores clássicos. Fiz o Mozartini, o Bebetoban, que está agora em cena, e vamos triar agora, setembro, outubro, porque já devia estar estriado, mas ainda por causa do Covid não deu, que vai ser o Chiribi Babababá, que é sobre o bar.
25:27 E tem o Jazz Yababum também, que é sobre o género de jazz. Portanto, neste momento estou a fazer, de facto, o teatro para babés, mas muito direcionado a grandes compositores clássicos. Muito bem. E como é que achas que a maternidade afetou essa tua parte profissional do teatro e da música? Sentes que te mudou? Mantiveste o mesmo rumo? A maternidade muda-nos sempre para melhor. Portanto, o que é que me deu?
25:56 Se eu já era uma pessoa muito sensitiva, fiquei muito mais. Portanto, amadureceu-me. E deu-me, como eu trabalho com crianças, deu-me uma estaleca enorme porque eu lembro-me que quando ensaiei a Carolina Picoito Pinto, que está a fazer comigo o projeto de bebés, ela não é mãe tinha na altura 23 anos e foi um susto ela estava cheia de medo de ir para cima de um palco e ainda por cima com crianças para ela era um desespero e eu consegui transmitir essa calma e ela agora compreende-a.
26:28 Quem já é mãe, entendo o que eu digo, nós temos uma intuição muito, muito desenvolvida. E quando vou para cima do palco e vou trabalhar com bebés, eu não vou trabalhar. Eu vou estar com eles. E a maternidade deu-me isso. Deu-me a possibilidade de eu estar com eles em vez de estar a trabalhar para eles eu acho que é isso, estou com eles, eu brinco com eles aliás, quem me vê em cima do palco entende, entende isso tu de repente divertes-te mais do que eles, e aí e saio cansadíssima, toda transpirada porque eu de repente regresso lá atrás e sou a Sandra três ou quatro anos outra vez e entro assim no estado.
27:11 Ok. Sandra, que dicas é que podes dar aos pais para criarem os seus próprios teatros em casa? Acho que algum tipo de recurso que um moleque possa usar para modelar também um pouco esta sensibilidade para as artes e para o teatro e para a representação? Primeiro de tudo é deixá-los mexerem coisas, de forma segura obviamente, mas que façam sons. É muito importante e quando eu crio os espetáculos eu tento ir buscar sempre objetos, muitas vezes do cotidiano, e transformá-los noutra coisa até para os pais quando vão ver percebem, olha isto serve houve uma altura, eu recordo eu peguei um estendal daqueles pendurameias que tem assim vários ganchinhos circulares pintei-o e transformei-o quase nos fantas espíritos pendurei conchas, pendurei e usava isso no Zumbararibe, num dos espetáculos.
28:06 E algumas educadoras, no fim, era uma das coisas que me diziam, vinham até comigo e diziam, que de repente saíram dali quase como uma formação para elas, porque viram objetos completamente transformados. É importante darmos coisas às crianças, que as obriguem a transformar essas coisas noutras, porque elas já fazem isso por intuição. De repente, eles fazem um circo e um rabisco enorme e chamam-lhe cão. Eles veem um cão ali. Pois é, para eles é um cão. De repente, vocês podem pegar numa caixa de cartão, rasgar a caixa e transformar a caixa numa coisa qualquer e, de repente, a criança vai dar um significado.
28:41 Muitas vezes isto acontece, é recorrente. Numa altura de Natal, há imensas prendas. E dão prendas das marcas melhores, etc. De repente, vê a criança a brincar com uma grafa de água. Ou vê a criança a brincar com papel de embrulho. Porquê? Porque faz som. Porque tem uma textura que dá para elas trabalharem, que amolga, que estica. Elas precisam disso. As crianças precisam de mexer em coisas que se modifiquem e que elas consigam transformar. E elas ao modificar e a transformar em coisas, estão a estimular a criatividade delas. Não se preocupem em dar coisinhas caras, não vale a pena. Deem coisas que elas consigam transformar para elas são os brinquedos delas e há recursos eu na altura do primeiro confinamento cheguei a fazer alguns vídeos quem precisar, eu depois posso deixar aqui e por favor por favor se entrarem na página da Lua Cheia vão a há uma parte em tem vários preparadores e tem lá material online.
29:47 Não sei se é material online que diz, mas eu já vou deixar o link tudo. Podem entrar e tem uma série de vídeos de exploração, de coisas que na altura eu fiz com as colegas, para os pais terem em casa e poderem fazer. E procurem no YouTube mesmo. Exploração para crianças, há imensas coisas. Agora, não se preocupem em comprar coisas muito caras, não é isso que eles querem, não é mesmo?
30:12 Às vezes querem um pedaço de terra, às vezes querem massas, despejar um pacote de massas numa taça e depois misturar outras de outras cores. E eles procuram as massinhas de cores diferentes, são coisas tão simples. Muito bem. Sandra, e como é que podemos ajudar na educação para o consumo da cultura? procuram as massinhas de cão diferentes, são coisas tão simples. Muito bem. Muito bem. Sandra, e como é que podemos ajudar na educação para o consumo da cultura?
30:36 Porque se calhar isso ajudaria imenso a sustentar um conjunto de artistas e de dramaturgos, de investidores, obviamente, das peças. Em vez de estarmos tão dependentes do orçamento de status, que realmente as pessoas consumissem mais por sua própria iniciativa e se o mercado tivesse essa força de reforço, não é? De feedback positivo. Mas a questão é que isso tem que começar em algum lado e portanto, que dicas é que tu dirias, e até para pessoas com um orçamento um bocadinho mais reduzido, que não possam ir se calhar às grandes produções, como é que a gente pode começar a educar as crianças a consumirem e a sentirem a uma parte do seu orçamento que devia ser para o seu próprio melhoramento artístico.
31:07 Claro, há famílias e isso era muito fácil dizer olha, vão ao teatro, não é? Mas eu sei perfeitamente que há pessoas que não conseguem. E isso é aquela história outra vez. Temos de ter alguém no Estado que apoie as companhias. Porque eu sou sincera. Por exemplo, nós agora gravámos o Bebetoban online e as pessoas tinham de comprar o bilhete e agora vai haver forma das pessoas poderem adquirir o bilhete porque ele já está gravado a um preço mais reduzido mas eu sei perfeitamente eu consigo fazer isto porque estou a dar aulas é tal história agora como eu pedir a um ator que está a passar fome?
31:48 Não, vai para ali porque as crianças precisam. Isto é uma situação tão ingrato, não é? Mas o que é que as pessoas... Eu acho que isto é um trabalho que não se pode pensar em altura de confinamento. Nós estamos a pensar nisto porque surgiu o confinamento, porque isto é um calo da cultura enorme. E se calhar as pessoas antes, quando poderiam, não alimentaram esta parte tão importante do nosso país e do equilíbrio emocional das pessoas como devia.
32:19 E vamos imaginar que isto é um alimento que se põe na mesa. E vamos imaginar que isto é um alimento que se põe na mesa. Eu ou posso ir gastar o dinheiro a comprar roupas de marca, ou posso comprar uma camisola que não é de marca e comprar um bom peixe para comer. Eu opto por esta. Agora, se imaginarmos que é mais um prato que pomos na mesa, o teatro, a música, é mais um prato que vamos pôr na mesa, é mais 3 euros que pomos naquele prato se calhar ao fim da semana temos ali 10 euros que podemos comprar um bilhete e não é todas as semanas ir ao teatro, não é todas as semanas ir ver um espetáculo é contar que este dinheiro que às vezes é questão de prioridades as pessoas têm que mudar a prioridade delas, têm que mudar a visão e delas. Têm que mudar a visão.
33:05 E como é que se muda a visão? Desde que crescem. Desde pequeninas. Se as pessoas forem habituadas a perceber que a arte é importante para trabalhar a sua própria consciência, eles vão dar aos filhos, a eles próprios, coisas que lhes fazem bem. Se me sinto bem a ouvir música clássica, eu vou pagar para ir ver um concerto de música clássica porque me faz bem e se calhar, há pessoas que andam a gastar imenso dinheiro em comprimidos e se calhar às vezes irem dançar, irem ver um espetáculo é um comprimido, é como os palhaços de riso que entravam pelo hospital e medicavam as crianças sem enfiarem nada pela boca, enfiavam pelos ouvidos e por isso que ele noção Claro é um trabalho muito longo de anos não é no confinamento Claro é isso Sandra lembra-se de alguns livros que tenham marcado peças que tenham marcado particularmente queria que um um bocadinho a tua inspiração para recomendarmos bom material, se calhar material não tem que ser necessariamente popular mas coisas que nos seriam mais difíceis de encontrar mas que tenham marcado e que se calhar sejam boas sementes de cultura para a nossa audiência. Mas mais o quê?
34:20 Para crianças ou para... Não, não necessariamente não, pode ser para os pais também as crianças não nos estão a ver definitivamente mas os pais delas estão e se os podemos inspirar a eles, calhar é bom Olha, eu sou-te muito sincera, eu comecei a primeira vez que fui a um teatro tinha 18 anos, tinha 17 ou 18 anos e fui numa visita, lá está, é a tal história da escola, porque eu sou de Chaves, eu não referi à bocadinho eu sou de uma zona muito interior e não havia absolutamente nada e a primeira vez que entrei num teatro foi no teatro da Barraca numa visita de estudo que viemos a Lisboa porque também nunca tinha vindo a Lisboa e a primeira vez que entrei no teatro e fiquei tão fascinada com aquilo tudo que não sequer me recordo o que é que vi.
35:08 Eu não sei o que é que vi. Eu passei o tempo todo a olhar para o público, para as luzes, para os movimentos de cena. E eu sou muito má a decorar nomes. Comecei a ver filmes e a interessar-me por filmes muito tarde. filmes e a interessar-me por filmes muito tarde porque eu era uma sempre foi uma pessoa muito fechada no meu casulo vivi a minha própria família era muito conservadora eu não via a televisão aqui às horas que eu queria eu não criei aqueles hábitos eu comecei a criar esses hábitos exatamente quando comecei a ir para cima de um palco. Não para cima do palco na escola, mas para cima do palco como profissional, de forma profissional. Agora, eu sou sincera, há coisas que me marcaram, há outras que me marcaram muito, eu não me recordo sequer do nome, portanto não vou conseguir dizer. O Dogville foi um dos filmes que me marcou muito. Exatamente pela diferença que tem.
36:06 Não sei se viste o Dogville. Vi, vi, sim. O Dogville é estranhíssimo, mas marcou-me exatamente pela estranheza. E eu acho que as pessoas, se calhar, vendo o Dogville, vão-se questionar sobre o que é que é válido na arte. O Dogville, para quem não viu é um filme, primeiro os atores tiveram que estar cerca de dois três meses em confinamento lá está, num pavilhão a ensaiarem e a perceberem como trabalhar, e porquê? Porque o filme é tudo feito dentro de um pavilhão às escuras, apenas com luzes de cena é um filme completamente inexpressivo, os autores não têm expressão nenhuma e não têm sequer cenário. O cenário são limites no chão, fitas que há ao passeio, imaginei uma planta de uma casa vista de cima e aqueles desenhos, os limites é o que está no chão do filme e nós de repente estamos habituados a ver cenários no filme, a ver ruas, casas e ali não há nada daquilo e aquilo me marcou mesmo muito porque foi na altura que comecei a fazer teatro e o encenador na altura disse são obrigados a ver isto e eu vi e fui daqueles filmes que me marcou e eu entendi muita coisa o que é que é válido na arte aquilo que nós estamos preparados para receber porque às vezes vamos ver um espetáculo ou vemos um filme, ah não gosto, pause e nós às vezes não estamos é preparados para receber, porque às vezes vamos ver um espetáculo, vemos um filme, ah não gosto, pause e nós às vezes não estamos, é preparados para absorver aquilo e o Dogville mostrou-me tudo o que era diferente para ver e eu a partir dali fiquei aberta a ver tudo, portanto eu acho que é um filme que toda a gente devia ver para conseguir aceitar a diferença Excelente Ótima dica, sim Sandra se pudesse ocupar um cartaz gigante para toda a gente ver que mensagem aqui é desculpa ocupar ocupar um cartaz gigantesco imagina que tenhas um cartaz todo mundo ia ver toda a gente passava por ele todos os dias ao ir para o trabalho para a escola que mensagem é que escolhias lá colocar é difícil olhem Olhem-se, olhem-se. Olhem-se, ok, uma espécie de auto-observação, um scan interno, é isso? É, eu acho que sim. Muitas pessoas vivem... vivem... ai não, eu sou... e agora sou eu a falar como se fosse outra pessoa. Não, eu trabalho muito, não é? Eu vou para a casa, vou para ali, faço isto, ponho a roupa, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, tal, minha casa vou para ali, faço isto, ponho a roupa e de repente durmo, já estou dormindo o dia seguinte eu estou com o despertador e de repente não se olham e de repente na altura do confinamento e que foi isto eu adoro estar em casa porque fui habituada a estar desde pequenina a estar no meu casulo exatamente pela forma como fui criada mas eu sei que há pessoas que se assustam com o facto de estarem com elas mas o facto de estarmos connosco obriga-nos a ver os demónios que temos cá dentro e vamos crescer como pessoas e quando crescemos como pessoas, de repente, começamos a ver outros que estão ao nosso lado, isso se chama simpatia e vou entender o outro, e vou entender a dor do outro e vou ajudar o outro e de repente criamos grupos solidários que é o que está a acontecer agora, porque as pessoas foram obrigadas a olharem-se e quando se olham compreendem também o outro. E nós começamos a perceber que há alguma mudança de mentalidades quando começamos a ver um grupo solidário nascer, uma pessoa sair de casa para ir alimentar aquela família que a criança não tem que comer, é por sinal que se olhou.
39:28 E portanto, para mim a coisa mais importante do mundo inteiro é que as pessoas se observem a elas para conseguiram observar os outros. E vamos ser mais felizes todos, eu acho. Eu acho que isso é um ótimo conselho, que tu vês cada vez mais, mesmo na nossa geração, pessoas muito desconfortáveis com a sua própria companhia. Qualquer intervalo, correm para o telemóvel, trocam uma mensagem, trocam de canal, a pessoa não consegue realmente tratar de um momento e quando está sozinha sem outros estímulos, fica ansiosa e sente essa falta, não é? Porque não está aqui ninguém para me ajudar, mas está assim muito sozinho, pronto. E às vezes essa solidão é super esclarecedora e geradora de sab essa falta, não é? Porque não está aqui ninguém para me ajudar, sinto-me muito sozinho, pronto.
40:05 E às vezes essa solidão é super esclarecedora e geradora de sabedoria, não é? Portanto, acho que é um ótimo conceito. Acho que uma coisa muito rápida. Eu dou aulas a crianças entre os 10 e os 12 anos, eu quinto e sexto. E eu começo logo desde o ano, início do ano, a formatar-lhes aquele cérebro exatamente para isso. E eu já consigo, aí a meio do ano, conseguir fazer alguma meditação com eles.
40:31 E a primeira vez que faço exercício de meditação, em que só ponho música e só peço para eles respirarem, toda a gente ri. Toda a gente ri. É uma palhaçada aquela aula. Eu chego ao fim do ano, eles pedem para fazer meditação. Passada aquela aula, pronto. Chega ao fim do ano, eles pedem para fazer meditação. Portanto, por favor, é nas crianças. Se alguém estiver a ver, governo, seja o que for, é através deles.
41:00 Não é através de burros teimosos, já como nós, que já somos calhau, que já não vale a pena. Se bem que é sempre importante olharmos sempre. Nós temos sempre a evolução. Mas se as crianças começarem desde pequeninas a olharem-se para dentro, e a meditação faz isso, de repente eles ouvem o colega, o colega está a falar e eles já não estão a falar em cima do colega, já conseguem respeitar.
41:18 Era só isso que eu queria dizer. Excelente. Sabes que eu acho que isto se liga com a minha próxima pergunta, que era, nos últimos anos, que nova crença comportamento ou hábito mais melhorou a tua vida? consegues identificar alguma alteração recente que te tenha ajudado muito? foi a paciência, a respiração e eu obriguei-me porque eu também não fui sempre assim o facto de muitas vezes eu contrariar os estímulos que tinha nomeadamente a arte os meus pais não fizeram por mal, mas era a cultura, era geracional deles o bloqueio só vai para teatro com os malucos e eu fui castrada muito em relação a isso e o facto de eu escrever é isso também era uma forma de eu ir por aí mas agora perdi-me o raciocínio o que é que me tinhas perguntado? Desculpa Sobre que nova crença, comportamento ou hábito mais melhorou a tua vida?
42:13 Exatamente, pronto, eu ao longo da vida e a questão do teatro o teatro é uma terapia enorme há pessoas e há, Eu na altura que estive em Leiria, que estive no grupo Teatro, o nosso ensinador era psicólogo clínico e de vez em quando ele aparecia lá com pacientes dele e obrigava-se a fazer os exercícios que nós fazíamos. Portanto, o teatro ajuda-nos a evoluir como pessoas porque nos obriga a lá estar, a olhar para dentro, com uma série de exercícios. E eu ao longo deste processo de evolução da minha própria idade, de amadurecer como pessoa, ao longo deste processo todo e ao conviver com o teatro e obrigar-me a escrever, porque para mim a escrita é uma terapia também, é a minha forma de meditar e de estar comigo eu aprendi a respirar porque eu também era muito acelerada e esta evolução obriguei-me porque senão eu comecei por exemplo a ter arritmias porque os nossos estados de espírito passam para o físico nós às vezes achamos que não mas as nossas doenças depois transformam-se, são transformadas por aquilo que sentimos.
43:28 E eu de repente comecei a ter problemas de arritmias, problemas de tiroides, e em vez de estar a enfiar medicamentos cá para dentro, vamos aprender a respirar. E a partir do momento que eu aprendi a baixar a minha frequência, tudo parou. Tudo foi calmo. Portanto, a minha maior evol tudo parou tudo foi calmo a minha maior evolução nisto tudo foi a estar comigo a respirar a compreender-me, a aceitar porque às vezes nós não aceitamos o que somos e não aceitamos porque as coisas acontecem e nós temos que aceitar que as coisas acontecem e acompanhá-las acompanhá-las de uma forma que nos traga calma não é, de repente agora se cedo a tudo, não é isso, ok eu não concordo, vou por ali, não dá para ir por ali, então vou por ali, mas sem aquela pressão do não vou, é contra a corrente e isso faz muito mal a toda a gente, andar contra a corrente Tu achas que esse teu modelo agora essa tua aprendizagem da respiração, achas que já contaminou os teus filhos, sentes que eles estão a seguir o teu modelo, ou achas que é uma coisa que vai aparecer mais à frente?
44:33 Os meus filhos são muito diferentes um do outro. A Margarida era, eu vejo a Margarida quase como eu, que é a mais velha, ela agora tem 17 anos, mas acho que ela já foi mais agitada do que é agora e eu tento passar isto nela. E ela às vezes vem muito revoltada, mas porquê? E eu tento ir lá, ok, isto que eu transmitei a ela foi um processo que eu tive de fazer sozinha ao longo da idade, não é?
45:01 Ela tem a vantagem de que eu consigo, que eu ajudo nesse aspecto e eu acho que ela está a conseguir estar muito mais calma. O Dinis, que é um artista, o meu filho é músico, é pianista e tem este lado da respiração, tem sozinho. Eu não preciso de ensinar ao Dinis. O Dinis é... Ele... Aliás, ele é muito... É como eu. É muito aqui. Só que enquanto eu escrevo, ele toca.
45:31 Se bem que eu tenho gostado da música também. Mas foi o que eu disse. Eu desenvolvi o lado da música para estar com a arte. Não foi propriamente porque era uma grande... Tinha um talento musical enorme. Era porque era um escape de arte. O Dinis não. O Dinis tem um pai que é músico é cantor, toca e tem um inimigo que está ligado às formas de arte em vários níveis e o Dinis aprendeu a respiração por ver não foi porque ninguém lhe ensinou, não foi porque o mundo exigiu foi porque ele percebeu que isso lhe fazia bem.
46:06 E muitas vezes vejo o Dinis a fazer qualquer coisa e de repente o Dinis começa a acelerar o passo, ele tem 14 anos, acelera o passo, vai para o piano, fecha a porta e começa a tocar. E isso é a respiração dele. Portanto, quem olha para o Dinis, ele é calado, é um miúdo muito introvertido, mas ele aprendeu por sozinho. Muito bem, olha tens mais alguma recomendação de autocuidado para as pessoas, outras coisas que usas para cuidares de ti, não sei se é ao nível da alimentação se fazes algum desporto se o teatro te basta para fazeres um reset à tua saúde Olha, beber água para mim é fundamental eu acho que toda a gente não precisa, é barato E é só criar um ritual Mais nada, eu até bebo água da torneira É um ritual Só água Água em junho e ao longo do dia E o que eu faço, eu nem tenho uma garrafa Tenho uma garrafa se quiser sair de casa Mas em casa eu tenho uma medida de um copo Que sei que são 250 mililitros E vou bebendo a nível da alimentação eu à noite quase não como eu é sopa, fruta e pouco mais às vezes nem isso se lanchar às seis ou às cinco já não como mesmo mais nada é mesmo assim mas isso são questões de hábitos lá está, porque eu em chaves os meus pais jantavam às seis e meia um prato de sopa e não comiam mais.
47:26 Portanto, eu cresci assim. Os meus filhos estão a crescer assim porque é assim que eu me envolvo. Mas eu sinto-me bem com isso porque não vou para a cama mal disposta, barriga cheia, durmo melhor. Portanto, a nível físico, acho que é isso. A nível de desporto, é o teatro que me faz. Eu faço sempre aquecimento antes de fazer um ensaio, antes de fazer um espetáculo, e vai-me bastando isso agora.
47:53 Agora, em casa, tenho estado um bocado desleixada, sou sincera, mas eu no teatro preciso mesmo, até, por exemplo, para espetáculo para bebés, embora sejam 40 minutos, são muito exigentes a nível físico. E se eu não estiver preparada, eu não consigo. Eu faço, de facto, faço flexões, faço abdominais, faço alongamentos enormes. É isso. Tento cuidar de mim porque as pessoas são todas diferentes. Eu não posso pôr a correr feita doida porque o meu coração não me vai aguentar.
48:22 Portanto, eu sei o meu limite e cada pessoa lá está. Se se conhecer, se olhar para dentro, sabe até onde pode ir. E é isso que eu faço. Eu não encher do limite, eu faço aquilo para me sentir bem. Experimentei. Estou bem? Está tudo bem. Muito bem. Sandra, uma última pergunta. Como é que nós podemos seguir o teu trabalho? Tu há bocado falaste na Lua Cheia, mas há algum outro website que nos possas recomendar para seguirmos o que estás a fazer?
48:47 É assim, eu trabalho com várias companhias para seguir mesmo o meu trabalho eu seguindo o Insta, o Facebook o meu Insta é Sandra José Oficial e o Facebook basta pesquisarem por Sandra José e pedirem-me se é que eu aceito, enquanto não atingir os 5 mil que depois já não me deixem aceitar mais, eu aceito toda a gente portanto, eu uso as redes sociais para me exprimir a nível de escrita, eu escrevo muito partilho o que escrevo e receitas que é uma coisa que eu adoro fazer, eu adoro cozinhar é outra terapia para mim e partilho sempre o trabalho por onde ando estive em cena com a Alice e vou continuar depois do confinamento que é um espetáculo de teatro imersivo, em Cabo Ruivo que está sempre muito gratificante para mim também, porque é mais um degrau de evolução que estou a ter é muito interessante e basicamente é isso Excelente Sandra, muito obrigado por isto.
49:46 Vamos devolver à tua família. E eu vou colocar aqui os links na descrição para as pessoas nos seguirem, isso é mais fácil de encontrarem, está bem? Ok, obrigada. Obrigada pelo convite. E espero ter respondido tudo direitinho, porque também sou meio atrapalhona. Não, foi espetacular. Pronto, obrigada. Obrigado. Um beijinho, Sandra. Até breve. Obrigado. Pronto. Obrigada. Obrigado. Um beijinho. Até breve. Um beijinho. Tchau. Obrigado. Tchau.